quinta-feira, 10 de setembro de 2015

"SobreVidas" (n.º 2)



Recebi por parte do meu caro amigo Renato Lauris Jr. o número 2 (1º semestre, 2015) da revista SobreVidas.

A revista anuncia-se como sendo “uma publicação com pessoas comuns que têm muito a dizer”. Nela, fala-se sobre atitudes criativas, criadoras e sócio-políticas, entre outras. Encontramos os cartoons de Jéferson Bazilista, os quais, funcionando como uma espécie de fragmentos de cola crítica, envolvem e articulam os diferentes testemunhos da revista. De resto, os cartoons dão uma outra vida à riqueza de produtos de expressão mais ensaística que SobreVidas contém.

E, de facto, eu diria que é igualmente com uma paginação e com um estilo simples que é feita a SobreVidas. Com um mínimo, na dança do preto&branco, fazer-se muito.

Confesso que a publicação me era desconhecida e que o que me levou à sua descoberta foi a presença de uma entrevista à autora Márcia Barbieri. Conheci a autora brasileira em Vila Nova de Famalicão, na edição de 2014 do “Raias Poéticas”, além de ter sentido, na leitura do seu romance A Puta (Terracota Editora, 2014), um impacto inesperado, tal a qualidade da sua narrativa.

No geral, acerca de SobreVidas, aquilo com que podemos contar é uma publicação que procura desafiar as ideias e os lugares-comuns, ao mesmo tempo que orienta o leitor para perspectivas várias, libertárias e que se fundamentam sempre em criação original e honestidade intelectual dos seus colaboradores. Há, pelo meio, humor e críticas desconcertantes.

SobreVidas é uma publicação atenta e que se encaixa numa lógica de “batalha”, mas igualmente de convivência entre pares.

SobreVidas n.º 2 inclui 4 entrevistas: Coletivo Nenhures, Márcia Barbieri, Felipe Johnson e Ricardo Miranda são os nomes dos entrevistados. Conforme o que acima indico, Márcia Barbieri era o único nome que eu realmente conhecia. Cada uma das entrevistas tem valor, pelo que recomendo uma leitura atenta e crédula. Acresce a isto o facto de ser incluída a entrevista com Living Teather, com origem Jornal “O Pasquim” (29/09/1970).

Pelo meio, podemos encontrar artigos que cobrem temas de provocação social, da questão da alternativa, das drogas, dos prazeres, etc. Para quem é, como eu, confesso admirador da escrita de Márcia Barbieri, pode jubilar-se com a leitura de um excerto do seu próximo romance “O enterro do lobo branco”. Os restantes leitores, podem somente surpreender-se.

Fico com uma experiência de leitura e de descoberta que, mais do que curiosa, foi útil e da qual espero um chegar de mais pessoas e criadores ao meu círculo de contactos.

É verdade que a revista trata algumas matérias da realidade brasileira, cujas nuances nem sempre me são familiares, mas rapidamente consegue-se um espaço de empatia e interesse, porque, sem dúvida, a revista, em diversas páginas, possui um estilo que não anda longe da crónica e do relato. E isso ajuda.

O editorial do número 2 da revista assevera que “Nosso peito não é de aço, mas nossa persistência é intensa, vida longa aos que não param, vida longa aos que insistem, aos que teimam, aos que desafinam o coro dos contentes”. Na verdade, uma publicação é sempre um exercício intenso que teima.


Grato e continuação de bom – corajoso – trabalho, SobreVidas!

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