sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Crítica a "Como uma flor num prostíbulo"



O mais recente livro de José Macedo Silva tem passado um pouco despercebido, porém não é por falta de qualidade literária. Aliás, tanto Charles Bukowski como Jack Kerouac, se andassem por cá, roeriam as unhas em admiração.

"Como uma flor num prostíbulo" faz-me pensar na tradição da Beat Generation (no livro, aplica-se termos como “junky”), bem como na narrativa bukowskiana e nas obras-primas do libertino Luiz Pacheco.

A história de "Como uma flor num prostíbulo" é a segunda da lenda dos “Aquiles” (a primeira dá pelo nome de "A refeição possível"), onde acompanhamos a vida e as vicissitudes de Jorge, através do relato do narrador, o qual, mais tarde, assumir-se-á como o protagonista, numa dança assaz desinibida entre personagens e o próprio autor, José Macedo Silva.

Ora, começando pelo início, tenho de aplaudir a escolha deste título. "Como uma flor num prostíbulo" conduz-nos, desde logo, até uma visão de ironia, de dicotomias e, igualmente, de choque que é proveitosa para a leitura da obra. Por outro lado, os temas que o título invoca e aos quais se une ajudam a pensar que a leitura da palavra “como” é ambígua: pode ser lida em função de uma comparação ou referência, mas também pode ser lida em função do acto de comer (“eu como”). Ao leitor, a própria história surgirá com esta ambiguidade (o factor-surpresa estará também relacionado com isto, no significado da acção), o que entronca directamente com a qualidade literária a que, acima, já aludi. De facto, José Macedo Silva criou um título que funciona, que corresponde intencionalmente ao seu texto em questão.

"Como uma flor num prostíbulo" possui um discurso narratológico múltiplo, indo do discurso indirecto, ao directo e passando pelo discurso indirecto livre, porque, novamente, funciona em relação à estrutura da obra. Temos, inicialmente, um narrador na terceira pessoa que relata as situações da vida de Jorge, uma personagem que trava uma relação disfuncional com o seu pai, bem como não esconde pedaços da sua faceta temperamental, altamente neurótica, estroina, covarde (atenção: existem características mais positivas em Jorge). Após lermos este livro, reparando claramente na divisão que nele existe em termos de, primeiro, o relato de partes da vida de Jorge e, segundo, a narração em primeira pessoa (partes da vida do narrador-jornalista), conseguimos notar que as fronteiras entre masculino e feminino se interrelacionam, se questionam e se turvam, porque, por exemplo, uma morte por envenenamento, orquestrada por Jorge na sua bebida alcoólica de autor, sugere-nos uma explosão de uma faceta mais feminina. Todavia, o papel da mulher, ao ser sublinhado a par de uma visão teológica, é marcado como sendo mais bem representado aquando de puta. Isto, em uma palavra, sugere também a caricata natureza dos dogmas, além da interpretação estrondosa dos instintos humanos, onde os orifícios se limitam a acolher o que é penetrante; nova dicotomia em que o leitor sente um valor estético da obra: penetrado/penetrador. Considero muito curioso aquele passo em que Jorge prepara a bebida “pestapocalipse” para o seu pai.

Na realidade, existe bastante debate ideológico, troca de teorias e também de reflexão da própria escrita, nesta obra de José Macedo Silva – o que, por si só, já constitui motivo de alegria. A criação literária, para o autor, parece transmitir uma ideia de subversão de códigos hipócritas, onde, por vezes, o pensamento não é tido em conta; aliás, as personagens mais importantes desta história são o meio do autor criticar a passividade e a estupidez que parece vicejar em locais como, por exemplo e em concreto, Lisboa.

Uma vez que o livro se divide em duas partes, em duas vozes e pontos de vista narratológicos, compreendemos a existência de uma dicotomia de ideias, personagens e de situações. Quase a atingir pontos de ruptura, arrepiante de tão incisiva, de niilismo, até, José Macedo Silva presenteia-nos com uma escrita que me faz lembrar um modo de escrever "automático", hiperbólico e febril, próprio de um autor em transe. Este pormenor que absorvo da força e da vivacidade das imagens textuais terá que ver com uma inspiração e/ou um trabalho literário em local, no mínimo, libertino e desregrado (e ilicitamente regado; ou licitamente, não importa).

Não pretendo revelar a história de "Como uma flor num prostíbulo". Pretendo, no entanto, indicar que existe uma tese de incesto, assim como uma tese de personalidade dupla ou partida (enfim, não domino as questões da psicologia). A tese de incesto como manifestação de intelecto ameaçado pelo lado corrupto e podre da existência. Mais, a realidade desta obra, com efeito, é uma soma de aparências, de distorções e mentiras, onde, de forma a chegar à Verdade (se existir…) é necessário abraçar jogos sexuais e comportamentos de risco, porque, afinal, é, como escreve o autor, “a vida ordinária (…) ridícula, sem propósito”.

A linguagem de "Como uma flor num prostíbulo" é directa, por vezes, ambígua, por vezes, emocional e emocionada, por vezes, especializada, isto é, associa-se a léxico que se compromete a tratar e a articular a história com determinadas áreas do Conhecimento. Os adjectivos são frequentes, porque ajudam à constituição do significado acusatório e hedonista da obra. O latim entra, em certos momentos, de forma a conceder um tom mais erudito às personagens e ao enredo, piscando o olho à religião e fazendo parte do suspense que dura até à revelação final, do caminho tomado pelo narrador. Ainda que José Macedo Silva use uma linguagem intensa, cativante, por vezes, perde-se em frases, no seu arranjo, além de ter permitido que alguns erros ortográficos passassem (mal de que, por vezes, também padeço). Embora este detalhe não estrague a sua obra, faz com que perca alguns pontos, já que se esvai algum ritmo de assimilação textual e de prazer estético.

Num livro ousado e com passos pujantes, José Macedo Silva junta comportamentos maníacos e vícios à lógica e à investigação jornalística: no fundo, temos fragmentos que contêm um ritmo desvairado e temos fragmentos especulativos.

"Como uma flor num prostíbulo" representa a vida na sua faceta mais conflituosa, mais provocatória e individualista, perfumada em álcool e cigarros. No entanto, o carisma do indivíduo que persegue os seus objectivos surge e faz-nos pensar que todo o êxito pode levar a pouco ou a nada, coleccionando inimigos pelo meio, com umas boas fodas à volta. O livro de José Macedo Silva é um derrube da literatura enfadonha, de prateleira de hipermercado, porque existe na história um traço da sua teoria literária: um estilo decadentista-simbolista mais beat, com as suas correspondências várias, ocupa e reocupa o seu lugar, sempre que um autor é ousado e inteligente o suficiente para o usar. A literatura que vai beber às raízes da boémia e da libertinagem é a literatura que, por um lado, coloca o ego em conflito consigo mesmo e, por outro lado, lhe imprime uma intenção de continuar em amor próprio e auto-suficiente, pela vida e estrada fora.

A máquina de escrever, o carro, o whisky, o elevador avariado, a pouca tolerância à luz do dia, a expressão “a igreja que melhor ilumina é aquela que melhor arde”, a dimensão hardcore da sexualidade, o pecado-natureza e o diálogo entre filosofia e teologia parecem exibir-se como símbolos e estruturas cruciais, neste romance.

"Como uma flor num prostíbulo" é um ensaio sobre a identidade em desarticulação. Perante a estupidez da sociedade, a falência dos sistemas, a moral envenenada, a identidade procura a pujança das experiências em Lisboa até conseguir aguentar-se, de facto, sobre os seus próprios alicerces. Para isso acontecer, importante é a questão da recuperação de uma minúscula parte da Obra de Gomes Leal. Ao juntar um sentido de alucinação com um sentido de lucidez social, a inclusão das palavras de Gomes Leal visa servir a história, o seu ambiente e a teoria literária de José Macedo Silva, porque, afinal, tudo é matéria e a mesma é falível e é pecadora e é errante e o narrador assume-se na sua identidade de lúcido e maníaco e agente da turbulência através da ironia, do cinismo e, ainda, do “lado b da cassete”.

Ora, antes de terminar, a reter, desta crítica, por um lado, é o choque de convenções, as dicotomias que nos fazem ficar alarmados ao longo da leitura e os elementos luxuriantes que nos transportam para uma experiência verdadeiramente sem tabus. Atenção que não é aquela onda pseudo-depravada onde fica bem fornicar com tudo o que aparece à frente, ao mesmo tempo que uns likes vão aparecendo online! Não! Há na obra de José Macedo Silva uma relação entre luxúria e o mundo boémio que reconhecemos na, por exemplo, na Beat Generation. Existe, portanto, significado para as cenas sexuais, imagens e teorias, ainda assim. O narrador come o cu da Sandra ao som de uma batida amoral, qual concerto de estéticas em frenesim, em vez de em “parvoíces da moda”.

A narrativa fragmentada funciona, desde logo porque o tempo é atirado para trás em relação à dimensão psicológica das personagens e porque as sugestões por intermédio de fragmentos nos colocam em comunhão íntima com a essência da narrativa (penetrar o leitor) e porque as imagens são utilizadas em proximidade com os temas e a autenticidade das personagens. O tempo é mesclado com a impossibilidade de algumas decisões quotidianas, os mortos e vivos andam à roda, em Lisboa, bebendo do mesmo: as nódoas que lhes caem.

Em "Como uma flor num prostíbulo", José Macedo Silva criou alguns diálogos rápidos que, por vezes, não se comprometem a um nível esclarecedor com o desenrolar da história. Desejo referir que alguns diálogos precisariam de algum trabalho extra, de modo a encaixar com as consequências que esses diálogos espoletam. O discurso directo torna-se um pouco incompleto, distante, de quando em quando, porque o que as personagens têm na psique não é proporcionalmente convertido em palavras, embora as suas acções sugiram outra realidade. Apesar de haver alguns diálogos menos bem conseguidos, o enredo é concluído de forma coerente, esclarecedora.

Importa, pois, salientar que existe confusão e intencionalidade autoral nas dimensões das personagens – o carácter é ambíguo e crucial no livro, visto que se sobrepõe ao conteúdo. Há a correspondência entre carácter e o tema das transgressões, daí que o enredo seja organizado em função da metamorfose do narrador, no seu mundo e dos seus “santos”. No fundo, o que acontece na história do narrador é sempre consequência do seu incrível amor próprio.

Aqui, estamos perante um livro do qual gostei e o qual irá criar um impacto nos leitores. Um leitor que não goste deste livro deste tipo de literatura não vai ficar indiferente; aliás, irá reconhecer a febre e o suor e o sangue e os vapores das substâncias ilícitas. E como não admirar isso, a potencialidade de metamorfoses, quando o Homem pouco mais tem, numa vida que é uma “mísera flor num prostíbulo”?


Pouco mais resta a dizer, a não ser o facto de que José Macedo Silva merece ser mais lido. Acredito que acontecerá, pois nós, sendo ou não uma flor, compreendemos que os errantes e os fodidos podem ser nossos camaradas de brindes.

Em suma, a vida não se trata da incompreensão de defeitos de personalidade, trata-se sobretudo de focar a crua existência dos mesmos.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Publicação de livro: Recintos Possuídos OU O Gozo de Um demónio



Grandes novidades!
O meu novo livro está disponível:

Recintos Possuídos OU O Gozo de Um demónio

Composto por 10 capítulos (divisões), este livro trata temáticas introspectivas, assim como o absurdo e irrisório da Vida.
Reunidos em prol da dimensão criativa e pujante da Infernus, os textos apresentam-se ao leitor com uma nova roupa. Desde o tom de crónica até à alucinação, o livro encerra em si mesmo uma subversão a códigos e pessoas. Existe uma abordagem à demonologia e igualmente um desejo de descrever vivências que nos façam lembrar de que a Terra e o Cosmos são, mais do que Razão, imaginação e desconstrucionismo com pimenta e nonsense.

Podem adquirir um exemplar, conversando comigo ou podem adquiri-lo através deste link:
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