sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A boémia em noites de Verão





05h00m. As ruas apinhadas de gente, bebida e barulho.
Saíamos de uma discoteca e largos sorrisos estavam tatuados na cara. Todas as conversas que ia travando com o meu amigo, à medida que percorríamos os caminhos de volta ao hotel, pertenciam aos eventos que minutos antes tinham ocorrido, naquele estabelecimento de diversão nocturna, na Plaça Reial. Barcelona é uma cidade encantadora que nos revela uma arquitectura peculiar, guardada por formas que despertam todas as consciências.
Ao longo das Ramblas, vendedores de souvenirs luminosos. A inquietude de luzes. Estas demonstrações entretinham os buracos de tédio dos rostos dos vendedores, os quais procuravam ganhar mais alguns trocos antes de irem dormir. Ninguém olhava para os souvenirs que eram lançados ao ar, quais foguetes mudos. Quer dizer, algumas pessoas olhavam, mas era através de um olhar sem consistência figurada, olhavam mas não viam. Menos eu, que olhava e via, durante o regresso ao hotel às 05h00m.
Virámos para a rua do nosso hotel, encaixado no Bairro Gótico. A noite continuava voluptuosa, quente e espirituosa. Avançávamos num passo lento, torto e rico em palavras e gargalhadas. A um dado momento, avistámos uma jovem que apresentava traços indianos e que estava a despedir-se de um grupo de rapazes estrangeiros. Era puta e os rapazes não estavam interessados nos seus encantos negociáveis. Olhou para nós, viu-nos, sorriu e abordou-nos. Vós quereis foder? Olhei prontamente para o meu amigo. Não, disse eu à puta. E se somente vos chupar? Ri-me em fino espanto. A puta virou-se então para o meu amigo, tentando-o mais seriamente. Toda a lufada de ar nocturno era para mim mais interessante do que a conversa da puta, pois parecia que trazia até ao meu rosto magro o júbilo do que aquela noite estava a ser. Rajada de consolo. O meu amigo anuiu, por fim, e a puta indiana desafiou-me a acompanhá-los para, se depois me apetecesse, estar logo ali à mão de semear, ou no caso dela, de chupar.
Caminhávamos ainda em risos e picardias saudáveis, quando dois jovens, que aparentavam ser de origem marroquina, se aproximaram. Os dois jovens eram da minha altura, envergavam camisas coloridas e uns jeans. Os seus sorrisos ditosos transmitiram-nos a ideia de que regressavam, assim como nós, da boémia, facto que nos agradava sob uma espécie de química de socialização. Disseram-nos olá, apertaram-nos as mãos e perguntaram-nos de onde é que éramos. Curiosidades animadoras. Respondemos, com tranquilidade, somos portugueses, estamos a adorar a cidade e tudo o que esta tem para nos oferecer. Os nossos recentes conhecidos não se afastaram do nosso caminho, mostravam uma alegria e postura contagiantes e eu, absorto em contentamento e vapores de álcool, continuei à conversa, nas gargalhadas e a dar saltinhos de turista. Tudo já era lindo e era apetecível e era o mais vibrante que havia no mundo, mas agora com dois ilustres desconhecidos, cheios de pinta, tão amigáveis, ainda mais feliz me sentia, sem pressa nenhuma. Repentinamente, observei que a nossa puta puxava pelo braço do meu amigo, de modo a que prosseguissem o caminho, todavia eu permanecia, ali, a rir-me e a dar uns toques de amena cavaqueira nos dois marroquinos, sempre que falávamos de alguma coisa mais alucinada. O meu amigo, para voltar para a nossa beira, largou-se do braço da puta e reentrou nos discursos. A puta ficou parada, uns metros à frente, lançando o seu olhar na nossa direcção. Nós olhávamos, mas não víamos.
Quando um dos marroquinos me perguntou para onde íamos, eu respondera que tínhamos que voltar para o nosso hotel, ali uns metros à frente, pois precisávamos de descansar. Muito álcool e muita dança produziam um cansaço pesadíssimo. Estivestes a dançar? Sim, estamos agora a regressar do Jamboree, uma discoteca porreirinha e não muito longe daqui a pé. E, sem querer, a combinação desta pergunta e resposta alterou fixamente as coisas, a viagem e até a alegria que dentro de mim apalpava. Um dos dois tipos que ali conhecemos, abraçou-se a mim, lateralmente, e, faustosamente, começámos a dançar a um estilo quase militar. Eu voltava a não sentir pressa nenhuma, num instinto, sentia-me fantástico! Quando parámos, rimo-nos a bandeiras despregadas e despedimo-nos então com contumazes apertos de mão, abraços e palavras jocosas, desejando encontrarmo-nos, novamente ali, noutra noite.
Eu e o meu amigo seguimos pelo caminho e vimos que a puta não tinha ido embora, aliás, esperava-nos dona de uma expressão facial bastante carregada. O que é que teria acontecido para ela ter trocado o seu sorriso desafiante por aquele semblante pesado e repleto de dúvidas? Simples. A puta rapidamente gritou para que víssemos se nada nos faltava. Vede se tendes tudo nos bolsos! Eu ri-me, porque só sabia rir. O meu amigo colocou as mãos nos bolsos e disse que sim, tinha tudo, tinha o telemóvel e não lhe faltava nada. De seguida, foi a minha vez. Coloquei as mãos nos meus bolsos e… o meu telemóvel já era, tinha sumido. Desapareceu! Eu não tenho aqui o meu telemóvel! Oh, foda-se! Ao mesmo tempo, um vento repugnante soprou no meu rosto e dentro de mim começava a soprar uma mescla de mágoa e cilada.
Ajuda-me, implorei à nossa puta. Onde é que eles se meteram? Agora não se pode fazer nada, porque eles já foram, viraram naquelas esquinas. Eu não podia acreditar! Tinha sido roubado de uma forma simples, perfeitamente descontraída, entre animação e fingimento. Uma completa estratégia de engano, própria daquela cidade, na qual caíra com inocência. Pedi depois o telemóvel ao meu amigo para poder cancelar o meu número, preservando, pelo menos, o saldo. Mais tarde, uns dias mais tarde, eu viria a recuperar o número, mas aquilo que o telemóvel continha, isso não mais recuperaria…

Horas antes, na discoteca.
Pedi uma cerveja no balcão, observando os movimentos e escutando as conversas à minha volta. Praticamente, não se viam espanhóis, à excepção dos funcionários. Fui até à pista de dança com a garrafa de cerveja na mão e com o coração decorado de encanto. O som que as muitas colunas ali existentes bombavam era o de êxitos dos anos 80 e 90. Ao se juntar muito álcool, muita alegria e gente bonita e simpática a músicas nostálgicas, cria-se um estado de espírito iminentemente explosivo e rejuvenescedor. Encontrei das mais variadas nacionalidades nas pessoas que fui conhecendo, no meio da pista de dança, já que todo e qualquer olhar, ou sorriso, num lugar que concentre turistas e boémia como aquele, serve para início de conversa, facto que muito tenho que agradecer, já que permitiu com que eu me deparasse com argentinos, ingleses, franceses, alemães, brasileiros, italianos e suecos. Com muitas pessoas, eu falei sobre o meu país, com outras sobre Barcelona e com outras, ainda, sobre os lindos olhos e cabelos que possuíam.
As horas avançavam e as garrafas iam sendo substituídas. O meu amigo continuava no piso inferior do Jamboree, porque lá o som que bombava era mais do seu agrado, o hip-hop/RnB, cujo desenvolvia um ambiente mais tenso, deveras plástico e vaidoso, incrivelmente provocador, mas que a meu ver era menos descontraído, no sentido das puras emoções e risadas ridículas, boas e próprias das férias, logo não era tanto o que eu procurava. Fui algumas vezes à beira dele, brindámos, dissemos umas quantas vozeiradas, para depois eu voltar a subir para o meu piso dos anos 80/90. Mais uma cerveja e subi para o palco. No palco, rodeado por gajas e gajos, dançava efusivamente ao som de todas as músicas. Por me sentir tão animado é que decidi ir até ao limite do palco e começar a fazer gestos para que outras pessoas subissem, mostrando aos demais o júbilo daqueles momentos, quase como uma acção para inspirar e transmitir a alegria individual ao colectivo que pudesse estar a observar aquela situação. A verdade é que praticamente todas as pessoas que eu tentava puxar para o palco, acediam ao meu gesto, fazendo parte de uma interessante demência de festa e libertinagem visível. As gajas e os gajos que eu ia puxando para o palco, entre encontrões algo desnecessários mas próprios, entre umas pancadas e cabeçadas excitantes, involuntárias, e entre gritos de histeria fabulosa, agradeciam-me, davam-me beijinhos na cara, apertavam-me a mão, davam-me abraços e procuravam iniciar passos de dança. A cerveja virava um pouco no chão, foda-se, as conversas continuavam óptimas e o ar que circulava entre todos nós parecia uma revelação de total inexistência de segredos ou dúvidas. Um ritual de harmonia colectiva, uma espécie de câmara moderna cheia de energias em grande potência que dançavam sobre as nossas peles e os nossos corpos, peles e corpos, corpos e peles. Ali não existiam reprovações ou distâncias, intelectuais ou fibrosas, sequer, porque o factor que vivia em nós era o da harmonia de paz, partilha, da fortuna carnal, mundana comunhão. Os simples prazeres da vida! A música, a união das pessoas em deboche, a bebida. No instante em que ia buscar mais uma cerveja, preparei-me para puxar mais uma gaja, igual a/entre tantas outras, para o palco, e foi aí que alguma coisa de especial aconteceu…
Ela era linda. Os seus cabelos eram loiros, compridos e não paravam de esvoaçar diante dos meus olhos. Os olhos dela eram verdes, num rosto pálido, alongado e meigo. Na beleza que era o ponto em que o seu nariz pequeno terminava, começavam os lábios rosados e perfeitamente desenhados, à espera de se soltarem em palavras auspiciosas. Chegada à minha beira, abraçou-me naturalmente, o perfume sedutor a espelhar-se pela pele do meu rosto, desmaiando no meu nariz a desmaiar, mostrou-me a força do seu olhar, fogo cristalizado, e agradeceu-me, serenamente. Começávamos a dançar, ríamo-nos no movimento das músicas e, depois dela ter ido à beira das suas amigas e dos seus amigos, voltou para conversarmos. Ela era de Londres, tinha chegado a Barcelona há um dia e estava a desfrutar ao máximo aquelas férias. Contei-lhe no segundo imediato que estivera já em Londres, na bela Londres, e que assaz esperava regressar lá em breve. A isto, a inglesa respondeu-me que podia acolher-me na sua casa, quando eu quisesse e precisasse, porque tal não constituiria nenhum incómodo e porque adoraria ver-me um dia por lá, para conhecer os locais que ela elege como sendo os seus predilectos. Numa simplicidade diplomática, eu respondi que sim, semicerrando em simultâneo os olhos azul-frio, faríamos desse jeito, assim que me fosse possível financeiramente, pois tempo há sempre, para morrer, inclusive, tempos tempo, logo por que é que não haveria de ter tempo para visitar a sumptuosa Londres? Viver, tempo para viver, em Londres por uns milhares de segundos. Regozijámo-nos entre holofotes multicoloridos, gritos perpendiculares e paralelos oriundos quer do palco, quer do balcão do bar e brindes de garrafas de cerveja. 5€ cada uma, brindes cheios de adjectivos e promessas e todo aquele conteúdo até que fazia valer os 5€. Lancei-lhe uma pergunta de moda social: tens facebook? Não. Engraçado, fuga ao cliché juvenil/adulto, uma jovem mulher, neste parâmetro mais analógica, por isso necessitei de lançar uma segunda pergunta: tens número de telemóvel? Tenho. Sorri, satisfeito. Quando me preparava para pedir-lhe dígito por dígito, pensei/imaginei que um número inglês teria uma considerável extensão, o que, devido ao barulho faustoso e inabalável da discoteca, determinaria uma ingrata missão, eu precisaria de lhe pedir para repetir várias vezes os dígitos e tempo é dinheiro, não obstante, ali, era conquista! No momento seguinte, estendi-lhe o meu telemóvel, as suas mãos brancas e macias como chocolate branco que derrete sobre um beijo ao de leve das chamas a pegarem-no e, ao ouvido, sussurrei-lhe guarda-me o teu número, querida. Os dedos finos da rapariga digitaram o extenso número, assim como o nome que ainda não tinha surgido na nossa prosa. Levi. Belo nome, Levi, Levi. Ela devolveu-me o telemóvel, coloquei-o no bolso das minhas calças, fiz-lhe uma carícia no rosto, és ostentosamente linda, um feitiço, os olhos dela avermelharam e, de forma completamente inesperado, então fui beijado pelos lábios dela, os quais avermelharam os meus. O beijo foi perfumado, demorado e irrequieto, soube a álcool e malícia. Num abraço apertado estendemos o nosso gozo e cumplicidade. Prosseguimos a dança. Agarrei a cintura da Levi, a música aquecia-nos e a química corporal, talvez, tratava do resto, mantendo os nossos lábios colados. Quando é que voltas para Portugal? Daqui a três dias, Levi. Então temos que combinar alguma coisa, antes de ires embora. Anuí, obviamente, digo-te algo através do telemóvel para pensarmos num programinha porreiro aqui por Barcelona. Desejo-te. Os olhos dela revelaram o interior da alma: satisfação em pigmentos loiros. Prometido está. Prometido ficou.
Ondas de minutos estrondeiam… Levi despede-se de mim, vai para outra festa, beijo, abraço, tentação. Encontrei-me, depois, no balcão a pedir mais uma cerveja e aí conheci um jovem chileno. Muito boa onda, preenchido por contagiantes vibrações. Travámos conversa acerca de tópicos mundanos, observações a Barcelona e terminámos num ruidoso brinde com mais uns quantos desconhecidos. Foda-se! Faça-se barulho, viva-se com desprendimento. Guardei no meu telemóvel o facebook do chileno, este já um moderno digital, o cliché, desejei-lhe uma fabulosa estadia na cidade e rumei à minha zona de diversão, o palco. Novamente de cerveja nos lábios, braços abertos para a zona inferior da pista e a aliciar o pessoal para o palco, o meu corpo e a minha mente absorviam as emoções fugazes, músicas e gostas de suor caídas na escuridade, as tábuas do palco, no delírio, novas personagens reais fui conhecendo e cumprimentando. Um norueguês com facebook. Um sueco com facebook. Um alemão com número. Uma alemã com facebook. E, depois de termos dançado entrelaçados, rido de parvoíces e estupidezes que pouco o eram e trocado uns elogios mais ternurentos, uma francesa com número. E que francesa ela era! Umas pernas esbeltas, uma voz fatal! Quando é que vais embora, Chloe? Amanhã, infelizmente. É já a minha última noite, fofo. Tens que visitar França e aí poderemos contar mais um par de coisas um ao outro, pode ser? Pode sim, combinado! Pelo menos, falaremos à distância, eu depois mando-te uma mensagem. Abracei-a, não sabia quem era ela além do óbvio visível, porém não foi isso que me impediu de ter gostado muito do calor do seu abraço. Desejei-lhe uma boa viagem de regresso e cuspi angelicamente um beijo no canto dos lábios de menina da Chloe.
A loucura e velocidade da boémia ali cessavam, saí do Jamboree com o meu amigo e, quando pisámos o exterior, a calçada da Plaça Reial, carregava uma excepcional gratidão por aqueles momentos. Os edifícios em frente, históricos e cativantes, elevavam-se com honra e orgulho, não se deixando amedrontar pelo sublime firmamento nocturno que os vigiava. As minhas pernas avançavam com distinção, dir-se-iam ornamentadas com todas as vaidades que as pernas podem entender, e na minha cabeça giravam astros de bem-estar.

Minutos depois.
Estas imagens correm freneticamente à frente dos meus olhos. Olhar o céu da noite e recordar tudo isto como se fosse um pontapé metafórico que doía como tudo! Afinal, o que é que tinha acontecido? Barcelona fora penetrada por mísseis? Começara a chover a cântaros e eu em t-shirt? Os edifícios “gaudíanos” viraram ruínas? Não! Tiraram-me o telemóvel. Acabaram de me roubar o telemóvel, apenas isso. Apenas. Um apenas gordo. Não cheguei a enviar qualquer mensagem, não telefonei, não nada… nada, desde o Jamboree… nada. Contactos desapareceram, deixaram de existir, são iguais a como quando não existiam antes de eu ter entrado no Jamboree com o meu amigo. Não tive hipótese de dizer alguma coisa à Levi, não consegui dizer nada à Chloe, não podia lembrar-me mais dos facebooks. E o prometidos quebraram-se…
No quarto do hotel, encarei a cama com apatia. Dormiria naquele resto de noite com um sentimento de perda, mas, por outro lado, com dores musculares que me asseveravam realidades estupendas, que seriam, seguramente, dignas de repetição. Sem confiar em telemóveis ou marroquinos!

1 comentário:

disse...

gostei bastante Jaime ;)