segunda-feira, 28 de março de 2011

Novos olhares de Mr. Greeny




Expressamente, no escuro do quarto, levanto-me e com facilidade alcanço os chinelos dos "Megadeth".

Entro na sala arejada e inundada de luz diurna, maldita, e ligo o portátil. Acedendo ao programa de conversação, lânguido, clico no endereço dela. Cumprimentei-a como habitualmente, mas aquele dia estava planeado para uma novidade.

Na minha cabeça confusa e turva do whisky do pequeno-almoço, saltitava uma anã preocupação de que tinha marcado qualquer coisa para aquela tarde, mas não conseguia lembrar-me ao certo o que era. A conversação online continua e o pedido dela surge: tenho que despir-me e exibir-me para ela, através da webcam que encontrei há dias no contentor do lixo colectivo, ainda com manchas de óleo e batom. Tiro a roupa absorto da realidade, ao mesmo tempo que olho o semblante de curiosidade e paixão dela, surpreendendo-me ao notar que a adrenalina e rapidez da situação provocou-me uma erecção monumental. Ela riu-se de imediato pela sua webcam e, com vários "lol" modernos, escreveu que não era preciso apressar-me, temos tempo!

A par do surgimento de transpiração avermelhada na minha testa, a sala inuda-se com o som da campainha da porta da frente. Teclo ávido, debruçando-me para longe da webcam, facto que a chateeou, para comunicar que precisava de ir atender a porta. Ela gesticula que não devo sair dali, imperativamente e sem abreviações, que nada deve incomodar aquele meu momento de divina prosa dionisíaca. Contestei, mas não adiantou, qual gota de água no forno caseiro.

O mundo mexe-se com curiosidade, pois a minha vizinha do lado passava pela porta e viu a pessoa que tocava freneticamente à minha campainha. Não era costume eu ter a porta fechada, disse a vizinha, e, somando um mais um, a mesma disse à pessoa que bastava empurrar a porta, podia entrar na casa, porque sabia que eu não me ausentara. A vizinha empurra a porta, ouço o barulho, duas vozes em diálogo corrido, entram na sala, e confirma ao canalizador que, com a porta aberta, eu teria que encontrar-me em casa.

Olhando ininterruptamente para os olhos do canalizador e nunca para mim, de pé em frente ao computador e a teclar para ela do outro lado da webcam, a minha vizinha exclama ao canalizador que já podia começar a arranjar o meu cano.

Luz do dia dentro da sala, uma jarra verde no canto sul com uma flor de plástico rijo e a minha pele jovem.

O canalizador solta uma gargalhada teatral acompanhado por um limpar rouco de garganta e responde à minha vizinha que, por aquilo que pode ver, o cano está em perfeitas condições. Eu estava a rir, sem tirar o olhar dela na webcam, e a minha vizinha observa-me então pela primeira vez desde que entrou na casa, tapando instantaneamente os olhos com esplêndida vergonha, assim como solta um gemido desmaiado. Levo as mãos à cabeça, quando digo que me tinha esquecido que era o canalizador quem ia hoje lá a casa. A cara da minha vizinha, mais vermelha do que os móveis da minha cozinha, que continua de olhos tapados, pede-me sinceras desculpas por ter entrado de repente na casa. O canalizador disse vamos mas é lá ver esse cano estragado sem apertar a mão um ao outro; é ali, senhor, digo ao tentar acalmar a minha vizinha.

Sento-a no sofá, reparando no seu arfar e nos seus calores, e o canalizador martela o cano algures no lava-loiças. Teclo com ela através do programa de conversação e digo que tenho visitas. Ela pergunta quem. A vizinha e o canalizador. Ela ri-se. Engraçado, tenho também que ajudar o meu vizinho a escolher umas rosas para ele oferecer, leio no programa. A conversação continuará mais tarde, pelos vistos.

A luz na sala enfraquece. A minha vizinha assiste a tudo. E eu, pela primeira vez na minha vida, escrevo "lol". Sugeri à frente disso que escolhesse rosas brancas, mas apago-o de seguida, a minha vizinha exclama vermelhas. Escrevo. Ela envia para a minha janela cibernáutica uma última frase, belo cano, não o entupas de novo!

Desligo o computador, o canalizador diz que terminou o trabalho. E depois fazemos contas, passe pelo bar amanhã com roupa posta.

A porta bate.

A tranquilidade volta, porque quando solucionado um problema um outro costuma ser atraído para a sua própria solução. A minha vizinha diz-me até logo, passa a mão pelo meu sexo murcho, belo cano, mas devíamos entupi-lo logo.

A tarde lançava-se para o pôr-do-sol e da minha boca saiu que devíamos jantar juntos ali. Já posso cozinhar e a porta fica aberta, como de costume. A minha vizinha sai porta fora, lança-me um gesto de delicadeza, para o jantar veste alguma coisa.

A porta fecha-se e com ela chega uma inevitável alegria de que o mundo começa a fazer todo o sentido fora da Internet.

terça-feira, 8 de março de 2011

"Red Nights" no Fantasporto 2011




Dirigi-me ao Fantasporto 2011 e optei pela visualização do filme “Red Nights”.

O filme de parceria entre França e Hong-Kong conta com a actuação e regresso da actriz conceituada Carrie Ng, e arranca com o encontro entre Carrie e uma jovem numa esplanada. Desde logo, somos presenteados com a magnífica postura de Carrie Ng, que enche o ecrã e nos delicia com um método de sedução bastante peculiar. Num filme em que as constantes da boémia, como o tabaco e álcool, fazem parelha com diálogos curtos e sedutores, deparamo-nos com o gosto pelo fetichismo e a passagem do prazer pela dor infligida nas presas de Carrie. À capacidade nata de matar, só lhe falta adicionar um elemento supremo, uma relíquia do tempo do primeiro imperador chinês, a qual envolve o poder de matar rapidamente mas igualmente de imobilizar o corpo num derradeiro nível de sensibilidade, o auge para além das fronteiras do prazer tântrico.

Uma personagem procurada pela Interpol tenta vender o tal tesouro ancestral pelo melhor preço a uma correspondente, mas logo se apercebe da ausência de facilidades e a conspiração e o risco incalculáveis adensam-se, à medida que Carrie fica mais próxima da equação de dor/prazer da relíquia maldita e, simultaneamente, teatral.

Uma película ousada, fetichista e sombria q.b., que ganha pela magnânime, diria, interpretação de Carrie Ng, mas que perde por uma história com instantes desconfortáveis da sua própria lógica e mecânicas baralhadas. Ainda assim, é um filme agradável de ver e sentir, pois provoca um rasgo de sentimento agitador e que tem hipótese de êxito no seu género de pulp-thriller, não obstante, ter sido importante no certame deste ano do festival, através da sua ligação directa ao pânico daqueles que se tornam submissos.