quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio (IX) - Lúcifer



Pícaro mundo,

Irreflectidamente perceberás quem sou, não através do modo como escrevo as coisas, mas sim através da apresentação clara do meu nome, (emendo) o nome que atribuíram à minha entidade, Lúcifer.
Não são capitais as crenças, os ideais, as nacionalidades, os jogos ou as cores que os leitores do mundo que esta carta encontrarão defendem, porque capital – complementar e absoluto – é que eu sou o ar, o conhecimento provecto, a sabedoria, o portador da luz, a força edificante da iluminação, a estrela da manhã, o ponto cardial este e outras singularidades.
Eu faço de anfitrião do Outono, o Outono cintilante em classe e fascínio de artes e talentos, de agora. Saúdo; saúdem o Outono! E eu saúdo-te, mundo, excitado por saber que me conheces ou simplesmente leste as letras do meu nome em qualquer ocasião!

Esta carta redigida para o mundo ler afogueia-se de alguma indulgência ante o meu ego e seres que me são semelhantes: os vampiros. Sim, os vampiros! Tenho já a necessidade de avisar toda a humanidade do desrespeito que têm prestado a estes seres começados pela letra v. Senti a inevitabilidade em fazer esta carta para provar a minha intolerância perante o mundo, que significa agora estar às claras apertado e deveras desabrigado, revelando, para que estaquem as semidoidas intervenções humanas, linhas de segredos em determinado código, condutas que costumam ser apenas dos vampiros. Sabedoria vampírica.
Precisamente, estou farto das coisas que tenho visto a acontecer, que ouço a acontecer, que prevejo a acontecer a ver e a ouvir. E o que mais devo e permito-me a expressar é que eu posso fazer o que estou a fazer, não obstante que sou eu quem pode e manda. O meu compromisso de jornada é permanecer, como permaneci, escondido com o conhecimento para mim e para os meus que da dignidade são alvos, mas, precisamente, eu fartei-me!

Origino estas linhas de monólogo escrito, porque eu sou o pai dos vampiros e nessa qualidade defendo, atacando o mundo, os patrimónios, os objectivos e os legados vampíricos que têm vindo a ser mascados e pregados com ignomínia.
Sou o primeiro! O disparo, a rota e o alvo de uma bala, a insalubre bala que eu próprio sou e sou eu próprio. E sou e fui o primeiro, porque a estrela da manhã, a do conhecimento, é parte de mim, sou eu, a parte diurna que inicia lutas, contagens e mais extensões, apesar das estórias insculpidas que inseriram outras personagens em detrimento do elitismo da minha. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! Fui, sou, fui, sou, fui, sou… o ancião vampírico!
A dança por palavras já conduziu, conduzindo, à revelação principal nesta carta, com a qual é o mundo presenteado: Lúcifer, o mordaz, o anjo caído, o primeiro, a mordidela original. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! O ancião deles.
Sim, eu, Lúcifer, estou então por perto, coabitando a simpáticos quilómetros da vossa vizinhança. Estou no meio de vós como qualquer outro, estou; é o principal. Quer dizer, no meio de vós não estou realmente, pois sou adepto das larguezas. Sou romano, daí… apaixonado por largas infra-estruturas, recursos; as peles e as minhas munições, nascido e criado e ainda fortalecido; Lúcifer, romano, Lúcifer. Primeiro dardo, espeto, a lutar contra as religiosidades convencionais romanas e até o primeiro a desejar a proclamação da essência natural, a invocar energias luzidias das pedras que me prepararam nome e som.

Apesar das idades que conto, dos aniversários que pesam, encaro-me como um ser jovial, espirituoso de ideais e apaixonado pela vida que levo em sensações sumarentas, maliciosas, sobretudo por sempre respirar uma imensa borga, um estado alucinatório que possui o núcleo do meu desejo nuclear.

Permito-me preleccionar, neste instante que já é hora, em alçadas próprias e reais do vampirismo. Quero ensinar-te, mundo!
Vampiro é aquele que se alimenta de energia vital e não de sangue, porque sangue – pensando como numa pasta líquida vermelha humana – é perigoso e transporta e sabe a doenças. Os fanáticos por sangue devem perceber de uma vez por todas que metáforas são hinos neste tema do vampirismo. Somente os doentes e as aberrações se ajoelharão perante a ingestão de fluidos como o sangue que são tão nocivos quanto nojentos. E eu e os guerreiros da minha espécie e casta, doentes e aberrações é o que não somos, apesar de serem destas formas que procuram intitular-nos. Prosseguindo. Toda e qualquer referência a sangue impregnada nos nossos discursos e/ou simbolismos é portanto metáfora (e figuras e figurinhas de estilo equiparáveis), absorvendo a partir disto a energia e os entusiasmos que são retirados às vítimas. A energia vital que extraímos dos humanos e doutros animais é a chave da nossa caminhada para o império terrestre e uma utopia quiçá aberta. Apesar de insinuar e sugerir-te isto, mundo, não te ensinarei o porque do/no porquê nem como. Na exposição continua o secretismo e vice-versa.
Boa parte da realidade faz-se na ocultação de algo por cima de algo ou entre algo. Isto faz entrar no pensamento que tantas são as verdades no mundo moderno disfarçadas em mentiras. As informações nobres do vampirismo na desinformação corrente. Tanto melhor! Chega lá quem sabe; alguma parte deste tópico é-te familiar, mundo? Aqueles que falam sei que não sabem. Aqueles que sabem sei que não falam. E eu sei e eu falo, porque deparei-me com um dia e uma hora deste novo mundo que despertou cá dentro um incrível azedume que há muitas eras não sentia. O advento das relações por meios tecnológicos castradores das genialidades, das discussões à mesa com seres de interesses semelhantes, a pretensa literatura e rasco conhecimento que se gerou à volta dos meus semelhantes, à volta das minhas tradições. Atacaram a balança da beleza vampírica.
As parvoíces pavoneadas por ti, mundo, lançaram-me para o interior desta carta como uma advertência de enorme ira pelo perturbar e pela troça às/das leis que prevalecem sobre os meus poderes, as minhas naturezas, as minhas indumentárias e os meus camaradas. Sei da raça humana a gracejar e praguejar coisas como que a vida é um jogo, um curto espaço, uma passagem, mas para mim não é nada disso. É uma imortalidade, uma obediência para com os meus instintos de predador, uma verdade cruel que tanto tem de prazer como de dor. Se pelo menos a raça humana gracejasse e praguejasse sobre o que diz do modo como diz, vivendo por entusiasmo e vontade construtivos, o defeito e a gordura eram menores…
Testar tudo e não crer em nada! Falar de coisas sem as tomar por garantidas e sim testá-las, fazer com que trabalhem para a realização de alguma coisa, é geometria para as minhas mãos. E para as tuas, mundo? Pelo que tenho conhecido, a resposta é não. Ou andas maneta ou somente estúpido, o que é por si só muito grave.

Prosseguindo. Eu, como vampiro, levo a minha vida nocturna numa grande moradia de praia. Deito-me grande parte das noites de maior preguiça sobre a areia da praia, apanhando o feitiço do luar. Momentos de banhos de lua. E de manhã, transporto o meu corpo astral para fazer de corpo da estrela da manhã, fazer de estrela da manhã, enquanto vou resguardando, em segredo seguro, o meu corpo mais físico debaixo da areia húmida. Tal localização é parte de uma passagem que liga aquele ponto da praia à cave da minha moradia; é o mais discreto que conheço; o mais cuidado; vós, humanos deste mundo, que se estiverdes pela praia naquele local, atenção! ... bem que eu posso estar por debaixo das vossas toalhas de ilustrações da moda.
Com a minha moradia sobre um magnífico penhasco de praia, a existência nocturna embeleza-se com a paisagem, com os sons e com os acontecimentos marítimos em redor. Desde horas de estudo, desde horas de escrita, desde horas de caça, desde horas de prazer e lazer até horas de socialização elitista, a moradia que actualmente detenho faz jus aos meus pensamentos estrategicamente volumosos.

E por fazer referência a isto, quero agora passar o desabafo de que por vezes encontro-me num vórtice de tarefas, projectos e passos, em mistura, o que me deixa exausto. No entanto, dou a volta a esta problemática de origem pessoal. Felizmente. Como pratico várias disciplinas vampíricas, como é o caso do animalismo, da metamorfose, da alindada presença, da potência de acção, da rapidez, da ofuscação, da dominação, da demência, do auspício vital, etc., por ser o pai dos vampiros e o responsável por ter definido com base na atribuição de disciplinas diferentes a cada género de vampiros, mas possuir todas como criador das mesmas, gera-se o conflito de atitudes e escolhas pessoais. A carga de habilidades em curto-circuito. Tomando, porém, de seguida consciência da errada atitude em mim, entro na disciplina vampírica que concede o ideal equilíbrio à questão, colocando a meio gás – ou mesmo adiando – algumas coisas para conseguir outras. Exacto, porque vale de pouco colher muitas frentes ou muitos estudos, devido às capacidades atrofiarem e não permitirem materialização plena ou a um nível exemplar. Daí a especialização, o pragmatismo, a escolha e o momento próprio serem mecânicas importantes no conhecimento e na sabedoria; cenários na minha jornada e da minha natureza; anexem este desabafo, anexem para vencerem mais e melhor.

Acontece lá fora, ali, aí, acolá, uma guerra! E, dentro desta, outras! Guerras pequenas que ignoram que os seus objectivos são sugados para os objectivos da guerra maior, guerras pequenas que acontecem dentro e em prol da grande guerra, a dos vampiros. Ninguém sabe, alguns pressentem, outros negam. O facto de terem sido produzidas mitologias em volta dos vampiros e o facto de terem sido criadas encenações para a teoria da nossa existência plena, contribuem para que sejamos os beneficiados, pois pudemos sempre caminhar e agir sem grande sobressalto, por a negação e crença em provas originarem os maiores paradoxos e atritos conhecidos. As mentiras que são verdades fulminam-se nas verdades que são mentiras e não há indícios de vantagem. Mais, as paredes ficam a obstruírem-se, enquanto nós levitamos as nossas supremacias e gargalhadas!

Represento a ideia de total conhecimento, luz e inteligência para aqueles que vivem com a curiosidade iluminada e não só. Sou ventos e tempestades, pedras preciosas, de alcance exigente. Todavia, deixemos agora para lá estas pistas descritivas de personalidade para contar-te, mundo, uns pares de cenas da minha vida, da minha rotina.
Perpetuidade de ternuras e ronhas, junto ao meu caixão. Enlaces de conquistas seguidas, apertões que fazem os olhos esbugalhados saltarem das órbitas alegres, seduções de peles brancas e frias. Folhas das estações em ventres com nódoas que conheci sempre. Beijos e romantismos profundos, toques nos ossos. Noites de beleza vertiginosa, criações condoídas, bruxarias e vampirismo. A imortalidade é um peso ao qual não escapo, mas a ela junto conhecimento, dureza e prazer. Injecções. Injecções estas que alargam os meus ombros para melhor suportar o peso de ser imortal. Eu já tenho eras e eras em cima dos ombros, mas por elas posso dizer obrigado, transpondo esta carta para a soma das íris e pupilas dos olhos que comi às minhas vítimas. Sangue com a vitalidade certa, gritos e vitaminas, poros lambuzados, obrigado que digo, devido a ter preenchido o meu ser de enlevo e poderoso sabor, engoli, digeri (não regurgitei) e satisfiz-me.
Pelas chamas das noites, bebendo energia vital das vítimas, as suas auras vaidosas, as gotas de sangue encenadas… é isto, é o que faço, caminhar; levitar; voar; fazer de todas as noites o maior sítio de contentamento momentâneo!
A minha existência tem pontos diferentes, situações diversas; naturalmente. Acontece por vezes reunir-me com outros vampiros, membros activos da comunidade vampírica mundial, numa mansão na República Checa ou noutras mansões doutros países, e informarmo-nos de situações, problemas e festas e etc., discutindo o que houver para resolver. Recentemente estive na Roménia, numa assembleia de compra e venda de objectos vampíricos (acontecimentos normais e nos quais penetramos disfarçadamente na maré humana), encontrados recentemente na herança de senhores portugueses, bem como por lá estive presente em aniquilamentos de vampiros traidores e por fim permiti-me assistir a partir de uma galeria privada, num museu medieval, a rituais de vampiros em ascensão ou pretensão e simples orgias com vampiros, humanos viciados em fetiches e membros de múltiplos cleros (devorados após os seus orgasmos), às quais apenas assisto, pois estou já um pouco ultrapassado para brincadeiras dessas com tanta gente ao mesmo tempo!

Os morcegos, os muitos que compõem a minha estirpe domesticada – fiéis companheiros –, testemunham invariavelmente os gritos da bela paixão que nutro por conhecimento e pela entrega de tal aos meus súbditos. Os morcegos e os habitantes pequenos da noite assistem sem cansaço aos momentos sexuais, extasiados, aquando de investidas vampíricas e esses orgasmos de sucção e incorporação faustosa das vitalidades conquistadas transmitem energias poderosas à natureza, à nossa volta. Não há dúvida; pois sente-se electricidade em todo o ambiente. Os vampiros são os provocadores superiores de mudanças astrais no universo. Não hajam dúvidas…
As passagens das brisas, do som das chuvas, dos salpicos da água do mar, denunciam o passar dos dias e dos anos, se bem que nada quase transmitem à minha luz existencial, devido à imortalidade.

Aquando do dia mais marcante em qualquer calendário universal, cósmico, que é logicamente o meu aniversário, este ancião dos vampiros parte para o Egipto. Local de beleza e sapiência milenares, cósmicas, que serve tal-qualmente de ponto de encontro com os mais interessantes camaradas que conheço, assim como para rituais próprios, recreio para saciar a sede e indulgência de descobertas. Lá, nas alturas perfeitas, o céu é negro, queimado como tudo e lindo. O céu queimado decorado por ventos de fogo peludos e ardis, ventos que fazem as vegetações secas e mortas abraçar o nada, o sobressalto. A areia, essa completamente desassossegada, não pára de atirar-se aos meus trajos compridos; parece que felicita-me… tudo, quente e colado, sobre e entre, a areia, pelo deserto fora. Eu permito-me a devaneios compridos nesses momentos, avistando igualmente as dunas mirabolantes, que merecem guardar terrores e riquezas dentro delas e ainda fazem companhia a regiões estonteantemente quadrangulares de areias movediças. Regiões e áreas. Áreas e regiões que com certeza guardam terrores e outras riquezas.
As pirâmides enormes e imensas… imensas e enormes… em/de formatos e aparências – ipsis verbis – robustas, inertes e valiosamente belas. No meu último aniversário entrei como comummente na pirâmide que se encontra escondida das consciências, das noções e dos olhos humanos – exactamente, também e apenas os meus filhos sabem dela e como a alcançar –, a qual simboliza, para a identidade vampírica, o amor individual, a força vampírica, a amplitude das disciplinas vampíricas, a arte vampírica, a fórmula imortal, etc.
Todas as visitas deste género à pirâmide é o bombear intenso de um vislumbre a várias câmaras fúnebres de antepassados. É excepcionalmente arrepiante! Tudo cheira a morte, tudo cheira a antigo, tudo cheira a sabedoria, tudo cheira a perseverança, tudo cheira a ritualismo, tudo cheira a misticismo, tudo cheira a vaidade e crenças imortais que vivem. Tudo cheira a mim próprio, devido à pirâmide implementar a representação do próprio ego. Antes de sair da pirâmide, da última vez, trouxe umas peças de valor: umas coroas; uns frascos; cinco ou seis armas; algumas jóias; uns ornamentos e também amuletos.
Regozijo-me com presentes, ofertar a mim próprio coisas fabulosas! E a pirâmide dos vampiros é completamente a pirâmide dos vampiros…

Após ter informado, avisado e descrito, satisfeito estou no nosso covil, algures numa das praias embelezadas pela morte da lua nesta noite. A caneta e as folhas serviram bem o meu propósito. Não levarei, por certo, uma eternidade de tempo até lançar estas palavras para o seio dos teus humanos, mundo, mas aqui nas minhas dimensões e nos meus mundos vampíricos posso ficar nem que seja uma eternidade de tempo a aguardar por essas tuas respostas/reacções. No quentinho da minha curiosidade, junto das minhas velas a arder, imortais velas a arder… fico de olho em ti, mundo.

Despeço-me com considerável atenção na energia vital humana. Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a aumentar os teus caminhos com vítimas para os meus súbditos e semelhantes e, principalmente, para mim. Não te ensaies nisso! Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a ser tu próprio, porque fico eu com os meus a perceber as diferenças entre as coisas e os seres e afins inomináveis, não pelas cores mas pelos méritos.
Apesar da leitura atenta a esta carta, nunca irás conquistar aquilo que posso conquistar em ti e a ti!
Apesar de avisado, mundo, desejo que multipliques o belo, o feio ou misturas com e sem sabor, mas pára, por favor, de transformar poderosas ocorrências do vampirismo nos teus argumentos lamechas para filmes e/ou em histórias de livros de embalar que vendes. Este pedido não é porque eu esteja a ficar com a provisão de lenços de papel em baixo, mas porque tamanho mau gosto deixa-me com pele de galinha durante eras…


Cumprimentos à vizinhança,

Lúcifer


P. S. Um terceiro modelo saiu para conversar connosco. Conheceu-se uma missiva com reminiscências anciãs, capacidades superiores e informações poderosas. O terceiro modelo exibiu-se, não obstante, julgado não será, julgado é o mundo. Confidenciar tornou-se de sentido geral e avisar premente. Ficou na audição e mais ainda no peito que a defesa deve ser acatada por inteligência. A terceira entidade interage com as personalidades dos anteriores modelos e com eles se reúne como que em celebração vitoriosa. Observando a sumptuosidade do ambiente, absorvido em potência, charme e luz sábia… sob as labaredas da boca do panteão… Lúcifer senta-se, permite-se a uns urros de campeão com os seus camaradas campeões e a uns brindes nutritivos, ritualistas, vermelhos… e o terceiro trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e falta um.