domingo, 28 de Junho de 2009

Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio (VIII) - Satan




Ouvi os galos a cantar, no outro lado da parede, ainda que distantes, audíveis. Era dia de rumar para mini-férias. Planeei a hora de sair da cama que cumpri à regra, com a ajuda dos galos. A lua do dia timidamente penetrava no quarto, enquanto eu já lavava a cara. Uma noite de anseios, uma noite mal dormida, mas que não prejudicara nada. A minha figura no espelho rachado era esguia, esquisita e com olheiras. Nada de especial, sempre igual, sempre o mesmo…

Após um duche e ter-me vestido, certifiquei-me que nada faltava na mala de viagem. O pequeno-almoço fez jus ao imaginário de si mesmo: foi pequeno. O despertar foi alegre, a boa-disposição estava redonda o suficiente e a alma maquilhada da beleza do corpo… quanto baste.
De férias, marcadas a sul do ponto da minha residência no país, procurava, na altura de sair de casa e entrar no comboio, divertir-me para ultrapassar todas as problemáticas, dores de cabeça, do trabalho e afins. Ou seja, ter o devido descanso, aproveitar prazeres e festas da vida… ninguém sabe o que passara, o que acumulara, o que engolira, até então.

Viajar até ao sul do país fora um tanto complicado. Os meus olhos normalmente queixavam-se da luz diurna, mas não apenas latejo. Dor na íris que se entranhava pelas ramificações até ao interior da minha cabeça, onde parecia existir vidros que se friccionavam uns nos outros…
A sombra, que por vezes me protegia, amenizava este mais do que latejo pela luz diurna, permitindo-me até apreciar alguma da bonita paisagem que se transmutava de região para região. A viagem, tirando isso, decorreu satisfatoriamente. A distância não era tanta quanto isso e a comodidade do transporte contribuiu para que tudo decorresse melhor. Vi pessoas distintas, grupos de amigos que viajavam, assim como namorados juntinhos e de sorriso de orelha a orelha, sorrisos lamechas, falando baixinho sobre o que iam fazer quando chegassem ao destino. Alguns estrangeiros ajudaram a preencher o comboio, partilhando com os restantes passageiros os seus lemas da vida ser bela, da moda barata em países mediterrânicos e os seus belos sotaques quando tentaram o português…

A viagem foi mais leve do que o clima que se vive numa adega cooperativa, mas mais pesada do que um duche em altura de ressaca.
Solstício de Verão: o elemento ardente nas peles e nas carnes, nas mentes e nas almas, nas camas e nas praias. Excelente anfitrião para as férias, para desligar dos deveres e das obrigações, para passar a sentir o mundo como recreio. Chegara onde tinha que chegar… tempo de me encaminhar para o hotel onde reservara quarto para a minha estadia.

Com prático sorriso, senti a chegada ao meu destino, rodeado por novas caras, diferentes arquitecturas e inclusive mais sons. Ruas alagadas de gente, de turistas, de barulho, pescadores de bigode amarelo e queixo queimado, a aguardarem por cinco centímetros de peixe; esplanadas a serem metrópoles.
O hotel era de qualidade simpática com atendimento cortês, mas de personalidade semelhante a outros. Nada diferia de outros. Limpo, decorado, sensual.
Nessa primeira noite, jantei no restaurante do hotel. O salão era convidativo a permanecer por bom tempo e a arte dos cozinheiros a várias repetições do menu. Fui ficando, fui comendo, fui observando, fui sendo… a calmaria; depois subi para o quarto e comigo levei a fina vontade de ver um dos filmes que o hotel disponibilizava aos hóspedes; disponibilizava, o hóspede pagava. De licor na mão e olhos fixos no filme, diverti-me imenso naquele serão, sentado numa cadeira de baloiço…

Não sei o que foi que daquilo que comi me caiu mal no estômago, mas acordei com sensação de barriga fortemente inchada e dor por todo o lado. Depois de uns minutos de angústia sobre mim mesmo, apercebi-me de que havia alguém sentado numa das cadeiras do quarto. Esse alguém era demónio, numa estética humana, com caracterização amistosa e consciência múltipla. Eu soube da sua identidade vetusta, porque entranhou-se na minha cabeça, bloqueou as minhas incredulidades, apresentando-se à minha pessoa da forma mais firme que alguma vez sentira. Numa espécie de controlo, numa espécie de sentimento de que aquele momento era tudo para mim, certeza surreal, como quadros de Dali, em que os meus olhos eram pedras de fruta reluzentes diante de Satan, demónio presente no quarto. Satan acalmou-me e ambientou-me prontamente à sua presença, dizendo-me que ele era ele como eu era eu, se ele fosse eu e eu ele, em esplendor e idade… também ele era meu amigo, adepto e companheiro, para aqueles dias de mini-férias. Eu sentia-me então leve, normalíssimo, como se estivesse diante de um dos meus amigos ou conhecidos de infância ou familiares. Apesar do excelente ambiente entre mim e Satan, a empatia, não percebia bem como é que um quarto comum terrestre agradaria aos gostos megalómanos de Satan como estava a agradar, à medida que sorria e tocava nos objectos do quarto. De mansinho, chegou o momento em que ele começou a falar comigo telepaticamente e, sem capacidade de ter mãos sobre mim próprio, comecei a discursar para ele, para mim, para o vazio do quarto, o que ele queria, o conhecimento que ele me transmitia.

Satan representa o ponto cardeal Sul, tal como a existência de um ego evolutivo e infernal atitude. Mesmo as mais fracas das personagens contêm pilares e alicerces, nem que retóricos, para identificar a presença de determinadas personagens em determinada hora, determinado local e determinada distância, e, logicamente, é a crítica a tais alicerces e pilares que nos proporciona algum conhecimento em algum plano, tema. E se é assim com as mais fracas, com as mais fortes, ainda mais é!
Satan, em termos de base, existe em fundamentos ou relatividades adjacentes ao domínio do fogo, à administração do inferno, seja qual for o tipo de inferno ou a ideologia, ao porte adversário, à oposição, ao segmento de acusação e também, não entrando em questões mais fundas, à união de rebeliões. O Verão é estação do ano que prima pelo sol forte e gigante no céu, mesmo até pelo nosso quarto adentro, nos momentos em que nos acorda com brusquidão, ainda deitados, como numa mensagem de repreensão por termos adormecido num estado tão miserável, alcoolizado e confuso. Satan é o senhor do fogo e em termos superiores em relação à linha do horizonte, deve ser o sol, a combustão imensa, o calor absurdamente tão longínquo e tão sentimentalmente perto. Não haveria melhor momento do ano para este companheiro de armas, porque aquela loucura de calor e quase fogo gasoso que sabemos é tão-somente o charme do perfume de Satan.

O conceito de Satan, nome que deriva do Hebreu, toca no ângulo de ser O demónio, O demónio pelas diversas culturas e pelos tempos do mundo. Assim, é um conceito ambíguo, clássico e de cliché, que se aplica a Satan. Vejamos, Satan, de forma tradicional, tem aquele termo que é aplicado a um anjo, ou O anjo negro, na doutrina judaico-cristã e aplicação a um jinn, ou um tipo de génio, na doutrina islâmica. De par em par das aplicações a que o seu termo se aplica, Satan fora a figura que na Bíblia Hebraica desafiara a fé dos humanos. A classificação de Satan, aí, é apresentada como O anjo caído ou demónio que passa o tempo a tentar os humanos a caírem em desgraça, pecado e acção com maldade. Seja em forma física ou metafórica, de alegoria, hipérbole… acredita-se...

Pormenorizando, no Cristianismo, o vocábulo ou a personagem Satan, alude ao comum chavão e à identificação do título d’O Demónio e d’O Satanás, assim como sinónimo de diabolus no latim, diabólico. Tudo ligado entre si como o mesmo, semelhante a diversas ruas que, não importe como, convergem ao mesmo ponto. É a figura central do mal, da perdição, dentro da religião Cristã. Para grande parte dos Cristãos, é acreditado ser um anjo que se rebelou contra Deus, assim como aquele que falou e seduziu Eva, através da serpente, a desobedecer ao comando de Deus. O desígnio de Satan, enquanto figura ambígua clássica, é incitar as pessoas a afastarem-se do amor de Deus, aproximando-as em falácias a tentações maldosas. No seio do Cristianismo, Satan é o senhor dos demónios, que até se pode tornar o senhor da Terra e dentro da Bíblia Sagrada temos a forma como ele foi expulso do Paraíso, ao género do Homem, mergulhado no interior da Terra, excitando em si uma enorme ira e vontade de fazer guerra contra aqueles que seguirem os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus. As crenças Cristãs têm Satan como Satanás, sua figura sobrenatural, demoníaca, mas tal-qualmente qualquer adversário das mesmas crenças ou como qualquer pecado e tentação humanos.

No Islamismo, Shaitan é o equivalente para Satan. Enquanto Shaitan, nos escritos Islâmicos é tido mais como adjectivo para ideias relacionadas com demónio, tanto para o Homem como para os seres jinn, Iblis é tido como o nome pessoal do próprio demónio que atormenta as ideias de puro e benigno na religião/sociedade. Quando nos escritos Islâmicos, refere-se à criatura que recusou ajoelhar-se perante as cenas da Criação, há a referência do seu nome como sendo Iblis e a ele se conectam perspectivas que até são similares às do Cristianismo, mas ainda assim diferentes, já que enquanto o carácter de Satan no credo Cristão é considerado como um anjo caído, no credo Islâmico não, mas sim como um jinn. Normalmente perto do escalão de anjos pelas suas qualidades de sabedoria e capacidades nobres, os seres jinn, nas crenças Islâmicas, possuíam uma vontade própria equiparável aos humanos, ao contrário dos comuns anjos, e assim explicam, os Islâmicos, que Satan ao ser um jinn, agarrou na sua vontade própria para desobedecer ao divino…
Noutros conceitos de Satan, ao longo das páginas de História, temos ainda e novamente o nome Shaitan para a deidade no panteão dos Yazidi, no território Indo-Europeu, ligado a Malek Taus. Num outro seguimento espiritual de populações de países subdesenvolvidos, Satan não é referenciado como um poder maligno independente ou com forma, comparando-se a outros credos, mas significando base natural dos humanos. Explicam assim que a natureza básica, inferior, no Homem é simbolizada como Satan, um ego mau dentro de cada humano, ao invés de uma maléfica personagem exterior.

Muito do que é apresentado como sendo erudição satânica não advém realmente de Satanistas, mas de Cristãos. Tudo porque se relaciona com o folclore medieval e a teologia de época envolvendo demónios e bruxas.
Assinalo que esse momento em que discursei com e por efeito de Satan foi de estranheza volumosa, confusão emotiva ao máximo e particular nostalgia. Recordei a vez em que subi num dos pontos da Igreja, quando fiz – por tradição manipulativa – a profissão de fé, acto de encenação religiosa com pontos cómicos, pontos entediantes, pontos sem nexo, ligado à catequese. Numa fase da cerimónia em que estava alinhado com companheiros e companheiras, onde o branco e o preto predominavam a par de caras de crianças aldrabonas exibidas a um público feito de pais e familiares babados com fome e com vontade de fumar um cigarrinho no final daquela coisa toda, após uns cânticos próprios serem entoados, ouvira o padre a questionar-me com litanias e premissas religiosas, as quais eu seguia com um guião apropriado, qual casting novelesco. Uma das questões, encaixada naquele preceito de sermos crianças fascinadas e obedientes a Deus e aos trilhos do – agora sei – puro idiotismo, era se eu estava fielmente confiante em renunciar a Satanás, por toda a vida, em qualquer das minhas acções e qualquer dos meus pensamentos. A minha profissão de fé, no momento, era básica e tinha que ver com levar o protocolo a bom porto. Assim, eu repeti depois do padre, que renunciava sim a Satanás, com umas quantas mais belas adjectivações, repetindo agora e depois e etc. Estava eu a renunciar ao bicho deles, sim, mas não às mais belas qualidades de Satan! Eu renunciei na altura ao Satanás dele, não ao meu Satan! Sei-o magnificamente agora.

Lancei, depois de recordar, contando a Satan, este episódio que é lugar-comum, episódio que mais se assemelhara a um teatro arranjado com marionetas infantis, uma grande gargalhada por imaginar o jocoso cenário que seria o de responder ao padre que não, que não renunciaria a Satanás: os pais admirar-se-iam, o público contestaria, o padre resmungaria, a madeira rangeria, as paredes escureceriam…
Todavia, como assim estaria, excepto pelo factor de gozo puro, a entrar numa tendência errada com o bicho da Igreja, não desejei tal cena depois. Talvez, num outro cinema ou palco. Com outras personagens, com outros figurantes. Satan engoliu mais um pouco da própria bebida de fogo e inspirava… desse gesto imaginário dele, saíram devaneios de revolta para com o que fazem as crianças passarem.

Continuou-se…

Em termos de vista geral, Satan acolhe títulos em si como O demónio, príncipe das trevas, dragão amaldiçoado, espírito imundo, poder satânico, mestre do engano, espada infernal, mestre da fúria àquilo que é puritano, hipócrita e inibidor, etc.
O conceito de Satan toca igualmente no ângulo menos ambíguo ou então não ambíguo, de ser uma projecção energética, uma figura expressada pela Natureza e/ou pelo Homem. Neste caso, é um conceito nobre, natural e apelativo, que se aplica a Satan. Vejamos, indivíduos hão que não acreditam em Satan como uma entidade viva ou um deus. Vêem-no mesmo como força básica ou princípio da Natureza. Indivíduos hão que consideram Satan como uma alegoria, a qual terá que ver com crises de fé, individualismo, vontade própria, sabedoria ou iluminismo. Satan nesta minha mente e nesta minha alma, através desta minha voz, proclama-se como o adversário da mediocridade, do caminho da Mão Direita, da estupidez, do conformismo que gosta de conformismo, da autodestruição, de deuses idolatrados, da depressão e das ovelhas. O senhor do fogo, do lume, do aspecto de enxofre, aceita invocar tudo o que seja de forma estimulante aceite. Estimulação própria, vontade própria, liderança…
Satan não é realmente, apesar de ter-se vestido com umas roupas, umas formas e umas máscaras – ao género como Belial fez – para estar no vector mundano de férias, uma entidade viva, mas sim um símbolo natural, uma existência etérea, um complemento emocional e pessoal – forte como um sonho ou uma metáfora –. Satan quer ser para mim um princípio essencial, um âmago, e não objecto de adoração literal. Não é por especialidade, importância, mas é, sim é, por verdade. É inspiração, provocação, honestidade para com necessidades. O Homem precisa de provocação, o Homem precisa de provocação, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente. Satan é tão simplesmente conceito, opinativamente muito diferente de conceito outrora dado, de utilidade eclética e nexo multicultural, porque tal se compenetra nas tonalidades basilares da Natureza, sendo parte dela. Satan é vida e é vivo, nos instintos… Satan é uma força negra na Natureza que representa a Natureza carnal e assim os desejos do Homem. Satan é a descrição simbólica de pessoas poderosas e independentes, assim como oposição a Deus e demais deuses ou religiões organizadamente equiparáveis.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…

Procuramos responder ao mundo, na sua construção e nos seus acontecimentos e não podemos separar um conceito de outro, de uma mesma moeda, apesar de contrários, já que existem na moeda. O bom/mau e a luz/escuridão são relativos e assim é que têm que ser, porque as suas faces alteram-se consoante a moeda, consoante as coordenadas, o estrado… e Satan é arbitrariedade nestes exemplos, por nada ser insubstituível, ignorado ou eternamente resistido. Todos sentimos as definições e as coisas de forma diferente, mesmo Satan. E esta diferença alimenta poderes satânicos: autenticidade, observação e assimilação únicos. Satan está para a realidade como a nossa reunião de ego, inteligência, lucidez, limites e erros está para a percepção de realidade.
Satan não é baço espiritismo. Não, é simbolismo carnal, mundano, desejo de matéria, evolução e prazer, enquanto uma vida dá conta das horas que passam… Satan é a personificação do caminho da Mão Esquerda, é a vida como ela é, a necessidade, o materialismo, o caminho de relatividade e do individualismo com aceitação dos instintos e das riquezas que abundam pelo Homem. É a vida como ela é.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…

Desci do quarto, caminhei até uma residência familiar para a minha pessoa. O dia estava ardente, as ruas pouco frequentadas…
Mantive conversas, tinha mantido conversas, com determinada figura humanamente feminina da residência para onde me dirigi, antes da viagem. Momentos e horas e segundos ao cubo, preparando a duração e animação da minha estadia. Só que, de repente, para espanto, me expeliram, os da tal residência, argumentos de que tudo estava errado naquela forma, que eu estava erradamente presente, que tudo não tinha passado de uma série de mal-entendidos, conversas cortadas, ideologias despropositadas.
Mal-entendidos? Conversas cortadas? Ideologias despropositadas? Tudo, mas é o sexo gigante de um cavalo! Naquele instante, na minha visita, a tolerância não existia, sobretudo porque a exigência que atribuía a certa pessoa não permitia falhas ou brincadeiras de mau gosto como aquelas. Ou estavam a ver-me ali para desfrutar do meu tempo de mini-férias ou então estavam bem a limpar cortes de bovinos, comigo lá dentro a chibatar os rabos de tais pessoas que estupidamente interagiram comigo. Naquele instante, eu respirava pesadamente, sentia comichão até no fígado, e queria gritar se eu era para eles algum palhaço, um palhaço daqueles que podiam fazer contrato para realizar qualquer tipo de tarefa para belo prazer de alguém, inclusive daqueles testes com impactos de automóveis para se saber a qualidade dos equipamentos, substituindo eu então aqueles bonecos engraçados sem feições no rosto. Se era algum palhaço sem piada, com algum tipo de comando. Se eu era algum palhaço seria apenas por livre e espontânea vontade, mas pelo menos tentaria entrar para um circo onde me pagassem devidamente. Porém, gozar… gozariam comigo no camarim. Até aqueles cachecóis podiam usar, durante posições de cão.

Mais tarde, num dos dias, voltei à residência por pedido de tréguas que me lançaram. Satan estava a acompanhar-me nesse compromisso. Respirou-se, olhou-se, o tempo a passar. Todavia, a dada altura, a pessoa indicada desabafou comigo, que um objecto meu de cariz de fetichismo tinha sido encontrado lá, despoletando na residência reacções ofensivas para comigo. A base da confiança tinha ido por água abaixo, bisbilhotaram erradamente e, como se não chegasse, cogitaram intenções que a minha pessoa teria, por isso atribuindo-me cores, títulos, formas e penugem bravas e lânguidas. Satan, manteve-se trocista, como que a enviar-me a mensagem para que eu me controlasse, olhasse pelo lado burlesco e individual da situação. Contra-atacar e trocar palavrões com difamadoras era o que eu desejava; regatear, discutir, andar ao estalo, fazendo sentir o amargo gosto da cebola nos olhos de quem me difamara, por um corpóreo absurdo.

Satan cantarolava coisas sem nexo, estávamos longe da residência. A pessoa do meu compromisso regressou à base de vespas que não desejei mais perto do meu perfume, no momento em que Satan mostrou os seus órgãos genitais inventados a uma senhora de meia-idade, fornicando-a, depois da mesma rir de felicidade, no meio da praça histórica próxima. Cresceu amor no mundo. Se regras não houve, regras não haviam. E a loucura insolente deu asas à partida da minha interlocutora e eu pude voltar costas ao que não me interessava viver para prosseguir com Satan para planícies cobertas de aromas mais deliciosos para satisfação de mim mesmo.

Desloquei-me, depois, para os restantes dias numa casa. Casa com dois pisos, decorada a bom gosto, com pouca idade. A casa possuía mais divisões no piso de baixo. Na parte de baixo, havia uma cozinha, corredores, despensa, casa-de-banho, sala, dois quartos e uma divisão de arrumação lúdica. Na parte de cima, havia corredores mínimos, uma casa-de-banho e dois quartos. Eu tinha o quarto mais pequeno para mim, onde tinha à minha disposição livros, revistas e adereços, enquanto o maior era para a minha anfitriã daquela casa. Possuía televisão, fotografias e roupa espalhada em muitos cantos.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…

Fui sair na penúltima noite sem grandes planos e a respirar um ar fresco, montanhoso e delicioso comandei-me para visitar uma galeria de arte naquela zona turística. A galeria de arte era de foco contemporâneo, linda, com uma iluminação adequadíssima e um ambiente realmente descontraído e diferente de outras galerias. Satan veio para porta principal. A sua chegada virou-me o olhar para a esquerda e vi que também quem me convidou para ficar na casa onde fiquei, se encontrava na galeria. Não havíamos combinado qualquer tipo de coisa para aquela noite, porque não havia o dever de encontro entre os dois a toda a hora. Foi uma fantástica ocorrência.
Satan abraçou-me numa sinceridade amiga e depois possuiu-a; não sexualmente, possuiu o intelecto dela, invadiu a alma da jovem que eu conhecia há anos e pela qual mantinha especial e belo carinho. Foi conclusivo para mim depois que a possessão do intelecto visava a expressão do lado carnal dela – por mim –. Não tendo sido um atrofio no cérebro ou uma possessão daquelas que magos brancos adoram intitular como o pior pesadelo dos humanos, tenho que referir e confessar que ela se tornou incrivelmente sensual, cheirosa, apetecível, poderosa e manipulativa, de olhar e de postura. Cumprimentámo-nos… os meus lábios humedecidos em alegria na face sedosa dela. Os braços dela envolveram-me como que em paixão…
Ah, Satan, meu brejeiro abismal! O que é que foste fazer…! Deixaste-nos hipnotizados! Ternura, desejo e a sensualidade confortava-nos ao longo da visita à galeria…
O quarto mais pequeno não me viu naquela noite, pois ela convidou-me para dormir com ela, na cama, no quarto, dela. A excitação era imensa em mim, as pulgas no corpo multiplicavam-se e o meu cabelo podia muito bem embrulhar-se naquela noite com o cabelo feminino dela. A temperatura alta, os magníficos arrepios, os beijos, os toques… tudo arrebatador com ela. Levei-me, levei-a, Satan levou-nos. Noite perfeita, no que foi.

A qualidade de Satan quando tenta, penetra, algum humano é sobejamente sexual. Porém, não é bacoca, não é unilateral, não é independente, ou seja, é necessário o humano estar a expelir fumo e desejo sexuais para que a possessão ou tentação funcione, agarre. Em detalhe, ela expelia o que era necessário, Satan encaminhou-se para com triunfo fazer a coisa acontecer. E eu concordei com tudo, em igual fumo e desejo expelidos, por isso...
No olhar dela, eu descobrira mais da magia de Satan, descobrira sussurro dele em que fez o que fez para que a minha mente se pudesse atulhar de pensamentos e desejos pecaminosos, provocadores. Satan queria oferecer-me um escape à realidade, soltar as mãos das amarras da realidade, do barco da tensão, do tédio. Divertimento, foco em anseios carnais para materializar-me em actos com ela, actos airosos, doidos, borbulhantes, vermelhos; odor a prazer, bonita sexualidade, odor a prazer, arrepio… Satan é a escolha sem vergonha, seja qual for a pista da sexualidade em que dancemos, seja qual for o alvo a que nos encostemos. Satan é o maior misto de beleza, carnalidade e manipulação que existe, num processo universalmente circundante à oposição de tudo o que nos estorva o ego.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…


Um segundo modelo saiu para conversar comigo, eu com ele, connosco. Ficou num testemunho repleto de forças, fortaleza ideológica e emocional, a partilha de experiências que me transformaram. O segundo modelo exibiu-se, como qualquer um de nós, não obstante, julgado não será, julgado não é o Homem. Dele conhecemos a identidade como semelhante ao anterior modelo e possivelmente aos que aqui chegarão. Abraçados à qualidade, ao indescritível, ao impensável, ao individualismo… sob as labaredas da boca do panteão… Satan ao sentar-se, cumprimenta com amistoso e colossal abraço Belial, camarada de armas… e o segundo trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e faltam dois.