Mais para o 2009 haverá, certamente. Que não o achem demasiado doce, mas também que não o sintam com falta de açúcar! Ahahaha!
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É Inverno. As ruas estão ensopadas. É Inverno e as ruas desertas estão enregeladas, com gelo pontiagudo. Eu simpatizo com este tempo, mas não tanto com o facto de me cruzar menos vezes com os companheiros e amigos que se fecham em casa. Nesta ordem da verdade, não há nada para ninguém. Não há conspiração, não há conversa, não há ajuntamento; há Inverno.
Passa-se sempre alguma coisa nestes momentos frígidos. O pensamento voa para zonas supostamente mais quentes, as queixas saltam da língua para os ouvidos, as culpas pincham para as aberturas aliciantes da realidade parada, as ocasiões tornam-se mais sortudas ou de motivo excepcionalmente garantido e os humanos fincam-se por especulativas confusões.
Paro diante do portão da minha moradia. Daqui engraço com as estrelas que não tremem devido ao frio desta noite. Pouco ou nada de interessante se vê daqui a esta hora, mas foi exactamente por isso que eu saí da sala há momentos. Tenho vontade de descobrir qualquer coisa de extraordinário, pensar que podemos utilizar de maneira incrível e evolucionária qualquer coisa já há muito existente no mundo, persuadir atitudes de pessoas para outros caminhos prodigiosos ou persuadir caminhos prodigiosos a encaixarem-se nos pés de outras pessoas… tenho vontade de acelerar o núcleo do planeta. Estas ramificações de vontade são receita de uma personalidade mutável sob um ideal apaixonado pela vida, pela obra, e qualquer miniatura de composto terreno, por exemplo o que vejo agora às escuras, ramifica-se e massaja a vontade do corpo e da mente. Cada um desses ramos agrada-se com cada pertence meu, portanto o motivo de estar a deambular pela parte de fora da casa é perfeitamente vontade minha, mas se assim não fosse, parecia que estava a ficar alienado, vazio, esgotado ou sem rumo aparente. A noite fria e a minha vontade em chama. Vontade de ferro, frio fundido. O silêncio é um gelo apenas exterior.
Vivo um novo dia para superar anteriores, unicamente para não me sentir linha e sim pico. E em cada novo dia há obstáculos a um pico, inclusive a meteorologia, mas compete-me a mim próprio arriscar. Ritual diário da escolha. Estava muito aconchegado dentro de casa, mas escolhi sair para o frio desta noite, para assim inovar, diferenciar, adicionar, face ao dia de ontem. Contrariar e responsabilizar também, cenários que me fazem lembrar de uma das coisas que os meus pais dizem constantemente, que para eu sair de casa a temperaturas baixas, tenho que me agasalhar até à ponta do nariz ou sofro. Eu não sofrendo com falta de cuidado, sei que sem me superar sofreria baixas intelectuais.
Os sons de animais ou de ordem estranha não se estão a fazer ouvir. O céu tenta clarear com o avançar destas horas, da madrugada, e a lua move-se no seu aspecto melancólico. Pazes, ausências, refúgios, pontos, sonos espalhados, odisseias nocturnas… em tudo o frio desta data vive. Neste momento, vou até ao pé do fontanário mais arcaico do meu jardim, o qual se encontra recentemente ornamentado com plantas exóticas e, nas suas bordas, acompanhado no seu tom de classe por conjuntos de espadas e armaduras pequenas, gastas, cruzadas. A nuvem de ar, o vapor denso, o frio, que sai da minha boca entreaberta, conforme respiro, funciona como um pano de secagem do silêncio, desmaiando sem graça na água do fontanário para onde olho. O fontanário, os ornamentos, a água... tudo fica turvo no plano físico, agora que o plano psicológico traz calor à realidade. Eu sento-me na pedra com gelo e o meu cérebro relembra outras vidas…
Espelhos e um observador. Para lá dos espelhos, vidas, atrevimentos, histórias! Os espelhos reflectiam imagens de séculos anteriores. O chão era pisado por retrocessos de tempo, de pós, e a criação da alegria nos espelhos esquematizou prazeres ambíguos. O observador, à distância certa para reparar, escrevia sem razão, mas com deleite e sumarenta animação, acerca dos personagens que se evidenciavam do resto do terreno, das imagens apartadas, dos espelhos. Esse observador, sem língua, com farfalhuda massa cinzenta, com olhos e material de escrita, acompanhou os intervenientes na acção essencial, nos regulados segundos da sexualidade arrebitada. Três pontos na fórmula redonda, entre espelhos e estranhezas da noção: o observador, um personagem homem e um personagem mulher. Os enredos montaram-se sob sorrisos entre espelhos num colapso doce e o homem e a mulher renasceram para existir com dimensões e adjectivos totais, porque o observador ganhou então o seu trono de comando…
Ele – o homem – usualmente dormia muito calmo, sem transpirações de maior, calores ou sentimentos de solidão abismal. Ele era bonito, de feições claras e definidas, que se enriqueciam num corpo jovem e forte, repleto de uma sensual energia. Encontrou-a – a mulher – num dia fervoroso, num parque com estátuas de reis notáveis e burgueses belos. Ela exibia uma silhueta, perfumada com lindas formas, sumptuosa, completamente atraente e elegante, dona de um rosto angelical que era adornado por um ar enfeitiçado. Ela vestia-se de branco: a blusa branca, a saia pelo joelho branca, engrandecendo-se em calçado vermelho e jóias vermelhas. Ela vestia-se num branco inspiradamente vivo e admirável. A pele do corpo dela era pálida e assemelhava-se a uma grande concentração de seda. Ele pôde contemplar, após dar passos em direcção à zona do jardim que lhe interessava, que o cabelo dela era vermelho, qual vermelho marcadamente exibicionista mas refinado. Era ordinariamente uma cor em finos fios de cabelo bem tratado, mas o cérebro dele convenceu-o que aquela faustosa imagem a passear-se tinha um encanto fabuloso e real, merecedor de largos momentos de atenção!
Após terem trocado olhares cúmplices, ela caminhou em direcção a ele e com uma vénia e um sorriso luxurioso, afastou-se por completo dele e daquele jardim. Ele corou e de imediato se virou para admirá-la de costas, pois sentia que precisava de fazê-lo sem pudores, mas apesar de tê-la admirado uma última vez, ela já não mais voltou a lançar-lhe o olhar. Sentindo uma sensação de satisfação, ele decidiu partir rumo a casa para poder meditar em tudo o que sucedeu, visceralmente guardando as imagens, os olhares, do caso vivido. O dia passou rapidamente desde que chegou a casa e se fechou no quarto. Quando a lua da meia-noite cintilou no firmamento, ele já dormia pesada e meigamente, na sua cama enorme e de arte requintada. Nessa noite, ela surgiu-lhe no quarto e próxima da janela se deteve a olhar o corpo dele. A atmosfera do quarto ficou esquentada, pintada sobre uma aura vermelha e ele no seu inconsciente acreditou conduzir um sono inquietante, transpirado, ao género de uma tortura de cócegas estimulantes. Ela avançou para ele e ajoelhou-se perante o rosto docemente adormecido que se apontava ao tecto branco do quarto. Ela admirava o rosto dele, pensava o quão belo era e inspeccionava cada centímetro dos seus lábios rosados. O olhar arrebatador dela fortaleceu-se e como uma membrana em fogo acalorou e enrijou o físico dele. Ela sorriu com melosa malícia depois de reparar no corpo dele a agitar-se com calor e sentindo tanto calor, ele destapou a camisa de dormir o suficiente para mostrar o peito cuidado e cativante. Aos olhos dela, ele continuava a agitar-se sobre os lençóis encorrilhados e tais olhos rejubilaram-se por completo com o endurecimento e dilatação por debaixo das calças dele, que lhe significava um inchaço tão tentador. Ela adorou o desencadear de prazer através da sua silenciosa perscrutação ao quarto dele e satisfeita ergue-se do chão e deu-lhe um longo beijo afectuoso numa das bochechas do rosto transpirado. Afastou-se da mesa-de-cabeceira, observando à contraluz que ele mantinha uma erecção enorme, rígida e fervorosa, ao ponto de por baixo das roupas se adivinhar avolumados vasos sanguíneos no membro sexual…
O sol irrompeu graciosamente pela janela do quarto dele, fazendo-o despertar de seguida. Achando-se húmido, saltou da cama e sentiu-se preenchido por uma força criadora, que o convenceu de uma noite de sono bem aproveitada e com direito a ter sonhado com ela, que no dia anterior tinha vislumbrado. O bem-estar manteve-se-lhe no corpo e na alma e a rotina encarrilou-o com paixão, mas depois da noite em que sonhou com ela, não voltou a vê-la no jardim. Estranho era para ele, porque jurava que por vezes, por segundos, a via em qualquer local, parecendo cómico e ao mesmo tempo desorientador. Sentiu que a noite anterior fora uma referência importante doravante na sua sexualidade.
A tarde estava interessante e as coisas corriam calmas e conforme o esperado, mas não esquecendo que se deslocara já muitas vezes no seu coche particular. Ele tinha um emprego pacato, o qual significava um grupo de bibliotecários e arquivistas, sendo o seu desempenho muito formal e linear, sem grande espaço para investigar, criar ou inovar no sector. Sentia que tinha garra para ir mais à frente, mas o meio e as pessoas com quem se relacionava, levavam-no a um conformismo usual, que pouco diferia do dos seus demais. O mais que podia esperar da sociedade era um padrão demasiado igual, porém o seu interior necessitava de um bem desigual.
O ritmo das horas e dias ia de vento em popa e ele sentia-se cada vez mais regenerado de dia para dia. Ela continuou a surgir-lhe no quarto, noite após noite, visitando aquela beleza adormecida e igualmente realizando coisas cada vez mais atrevidas nele. Ele sentia-se durante o dia muito mais confiante, desde que a conheceu, portanto declamou que o seu dia-a-dia passara de cinzento e azul a vermelho e dourado. O carácter sensual constante que passou a sentir sob a pele, demonstrou que ele era capaz de emanar mais energia e força de resolução nas suas relações com pessoas e/ou deveres. A diversão dos sonhos, pensava ele que seriam sonhos, naquelas noites húmidas, para além de lhe despontar grandes sorrisos, confortava-o numa ideologia responsável, natural e rica, perante a vida quotidiana e as utopias. Ele acreditou em momentos de felicidade, em parte, muito vivos. Era um embrulho com laços de cores exoticamente superiores…
O murmúrio dos animais da noite embalou-o num sono aveludado. Ao fim de uma hora, ela estava no quarto dele e, como quem mata saudades de alguém muito especial, beijou-o repetidamente nos lábios semiabertos, cuidadosa, sem que ele despertasse. Sussurrou-lhe depois com doçura ao ouvido esquerdo para que a mirasse, para assim se sentir mais bela e acompanhada. Ele permaneceu embarcado no sono tranquilo, mas ela, mesmo assim, ficou honrada. Ela afastou-se para o pé da lareira apagada do quarto, no lado esquerdo da cama dele. Pôde reparar, mais pormenorizadamente, nos itens medievais com que ele emoldurava e alindava a parede contígua à lareira. Agarrou a maior espada afixada e nas suas mãos manuseou-a de maneira fina, feminina, espontânea. Olhava a lâmina ainda afiada da espada, quando passou um dos dedos no corpo esguio desta. Ao terminar o tacto, sentiu cortar-se ligeiramente, nada de preocupante, visto que inclusive a entusiasmou um tanto. Aquele corte, aquela palpação à arma, fê-la pensar nas características físicas e sexuais dele, desejando cortar-se na energia dele, no corpo dele, na firmeza dele, no poder sensual dele… e ao recolocar a espada na parede, deslizou cortesmente até ele e acendeu algumas velas. Destapou-o e viu que ele vestia apenas umas calças finas, de um tecido bastante apetitoso para ela. Passou as mãos claras e ardentes pelo peito nu dele, sentindo o batimento do coração em crescendo com a duração do toque dela sobre a pele. Pressentindo o calor nele a despontar, retirou-lhe as calças, despindo-o então por completo, de um imponente modo. O corpo dele brilhava com o jogo de sombras e efeitos das velas acesas e a sua nudez arrebatou o olhar atento e mágico dela, levando-a a respirar mais verdadeiramente. Ele, completamente a dormir, transpirava bastante, mostrava os músculos que se endureceriam, teve-a diante de si, cativantemente feliz, a despir-se lentamente pelo quarto. Nua, lindamente sedosa, ela fixou-se uma vez mais na figura dele, adorando-o, bebendo pensamentos sobre ele. Ela, corpo feminino encantador, percorreu as suas formas pálidas com as mãos, em círculos e ondulações provocantes. As suas mãos detiveram-se entre as suas pernas altas, torneadas, conquistadoras, numa imagem pura de erotismo desenfreado. Ela tocava-se entre olhares calorosos a ele e pensamentos molhados, sentindo um prazer inominável. Ele dormia totalmente, mas dos seus poros vertia uma animada temperatura e volúpia aromática da inconsciência. Ela sabia de todos os estados físicos e extra-sensoriais dele e sobre tais motivações, ela masturbava-se…
Os gemidos sãos, os pensamentos abundantes, as massagens genitais, os ardores de prazer, por ela cumpridos, coloriram o resto da noite e o culminar gracioso da masturbação dela, o acto saudável, forte e moralizador, afagaram o descanso dele até ao nascer do dia.
Na manhã seguinte, ulteriormente à quinta noite, à quinta visita erótica dela que influía sempre mais sexualidade nele, ao quinto sonho exsudado, ao levantar-se, o quarto não cessava de ondular, serpentear, facto que o levou a saltar para a acolhedora almofada novamente, fechando os olhos com prontidão. Segundos, longos segundos depois, ele sentiu a sensação de formigueiro nos pés, mas uma incrível sensação de força e irrigação de testosterona como se tivesse acabado de ter a sua melhor noite de sono. Cogitando estar estranhamente a sonhar, não pôde deixar de sentir um tímido perfume a mel e sabonete. Pragmático, concluiu que tal perfume não advinha do seu corpo, mas o seu cérebro manipulou a sua vontade a acreditar que tal cheiro lhe era muito querido e familiar.
Quando voltou da sua função de bibliotecário e arquivista, dirigiu-se ao quarto num impulso libidinoso e muito instintivo. Ao dar a volta pela sua cama tratada e arrumada pelas suas criadas, deparou-se com um pedaço de mel num dos cantos da sua almofada. Esteve a concluir se teriam as criadas descuidadamente vertido aquele líquido doce um pouco avermelhado. A seguir, foi até ao espelho embutido num dos seus armários de livros pessoais para ver as suas faces, o seu ar devaneado, e com estupefacção viu ela reflectida no espelho, bem perto do seu pescoço. Loucamente virou-se e não a encontrou, mas desvanecia-se no ar o mesmo perfume que sentiu ao acordar. No espelho mirou-se e encontrou a sua beleza de sempre, acompanhada por uma aparência de obsessão feminina. Desceu o quarto e numa das salas de estar encontrou as criadas que habitualmente tratavam dos seus aposentos privados. Inquiriu-as se tinham derramado mel na sua almofada e elas asseveraram, juraram, não ter feito essa asneira. Ele acreditou subtilmente nas palavras delas e retirou-se da moradia. Concluiu que pudesse estar obcecado pela imagem dela, o que fez com que o seu cérebro ganhasse a sugestão que a tinha visto em muitos locais antes e a mesma obsessão deve ter-lhe sugerido que o mel estivesse ligado à presença dela. No intuito de se acalmar e desanuviar, foi com o seu criado de coche até à beira-mar, não muito distante dali. Passeou na areia da praia, deixando-se embalar ao sabor do vento morno do fim da tarde. As gaivotas preenchiam o céu, o mar emitia os seus sons relaxantes, as ondas morriam nos buracos feitos por pegadas… e ele, minutos mais tarde, acolheu por certo a quietude, o equilíbrio, da beira-mar e a sua mente e alma confessaram-lhe sentir-se melhor. No fim do passeio, ele guardava prazer, alegria, gozo e ânimo, em si, portanto foi com tais formatos que se deitou na cama, aquecido por uma lareira rubra…
A meio dessa noite deleitosa, a sexta noite, ele acordou, sem roupa, por intermédio de um estalo dela. Ele estava como que delirante, o mais feliz que soube experimentar. Ela abriu para ele um sorriso de orelha a orelha e, depois dele confirmar o extremo desejo hasteado nela, deixou-se abraçar e, inundada de beijos, carícias e meias palavras, por ele foi possuída intensa e voluptuosamente. As magníficas trocas e dádivas de fluidos sexuais, queimou-lhes a pele apaixonada e um superior patamar de êxtase alcançaram melodicamente. Um sonho nunca é somente um sonho, numa sexualidade executora.
O quarto estava mergulhado numa extensão de satisfação. No final do acto sexual, ele disse-lhe que se achava capaz de lamber todo o chão que ela havia pisado. Silêncios sumarentos, suspiros de carinho, realização de vontades. Ela mantinha o frequente sorriso amaciado, mas reparava-se-lhe um refulgente rubor nas saborosas bochechas. Magnificentemente, um vento abrasado entrou pela janela do quarto e apagou as inúmeras velas vermelhas que ela tinha trazido. Os esbeltos corpos deles perduravam nus e entrelaçados, apenas evidenciados por um feixe lunar inebriante, que aspirava descrevê-los como uma dupla de actores a serem contemplados em cima de um palco pelo público rendido.
Ensejos a seguir, ele sucumbiu numa sensação de calor, franco prazer, líquida paixão… mas acordou em breves minutos. Em frente à lareira acesa, tapada somente por um transparente véu erótico, ela dançou para ele um mantra oriental. Ela via os olhos dele a agitarem-se ao ritmo lascivo da dança. Ela via-o atento ao seu corpo dominador. A lua, que entrava pelo lado direito da cama, enfeitiçava a silhueta dela num distinto molde de beleza. O véu roxo tapava ligeiramente os formosos seios dela, tapava-lhe ligeiramente a púbis e dançava de forma aliciante nas nádegas fofas dela. Todo aquele cenário diante dele, foi um enorme motivo de vislumbre, erecção, submissão e respeito. O mantra que ela encenava era de uma qualidade maravilhosa e com o grau de ousadia a subir, ele pôde observar todos os cantos do corpo perfeito dela, todas as formas, todos os orifícios e camadas desnudadas. Ela agarrou numa adaga que ele tinha fixa na parede e com esta actuou na parte final da dança. Colou-a junto ao corpo, estendia-a pelo ar e passava-a pelas chamas da lareira, culminando num pormenor muito delicioso para ele: acariciou a adaga, afagou-a com os lábios e, pensando num falo fascinante, lambeu-a com distinto sensualismo. Ela excitou-o como ele nunca imaginou merecer e foi ter com ela, com um cálice de prata com vinho, assim que visualizou o meigo chamamento dela. Beberam o vinho imersos numa libido extravagante, marcados pelas sombras das chamas da lareira que serpenteavam fortemente, girando como línguas num beijo desvairado como o deles. Ela beijou-o e agarrou numa das velas que tinha trazido para o quarto. Ele abraçou-a, acolheu-a entre as suas pernas másculas e estendidas. Da vela não verteu para o peito dele cera líquida, escaldante, mas sim mel. Mel vermelho. As velas derreteram muito no corpo dele, aglomerando muitas manchas de mel vermelho. Provaram o mel, provaram os beijos. Provaram-se. A cópula aconteceu muitas vezes, a masturbação aconteceu muitas vezes, a sodomia aconteceu muitas vezes, o sexo oral aconteceu muitas vezes, naquela noite longa de prazer. A sexta visita dela encerrava-se nos lençóis protectores da cama dele e todo o gozo dos dias borbulhou enobrecedoramente, sob um perfume sublime de carnalidade.
A aurora da manhã, lançou um orvalho fresco e vital para ele e para ela. A vida era extraordinária, simples, materializada e livre. Ela beijou-o no rosto revitalizado, sussurrando-lhe que estava então honrada com o Universo completo e incompleto, moldável. Ele ouviu que ela lhe fizera aquelas visitas, após se terem cruzado fisicamente, porque ela própria era uma analogia, um ónus positivo, da sexualidade humana, uma força da natureza criada para atribuir felicidade, prazer, naturalidade e força a quem procurasse por ela. Revelou-lhe que ele tornar-se-ia superior, numa maior escala de amor, nessa tal-qualmente força natural e percorreria os trilhos virtuosos da sexualidade com outras pessoas que desejasse. A luz do sol irrompeu pelo quarto e ele permitiu cordialmente que ela saísse pela janela, adornada e alegrada nos raios de virtude da manhã. Ao desaparecer, repetiam-se na mente dele palavras, frases, cheiros e gemidos, que garantiram que a sexualidade é um temperamento entranhado dos corpos sob qualquer forma ou exercício.
A interpolação de períodos destrói os espelhos, os personagens, os ciclos de letras. A mudança de espaço e a disfunção de coordenadas, trazem-me ao fontanário, onde olho a água serena e límpida, como um sonho de algodão e amêndoas raras.
A noite está muito mais agitada, com uma agitação própria de vitórias com sangue e suor. É Inverno e é altura de frio, de procura de aquecimento. Toda a leitura de um texto sexual ou erótico ou sugestivo, faz parte de um dos fetiches gerais do mundo, um ramo da sexualidade, e como todo e qualquer prazer o essencial da história é alcançarmos os frutos que mais desejamos provar: proibidos ou não proibidos, sem regras nem limites, com consciência, pois a árvore da sexualidade é algo inato à natureza humanamente altiva.