quinta-feira, 28 de Agosto de 2008

Recintos possuídos OU O gozo de Um demónio (II) - Locus Horrendus



Trovoada enxuta. Na sombra dos recantos citadinos, a luz celeste aterroriza. Álvaro de Campos disse que não dormia, disse que jazia, cadáver acordado, que sentia. Disse que o seu sentimento era um pensamento vazio. Disse que o seu cansaço entrava pelo colchão adentro, que lhe doíam as costas por não se deitar de lado e, se estivesse deitado de lado, doíam-lhe as costas por estar deitado de lado. Álvaro de Campos pensou na Humanidade que esquece as suas alegrias e as suas amarguras, pensava e não dormia. Sendo assim, a dor aparece, portanto há que decidir que posição adoptar para recebê-la. Exactamente; Álvaro de Campos dizia esta palavra.

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

Hoje há qualquer coisa dentro de mim que me consome o sorriso. Uma qualquer coisa, uma coisa qualquer, fria, deprimente, suada, porca, nojenta, amassada, de repente destruidora. Esta coisa dentro de mim é a angústia e também é a ira, a tragédia emocional, o culto pela crueldade, é a braveza, a saturação. Parece-me que tudo está incrivelmente, assombrosamente, mal. A caneta é um nojo. Hoje, que para vós não é o meu hoje nem o meu amanhã, estou enervado. Enervado, com aqueles nervos que me deixam num estado horrível.

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

O som pim, pim, pim, que vem lá de fora está a levar-me aos arames. Não o suporto, estou a rebentar de alguma maneira e já preguei murros na mesa. Apetece-me viver esta febre de nervos, escrever sob este sentimento, inspirando-me nele, massacrando-me. Eu não tenho nada que me alegre, nada que me satisfaça, apenas o meu cérebro que se entrega de braços abertos à informação negativa que recebe e, logo, me deixa roído de desprezos. Ah, como me coloco a pensar nos meus adversários, pensando fervorosamente! Vinganças! Tomara inimigos tombam ao rio e levem com muros de betão e aços queimados, bem no centro da cabeça, repetidamente, à falta de facas grandes. Tomara se rasguem em arpões envenenados e vejam sangue podre a fugir-lhes, que comam, a chorar epicamente, excrementos de todos os tamanhos e que enormes agulhas arcaicas lhes entrem pelas axilas e pelo umbigo. A temperatura do ar está turva e amarga, vejo as nuvens de cor vermelho-sangue a observarem-me, querem partir-me todo. As casas à minha volta, cheias de gente inócua, atrasada e cínica, podem ruir, agora ou daqui a pouco. Eu até correria para o local, arruinando pedacinhos de estruturas, que restassem ainda de joelhos.

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

Chegamos perto do final do ano, com orgulhos e caretas. Isto para quê? Alguma coisa vale a pena? Tudo está enraivecido, cheio de enxofre e metano, espicaçado numa banheira de iodo e petróleo e borracha e veneno. Admiro as proveitosas tragédias da natureza, ao longo do mundo, porque desejaria controlar o imenso poder de cada uma com as impressões digitais dos meus dedos. Logo, satisfazia-me à procura do sabor da destruição natural. Sinto os cheiros das desgraças. Quero lá saber de responsabilidades, de preocupar-me com quem espera de mim alguma coisa de bom. Não quero nada, neste momento. Nem penso em nada nem em ninguém. Solto fúria e solto ódio e tomara que todos os vidros e espelhos partam, que são caros como jóias e que exibem o meu físico, o qual tanto menosprezo. O meu interior vai aparecendo e reaparecendo como um parasita, umas vezes articulado, outras vezes famoso. Mostrando que me encolho em defeitos, acordo toda a semana e a mente corre logo em dúzias de assuntos. Para quê? Mudo alguma coisa no mundo? Perdi essa vontade, já que somente quero sair do quintal com alimentos que me façam sobreviver mais um dia. Se eu não pensasse, queria largar fumo em massa e os outros ao meu redor que se poluíssem nele, tal como me fazem, por vezes, aturar. Poluam-se, enervem-se, saltem, chateiem-se. Poluam-me, enervem-me, saltem em mim, chateiem-me. As ruas atulham-se de porcarias caras. Venha a mim uma sala com porcelanas, que desato a pontapear. Venha a mim faces suaves e narizes bonitos que desato a machucar. Quero tudo feio, tudo rebentado, tudo sem remédio. Folhas de Inverno, dúzias de lascas de palha, nos chapéus e nos casacos, que posso ver. Agora que urino, merecia aguentar a dor de tubos e urtigas a sair pela minha uretra. Que paixão tenho eu por mim.

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

Nas invasões militares, medievais ou do imaginário humano, de muito sabemos que os fortes invasores decapitavam outros indivíduos, que violavam as mulheres aleijando-as em toda a parte com franqueza, em todas as formas, que partiam as pessoas, que feriam as pessoas, que não alimentavam as crianças, os futuros de quem subjugavam. Que pormenores belos, que pormenores deliciosos. Eu, decerto teria imenso júbilo por ter figurado em cota de malha e espada, em tais cenários, recintos e tempos. Porém, não figurei. Desastre, realidade. Posso, também, arranjar outras missões para mim mesmo e, por exemplo, com toda a capacidade de ser horroroso, profanaria cemitérios, experimentaria sexo com mortas, enrabava-as, cuspiria à grande e à francesa nas flores, que seria lubrificante para elas, abriria buracos, enterrar-me-ia e masturbar-me-ia então na lama, nos esgotos, para espantar o mundo ou qualquer nome assim. Vivo as minhas perturbações loucas, não, as minhas irritações. Eu enervo-me tanto. Eu enervo-me tanto que me identifico, afinal, com um vulcão. Onde posso comprar lava para espirrar pelas ruas abaixo, pelos meus nervos, onde? Eu oculto os palavrões, mas eles estão cá, nos espaços do texto. Que energia produzo, que cansaço e cócegas na barriga, e, finalmente, eu gosto de ver-me a sangrar ao ferir-me, com os dedos mais pequenos dos meus pés descalços, nos cantos dos móveis bicudos.

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

No écran, o cursor pisca, a luminosidade das cores, a presença do viso da extraordinária compulsão, o ensinamento futurista. Que mais há de futurista que a verdadeira auto-mutilação? Não queremos afinal ser máquinas, pouco tecido humano e o resto tecnologia? Os vapores de máquinas, dominadores, a incomodarem os lábios de terceiros, os barulhos dos elementos de ferro a levarem as mentes ao tédio e à vegetação emocional dos que lhes são diferentes. Podíamos ser computadores e enviar vírus a outros, desligar redes e piratear. Não é um gozo, não? Venham a mim as mulheres bonitas, que não conseguem inovar em si as sugestões de colaboradores chegados, que lhes tiro a inocência dos seus sonhos. Máquinas, sim. Nunca transformarei ninguém em alguém melhor, porque o que pretendo é partir carcaças. O resto é para as máquinas fazerem, pois não tenho tempo, visto que sou como o coelho que corre para o País das Maravilhas. Enfio arames nas costas de um padre, de um Messias, de quem eu quiser, e vejo quão divina é a dor de um falhado ou simplesmente de um ser perfurado. Lamento lamentarem, a sério, é verdade que preciso de falar assim, mesmo a não em ouvirem tenho – uma péssima voz – uma caligrafia bonita, arranjada, não tenho? Num lado dos campos de batalha há deprimidos e eu, terrível, cortante, num outro lado. Calado ou a discursar sou a mesma criatura, apenas difere isto pela energia, pela razão e pela interpelação. Neva, neva, quisesse eu comê-la…

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

Escavo memórias, estariam as árvores nuas e velhas. Ele entra em casa, depois de horas combinadas, vermelho, inchado, alcoolizado. Chama nomes a ela. Ela chora e transmite mágoa. Discuto com ele, tenho mesmo que o fazer, é inevitável pois faz-me sentir aqueles nervos tão profundos. Um dia isto acabaria mal, para ele ou para o vício. Um dia dei um empurrão a ele, ela também não esperava tal coisa, mas o sofá segurou nele. Maldito sofá ou pena que tenho do sofá, mas eu não suporto quotidianos de machos tradicionais. A quantidade de anos que ele agiu daquela forma, cheio de álcool, cheio de doença psicológica, cheio de má educação. Nunca me poderá apontar o dedo à falta de respeito, mesmo agora que deixou aquelas atitudes, quem não me respeita, por mim não é respeitado. O Inverno começa a dar cartas, baratas, travando euforias deles, aumentando as minhas. Ao querer verificar os reflexos das manchas de desmaios, atrevo-me a assobiar pelos esforços de feridas…

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

Tenho dado atenção a uma componente literária, característica do período romântico. Sinto-a, respiro-a, o dia não avança… entre alvos bolorentos, a componente a espumar em mim condiz entre um ambiente pesado e paisagens ensombradas, funéreas. Salivo na agitação de corresponder intuitivamente às parcelas apaixonadas, do cajado do mistério, quer do universo, quer do próprio individualismo, a fim de me magoar com sabedoria. Sou um lugar horrível? Sou. Acredito nisto, como não acredito em nada, como desejo o desmaio mortal. Com vinho, com exageros mentirosos, com isolamento mais que profundo, crónico, estou agradado aquando de descrições e afins figuras de estilo a paisagens sombrias, isoladas, lúgubres, inquietantes e decadentes. Por si só, a natureza traduz-se carnalmente, no seu estado selvagem. Sabeis que na hora de odiar prontamente, se acelera à valorização da sensibilidade individual, do irreal e do sonho? Claro que sabeis, pedaços de feio. Ai, o quanto fervo e arreganho as feições! Nervos, impulsos de paranormal. Oferecei-me cavernas, grutas, ruínas, todas as noites, todos os fins de tarde. Doiem-me imenso as costas. Neste texto, tenho gosto pela total solidão… são as palavras que vão ao vosso encontro, não eu. Tenho intenções de danificar os juízos, mas amanhã não.

Ser-se criticado ao ser-se horrível?

Ao canto da mesa, enervado, chateado, com as pupilas dilatadas e sabor amargo na boca, assisto à tertúlia barulhenta entre dois personagens da nossa literatura. Uma tertúlia que imagino, com as chamas do pensamento em choque. Personagens que escreveram muito sobre amor, sobre relações, pensamentos, mas também sobre um tipo de horror. Para lá das janelas, o ardor e as cores do vento fazem as pessoas trancarem-se em casa, todavia no fim da tertúlia irei lá para fora cantar pelo reencontro com abismos de receios e profanas chatices. Bocage fala de duras, cavernosas, fragas e de paixões que na alma se fervem, fala da razão feroz, do coração que o indaga e dos seus erros. Bocage é agudas… ânsias… venenosas… chagas. Bocage escreve em soltar gemidos e em derramar lágrimas, escreve também que a razão o manda não amar e ele arde, ama. A razão diz a Bocage que sossegue e este pena, morre. Bocage diz que vira, apenas, a luz brilhante do dia, em empório celebrado, em sanguíneo carácter marcado. A morte devorante roubara o doce agrado da terna mãe, pelo que Bocage seguiu Marte e vagando a curva terra, o mar profundo, inundou as faces em lágrimas. Bocage longe da Pátria, longe da ventura, diz suspirar pela paz da sepultura, enquanto a insana multidão procura essas quimeras, esses bens do mundo. Eu percebo-o, distantemente, percebo-o. O comum preferir suspirar a procurar. Tamanha vontade de apagar as luzes. Almeida Garrett diz-se a ir, que o seu rosto macerado e em funda melancolia escreve, escreveu, tanto faz, que onde chega, o prazer cessa no mesmo instante. Igualmente, quando o lábio começa a dizer doçuras de amor, gela e que o riso que ia a nascer expira. Almeida Garrett é as próprias folhas caídas, ele próprio e a morte nele. Almeida Garrett espantou muitos leitores, eu sou um dos seus espantados, um dos tristes. Almeida Garrett fala no seu frio sarcasmo e no amor que falava a elas todas, mulheres, pessoas, escreveria que lhe doía a alma, se a vaga inerte tristeza, sem motivo, lhe pousasse no coração e que, porque a vida lhe parece parada, não saberia se morria ou se vivia, não sabia. Em seu, textualmente, gozo delirante, Almeida Garrett, escrevendo, sentia que era a vida ou a razão que nele se exaurira.


Urtigas de palavras, que nos aspiram os sorrisos. Nada parece ser o que é na verdade. Nada disto é verdade verdade, mas sim um batalhão de palavras que doiem, que espero que façam doer, que façam irritar. A linha do horizonte é muito sedutora, apoiada por nuvens terroríficas e pastos pretos, existe a perturbar-me os olhos. Quando somos horríveis somos criticados e quando criticamos chamam-nos de horríveis. Venha o diabo e escolha, dizer-me-iam os adversários ou aliados, tanto faz para agora, venha simplesmente o meu leitor e escolha. Não tenho que ser horrível, só se o desejar.

Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio (I) - Encarar, sob relatos de mim, eu próprio

Vento e chuva amena. O Outono anda por aí, por aqui ando eu e por toda a parte andamos nós. Através da minha janela, apesar do pouco que a noite me deixa ver, observo uma brisa molhada que namorisca as matas e as pessoas alcoolizadas. Namorisca-vos? Escrevo, aliás comecei a escrever, porque gosto de recriar os divertimentos dos meus processos mentais, que amorais! Jovem, azulado no olhar, sou alguém que gosta do Outono puro e duro, ou, digo, talvez puro e inspirador. No desenlace destas linhas borradas em lágrimas de gato, de vazio, de papel, sei lá, assino um nome, cujo brotou da farinha com determinados significados demoníacos, mas, principalmente, libertinos! Ousados e insistentes, como pretendo deste Outono. E o porquê do Outono ser bonito para mim? Têm sempre de perguntar. Fácil; é a estação do ano que mais me lembra, através de provas, quem sou e o que gosto. Sério e carnal, como a descida da chuva às cabeças dos animais. A par das letras, as horas passam… tenho febre. Encarar o quê?

No momento desta frase, que é durante a tarde, mais ou menos a horas previstas, vejo vias tradicionais, derreadas, alagadas de folhas caducadas, de um castanho inchado, que são desarrumadas, sem esqueleto, nas rugas de areias e pedras, pela brisa de dias quase cinzentos. O vento passa-me pela cara, esfregando-se sem regra à pele, num constante equilíbrio de ares e sopros meteorológicos. A tarde está sossegada por estes lados e também por outros, onde logicamente hajam semelhanças. Os sons da civilização são a constante do mundo e aqui também ouço alguns. Ouço automóveis, que daqui vejo como automóveis em miniatura. Não é por questão de tamanhos, mas, sinceramente, não gosto muito de automóveis. Eu gosto mais quando vejo o comboio, apesar que ainda prefiro os antigos, pois ostentavam-se noutras estéticas de classe. Comboios… ah. Ah!, fala-se no diabo… e aparece, agora, um comboio que passa ordinariamente perto. Um comboio dos mais recentes. Paro a apreciar, para não sentir uma sensação de aproximação involuntária ao chão, vertiginosa, como se estivesse a correr contra o comboio. Ali, entendo, há muito peso a deslocar-se a muita velocidade. Ó trilhos férreos!, quereis uma toalha para o suor e, quiçá, uma pomada para aliviar os músculos? Não obtenho resposta. O som gutural do comboio, as fricções férreas, as ardências maquinais e o despejo de velocidade. Ali. Não obtenho uma resposta em português. Encarar o quê?

Continuo o meu caminho, que dá para uma floresta e, entretanto, piso mais folhas e terras esverdeadas, acastanhadas e alaranjadas. Quando me detenho num local tropeço. Tamanha maldade do meu calçado! Entrei com o pé esquerdo? Bem, e com o direito também, porque ainda não cortei nenhum deles. Neste local, o silêncio parece ser de ouro. Sem grandes fumos, sem muitos fedores e barulhos. O ambiente sonoro é o hino de pássaros esquisitos sob o encantamento de uma subtil corrente de rio. Um rio aberto, apesar de manchado. Este é um local bom e é por isso que aqui estou, sem dúvida. Quem sabe dele, nele não fala. Sabe; cala! Cá no recinto recôndito, paralelo ao rio, em voz regular digo a palavra – fotografias –. Tiro o meu saco do ombro, deixando-o simplesmente cair no chão, qual ventoinha na palha. Dentro dele retiro uma máquina fotográfica digital. Queria antes ter uma de rolo, porque era um maior colorir dos meus gostos, mas para já o dinheiro que tenho não me compra uma dessas. Então começo a disparar o flash em múltiplas direcções. Flash! Flash! Flashflash! Tento captar do ambiente aquilo que nele mais me agrada: árvores e plantas e árvores, o rio, uma ponte de ferro e aço e afins, um pavimento esburacado, mais plantas e bichos, trilhos verdes que se perdem de vista, ou apenas dos meus óculos, e paredes arcaicas comidas pelos anos e pelos humanos. Ergo o meu saco, enquanto olho uma dezena de velas que se encontram a derreter em buracos podres, as quais me forçam a imaginar que situações viveram antes e durante aquele detalhe. Tudo me parece arte. “… dissera Olvido uma vez […], a palavra arte soa sempre a mistificação e a panos quentes. É melhor sermos amorais que imorais. Não achas? E agora, por favor, beija-me.” Tiro fotografias com a rapidez de um pintor talentoso, em cada pincelada. Segundos passam, minutos passam, uma hora passa, agora o dia começa a virar noite e não há mais fotografias para ninguém. O rolo não terminou ou, melhor, a memória do cartão não terminou, mas porque, sim, está no meu momento de retorno: e um Homem tem que fazer o que um Homem tem que fazer! Um Demónio faz aquilo que quer fazer! Um e outro são iguais e atribuem merecimento, instintivamente, a armas e a si próprio! Encarar o quê?

Levantou-se mais algum vento, entretanto. O céu, a esta hora, está sublime, está cinzento, manchado, esquisito e denso. Passo ante passo, pé ante pé, a minha casa aproxima-se imóvel. Tenho as chaves da porta de entrada. Por acaso, trata-se de umas chaves porcas e azedas. Porcas e azedas como determinadas coisas em mim, mas que lá acabam por ter a sua utilidade. Entro, neste instante, em casa. Tudo tem uma funcionalidade, digo, até a minha mala de viagem. Quando a agarro, encarrego-me de dar-lhe vida. Enfio-lhe, para que guarde, os meus pertences: as roupas, os acessórios, uns objectos diversos, a comida e a bebida. É simples de perceber que viajarei, ou irei para outro sítio. Digo fácil de perceber e não de adivinhar, porque na minha vida não se adivinha… muito. Na vossa vida adivinha-se? (Portanto…) Prosseguindo. Para a viagem que farei, daqui a pouco, tem de estar tudo no seu lugar e, por exemplo, a minha mala encarrega-se de ser a galeria de todos os lugares! Encarar o quê?

Já estou em viagem e à conversa com as pessoas no carro. É surpreendente a quantidade de demónios que existem nas conversas. Demónios que são as frases feitas, os clichés, as frases feitas, os clichés. Uma dose de chavões e ficamos bem. As conversas estão a ser animadas, lá isso estão. Cada qual com os seus demónios idiomáticos! Retenho o segundo, no meu olhar, em que uma das pessoas, aqui no carro, se pasma e se abana com pudor entre uma fala minha. Este é um lugar-comum meu e por ele rio-me sozinho, com certeza. Consola-me deixar aquela miúda electricidade que se activa, que dança no cérebro das minhas companhias. O que importa é essa activar-se nelas, seja na cama, seja na casa-de-banho; pensarão naquilo em que falo! Entretanto, mais qualquer conversa e explicação. Também limpo as minhas mucosas e fico quieto na audição à gelatina amanteigada do meu cérebro. É noite querida. Ventania, estradas bem iluminadas, céu com nuvens encalhadas e uma temperatura baixa. A pessoa ao meu lado grita, mas acha que fala. A meu lado, a porta do carro, um luxo, há muito que se encostou ao meu braço direito, devido ao carro estar cheio. O condutor do carro cora com os acenos a/de outros condutores e as restantes pessoas perdem-se, neste momento, a pensar naquilo que podem e não podem fazer em locais que ficam fora ou dentro das bordas da viagem. O rádio toca um disco de instrumental moderno e eu bato, algo ritmadamente, os pés nos tapetes do carro. O carro percorre estradas mais próximas do nosso fim. Estas estradas têm um aspecto negro e denso, que se engrandece no arvoredo selvagem feito, à semelhança, de um algodão rijo, frito e pegajoso. Não há barulho para além dos vidros deste carro, o qual avança como uma lâmina de corte desabitado, enquanto os passageiros riem de nada, de coisa nenhuma e de algumas coisas. Os traços brancos na estrada demarcam a palidez e calmaria do ambiente natural. O gelo do desimpedimento ainda não quebrou. Minutos e minutos transpõem. Num momento em que a noite está mais alta, piso a localidade que nos aguardava. Um sítio verde, com o peito que vive pregado numa linha de três metros acima do horizonte azul, azul muito muito escuro. Há qualquer profundidade verdadeira aqui, um armazém de belezas que mostra mercadorias presas a uma parede, totalmente na vertical. Com vertigens mas orgulho, o armazém natural alonga-se em ramos radiosos, entre as suas relvas misteriosas e viçosas, abraçado em fauna e flora de luxo e concentrado como dinamite de carne e leguminosas. Tudo, claro, no negrume, agora. Vivo em álcool, festa, palavras e necessidades. Vários capítulos estão a passar… a passar. Param. O apartamento está com a porta aberta e com as luzes ligadas. Por que é que haveria de as desligar? Não haveria e não quero saber, não estou preocupado. Ups! Caíram as minhas bolachas, preocupei-me! Sou livre para pegar em mais e não apanhar as sujas. Sou livre para acender e sujar. Estou contra a essência de que aquilo que é abandalhado é O devasso. Ora! Aqui, pela varanda avisto minimamente florestas agrupadas. Vento, cascas e garrafas. A noite é um lençol morno e a pele do meu corpo aquece devagarinho. Encarar o quê?

De manhã. Acordo ao som do despertador ruidoso. Não dormi bem. O céu está enorme e chuvoso, para bem dos meus olhos com remela. Acordei com sono e com dores de estômago e dói-me o estômago e tenho sono. Vou para o lado oposto das outras pessoas, porque não tenho curiosidade nem paciência bonitas para o estilo desta manhã, da manhã das pessoas. Principio-me, por caminhos cheios de raízes e buracos, em direcção a lagoas grandes e frias, contra corrimões e varões de erva, flores e areia. Os montes gigantes têm essas lagoas a seus pés. Observo, contentíssimo! Imagino estas quantidades de água à temperatura da quente que sai da minha banheira. Não digo a ferver, mas muito quente para combinar numa fogueira branda para bruxas, mulheres libertinas e mágicas, que atiraria para ali. Não para querer queimá-las, mas para me enrolar com elas; quais salmões calorosos e transpirados! Quero um caldeirão de cetim, corações e orifícios! E sem fim, convulsões e cicios! Quero mexer essa receita culinária. Com tanto para onde olhar, deambulo, pensativo, pela areia bege e misturada não sei com o quê. Sento-me numa pedra grande e sem cor. Observo e contemplo a água calma, o ambiente espectacular e a grandeza das coisas. Isto é tão belo e tão natural que me sacudo por não ser tão habitual quanto desejaria, quanto ao país compete. O céu pouco mudou e já me chamam, por qualquer razão. Por mais que se disfarce, a sensação de incompreensão aparece-lhes no rosto. Sinto-me em casa, em casa… morno, ventoso, com cheiro de chuva e arrepios. Coisas e coisas que agora passam que não vos digo. Porém, fica o desabafo que me preocupo com a preparação do meu Halloween – All Hallows’ Eve. A noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro é muito especial e tem mesmo de ser bem organizada e tomada! Poções, rituais, piadas, brincadeiras, loucuras, liberdade, criação… tudo encaixarei. Este é o meu desejo e o meu querer! Aproveitarei para escrever… e festejar também com os meus personagens medonhos e os meus demónios fofos. Ainda tentarei realizar uma película satânica! Num dia à frente. Alguém me ajuda? Oh, Diabo! Até que me emprestavas uma câmara de filmar! E eu de imediato a ti, o dinheiro certo! Negoceia-se… muito bem. Irei comprar uma. Uns modelos, meia dúzia de figurinos e argumentos, quero… e encarar o quê?

Numa próxima… as palavras mudarão, os recintos também e os gozos serão novamente meus! Chegando ao êxtase… não tenho que encarar nada, tenho sim que experimentar!