quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Pasmei à Noite

Um conto retirado do meu livro - Eviscerar Mistérios...
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1! 1, 2! 1, 2, 3! 1, 2, 3, 4! 1, 2, 3, 4, 5! 1, 2, 3, 4, 5, 6! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10! 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11!

Contar os números. Contá-los! Cantá-los! Desde há algum tempo para cá, que me colocava todas as noites a contar desta forma. Utilizo isto, utilizo a doçura da noite, utilizo a janela do quarto para olhar para a lua e, todas estas utilizações são um ritual meu. Ritual de serenidade. Serenidade nocturna!

Depois paro a contagem. Depois, um depois próximo… num número perto, eu paro sempre as contagens. Paro a canção! Canção, que por vezes, me faz acreditar no absolutismo destes números. Assegurando-me de que – para mim até é um desejo – não existem mais números. Até existem, mas são como os seres no mundo. Existem tantos que se tornam longínquos, inúteis e desinteressantes para os meus objectivos. Desirmano-os da minha mente. Sei, com certeza, que por lá estão, mas que não são satisfação nem acolhimento.
E continuo nos números! Os tais números na minha cabeça! A mergulharem e a rebolarem. Através da minha voz! Os números na minha mente. Os números na minha voz. Os números a serem números na minha mente e a serem números na minha voz. Sem conseguir vê-los, namoro-os!

Este é um sistema que me relaxa e que, apesar de serem sempre os mesmos sons, a sua utilização é sempre diferente. Os mesmos números. A sua utilização diferente. A novidade. Sistema que me proporciona tanto sentimentos basilares como inexperientes. Sentimentos e devaneios e coisas de pasmar.
Não é de espantar que eu, durante este ritualismo, não retire o olhar da lua e a lua não se repele de mim. Somos muito atentos entre nós. Nada se finca ao nosso redor. Eu e a lua preenchemos tudo. Eu e a lua só deixamos livres os espaços onde perduram as verdades e os gritos. Eu espio todo o meu corpo projectado no corpo da lua. Eu pairo atrás da janela e contra a lua. Eu sou uma absoluta verdade na janela do quarto! Sou uma absoluta verdade na lua! No mundo. No meu mundo. E no mundo de todos.
Por esta altura, estou a pensar nas minhas forças. Estou a recordar as minhas brincadeiras. Estou a recordar as minhas lutas. Também estou a pensar nos meus desejos. Estou a conviver com a minha vaidade. Mais… estou a acariciar a minha inteligência! Simplesmente, estou a reflectir na minha vida. O que tenho. O que consegui. É tudo delicioso, porém muito ainda me falta para concluir as delícias. Faltam-me mais quantidades de qualidade. Delícias como conquistas!

O meu desígnio é evoluir. Evoluir! Canalizar o que sou e canalizar os números em picos, em espadas. Espadas de energias. Quero ostentar as procuras e as consumações. E os meus instrumentos são os números, os rituais, os picos e as espadas de energias. Eu sou o vencedor e o perdedor. Eu sou a minha evolução!
Eu visto-me de negro. Todas as minhas vestes são negras. São lindas. São finas. São negras. São elegantes como o pano fixo que exibe a lua. As minhas vestes mostram-se misteriosas. As minhas vestes são aprazíveis. Protegem a minha pele e tudo o resto da agressividade dos olhares. As minhas vestes são úteis! Eu sei que os olhares que se dirigem a mim são olhares de crítica e de ofensa. São olhares de mediocridade e de espanto. Poucos são os olhares de fascínio e de agrado. E olhares brilhantes e de respeito. São poucos, estes. As vestes são úteis!

Eu tenho-me a mim próprio. Toda a capacidade de usufruir das abundâncias da vida é carne da minha carne. Eu preciso de mais vou, luto, perco, venço, venço e perco, venho, utilizo, aprendo, sugo. Eu preciso de mais! Eu vou! Eu luto! Eu perco! Eu venço! Eu venço! Eu perco! Eu venho! Eu utilizo! Eu aprendo! Eu sugo! Eu sou um homem. Eu sou um animal racional. Eu estou, unicamente, à minha espera para o ataque!
Fecho as janelas do quarto e saio do quarto. O quarto não é meu. Estou em mais um hotel. Estou! Pois, gosto de novidades, de ambientes desconhecidos, de mobílias e de paredes novas. Desci do quarto e encontrei-me com pessoas. Encontrei-me com olhares e encontrei-me com respirações. Balanço simpaticamente a cabeça a quem balança a cabeça simpaticamente a mim. Encontrei-me na recepção e paguei a utilização do quarto. No fim, recolhi os agradecimentos e as admirações do jovem em serviço. Recolhi a essência final do local. À saída! Eu recolhi os últimos sons daquele local.
Detive-me no passeio. Espantei-me. É uma noite especial, esta. Uma noite que é noite. Uma noite que não esquecerei. Alguma razão alicia-me, eu sei. Esta noite é perfeita. É muito boa. A noite. A noite em questão é o fenómeno da felicidade. A noite é minha. A felicidade será. Coloco-me em andamento. Percorri uma distância familiar para que frequentasse a agitação de um bar.

Tenho sede. Estou sedento. Gosto de beber, quando isso é um requinte. Assim como comer. Beber e comer sem aproveitar plenamente esses momentos é um palco que não me encanta. Gosto de beber. Gosto de comer. Gosto, com requinte. Com todas as razões, entrei no bar. Um bar famoso e agradável. Um bar que tem tudo aquilo que um bar tem. Porém, este bar é melhor que um bar. Dizem. Queria era entrar no bar. Entro nele e dezenas de olhares voam para mim. Olhares que são velas. Queimam as minhas vestes negras e derretem. Dezenas de olhares. Olhares que são olhares e não perfuram as minhas vestes. De atitude sedenta, com exactidão, pedi para que me servissem uma bebida. Interrogaram a minha pessoa. Aquilo que eu queria. Para mim, era um licor especial. Apenas um licor especial. Um licor eliminador de sede.

Após as palavras, dei passos. Sento-me isolado, perto de uma mesa larga. Nessa mesa estava uma gata encerrada numa caixa do seu tamanho. Eu olhava para a gata. Eu observava e não percebia o por quê do animal ali estar. No meu rosto alinham-se interrogações. Interrogações. Interesses. Pararam após. Pararam no instante em que perguntaram se eu queria tornar-me dono da bonita gata. Achei engraçada a abordagem. Eu nunca tive uma gata. Pensei e pensei. Os prós e contras. Pensei. Hum! Está na hora de ter uma gata. Aceitei. Aceitei, logo perguntando qual a razão de me oferecerem a gata. Contam-me que o dono a abandonou. O dono, ao que parece, era um idiota, que raramente tratava dela. As pessoas próximas do homem é que a alimentavam. As pessoas próximas. E a gata foi abandonada. A gata que teve um dono idiota. Certo dia, o homem decidiu viajar. Tomou a sua consciência. Decidiu, o homem, antes de viajar. O homem decidiu abandoná-la num local escondido e afastado.
Eu ouvia, e o meu cérebro e o meu corpo inteiro e os meus fluidos sentiam asco ao homem. Continuaram a história. Eu ouvia. Eu não conhecia o homem, mas sentia asco por ele. Continuaram a falar-me, as pessoas. O homem, após alguns minutos de largar a gata, fora dramaticamente atropelado. Um carro passara na zona. Velozmente. Um carro passou a grande velocidade. E o seu condutor distraíra-se na observação a um cão a apodrecer na estrada. O condutor observador não reparou no homem atravessando a estrada, fora do local indicado. O condutor observador não viu na estrada o homem, que abandonara a gata. Fora fatal. Fora um atropelamento exímio. A história terminou aqui. Vejo muitas pessoas comovidas, pensativas. Pessoas comovidas e pensativas no bar.

As pessoas deixaram-me tranquilo no meu canto, quando assim lhes pedi. Bebi o licor. Aos poucos bebi o licor. Com vontade. Com prazer. O licor que eu pedi. Uma vez por outra bebi goles em honra da minha gata. A minha gata que é bonita. Os olhos dela são enormes. Os olhos dela fitam-me com silêncio e com simpatia. Noto que não tem receio nem dúvidas em relação a mim. Nem tem de ter. A minha gata sentia-se tranquila. O licor esquartejou-me a sede. O licor especial. E a minha gata estava ali comigo. A minha gata bonita, de olhos grandes.


Na minha mente corre ardentemente sangue. E correm ardentemente impulsos nervosos, que me desenham e confirmam vontades. Seleccionei a vontade de sentir e de caminhar pela noite. E seleccionei mais qualquer coisa. Quero viver experiências poderosas, arriscadas. Experiências de arrebatar. E assim seria. Eu estava bem, mesmo. Terminado o meu tempo naquele bar, deixei o dinheiro certo sobre o tampo da mesa. A mesa estava vestida com um agradável tecido púrpura. A mesa em que eu me havia sentado. Pego na caixa da minha nova companheira. A minha gata. Saio do bar. Saímos do bar.

Cá fora há vento. Cá fora, na rua. A rua. Vento a passear por todo o lado. Por onde o vento quer. Vento cruzado. Cá fora há papéis a esvoaçarem. Cá fora há cabelos a voarem sem se desprenderem das cabeças a que pertencem. Cá fora há papéis e há cabelos. Na rua. Cá fora há a lua. A lua estava no céu. Enorme e a ser lua. Cumprimentou-me. A lua. Eu vim para a rua e na rua vi a lua. E a lua lançou-me ao rosto uma brisa sumarenta. Gosto desta brisa. Pisquei o olho ao astro feminino. Pisquei o olho à lua. E eu já sabia aonde ir. Na rua eu soube o que queria. Na rua onde há vento.
A minha gata soltara, entretanto, o seu primeiro miar. O primeiro miar que eu ouvi da minha gata. É um miar alegre. Pensemos, um miar de uma gata. Sorri nos olhos da criatura felina. Decidi não lhe colocar um nome. Era a minha gata. Chega isso. Percorri as ruas compridas. Eu e a minha gata. As ruas preenchidas. As ruas que se assemelham a nervos elásticos, mínimos, presos. Eu encontrei um hotel que desconhecia. Na recepção pedi um quarto. Um quarto com uma varanda espaçosa. No hotel eu pedi para que me arranjassem comida para a minha gata. Comida que a minha gata come. Comida e bebida agradáveis. Adquiri uns pacotes de comida para a minha gata, assim como um recipiente com areia própria para a minha gata. Tudo o que eu pedi, os empregados arranjaram-me. Pago aos empregados os favores. Subo ao quarto e vou para a varanda. Começa a chover na rua. Na varanda não chove e sente-se um tempo ameno. A caixa ficou vazia. Soltara a minha gata. Não interessa a existência da caixa. A minha gata está livre e está esfomeada. A minha gata comeu à sua inteira vontade, da forma que uma gata come. E bebeu água com fartura. A minha gata já não tinha nenhuma fome. A minha gata já não tinha nenhuma sede. A minha gata começou a correr e a brincar, das formas que uma gata corre e brinca. Brinquei durante uns largos minutos com ela e mimei-a. Eu estava contente. A minha gata estava contente. Arranjei-lhe um confortável nicho, quando vi que a minha gata queria adormecer. Afasto-me. Vejo que a minha gata se encontra contente. A minha gata ficou a dormir. Afasto-me. Desci para a recepção do hotel, onde depositei a chave do quarto. Depositei a chave no sítio onde se depositam as chaves de quartos de hotel. Antes de transpor a porta e calcar o passeio, vi uma senhora velha próxima de um vaso colorido. Na recepção do hotel. Vi uma senhora velha e fui ter com a senhora velha. Pergunto à senhora velha onde existe um cemitério. Quero ir a um cemitério!


O cemitério mais próximo fica a uns quinze minutos do hotel, sempre para norte. Agradeci à senhora velha a informação. Voltei à rua, então. Olho o céu. Admiro as pequenas estrelas. Olho o céu. O céu parecia-se com um manto de seda estrelado, que, se fosse possível, sensualmente assentaria num belo corpo de uma bela mulher. Admiro o céu e as estrelas. Ver-se-ia uma bela mulher enrolada num belo manto de seda estrelado. Uma bela mulher com o céu vestido. Continua uma brisa calma e refrescante. A brisa apalpa-me e desenrola-se em mim. A lua conta histórias às estrelas mais próximas e adormece-as. A lua e as suas histórias! A mim não me contavam histórias, porque eu não queria adormecer. Eu não queria histórias. Eu tomei o caminho planeado, caminhando alegremente. Caminhava. Eu caminhei. Caminhava e pensava no que ia fazer. Eu caminhava como eu caminhava. Eu pensava como eu pensava. Sensualismos. Eu pensei. A luxúria e a ternura tomaram de imediato o meu espírito e o meu corpo como os seus consortes. Todas as células. Todos os componentes do meu corpo. Tudo isto e tudo aquilo se debruçaram na luxúria. O meu corpo possuído! A luxúria! Tinha ela todo o protagonismo.

A rua por onde caminho é enorme. A rua é enorme! A rua e as ruas! Encontram-se vários negócios ao lado uns dos outros e defronte de outros. Nas ruas habitavam muitos negócios. Analisando. Eu analisei. No calendário anual víamos que era quase Natal. Aquele tempo de festa e de religião caseira. Esse tempo de festa e de religião caseira não é para mim. O Natal. Gosto apenas de alguma reunião familiar e das conversações sob o calor da lareira. Adoro conversar! Adoro conversar no tempo frio. Adoro conversar no tempo chuvoso. O tempo que faz na altura do Natal. Mas este ano está um tempo diferente. Diferente! Eu adoro conversar. Conversar e sob qualquer estado meteorológico. A conversar importam-me as pessoas com quem converso. As conversas importam. A rua e as lojas que eu vira importam às pessoas, que se importam com elas. As lojas. Estas lojas são exagerados pontos de concentração. Vários tipos de concentração. Concentração de pessoas! Concentração de produtos! Concentração de consumos! E concentração de fé natalícia! Fé natalícia? Sim! A fé natalícia que despeja balúrdios em carteiras das lojas. Uma rica fé! E lojas ricas. Os consumidores a queixarem-se. Os consumidores e as suas queixas! Queixam-se e a queixarem-se esbanjam dinheiro. Os consumidores compram coisas com um ouriço-cacheiro no ânus. Até lhes dói! Os vendedores a excitarem-se. Os vendedores e as suas excitações! Excitam-se e a excitarem-se vendem. Dominam os pobres e os ricos. E todos dizem gostar! Esta realidade é muito cómica. É uma cómica realidade. Esta realidade não é minha. É deles. A minha realidade é usufruir, como outro cidadão qualquer, deste tempo curto de descanso. Bem bom! Não me queixo. Excito-me e vivo.
Luzes, barulhinhos mecânicos, lâmpadas, decorações, animais abandonados. A rua continha isto. A rua continha mais. Continuei a andar. Andar. Andar. Andar. Luzes, barulhinhos mecânicos, lâmpadas, decorações, animais abandonados. Ao andar, observei uma pessoa que regressava a casa. Luzes. Outra que saía de casa. Barulhinhos mecânicos. Outra pessoa a olhar, o céu sentado, num banco pequeno e sujo. Lâmpadas. E observei um menino e uma menina, cada qual na sua janela, a pedirem pelos seus desejos. Decorações. Eu não estava na minha janela. Animais abandonados. Eu já não estava à janela. Eu estava na rua. Eu estava a andar e eu estava a desejar também. Eu desejava fazer sexo. Desejava fazer sexo. Eu caminhava. Andava. Na rua. O meu corpo respondia ao desejo. O meu corpo estava preparado para o desejo. O meu corpo estava preparado para o sexo. Interiormente, vi fragmentos e cenas de sexo. Vi prazeres e lufadas mentais de bem-estar. Felicidades e euforias! Cenas de sexo que eu já vivera. Eu vi. E eu senti calor. Senti muitas mais coisas, mas refiro só o calor. Calor! Calor! As minhas veias a pompearem-se. Tantas matérias. As minhas veias a ramificarem-se. Veias que apareciam de ventres de outras veias. As minhas veias. As minhas veias e tantas complexidades. Eu sentia calor! Eu sentia. Depois, eu reparei nos músculos. Depois, eu reparei nas carnes a brincarem. A pele a nadar!
Em gesto de informação, eu tenho um estado muito próprio: eu sofro de suores frios, até nas situações em que não se têm suores. Suores e suor frios! Eu sofro assim. E como agora me sinto nervoso e desejoso eu suo. Suores frios! Tremo! Ando a tremer. Eu tremo. Ando! Sinto calor e suo. Suo uns suores frios. E tremo muito. Tremo! Num dos passos que eu dou a tremer e a suar uns suores frios, confirmo satisfeito que o cemitério está a uns cem metros à minha frente. Apenas cem metros! E um pouquinho menos. O cemitério. O cemitério! Um simples cemitério, que é um local memorial, que as pessoas à noite não visitam. Um cemitério cultiva beleza e meiguice à/na criatura que eu sou. E então, como é natural, eu visito-o! À noite, que é quando ele tem mais tempo para mim. Durante o dia o cemitério não tem tempo para mim. O cemitério era largo e era preenchido e era um cemitério pouco iluminado. O cemitério era largo. O cemitério era preenchido. O cemitério era um cemitério pouco iluminado. Eu gostei. Gostei. E eu gosto de outras coisas mais. Eu gosto…! Gosto de coisas que ninguém sabe. Gosto de coisas. Eu gosto. Eu gostei…!

Parei na entrada. Totalmente parado. Estava. Parei. Na frente do cemitério. Parei na entrada. Não que estivesse bloqueada, mas para poder contemplar a imobilidade total. Na entrada, parei. O silêncio e o cheiro fúnebres. Eu, parado. O silêncio de cemitério. Eu, parado. O cheiro a cemitério. Eu, parado, a contemplar. O cheiro de terra. Eu, parado, a contemplar. O cheiro de velas esgotadas. Os cheiros. O cheiro de flores mortas. Eu, cheirando. O cheiro de lápides pálidas e frígidas. O cheiro de mortos enterrados. Os cheiros, eu, parado. Deixei, depois de longos minutos, a imobilidade. Movi-me. Penetro neste local! Penetrei no pavimento de cemitério! Nele não se encontrara mais ninguém vivo. Ninguém mais ali. Eu estava vivo! Os outros não! Outros não. Eu sim. E de resto, não mais criaturas. Sendo assim, toda esta, a simpatia do local é toda minha. Nem sinto nenhum medo ou pavor. Eu sinto simpatia. Aqui! O cemitério é tranquilizante. Também belo e solitário. É o cemitério. E jovem como eu! O cemitério jovem e invadido… esburacado.

Pensei. A certa altura imobilizei-me e pensei. Pensei, imobilizado. Eu estava num cemitério. À noite. Pensei claramente. Este meu gosto era para ser respeitado. Estar no cemitério. Estar a visitar o cemitério à noite. Pensei! Eu não fora ali para incomodar nada. Eu não fora ali para partir nada. Seria estúpido, isso. Não tinha razões, disso. Apenas fora ao cemitério para apreciá-lo. Devem respeitar-me. Exijo respeito!
Esta harmonia. No cemitério. Este convívio com o cemitério. No cemitério, eu. E esta quietação! Percorri e visitei minuciosamente o cemitério. Minuciosamente. Apreciei todas e mais algumas coisas. Todas e mais algumas coisas visitei. Todas e mais algumas coisas, que são próprias de cemitérios. De cemitérios bonitos. De cemitérios. Próprias. Coisas próprias. Visitei-as e vi-as. Vi-as. Visitei-as.
Nas visitas, nas vistas, eu ri. Ri ri ri ri. Eu ri ri ri. Eu ri muito! Sabe-se que as pessoas debaixo do cemitério, nos seus abismos de terra e pedra, pagaram muito dinheiro para ali se deitarem. Deitarem-se nos buracos. Para isso pagaram. Muito dinheiro. Dinheiro que ficou sobre a terra. Dinheiro longe delas. Pessoas que ficaram sob a terra. Pessoas que não são pessoas vivas. Pessoas que não pagaram nada. Pagaram por elas. Dinheiro… muito! O quanto vale um buraco.
Eu comecei a visitar cemitérios há oceanos de dias. Tempo recuado. Nos primeiros dias visitava cemitérios. Eu visitava cemitérios que não voltara a visitar. Há oceanos de dias. Há rios de lembranças…! Eu visitei uma única vez, cada um dos cemitérios, desde os primeiros dias em que comecei a visitar cemitérios. Eu pouco me recordo deles. Eu pouco me recordo dos cemitérios que visitei só uma vez. Uma vez cada. Eu não sei dizer qual foi o cemitério mais bonito. O cemitério mais bonito que visitei. Não sei! Já visitara muitos. E aquilo que eu queria… uma imaginação… era tornar aqueles cemitérios que eu visitei num cemitério só. Um só cemitério. Seria o mais bonito e ordenado. Seria o cemitério mais bonito e ordenado! Bonito. Ordenado. Mesmo como eu gosto que sejam… os cemitérios e os não-cemitérios. Depois da realização, ninguém desconfiaria que eu tinha juntado muitos cemitérios. Ninguém desconfiaria que eu tinha visitado muitos cemitérios. Se desconfiassem, tudo bem. Nem frio nem quente.

Por estar agora num cemitério chega-me a sensação de calmaria, de moleza. Moleza. Calmaria. Chegaram-me. E a vontade sexual fugiu. Eu já não estava preparado para fazer sexo. Eu não sentia desejo. A vontade sexual fugiu, por eu ter visitado mais um cemitério. Fugiu. Fugiu da forma como ela foge. Fugiu, a vontade fugiu, tal como se sabe. Eu não a notei mais ali. A vontade sexual… dentro de mim. Eu não a notava. Eu visito mais um cemitério e a vontade sexual fugiu. No cemitério penso. Na vontade, no desejo, penso. Pensei no seu desaparecimento. Concentrei-me, porque a vontade desapareceu. Eu pensei, porém pensar não a fez aparecer. Eu concentrado! A vontade ausente! Mas eu devo ter pensado, mas sem pensar da forma, que se deve pensar para, que a vontade de fazer sexo, apareça! O cemitério não queria que eu a redescobrisse com os meus pensamentos. O cemitério não queria isso. O cemitério queria que eu pensasse nele. O cemitério não queria que eu pensasse sem ser nele. O cemitério tinha ciúmes, o cemitério. Por isso ou sem isso eu não redescobri a vontade sexual. O cemitério era ciumento. E queria ser a minha vontade. Até que… o cemitério terminou! Andei pelo cemitério até que terminou. Terminara o cemitério. Eu estive perto dos muros que me mostraram o fim do cemitério. Eu estive pertinho deles. Eu estou próximo do fim do cemitério. E estou a olhar para ele…! É o fim do cemitério. O cemitério ciumento, aonde pensei. Eu não tenho mais tempo para aqui ficar. No cemitério. Esquecendo-o, para além do cemitério, a igreja erguia-se. A igreja. Grande e igual a outras igrejas, talvez, erguia-se a igreja!
As pessoas que compraram e habitam os buracos do cemitério passaram uns ensejos antes na igreja. Não se lembram, mas passaram. As pessoas agora mortas foram à igreja. Vieram para o cemitério. Eu sairia do cemitério. Quero passar na igreja! A igreja que eu vejo. A igreja que está ali perto. A igreja reconstruída recentemente. A igreja. O casulo religioso.


Estávamos a meio da madrugada. A lua cantava. Eu ouvia-a tão bem como se ouvisse os meus gritos no meu interior. A lua. Cantava pelos seus raios tenazes e amarelados. Os raios que a lua entorna. As sinfonias lunares! O seu brilho projectado! A lua de vidro astronómico e celestial. A lua! Este corpo cantava. Este corpo no firmamento sorriu para mim. E eu senti o sorriso dela. O sorriso da lua. Senti-o. E sorri para ela! O sorriso da lua fora energético. O meu sorriso fora entusiástico. O sorriso da lua fora energético. Vigoroso. O sorriso da lua é assim! O sorriso da lua fora energético. Vigoroso.





Com o sorriso da lua eu descobri a brecha. A brecha na qual a minha vontade sexual tombou. Descobri-a com a iluminada ajuda da lua. O seu sorriso! Descobri-a. Descobri dentro de mim o local onde estava a vontade. Todo o meu interior era vontade. Eu descobri a minha vontade! Todo o meu exterior era vontade. Descobri a vontade sexual. Arfei. Sussurrei calor. Vocifero calor. Arfo. Sinto-me majestoso e olho a igreja como outras pessoas a olharam. Olhara a igreja. Olhara. Olhava! Mas eu olho a igreja de um modo sensual. Olho-a de um outro modo. Olho-a do meu modo, de um modo diferente; olho eu a igreja! Eu sabia o que ela tinha para mim. O que tinha para mim a igreja. Eu sabia. Eu sei! Sei que vou gostar de entrar nela. Entrar na igreja… vamos! A igreja encerrava os elementos e a causa. A igreja encerrava os elementos. A igreja encerrava a causa. Os elementos e a causa para a minha fausta concretização daquela noite!

Havia um caminho em terra batida para alcançar a igreja, mas eu estava parado. E tudo era pouco iluminado. Pouco iluminado. E eu sei que não preciso de mais luz do que esta luz. Eu saí do cemitério pelo caminho que eu calcara para entrar. Eu sabia que todos saímos por onde entrámos. O caminho em terra batida era mesmo um caminho em terra batida. Rapidamente o meu calçado ganhou terra. Terra na sola e na biqueira do meu calçado. Terra no calçado. Então eu pude ver pequenas porções de areias e pequenas porções de pós de terra a esvoaçarem à minha passagem. Porções de areias. Porções de pós de terra. Até caírem.
Alguns segundos passam. Passam segundos e eu chego lá. Deparo-me a dois metros da entrada da igreja. Como estivera anteriormente a olhá-la, eu já entendera a sua beleza. Entendera a sua beleza antes. Eu já entendera a sua arquitectura exemplar. Entendera a sua arquitectura exemplar antes. Eu gostei daquela construção. A porta de entrada da igreja é uma porta de entrada azul-acinzentada. A porta é grande. É uma porta grande. Uma porta! O dobro do meu tamanho. Não sei de quantas vezes é a minha largura! Uma porta pesada e intransponível. Existem santos e estátuas religiosas espalhados ao longo da grandeza da porta. Espalhados ao seu redor. Quero vê-la por dentro. Quero ver a igreja por dentro. Ver o seu interior! Ver tudo aquilo que esta contem! E finalmente experimentar o que me apetece!
De seguida, bati à porta. Bati à porta. Eu bati! Pum pum! Pum pum pum! Pumpumpumm! E esperei. Ainda pude ouvir os sons da minha mão a bater na porta de entrada da igreja a desvanecerem-se. Batera à porta. Segundos depois a porta deslizou suave, e também, divinamente, diriam uns. Eu aguardava. Aguardava o ensejo de ver o rosto de quem me abrira a porta. Eu aguardei a normalidade de ver o rosto do padre. Um padre, naturalmente, um padre. O padre? Seria? Fora? Não. Não é o padre. Não! Quem me abre a porta não é o padre. Não é ele. Mas nada mais em concreto há na minha visão! Nada era absoluto. Escuridade. Luz fraca. Silhueta incerta. Tudo: pouco lúcido. Até que vi um rosto. Vi o rosto! Até que vi uma pessoa. Vi uma pessoa! É uma freira. Uma freira jovem. A freira abria-me a porta. Essa pessoa que eu vi: a freira. Bonita. É a freira. Melancólica. É a freira. Enfiada no seu trajo de freira. A freira. Tem olhos graciosos e aliciantes e que não pertenciam a mais ninguém… senão a si mesma. Assim era a pessoa que me abriu a porta da igreja!

Eu cumprimentei a freira com palavras de cumprimento. E a freira cumprimentou-me com as mesmíssimas palavras. Eu sorri. A freira não sorriu. Não sorria. A freira não sorria. A freira era cínica, mas não sorria. Por entre palavras e cinismos, a freira perguntou-me o que é que eu desejava. Não importa o que eu disse. Importa? Respondi ao quesito da freira. Eu fui persuasivo. Trocaram-se prosas por minutos e no fim eu entrei. Eu entrava na igreja. A freira, pois, convidou-me a entrar na igreja! Eu ouvi a porta a fechar-se. Um propagado som de uma pesada porta a fechar-se. Estava… estive no interior da igreja. Igreja formosa. Um local magnífico. Um lindo vislumbre. A igreja. Apenas a sua beleza pura era bela! A arte. A arquitectura. O carácter e o mundo aos quais a igreja pertence não me interessam minimamente! A igreja era um edifício para eu notar. Observar e conhecer. A freira conversou comigo acerca de tudo o que eu via. A freira falou-me sobre muita coisa. Eu ouvia a freira. Eu escuto os conhecimentos da freira com respeitadora tranquilidade. A freira silenciou-se. Perguntei-lhe pelo padre. A freira pensou. O padre encontrava-se doente. O padre estava a repousar em sua casa. Na sua casa próxima da igreja. Eu vi mais coisas. Eu ouvi a freira a falar e a filosofar mais coisas. Não se cansa. Fala meigamente. A freira fala...! Eu discordo das filosofias da freira. Eu respeito a freira e eu gosto de ouvir a freira falar. Momentos à frente, eu falo dos meus pontos de vista à freira. Perguntou-me sobre as minhas filosofias. Os meus prismas e os meus entendimentos. Passámos um grande tempo a dialogar… o que não foi desagradável. A freira respeita-me e admira-me. Esconde-me certas coisas.
Os meus olhos não esconderam a alegria e a tentação que as vestes de freira da freira me despertaram. Os meus olhos não esconderam a tentação pela mulher que era freira. Eu queria a freira. Mais do que a adrenalina, eu queria a freira. A freira parecia desconfiada. Afastava-se e disfarçava. A freira parecia tentada! A freira aproximava-se. Afastava-se e disfarçava. A freira disfarçava. O meu instinto animal e o instinto animal da freira agitavam-se. Os nossos instintos desejavam-se. Queriam sair, aparecer! Naturalmente, agitaram-se. Loucamente, agitaram-se. Eu e a freira: abanadores e lareiras!


O meu corpo estava preparado. A minha vontade respondia. O meu corpo e mente apelavam manipular o corpo e mente da freira. Invadi-los! Só que a freira tinha receio. A freira sentia desejo. Sentia desejo e tinha receio. Sentia calor. A freira admiradíssima com aquilo tudo…! A freira sentia-se a pecar! O corpo da freira e as suas crenças lutavam entre si! Eu no olhar da freira via tudo. A freira não parecia uma freira. Eu sabia que aquela mulher era uma freira. Sabia isso e isso provocava-me! Tornara-se um fetiche. A freira é uma mulher atraente e carente. Uma mulher obrigada. Uma mulher vedada. Uma freira. Engraçado e delirante! A freira é uma mulher vedada pela religião e pelos pais, que lhe destroem a inteligência. Destroem-lhe as necessidades. A religião e os pais destroem-lhe os prazeres humanos. Eu quero ultrapassar a vedação da freira! Os seus bloqueios. Eu quero possuir e divertir-me com a freira!

A freira era uma freira que tinha vergonha daquilo que precisava fazer. A freira era uma freira que tinha vergonha daquilo que queria fazer. Eu caminhei para a freira. Os meus braços rapidamente agarraram a freira, docemente. Os meus braços a envolverem o corpo da freira. Os meus braços na freira. O calor dos meus braços sobre o frio do corpo da freira. Os braços frios da freira. O meu calor e o frio da freira. A freira queria tudo; menos fugir. Queria opor-se a tudo o que conhecia. A freira estava a ser o que era: nenhuma freira. Nenhuma freira! Hipocritamente, a freira lançou-me trepidações e olhares de negação. Destoou, mas…! A freira queria tudo; menos fugir. Os olhares da freira eram olhares de quem recusa alguma coisa. Por segundos disfarçou. Por uns segundos mais curtos do que os segundos são. Ajustou e…! Eu sabia que se nesse momento largasse a freira e me precipitasse a sair da igreja, a freira correria a apanhar-me. Correria como jamais havia corrido. Buscar-me-ia. Todavia, não me importava fugir. Não fiz isso. Continuei agarrado à freira. Insisti em tomar a freira. Entretanto, a freira disse-me que era tudo o que queria. Eu era aquilo que a freira queria e precisava. A freira necessitava de se sentir mulher. A freira queria um homem. A freira queria sentir força, libertação e luxúria. Força. Libertação. Luxúria. Nada mais importava à freira.
Portanto, eu necessitava de ter a freira. Fazer a freira ver uma majestosa união. Atingir o que me apetecia. Eu tinha uma vontade obstinada. O desejo de possuir uma freira. O desejo de enlouquecer com orgasmos dentro da igreja e de experimentar ousadia e risco arrebatava-me. Estávamos desejosos um do outro. Não necessitámos de um desenho. Despimos as roupas. A freira despiu as minhas roupas. Eu despi as roupas da freira. Transpirávamos como se manteiga fosse a nossa pele. Transpirávamos como se a nossa pele fosse manteiga. A respiração aflita. O corpo aflito. Os corpos aflitos e inflamados. As respirações aflitas e os batimentos cardíacos surpreendentes. Entregámo-nos entranhadamente.

Corremos para o altar. Corremos para o altar exaltados em carícias. Fulgor. Desvario. Dois seres em simultânea perdição corporal. Carícias de diversos teores. Atirámos para o chão os objectos religiosos do altar. Carícias e loucuras. Suores e sensações. Eu explorava o corpo da freira. Não me lembro de ter explorado alguma coisa de maneira tão detalhada. A freira sentia-se completamente indefesa e completamente deliciada. Apetites salientes! Largávamos segredos e fluidos saíam de nós. Eu deitei-me sobre aquela mulher. No meio dela. Deitei-me com a freira. Eu possuí a freira. Eu possuí a freira, que já não tinha vestes de freira. Uma mulher despida e voluptuosa. Assim era! Com vários ritmos. Com várias formas. Com várias variedades. Sexo foi! Fizemos sexo durante muito tempo. E durante esse muito tempo, o meu sexo era o deus da freira! A freira, aquela bela mulher, tinha descoberto o seu deus. Tinha encontrado e compreendido um deus que lhe garante felicidade! Eu notava a novidade. A freira notava a novidade. Depravada e deleitosamente. O deus da freira estava dentro dela! Bem dentro dela! E, assim, no meu corpo a freira comungou e no meu sexo a freira rezou. Vice-versa. Sem sacrifícios nem obediências compulsivas. Sem tédios, sem regras. Apenas prazer. Apenas realização. Apenas energia. Apenas vontade própria. Liberdade! Apenas naturalidade construtiva.
A freira adorou o seu novo deus. A freira fez dele o que quis! A freira teve dele o que quis! A freira teve-me e eu fui a sua felicidade. A freira foi a minha fonte de energias. O meu ritual frenético. A novidade que eu tanto procurava. A freira foi a minha mais recente concretização! A freira encheu-me de conhecimento, de evoluções e de harmonia. Eu cumpri e angariei frutos de objectivos. Não querendo pasmar ninguém, eu e a freira repetimos a relação sexual uma vez e outra e outra. E mais uma outra e uma última vez. Afinal, o sexo da freira era um lugar, um trono, um templo voluptuoso. Quente. Anestesiante. Deveras aprazível! Manipulador… como uma deusa pode ser! Eu, frenético no bem-estar. A freira, embriagada no prazer. E após as realidades… depois parámos. Pois!

Separámos os nossos corpos. Separámos os nossos olhares. Os nossos olhares, de alguma maneira, predatórios. Eu comecei a vestir-me. Tornei a proteger o meu corpo com as minhas vestes negras. Eu vesti-me. Vesti todas as minhas roupas. As minhas roupas, que estavam dispersas pelo chão da igreja. Eu vesti-me! Vesti-me, porque queria regressar ao hotel. Voltar para o hotel. Eu tinha ido até ao ponto desejado. E até ao ponto desejado eu queria ir, novamente! Regressar ao hotel. Eu quero sair dali, eu quero regressar. E eu queria ver o nascer do dia. Sentir e estar presente; ao nascer do dia. Felicitar-me com a aurora daquela manhã. Assistir romanticamente ao seu nascimento. Eu queria deslumbrar a beleza da aurora. Alvejar-me com a sua energia. Com a sua grandeza. Com o seu suborno. Com a sua magia e condição. Eu queria fitar a aurora daquela manhã. A aurora, que me fazia sentir renovado e satisfeito. A aurora que expira luz recém-nascida e salpicos químicos.
A freira ficou deitada no altar! Ficou onde tinha ficado. A freira permaneceu onde teve os seus orgasmos de freira. Os seus orgasmos femininos. A freira não tinha reacções bruscas. A freira não queria sair dali. A freira arrepiava-se. Estava conquistada. Estava anestesiada. A freira ainda acedia aos espasmos. Ainda incendiava. Eu agradeci de alguma maneira, lisonjeado, à freira pela nossa acção. Pela nossa diversão demente e fascinante. Eu despedi-me da freira. A freira não se conhecia a si mesma. A freira sentia-se desviada de tudo. Sentia-se acima das coisas. Para além delas. A freira sabia que todo o seu ser era prazer! A freira tocava nos seus próprios dedos e sentia prazer. Tocava nos seus cabelos: prazer! Tocava nos seus seios: prazer! Tocava nas suas pernas: prazer! Tocava no seu sexo, tremia…: prazer! A freira sentia-se como fogo diluído, superabundante e concentradamente dilatado. A freira sentia-se bem! Respirava e emanava prazer. A freira estava bem. A freira era o prazer puro. O puro prazer. A freira era o prazer!
A minha hora chegara. Eu virei costas. Sairia da igreja. O meu tempo na igreja terminava. Regozijei-me entre as paredes! Aquelas paredes que assistiram a tudo. Aquelas paredes que assistem a tudo. Eu comecei a assobiar. Ri confiante. Ri alto. Alto. Na presença destes sons haviam ecos. Ecos. Corriam para imitarem os sons. Tudo ali na igreja ecoava. Ecos! Os ecos são umas criaturas confidenciais que se divertem com todos nós. Brincam, os ecos! Tudo o que na igreja se cria faz eco. Guia ecos! Eu ouvi uma porta a abrir-se. O eco da porta a abrir-se. Eu ouvi uma porta atrás de mim a abrir-se. Ouvi essa mesma porta a fechar-se, de seguida. O eco da porta a fechar-se. A porta que se tinha aberto fechou-se. E eu concentrei-me. Respirei profundamente. O teatro na igreja ganhara mais uma personagem! Uma personagem que entrou mesmo há instantes. Eu então olhei para o que existia atrás de mim. E vi tudo o que sempre lá tinha estado. E vi mais! O padre tinha aparecido. O padre apareceu na igreja. O padre observava o altar. Observava o altar e observava a freira. O altar e a freira. O padre viu tudo! O padre sentia-se melhor e foi à igreja para rezar. Entrou na igreja, pois já se sente melhor. O padre foi à igreja por isso.
Fora uma daquelas visões únicas… com certeza, que fora uma visão excepcional. O padre estava paralisado. Por aquilo que viu. Paralisado! O padre estava petrificado. Por aquilo que encontrou. Petrificado! O padre estava abalado. Por aquilo que vê, por aquilo que encontrou. Abalado! Sem noções! O padre tinha as suas reacções plenamente confundidas! O padre. Aquele padre sonhava todas as noites com aquela freira. Aquele padre confundido, sem noções, abalado, petrificado e paralisado, sonhava com aquela freira! O padre sonhava. Sonhava com aquela freira. Sonhava com aquela freira imóvel e despida para ele. O padre sonhava com aquela freira inflamada. Os sonhos do padre eram estes. Os sonhos do padre eram a realidade naquela igreja! A sua igreja era a exactidão da sua depravação. O padre caíra de joelhos.

O padre, que sonhava com a freira que está despida e deitada no altar, caiu de joelhos. Caiu de joelhos! O padre caiu de joelhos sobre um tapete. Caiu de joelhos… e um som seco e rígido faz-se ouvir pela igreja, com ecos secos e rígidos. O padre caído! A freira deitada! O padre sente-se totalmente excitado e totalmente repugnado. O padre é um padre que se sente totalmente excitado. O padre é um padre que se sente totalmente repugnado. E o padre chorou. Chorou como um padre chora. O padre chorou ali, distante de mim. O padre chorou como um padre chora. E o padre chorou até lhe doer. Chorou… chorou! Mas a freira ria. A freira, que estava deitada no altar. A freira com quem eu me enrolei loucamente. A freira, que pela primeira vez na sua vida estava feliz. A freira ria! O prazer ri! O padre chorava! A fé chora! Uma mistura de sensações. Era isso! O mundo, uma miscelânea. E eu… eu saí da igreja.


Em segundos, cheguei à rua principal. O meu corpo era feliz. A minha mente palpitante, abundantemente vívida. Era aquele um momento excepcional. O meu ser pertencia ao mundo. O meu ser era maior do que o mundo. O mundo era as pernas do meu ser. Eu estava feliz. Apaixonado por mim mesmo. Apaixonava-me pela inocência. Pela perversidade. Pela alegria. Pelo prazer. Pela frustração. Pela sensualidade. Pelo charme. Pelo desejo. Pela queda. Pelo vício. Pelo pecado. Pela graça. Pelo sabor. Pelo odor. Pela intelectualidade. Pelo impulsionamento. Eu apaixonava-me pela tortura. Pela harmonia. Pela capacidade. Pela futilidade. Eu apaixonava-me pela diversidade. Pela novidade. Pela natureza. Franca e indistintamente, aquilo que aplicava em mim um efeito tinha a minha atenção. Eu apaixonava-me precocemente. Estaria em controvérsia? Eu estaria a ser estranho e a inventar e a confundir! A sabedoria e a loucura dentro de mim eram os autores da combustão dos efeitos do meu universo. Universo parcial e total. Apesar de eu ser uma areia ao lado do tamanho do cosmos, a minha supremacia humana era uma lança de longos metros no pescoço do Espaço. A lança representativa de um tamanho interior assaz prodigioso. Eu uma areia, mas uma areia aspergida de especialidades.

Era ainda de noite. Que júbilo isto me injectava! Eu queria a noite e eu ainda tinha a noite. A noite descia para o seu abrigo, mas ainda era de noite. A lua estava mais tímida. Não havia vento algum. O vento tinha ido para outros lugares. Outros lugares para os quais vai o vento, depois de sair daqui. O vento gostava desses lugares e ia lá. O vento sumiu-se! Não havia vento algum e a lua estava mais tímida. O nevoeiro alindava o mundo! Há nevoeiro pelos cantos e há nevoeiro pelos espaços do mundo. Eu vi que existia nevoeiro àquela hora. Nevoeiro belo. Nevoeiro misterioso. Nevoeiro humedecido. Nevoeiro que tapava um pouco as coisas. Nevoeiro que alindava muito as coisas. Existe nevoeiro. E a noite começa a descer para o seu abrigo. Mas ainda é de noite e há nevoeiro. Eu idolatro o nevoeiro. Apetece-me apalpá-lo inteiramente. Vestir-me com ele e perceber os seus comprimentos e as suas origens. Eu caminho através do nevoeiro. Eu gostava de viver numa casa onde o nevoeiro existisse sempre. Acho tão encantador. E nele avanço pelas ruas. As coisas que eu vejo parecem diferentes, pois estão a dormir. E eu deambulava. Eu dirigia-me ao hotel. Eu regressava ao hotel. Regressei ao hotel. Eu subi as escadas que sobem para os quartos. As escadas que me levam onde quero. Subi ao quarto. Eu entrei no quarto. Na varanda, a minha gata acordou. Acordou e fitou-me. A minha gata esperava-me. Espreguiçou-se. Miou. Miou. Espreguiçou-se. Eu, quando lhe lancei sorrisos, agarrei-a. Agarrei na minha gata. Era uma gata quente e muito calma nos meus braços. Bonita e que cheirava apenas a gata. Saímos do quarto. Tranquei mais uma vez aquele quarto. Deixámos para trás o quarto do hotel. Descemos à recepção. Saímos do hotel. Mais uma vez nas ruas…! Eu e a minha gata nas ruas. Caminhando por uma rua. Andando por outra rua. Procurámos um jardim. Encontrámos um jardim. O nevoeiro permitiu-nos alcançar com rapidez um jardim. Tudo nos levava ao jardim. Um jardim viçoso e inspirador. Viçoso! Inspirador! Um jardim que nos inspira. Eu sentei-me com a minha gata ao colo. Queria ver o nascer do dia. Eu queria ver a aurora daquela manhã! A aurora já gritava suavemente. Forçou-me a olhar para ela. Eu gosto que a aurora me force a olhar para ela. Eu olho-a. A aurora nascia. Aparecia bem produzida.

Arranjada e realista. Eu contemplo a aurora…! Eu contemplo a aurora, hoje alterada. Estou sereno e interessadíssimo. A minha gata fora convencida a olhar para a aurora. A minha gata olha-a. Observa e destaca aquele acontecimento airoso. A aurora nascia. Eu e a minha gata estamos interessadíssimos e conquistados neste ensejo matinal. É neste ensejo que ainda sentimos o frio delicado da noite e a ambígua lividez da lua. Que sentimos, juntamente, a febre truncada do dia e a tintura do sol. Eu e a minha gata contemplámos a morte de um e o nascimento de um outro. Contemplámos a morte do astro lunar e o nascimento do astro solar. Eu e a minha gata contemplámos a morte da noite e o nascimento do dia. Sentindo as suas especiais atmosferas! O sol subia! Aparecia progressivamente. Eu vi-o. Eu concentrei-me depois, de olhos fechados. Fiz uma introspecção. Eu recordava os momentos da noite passada. Desde o primeiro acontecimento ao último. Recordei até ao acontecimento presente. Com gosto! A minha gata estava ao meu colo. Ronronava, olhando tudo o que o dia trazia. O nevoeiro desmaiou! O nevoeiro começou a desaparecer. A dispersar-se. O nevoeiro começou a ser sugado pelo céu. O céu guardava o nevoeiro. O nevoeiro começou a ser sugado pela terra. A terra guardava o nevoeiro.

A minha gata ronronava e olhava tudo o que o dia trazia. O dia trouxe torpor. O jardim agitou-se estranhamente. Ondulou com os seus membros e enervou-se. O jardim atingiu-nos com golpes na cabeça. Eu desmaiei! A minha gata desmaiou! O jardim levou-nos ao desmaio. O jardim surpreendeu-nos. Desmaiamos para guardarmos tudo aquilo que sabemos, fazemos e somos. Repentinamente, perdemo-nos do jardim. O desmaio penetrou-nos. O jardim ardeu nas nossas pálpebras desmaiadas.