22:04h
Sei que o mundo é bonito, mas neste momento sei que apenas o gelo o será...
Ivo. Apesar do nome curto que tenho, a forma perigosa de ter vivido a minha vida de curto nada teve. Ivo, nome de um homem de experiências fartas, nome de viajante terrestre decadente. Virtualmente, digo que fui um conjunto de irritações, exageros, hilariantes posturas pouco racionais. Veemente, digo que sou um humano que soube viver perturbadamente, a perturbar, e que colheu espontaneamente surpresas que o mundo nunca vira.
Aqui, no chão que reveste a textura das minhas calças sentadas, o frio enche-me os poros, porque este frio da Dinamarca não é uma seda que faça parte do meu código genético. O monte alto e gelado dinamarquês que subi, através da fúria que o whisky liberta dentro de mim, proporciona-me uma vista deslumbrante sobre a calmaria das pessoas que não vejo ou conheço. No cimo deste monte de gelo, largo os tempos que fizeram mudar as minhas cartas de baralho que manipulava no mundo. As revelações sobre/na repulsa.
Houve uma altura em que era Sábado e eu saí à noite, a um bar qualquer nas redondezas, para divertir-me e descomprimir de outra semana de muitos trabalhos, esforços e também náuseas. Sentei-me ao balcão, perto de uma mulher sensual e de aparente faixa etária menor do que a minha. Pedi o costume: whisky. Velho. Uma pedra de gelo pequena.
Consumo whisky quase como quem, depressivamente, bebe chá no tempo de uma gripe. O ritmo de ingestão compassada mas veemente. A par dos invisíveis segundos, funguei e passei o nariz pela manga do meu fato de Sábado, deixando obviamente marcas de líquido nasal, para de seguida dar o primeiro gole no néctar levemente acastanhado. Foi um barulho de satisfação que emiti, no fim do gole. A mulher ao meu lado riu. Lamentou não sei bem o quê com os seus lábios finos, mas continuou o namoro com a sua bebida: um cocktail de frutos silvestres, penso eu.
Momentos mais tarde, avancei um pouco mais para a mulher e ofereci-me para lhe pagar um copo, um whisky igual ao que eu bebia. Ela acedeu calma e desinteressadamente. Enquanto bebíamos e brindávamos às guerras que fizeram o mundo ser aquilo que hoje ele é, começando pela guerra entre forças, energias e compostos do Big Bang até à Segunda Guerra Mundial, os meus discursos cativavam a mulher, à qual nunca perguntei o nome, mas perante a qual me fiz passar por um ricaço, herdeiro de um casal de abastados bancários.
À medida que eu ia entendendo o ritmo das coisas, ela seria a minha presa sexual naquela noite. Bebi dez whiskys e, escusado será mostrar que, vomitei todo o balcão do bar, tal-qualmente três clientes e os meus sapatos. Foi quase numa tempestade de apupos que saí do bar, arrastando a mulher, ainda a terminar o seu whisky…
Violentamente, saindo do carro ainda com os sapatos vomitados, puxei a mulher motel adentro e o responsável deu-me a chave do quarto, que normalmente usava para os meus entretenimentos semelhantes. O quarto ficou iluminado com uma luz vermelha muito viva. Abusei promiscuamente do corpo da mulher, que foi um objecto obstinado na minha mão, e quanto mais eu lhe dava prazer, mais ela me irritava. Decidi morder-lhe a orelha direita, mas mal ela gemeu cortei-lhe a orelha selvaticamente. No instante seguinte, senti o orgasmo a caminho do meu corpo e mente e não bloqueei a intensidade até ejacular finalmente bem no núcleo da ferida imensa e fresca acima do pescoço da mulher. Enfiei o meu sexo rijo, com resquícios de sangue e saliva com whisky, na boca da mulher para prontamente vê-la a desfalecer. A cena imprópria não demorou largos minutos, mas pôs-me de rastos e só serviu para agravar a minha habitual dor de costas, que já perdurava dias afinco. Pagando uma simpatiquíssima quantia de dinheiro, pedi ao responsável do motel para se livrar do corpo da mulher. Não perdemos muito tempo com palavras e deitei-me para procurar eliminar as minhas dores, apagando tudo da minha mente. Novamente…
Na manhã seguinte, tentei arranjar uma consulta no meu médico. A maldita dor de costas estava a ser um problema demasiado extensivo. Apesar de me ter preocupado com o meu estado de saúde, estava ainda muito atordoado da anterior noite mal dormida, logo foi sem espanto que pisei algumas pessoas que estavam na sala de espera da clínica. Sem pedir desculpas a ninguém, insisti com a secretária para que me arranjasse uma consulta urgente naquela manhã. Assim fez. Sentei-me mais relaxado e arrotei ao efeito dos whiskys.
O meu médico era um homem lúcido, proveniente de uma família de sucesso na vida e com filhos talentosos. Após me ter inquirido sobre aquilo pelo qual me queixava, fazendo conversa acerca do meu estado de saúde, agitou distintamente a cabeça como se compreendesse todo o meu interior e perguntou-me se eu aceitava whisky. Fiquei à toa. Era uma pergunta demasiado insólita para aquela altura e aquele lugar… porém, respondi-lhe que aceitava. Por ter vindo a saber que eu andava com esta dor de costas, mas também febres ao princípio das noites, febres muito altas, o meu médico receitou-me um velho whisky dinamarquês, o qual continha um ingrediente como que medicinal que actuava nas zonas lombares; não só mas principalmente. Era um whisky raro, segundo ele, que apenas os bons apreciadores extraíam todo o proveito dele. Fui para casa beber o whisky. Resultados posteriores: a minha vida mudou radicalmente, porque as febres começaram a transformar-se em visões sobre o mundo, sobre curas e fórmulas para extinguir doenças. O meu cérebro esmagava-se dentro da minha cabeça e sempre que o sentia a contorcer-se de forma desconhecida, espontaneamente eu pensava em fórmulas científicas, com as quais pude entender todo o mundo da medicina, da física, da química e da biologia. O calor dentro de mim era esgotante. As minhas mãos passavam para o papel essas fórmulas, como se isso fosse a única coisa que verdadeiramente sabia fazer…
Em poucos dias, as paredes da minha sala de estar estavam riscadas com as fórmulas. Chamei o meu médico a minha casa e ele encarregou-se de chamar uns investigadores de elite para aplicarem o que eu escrevi e soube. As fórmulas que eu visionava quando bebia do whisky serviriam para destruir evoluções de cancros, para curar a sida, bem como outras doenças do mundo poderiam ser apagadas rapidamente. Era disso que eu sabia, tal como os investigadores vieram a perceber depois de lerem o que eu escrevi.
Como é que tinha eu conseguido aquelas fórmulas? Eram tão perfeitamente certas que pareciam surreais, comentavam os investigadores. Antes de proliferarem as fórmulas e métodos de vacinação pelo mundo, o meu médico ofereceu do whisky a todos nós na sala e de imediato brindámos à saúde perfeita do Homem! O whisky produziu embriaguez no médico e nos seus investigadores amigos, todavia em mim acentuou a noção de que tudo o que eu sabia era absoluto e que os pensamentos não paravam de me assaltar, bombeando visões do efeito das minhas fórmulas.
Houve, no acto seguinte, um tempo cinzento em que nada aconteceu. Os investigadores escreveram-me só passado um mês. Tinham iniciado aplicações reais das minhas fórmulas num grupo extenso de doentes de sida e cancro. Todos recuperaram 80% da sua integridade. A comunicação social começou a dar a conhecer os avanços feitos na medicina, que um estranho tinha descoberto, estranho, porque não autorizei que a minha identidade fosse revelada. Permaneci na sombra, como sempre permaneci e vi a proliferação e distribuição de whisky, que eu experimentei da parte do meu médico, começar pelo continente africano e depois por todo o mundo. Começou tal coisa, porque eu acreditava que era esse o veículo da cura de doentes. Criaram-se registos para toda a História: o whisky entrara nos hábitos mais banais do ser humano. O meu médico conhecia os efeitos daquela bebida, mas só quando me conheceu é que admitiu que tais efeitos eram superiores. Teve que admitir! Por lembrar disso, nunca se conheceu concretamente os fabricantes daquele whisky ou de onde ele nos chegava, posteriormente à revelação das minhas fórmulas medicinais.
Tudo aconteceu de forma construtiva, mas grande parte do mundo não compreendera bem o porquê ou como estava tudo a acontecer. Lembro-me de que o mundo se tornou membro de uma única crença: a científica. Crença essa que era regada por um whisky: o whisky!
Cores, transformações, soluções, resultados, vitórias…
Um dia nasceu pior que outros e esse foi a chegada do dia em que saturei de ver todas as pessoas a beber a mesma bebida que eu e o dia em que saturei de ver todo o ser humano a funcionar do meu modo e esse dia ficou registado como o dia em que deixei de escrever e palrar entre investigadores sobre as minhas fórmulas de cura. Dia preto com fumos de metal pungente. Tanta saturação, já que o mundo humano estava curado, só que tornou-se mais dependente do whisky que eu e apesar disso ver realidade pura, somente a minha pessoa via as tais fórmulas e percebia futuros…
23:19h
Detendo ainda dentro do meu corpo as imagens, as visões e os fluidos reveladores que curaram algumas doenças letais. Viajei para a terra natal do meu whisky, para correr atrás das ironias de uma infinita cosmologia e é por cá estar que os jovens e idosos da zona procuraram conhecer tudo acerca de mim…
Por todo o absoluto azar, já me encontraram e novamente de mim querem gestos. Olho para eles como se fossem os únicos seres humanos que no mundo têm a capacidade e a vontade de me chatear. Estão tão fanáticos e radicais por obter curas e respostas para os seus males que, se fosse noutra altura da minha vida, agoniza. A multidão já começou a subir o monte de gelo. As brisas nórdicas cantam ao meu ouvido imóvel.
O intuito maior destes jovens e velhos é o de comerem-me vivo para digerirem o meu corpo e as minhas células acesas pelo whisky. Sobem pela sabedoria? Ouvi falarem nisto e nesse momento sorri por ter decidido deslocar-me para este ponto do planeta. Desaparecer numa marca maior. Nasci numa marca menor. Estojos de inseguranças.
Penso nos valores nórdicos, mas nenhum é melhor que este gelo do monte. O gelo que me conforta os pensamentos. Não se é superior por muito tempo, entre humanos. Não é que não haja brio para isso, mas a verdade é que acabamos por nos aborrecermos em ser os seus comandantes. Agora, aproveitando as suas histerias, comandarei sem me chatear por não mais existir da forma física que chateia. Serei sempre um divinal espectro, com sabor a whisky com muitos anos desde a colheita ou consumação ou ainda manipulação indefinida, dentro dos genes humanos que comigo ficarão. Luxos da vida…
Estou a ser tocado pelos dinamarqueses. Apalpado. Agarrado. O gelo do monte deixa de ser branco, logo a seguir à primeira investida canibal sobre mim. As nuvens assemelham-se a grandes garrafas.
Eu estou… eles comem-me… não é mesmo possível não haver morte, não é […]
[…]
23:47h
Escreve-vos, a partir destas folhas caídas no gelo, um velho dinamarquês, caros indivíduos que encontrem alguma vez estas palavras…
Esqueçam tudo o que leram! Esse memorável cavalheiro português, Ivo, deixou de existir. Apenas as suas roupas vão para o seu caixão. Ivo deixou de existir e até que nos soube bem a sua carne. Tenra, madura, e molhada… tresandava e sabia a inteligência e a whisky. Parecia mesmo whisky…
terça-feira, 7 de Outubro de 2008
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4 comentários:
Mas o menino nao lê? Possa que prosa horrível
Possa é verbo poder.
Parabéns, continua.
Vou adquirir o teu livro, o teu valor tem ser engrandecido e exaltado.
LaveyGirl
Agradeço-te, LaveyGirl, pela tua resposta.
Caso adquiras o meu livro, mais ficarei agradado, mas já me motivam respostas como a tua.
Uma boa noite...
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