Sabrina.
Poderão conhecer uma mulher, uma jovem ou mesmo uma menina, com este nome, mas essa não serei eu. Sabrina. Dentro de mim, há um todo de paixão.
Sou sábia, solteira, satisfeita e sonhadora. Sabrina, sem outro nome, que vive por Portugal, sozinha. Considero-me como outras pessoas, que sejam bonitas, donas de um bom-gosto e algo descontraídas. Tenho um peito arrebitado, um corpo característico para a minha faixa etária e sou um bocadinho peluda. Olhos mágicos. Sou dona de uns olhos mágicos.
Hoje é um dia bastante quente, no qual o sol brilha alto e redondo, mas por nada disto deixarei de cumprir o meu ritual, a consumação do meu desejo maior: beber café.
Frequento um café, o Pedaço Felizardo, perto da minha moradia. É um café básico, não muito elaborado, mas que dá prazer visitar, pelo menos a mim própria. E dá-me esse prazer visitá-lo, porque tem uma enorme fachada ao género do velho estilo barroco, com colunas de pedra vermelha, janelas espaçosas e retém um perfume interior que apaixona qualquer visitante, inclusive salientando o meu caso… mesmo sendo uma cliente assídua. Para entenderem melhor, quando entramos no estabelecimento, é como se algumas décadas tivessem caído e recuado, tal é a semelhança a locais e meios de socialização extintos, aqueles presos nas memórias das pessoas velhas e da História. O gerente do café conhece-me minimamente, tal como sempre pretendi e mencionara, mas por várias vezes, sozinha ou acompanhada, sugeriu-me, alertando-me, abandonar o vício do café. Enfim. Sempre respeitei tal comportamento, ao ponto de achar graça e dar dedos de conversa, mas vezes há em que não tenho paciência para as sugestões do tal sujeito. Da última vez que lá fui, irritei-me um tanto, silenciosamente, mas percebi que, debaixo das pestanas grandes do gerente do Pedaço Felizardo, ficara uma moldura de desdém e augúrio. Eu permaneci uns segundos inquieta, meditando naquilo em que terá ficado a pensar o homem que tanto insiste para que eu pare com o ritual do café. As maquinações… o café. O café.
Neste instante, avisto o café à minha frente… é depois daquela esquina. Depois daquela esquina. Depois da esquina. Depois daquela esquina. Ao ar livre, cheira-se um mofo xaroposo e os pulmões enchem-se-me de impressões pesadas. Hoje não prendi o meu longo cabelo escuro, quase até meio das costas, tal como costumo fazer. Não o prendi, porque preciso de sentir-me liberta, de vez em quando, neste caso, sem cabelos nem nada a estorvar… tudo o que tenho assenta apenas na pele. Preguiça. Café. Vou beber café. Estou cansada de ver os dias passar cruelmente. Vejo o café ambicionado de fronte. Passo a mão no cabelo. Tenho-o oleoso, terei que ver disto posteriormente. Oxalá, agora, este café me saiba pela vida! Minha sede exagerada, hoje…
Servem-me o café na mesa do costume. A mesa fica próxima da janela de acabamentos dourados, no canto oeste. Daqui, sentada, vejo uns velhos bosques face ao rio selvagem e olho uma mansão assombrada e queimada, a qual contabiliza cento e três anos de vida… ou de morte. O sol projecta-lhe uma imensa sombra no chão esburacado e as areias das paredes assemelham-se a bichos, a insectos, deformados terrivelmente, como que por uma grande radiação. Encontro-me no meio de um ambiente, pela paisagem que observo e descrevo, sombrio, assustado, repugnante e loucamente árido. Portugal provinciano, antigo e com detalhes desconhecidos e enterrados. Um bafo de Eras…
Pego na saqueta branca do açúcar, para sacudi-la. A saqueta pequena dança presa pelos meus dedos comprimidos. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Eu projecto a minha mão esquerda, livre e fechada, para o centro da mesa de dois lugares, e sacudo, bato, a saqueta doce contra a mão. Sacudo e bato. A saqueta contra a mão. O açúcar na saqueta pequena, para o café. Durante cinco minutos não paro de fazer isto. Sacudir. Como uma loucura, nunca acho suficiente o tempo que gasto nisto…
Fico agora paralisada com a chávena nas mãos. Paralisada. Perdida. A devanear. Se as nuvens pudessem estalar os dedos neste preciso segundo, eu reagiria da forma comum, aquele vibrar o corpo, pestanejando fortemente os olhos, por de novo encaixar a alma na carne e no osso, que porventura se desapegou. Chávena bonita, pálida, fumegante, quente e pálida. Irracional. Ao menos, sei que penso em algo concreto.
Encho já a minúscula e requintada colher de café. Eu verto o café para a chávena, gota a gota, o café esburaca o resto do café acastanhado. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. O som que isto provoca é um efeito engraçado, quase imperceptível mas hipnotizante. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. Um ciclo de faces estagnadas que se empolam. Verto o café para a chávena, gota a gota. Portanto… introduzo um dedo na chávena de café para molhá-lo na bebida castanha. O calor do líquido parece estar a invadir os meus poros sensíveis e doces de mulher, dando-me a sensação de uma particular influência eléctrica possuir o meu dedo. Dedo quente. Dedo estático. Dedo surreal, não sei quando ou como, no café real, apesar do dedo real pertencer a um sistema humano que vê coisas surreais. O meu dedo fugiu do meu controlo e espetou-se no meu peito. Ui. Manchei-me de café! Baques sucessivos estão a drenar o cansaço do meu cérebro, por intermédio de um assobio gorjeado. Toda a vontade de beber café accionou na minha mente um circuito quase majestoso de poeiras infernais com espectros exaltados. A minha mente parece que mede agora um quilómetro. Por que é que não suporto o peso do meu crânio? Ai, café…
Levo a chávena branca aos meus lábios macios. Por estes meus lábios que tantos beijos trocaram, o café invade o interior da minha boca perfumada e sinto o seu calor agradável, delicioso, a revestir os meus dentes aguçados. O café, picando-me a língua inquieta. Detenho-me, finalmente. Imóvel, finalmente. Serena, finalmente. Finalmente, balanço e tudo fica turvo, finalmente. Lume e estrondos macabros, que são explosões subterrâneas. Movimentos por debaixo da minha pele. Comichão nas nádegas. Ritmos cardíacos surpreendentes, que leva o mundo a alterar-se, neste momento. Não me recordo de algo assim! Ouço máquinas a grunhir e preservo o recente gole de café nas minhas goelas. O que é que se passa? Todo… mas… o ambiente que me circundava há quinze segundos desapareceu! Não me dói a cabeça, é certo, porém esta move-se como um puzzle orgânico. Deixo de arfar, para escutar o que parece ser o barulho de uma coruja, por eu estar a caminhar ao relento. Eu não sei, mas acho que alguém está a brincar comigo!
Estou agora numa estrada muito degradada que mostra altas colinas negras, com as árvores mais feias do Universo. Reparo que as minhas roupas estão enigmaticamente rasgadas, mas não só. Eu tenho as roupas molhadas em diluente! O local que me envolve não é muito luminoso e talvez por isso tenha uma lanterna de luz vermelha nas mãos preenchidas de feridas e quistos, nos quais vagueiam lesmas chifrudas. Mal ou bem, aponto a lanterna para o que existe à minha frente, para ver o caminho que estou a fazer nesta estrada. Ai, estou cheia de medo. Medo. Medo. Estou cheia… cheia… cheia de medo. Tenho medo, por alguma razão que desconheço e não suporto o movimento de olhar para o que vem atrás de mim, aquilo que sei que persegue a minha presença, porque sinto o meu pescoço preso, tal-qualmente tivesse duas espadas em brasa dos dois lados, obrigando-me assim a manter o pescoço desumanamente direito. Ouço morcegos a gritar. Caminho, mas infelizmente os morcegos urinam em cima dos meus cabelos e… agora as suas urinas incendeiam controladamente, em minúscula escala, as minhas roupas. Estou em agonia.
A temperatura de um nevoeiro púrpura, atrás de mim, pressiona o meu corpo brutalmente. Caminho sem querer, pela estrada que desconheço e a qual me dá arrepios. Eu não estou no meu perfeito juízo, com certeza, já que interrogo os meus sentidos por julgar que aquilo que vem atrás de mim será ou é uma legião de mortos, de pestilências, de fenómenos vis, que referencio a livros do Mundo Antigo. Os empurrões nas minhas costas em fogo são mais nojentos e medonhos, ao mesmo tempo que estou a cheirar odores cadavéricos e enervantes.
O maldito ambiente torna-se cada vez mais escuro e a luz da lanterna torna-se mais pálida e assombrosa, situação que não me surpreende. Estou a ser mordida nas costas por dentes mais aguçados do que as espadas em brasa no meu pescoço. Sinto um medo profundo, em doses de maníaca percepção, estou a sucumbir e vejo-me rodeada de paredes que rodopiam a uma velocidade intolerável. Eu tremo por toda a parte, simultaneamente poderosos abanões atingem-me no peito. Estou a abanar por dentro de um modo horrendo, perturbante, doloroso, o que agora me faz cair de joelhos. É impressionante este cenário maníaco. O fogo em mim dá-me sonhos doentios e lembro-me que gosto de tomar café. Café?
Acredito estar a sofrer espasmos graves, como se de uma doença terminal se tratasse. Abismal estado de choque… o meu olhar está a fumegar e as veias injectadas estão… neste momento, eu rio alucinadamente e sinto que unhas de metal cortantes furam os meus ombros, ao mesmo tempo que vapores de cores ácidas e abstractamente corrosivas fazem desenhos insanos à frente da minha visão obscura e desenquadrada com a realidade. Os desenhos são tronos de paisagens de carne em fóssil, sustendo figuras e personagens de vários membros, com corpos agrafados a motores com penas vomitadas, as quais dão estranhos passos mergulhados em aplicações robóticas. As figuras, que comeram as paredes que rodopiaram para mim, seguram humanos vivos pelas costas e mortos de pele púrpura que seguram velas de lume gigantesco. Os desenhos tornam-se neste momento avermelhados, brilhos de rubi, e por mim abaixo desce uma chuveirada de pregos com olhos dentro de meteoritos moles. Milhões de dedos golpeiam-me e rodas de diamante com lava fossilizada, com o tamanho das árvores feias das colinas, esfacelam de meio em meio metro a estrada à minha frente. A lanterna desliga-se. Vento…
A minha cabeça esmaga os meus ombros. Vejo quase nada, quase nada, mas ainda assim avisto mesas limpas de um café, ao meu redor. Estou no Pedaço Felizardo. Tenho a minha chávena a meio… mas questiono-me fortemente, pelos episódios que vivi, há momentos. Contudo, há cubos de inox da estatura de um gato adulto a voar do outro lado do vidro da janela, pelo que as minhas questões se evaporaram fugazmente. Não sei o que são. Olham-me. Incorporam-se uns nos outros, criando uma misteriosa escultura. Tento identificar aquela escultura, mas a chávena está a entrar na minha boca, está a entrar com muita força na minha boca. Tenho medo, não tenho condições para opinar mais sobre aqueles cubos... desmaiei. Sei que desmaiei e o café saboroso vai escorrendo por mim adentro. Arde…
É inacreditável! Ouço os sons dos meus neurónios a funcionar. Ouço os sons de uma colher a bater intermitentemente numa chávena de café. Café. O meu cérebro alimenta-se em proteínas e células de mágoa, mas também de impulsos abstractos. Levanto-me de um chão espelhado e depois num tecto de cinzas, para beber mais um trago de café.
Olho-me, em frente a uma piscina vazia. Afasto-me para o lado de um quintal cheio de abóboras em forma de gárgula e cogumelos com corpos de cavalos-marinhos. Reparo, agora, incrédula, que as minhas nádegas estão na parte da frente e que o meu ventre se encontra na parte de trás, assim como tenho os calcanhares virados para a frente e os dedos dos pés virados para trás. Inverti. O resto das pernas está correcto, aliás, consigo andar perfeitamente…
Seguro por uma trela grossa de cabedal líquido mas inquebrável, um bando de mortos com as cabeças trespassadas que cantam o meu nome ruidosamente, como um hino, com aqueles tons de um amor platónico. Os mortos, em asquerosa excitação, pretendem destruição, exigem que todos sintam o frio das suas campas. Escolheram-me por ser mulher, gostam de uma influência diferente de poder, de uma persuasão sedutora e de uma seriedade forte. Agora, sem café a restar na minha chávena, não sei como reparo nisso, vamos para um labirinto de escamas e fedores alienados. No labirinto, estão inimigos sem a coluna vertebral, sem ossos, sem tendões. São orbes sem definição, borrachas altas, gorduras e espessuras de prejuízo para nós. Vejo-os ali, perto. Solto os meus mortos enraivecidos e cintilantes em baba verde. O café. Um trago, dois tragos… tragos dissemelhantes, complicados de engolir. Com suores que cheiram a café, os meus mortos, correm para aqueles corpóreos moles, enquanto gritam como índios perturbados por homens das civilizações modernas. Os meus falecidos e putrefactos esmurram, pontapeiam, amolgam, magoam e trespassam os diversos, disformes, pedaços de gomas e colas intensamente bravos e aterrorizadores. Eu assisto impune e soltando gargalhadas à luta nefasta que se desenrola. Os mortos são arrojados, porém não conseguiram ainda eliminar nenhum dos seus esponjosos adversários.
Choro drasticamente. Borbulhas caem a meus pés. Os meus cabelos esfarelam-se em átomos de cinquenta centímetros. Um clarão cinzento irrompe do alto e desaba no epicentro da fúria. Não vejo, não sinto, não ouço. Respiro mal. Não vejo, não sinto, não ouço. Respiro mal. Não tenho medo. Tenho medo. Não tenho medo e olho como consigo para a minha frente. Os meus mortos foram-se, desapareceram, menos a presença dos seus suores com odor a café. Não tenho a trela na minha posse. As queimaduras nas minhas mãos têm a forma de uma trela. Água nasce aos meus pés, água ácida. Os adversários avançam para mim e cercam-me. Não tenho medo, apesar das suas atitudes serem para mim desconhecidas… mas não me dão medo! Os orbes não falam, não emitem sons e tão-pouco se transmutam. Dá-se novamente o clarão cinzento, ouço melhor desta vez, pelo facto de ter caído em cima de mim. As formas esponjosas agora encolhem e agarram-se à minha pele, como aparelhos, depois como injecções e por fim como tatuagens. Estou inchada, cheia de sangue esponjoso. Tenho pavor abismal perante isto tudo. Tropeço e rebolo. Rebolo, rebolo. O mundo treme e faz barulho, ensurdeço e perco a fala. Nulidade e brancura no horizonte. Penso que nada mais pode acontecer, mas… ai, levo com um bocado cru do mundo que está a mudar de novo e caio assim numa cavidade repleta de antiquíssimas estátuas Gregas, nas quais o meu corpo rebenta, devido às saliências tenebrosas de outros milénios esculpidos. Alarmes soam na cavidade, pois accionei o meu estado de emergência. Apanho o meu corpo e saio…
Levanto-me da mesa, ajeitando a cadeira. Pedaço Felizardo. Café. Deixo o dinheiro para pagar o que consumi e bocejo. Despeço-me, de lábios molhados, do gerente do espaço cativante. Digo-lhe até à vista, murmurando que vou tentar deixar de beber café. O gerente faz-me uma vénia, deixando escapar um brando olhar de relâmpagos roxos sob as suas córneas treinadas. Vou voltar para casa e prender o meu cabelo.
terça-feira, 7 de Outubro de 2008
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