Frustrei-me.
Sonhei que desmaiara,
Num local com cores, sem odores,
O tempo passou rápido
E o desmaio tornou-se fantasma,
Um fantasma com explicação, sem emoção.
Tenho a boca com um paladar novo,
Hoje não sei se comi ou bebi alguma coisa,
É um paladar que descreve uma coisa,
A ausência da minha alma no espelho,
Desconfiado vou fechar o meu paladar no espelho.
Estou agora onde não quero,
Respiro agora o que não tenho,
A sinceridade leva-me aos tropeções,
Pessoas novas e velhas são golpeadas,
Golpes da minha pessoa que está e respira contrariada.
Inevitavelmente,
As meninas a rir,
Os homens a tossir,
A vida a escorregar,
Inevitavelmente.
Altere-se...
Gotas liricamente coaguladas
A miscelânea criativa que sai do Ego em incendiários momentos
Sexta-feira, 9 de Março de 2012
Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio

Capítulo 1
Encarar, sob relatos de mim, eu próprio
Vento e chuva amena. O Outono anda por aí, por aqui ando eu e por toda a parte andamos nós. Através da minha janela, apesar do pouco que a noite me deixa ver, observo uma brisa molhada que namorisca as matas e as pessoas alcoolizadas. Namorisca-vos? Escrevo, aliás comecei a escrever, porque gosto de recriar os divertimentos dos meus processos mentais, que amorais! Jovem, azulado no olhar, sou alguém que gosta do Outono puro e duro, ou, digo, talvez puro e inspirador. No desenlace destas linhas borradas em lágrimas de gato, de vazio, de papel, sei lá, assino um nome, cujo brotou da farinha com determinados significados demoníacos, mas, principalmente, libertinos! Ousados e insistentes, como pretendo deste Outono. E o porquê do Outono ser bonito para mim? Têm sempre de perguntar. Fácil; é a estação do ano que mais me lembra, através de provas, quem sou e o que gosto. Sério e carnal, como a descida da chuva às cabeças dos animais. A par das letras, as horas passam… tenho febre. Encarar o quê?
No momento desta frase, que é durante a tarde, mais ou menos a horas previstas, vejo vias tradicionais, derreadas, alagadas de folhas caducadas, de um castanho inchado, que são desarrumadas, sem esqueleto, nas rugas de areias e pedras, pela brisa de dias quase cinzentos. O vento passa-me pela cara, esfregando-se sem regra à pele, num constante equilíbrio de ares e sopros meteorológicos. A tarde está sossegada por estes lados e também por outros, onde logicamente hajam semelhanças. Os sons da civilização são a constante do mundo e aqui também ouço alguns. Ouço automóveis, que daqui vejo como automóveis em miniatura. Não é por questão de tamanhos, mas, sinceramente, não gosto muito de automóveis. Eu gosto mais quando vejo o comboio, apesar que ainda prefiro os antigos, pois ostentavam-se noutras estéticas de classe. Comboios… ah. Ah!, fala-se no diabo… e aparece, agora, um comboio que passa ordinariamente perto. Um comboio dos mais recentes. Paro a apreciar, para não sentir uma sensação de aproximação involuntária ao chão, vertiginosa, como se estivesse a correr contra o comboio. Ali, entendo, há muito peso a deslocar-se a muita velocidade. Ó trilhos férreos!, quereis uma toalha para o suor e, quiçá, uma pomada para aliviar os músculos? Não obtenho resposta. O som gutural do comboio, as fricções férreas, as ardências maquinais e o despejo de velocidade. Ali. Não obtenho uma resposta em português. Encarar o quê?
Continuo o meu caminho, que dá para uma floresta e, entretanto, piso mais folhas e terras esverdeadas, acastanhadas e alaranjadas. Quando me detenho num local tropeço. Tamanha maldade do meu calçado! Entrei com o pé esquerdo? Bem, e com o direito também, porque ainda não cortei nenhum deles. Neste local, o silêncio parece ser de ouro. Sem grandes fumos, sem muitos fedores e barulhos. O ambiente sonoro é o hino de pássaros esquisitos sob o encantamento de uma subtil corrente de rio. Um rio aberto, apesar de manchado. Este é um local bom e é por isso que aqui estou, sem dúvida. Quem sabe dele, nele não fala. Sabe; cala! Cá no recinto recôndito, paralelo ao rio, em voz regular digo a palavra – fotografias –. Tiro o meu saco do ombro, deixando-o simplesmente cair no chão, qual ventoinha na palha. Dentro dele retiro uma máquina fotográfica digital. Queria antes ter uma de rolo, porque era um maior colorir dos meus gostos, mas para já o dinheiro que tenho não me compra uma dessas. Então começo a disparar o flash em múltiplas direcções. Flash! Flash! Flashflash! Tento captar do ambiente aquilo que nele mais me agrada: árvores e plantas e árvores, o rio, uma ponte de ferro e aço e afins, um pavimento esburacado, mais plantas e bichos, trilhos verdes que se perdem de vista, ou apenas dos meus óculos, e paredes arcaicas comidas pelos anos e pelos humanos. Ergo o meu saco, enquanto olho uma dezena de velas que se encontram a derreter em buracos podres, as quais me forçam a imaginar que situações viveram antes e durante aquele detalhe. Tudo me parece arte. “… dissera Olvido uma vez […], a palavra arte soa sempre a mistificação e a panos quentes. É melhor sermos amorais que imorais. Não achas? E agora, por favor, beija-me.” Tiro fotografias com a rapidez de um pintor talentoso, em cada pincelada. Segundos passam, minutos passam, uma hora passa, agora o dia começa a virar noite e não há mais fotografias para ninguém. O rolo não terminou ou, melhor, a memória do cartão não terminou, mas porque, sim, está no meu momento de retorno: e um Homem tem que fazer o que um Homem tem que fazer! Um Demónio faz aquilo que quer fazer! Um e outro são iguais e atribuem merecimento, instintivamente, a armas e a si próprio! Encarar o quê?
Levantou-se mais algum vento, entretanto. O céu, a esta hora, está sublime, está cinzento, manchado, esquisito e denso. Passo ante passo, pé ante pé, a minha casa aproxima-se imóvel. Tenho as chaves da porta de entrada. Por acaso, trata-se de umas chaves porcas e azedas. Porcas e azedas como determinadas coisas em mim, mas que lá acabam por ter a sua utilidade. Entro, neste instante, em casa. Tudo tem uma funcionalidade, digo, até a minha mala de viagem. Quando a agarro, encarrego-me de dar-lhe vida. Enfio-lhe, para que guarde, os meus pertences: as roupas, os acessórios, uns objectos diversos, a comida e a bebida. É simples de perceber que viajarei, ou irei para outro sítio. Digo fácil de perceber e não de adivinhar, porque na minha vida não se adivinha… muito. Na vossa vida adivinha-se? (Portanto…) Prosseguindo. Para a viagem que farei, daqui a pouco, tem de estar tudo no seu lugar e, por exemplo, a minha mala encarrega-se de ser a galeria de todos os lugares! Encarar o quê?
Já estou em viagem e à conversa com as pessoas no carro. É surpreendente a quantidade de demónios que existem nas conversas. Demónios que são as frases feitas, os clichés, as frases feitas, os clichés. Uma dose de chavões e ficamos bem. As conversas estão a ser animadas, lá isso estão. Cada qual com os seus demónios idiomáticos! Retenho o segundo, no meu olhar, em que uma das pessoas, aqui no carro, se pasma e se abana com pudor entre uma fala minha. Este é um lugar-comum meu e por ele rio-me sozinho, com certeza. Consola-me deixar aquela miúda electricidade que se activa, que dança no cérebro das minhas companhias. O que importa é essa activar-se nelas, seja na cama, seja na casa-de-banho; pensarão naquilo em que falo! Entretanto, mais qualquer conversa e explicação. Também limpo as minhas mucosas e fico quieto na audição à gelatina amanteigada do meu cérebro. É noite querida. Ventania, estradas bem iluminadas, céu com nuvens encalhadas e uma temperatura baixa. A pessoa ao meu lado grita, mas acha que fala. A meu lado, a porta do carro, um luxo, há muito que se encostou ao meu braço direito, devido ao carro estar cheio. O condutor do carro cora com os acenos a/de outros condutores e as restantes pessoas perdem-se, neste momento, a pensar naquilo que podem e não podem fazer em locais que ficam fora ou dentro das bordas da viagem. O rádio toca um disco de instrumental moderno e eu bato, algo ritmadamente, os pés nos tapetes do carro. O carro percorre estradas mais próximas do nosso fim. Estas estradas têm um aspecto negro e denso, que se engrandece no arvoredo selvagem feito, à semelhança, de um algodão rijo, frito e pegajoso. Não há barulho para além dos vidros deste carro, o qual avança como uma lâmina de corte desabitado, enquanto os passageiros riem de nada, de coisa nenhuma e de algumas coisas. Os traços brancos na estrada demarcam a palidez e calmaria do ambiente natural. O gelo do desimpedimento ainda não quebrou. Minutos e minutos transpõem. Num momento em que a noite está mais alta, piso a localidade que nos aguardava. Um sítio verde, com o peito que vive pregado numa linha de três metros acima do horizonte azul, azul muito muito escuro. Há qualquer profundidade verdadeira aqui, um armazém de belezas que mostra mercadorias presas a uma parede, totalmente na vertical. Com vertigens mas orgulho, o armazém natural alonga-se em ramos radiosos, entre as suas relvas misteriosas e viçosas, abraçado em fauna e flora de luxo e concentrado como dinamite de carne e leguminosas. Tudo, claro, no negrume, agora. Vivo em álcool, festa, palavras e necessidades. Vários capítulos estão a passar… a passar. Param. O apartamento está com a porta aberta e com as luzes ligadas. Por que é que haveria de as desligar? Não haveria e não quero saber, não estou preocupado. Ups! Caíram as minhas bolachas, preocupei-me! Sou livre para pegar em mais e não apanhar as sujas. Sou livre para acender e sujar. Estou contra a essência de que aquilo que é abandalhado é O devasso. Ora! Aqui, pela varanda avisto minimamente florestas agrupadas. Vento, cascas e garrafas. A noite é um lençol morno e a pele do meu corpo aquece devagarinho. Encarar o quê?
De manhã. Acordo ao som do despertador ruidoso. Não dormi bem. O céu está enorme e chuvoso, para bem dos meus olhos com remela. Acordei com sono e com dores de estômago e dói-me o estômago e tenho sono. Vou para o lado oposto das outras pessoas, porque não tenho curiosidade nem paciência bonitas para o estilo desta manhã, da manhã das pessoas. Principio-me, por caminhos cheios de raízes e buracos, em direcção a lagoas grandes e frias, contra corrimões e varões de erva, flores e areia. Os montes gigantes têm essas lagoas a seus pés. Observo, contentíssimo! Imagino estas quantidades de água à temperatura da quente que sai da minha banheira. Não digo a ferver, mas muito quente para combinar numa fogueira branda para bruxas, mulheres libertinas e mágicas, que atiraria para ali. Não para querer queimá-las, mas para me enrolar com elas; quais salmões calorosos e transpirados! Quero um caldeirão de cetim, corações e orifícios! E sem fim, convulsões e cicios! Quero mexer essa receita culinária. Com tanto para onde olhar, deambulo, pensativo, pela areia bege e misturada não sei com o quê. Sento-me numa pedra grande e sem cor. Observo e contemplo a água calma, o ambiente espectacular e a grandeza das coisas. Isto é tão belo e tão natural que me sacudo por não ser tão habitual quanto desejaria, quanto ao país compete. O céu pouco mudou e já me chamam, por qualquer razão. Por mais que se disfarce, a sensação de incompreensão aparece-lhes no rosto. Sinto-me em casa, em casa… morno, ventoso, com cheiro de chuva e arrepios. Coisas e coisas que agora passam que não vos digo. Porém, fica o desabafo que me preocupo com a preparação do meu Halloween – All Hallows’ Eve. A noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro é muito especial e tem mesmo de ser bem organizada e tomada! Poções, rituais, piadas, brincadeiras, loucuras, liberdade, criação… tudo encaixarei. Este é o meu desejo e o meu querer! Aproveitarei para escrever… e festejar também com os meus personagens medonhos e os meus demónios fofos. Ainda tentarei realizar uma película satânica! Num dia à frente. Alguém me ajuda? Oh, Diabo! Até que me emprestavas uma câmara de filmar! E eu de imediato a ti, o dinheiro certo! Negoceia-se… muito bem. Irei comprar uma. Uns modelos, meia dúzia de figurinos e argumentos, quero… e encarar o quê?
Numa próxima… as palavras mudarão, os recintos também e os gozos serão novamente meus! Chegando ao êxtase… não tenho que encarar nada, tenho sim que experimentar!
Capítulo 2
Locus Horrendus
Trovoada enxuta. Na sombra dos recantos citadinos, a luz celeste aterroriza. Álvaro de Campos disse que não dormia, disse que jazia, cadáver acordado, que sentia. Disse que o seu sentimento era um pensamento vazio. Disse que o seu cansaço entrava pelo colchão adentro, que lhe doíam as costas por não se deitar de lado e, se estivesse deitado de lado, doíam-lhe as costas por estar deitado de lado. Álvaro de Campos pensou na Humanidade que esquece as suas alegrias e as suas amarguras, pensava e não dormia. Sendo assim, a dor aparece, portanto há que decidir que posição adoptar para recebê-la. Exactamente; Álvaro de Campos dizia esta palavra.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Hoje há qualquer coisa dentro de mim que me consome o sorriso. Uma qualquer coisa, uma coisa qualquer, fria, deprimente, suada, porca, nojenta, amassada, de repente destruidora. Esta coisa dentro de mim é a angústia e também é a ira, a tragédia emocional, o culto pela crueldade, é a braveza, a saturação. Parece-me que tudo está incrivelmente, assombrosamente, mal. A caneta é um nojo. Hoje, que para vós não é o meu hoje nem o meu amanhã, estou enervado. Enervado, com aqueles nervos que me deixam num estado horrível.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
O som pim, pim, pim, que vem lá de fora está a levar-me aos arames. Não o suporto, estou a rebentar de alguma maneira e já preguei murros na mesa. Apetece-me viver esta febre de nervos, escrever sob este sentimento, inspirando-me nele, massacrando-me. Eu não tenho nada que me alegre, nada que me satisfaça, apenas o meu cérebro que se entrega de braços abertos à informação negativa que recebe e, logo, me deixa roído de desprezos. Ah, como me coloco a pensar nos meus adversários, pensando fervorosamente! Vinganças! Tomara inimigos tombam ao rio e levem com muros de betão e aços queimados, bem no centro da cabeça, repetidamente, à falta de facas grandes. Tomara se rasguem em arpões envenenados e vejam sangue podre a fugir-lhes, que comam, a chorar epicamente, excrementos de todos os tamanhos e que enormes agulhas arcaicas lhes entrem pelas axilas e pelo umbigo. A temperatura do ar está turva e amarga, vejo as nuvens de cor vermelho-sangue a observarem-me, querem partir-me todo. As casas à minha volta, cheias de gente inócua, atrasada e cínica, podem ruir, agora ou daqui a pouco. Eu até correria para o local, arruinando pedacinhos de estruturas, que restassem ainda de joelhos.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Chegamos perto do final do ano, com orgulhos e caretas. Isto para quê? Alguma coisa vale a pena? Tudo está enraivecido, cheio de enxofre e metano, espicaçado numa banheira de iodo e petróleo e borracha e veneno. Admiro as proveitosas tragédias da natureza, ao longo do mundo, porque desejaria controlar o imenso poder de cada uma com as impressões digitais dos meus dedos. Logo, satisfazia-me à procura do sabor da destruição natural. Sinto os cheiros das desgraças. Quero lá saber de responsabilidades, de preocupar-me com quem espera de mim alguma coisa de bom. Não quero nada, neste momento. Nem penso em nada nem em ninguém. Solto fúria e solto ódio e tomara que todos os vidros e espelhos partam, que são caros como jóias e que exibem o meu físico, o qual tanto menosprezo. O meu interior vai aparecendo e reaparecendo como um parasita, umas vezes articulado, outras vezes famoso. Mostrando que me encolho em defeitos, acordo toda a semana e a mente corre logo em dúzias de assuntos. Para quê? Mudo alguma coisa no mundo? Perdi essa vontade, já que somente quero sair do quintal com alimentos que me façam sobreviver mais um dia. Se eu não pensasse, queria largar fumo em massa e os outros ao meu redor que se poluíssem nele, tal como me fazem, por vezes, aturar. Poluam-se, enervem-se, saltem, chateiem-se. Poluam-me, enervem-me, saltem em mim, chateiem-me. As ruas atulham-se de porcarias caras. Venha a mim uma sala com porcelanas, que desato a pontapear. Venha a mim faces suaves e narizes bonitos que desato a machucar. Quero tudo feio, tudo rebentado, tudo sem remédio. Folhas de Inverno, dúzias de lascas de palha, nos chapéus e nos casacos, que posso ver. Agora que urino, merecia aguentar a dor de tubos e urtigas a sair pela minha uretra. Que paixão tenho eu por mim.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Nas invasões militares, medievais ou do imaginário humano, de muito sabemos que os fortes invasores decapitavam outros indivíduos, que violavam as mulheres aleijando-as em toda a parte com franqueza, em todas as formas, que partiam as pessoas, que feriam as pessoas, que não alimentavam as crianças, os futuros de quem subjugavam. Que pormenores belos, que pormenores deliciosos. Eu, decerto teria imenso júbilo por ter figurado em cota de malha e espada, em tais cenários, recintos e tempos. Porém, não figurei. Desastre, realidade. Posso, também, arranjar outras missões para mim mesmo e, por exemplo, com toda a capacidade de ser horroroso, profanaria cemitérios, experimentaria sexo com mortas, enrabava-as, cuspiria à grande e à francesa nas flores, que seria lubrificante para elas, abriria buracos, enterrar-me-ia e masturbar-me-ia então na lama, nos esgotos, para espantar o mundo ou qualquer nome assim. Vivo as minhas perturbações loucas, não, as minhas irritações. Eu enervo-me tanto. Eu enervo-me tanto que me identifico, afinal, com um vulcão. Onde posso comprar lava para espirrar pelas ruas abaixo, pelos meus nervos, onde? Eu oculto os palavrões, mas eles estão cá, nos espaços do texto. Que energia produzo, que cansaço e cócegas na barriga, e, finalmente, eu gosto de ver-me a sangrar ao ferir-me, com os dedos mais pequenos dos meus pés descalços, nos cantos dos móveis bicudos.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
No écran, o cursor pisca, a luminosidade das cores, a presença do viso da extraordinária compulsão, o ensinamento futurista. Que mais há de futurista que a verdadeira auto-mutilação? Não queremos afinal ser máquinas, pouco tecido humano e o resto tecnologia? Os vapores de máquinas, dominadores, a incomodarem os lábios de terceiros, os barulhos dos elementos de ferro a levarem as mentes ao tédio e à vegetação emocional dos que lhes são diferentes. Podíamos ser computadores e enviar vírus a outros, desligar redes e piratear. Não é um gozo, não? Venham a mim as mulheres bonitas, que não conseguem inovar em si as sugestões de colaboradores chegados, que lhes tiro a inocência dos seus sonhos. Máquinas, sim. Nunca transformarei ninguém em alguém melhor, porque o que pretendo é partir carcaças. O resto é para as máquinas fazerem, pois não tenho tempo, visto que sou como o coelho que corre para o País das Maravilhas. Enfio arames nas costas de um padre, de um Messias, de quem eu quiser, e vejo quão divina é a dor de um falhado ou simplesmente de um ser perfurado. Lamento lamentarem, a sério, é verdade que preciso de falar assim, mesmo a não em ouvirem tenho – uma péssima voz – uma caligrafia bonita, arranjada, não tenho? Num lado dos campos de batalha há deprimidos e eu, terrível, cortante, num outro lado. Calado ou a discursar sou a mesma criatura, apenas difere isto pela energia, pela razão e pela interpelação. Neva, neva, quisesse eu comê-la…
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Escavo memórias, estariam as árvores nuas e velhas. Ele entra em casa, depois de horas combinadas, vermelho, inchado, alcoolizado. Chama nomes a ela. Ela chora e transmite mágoa. Discuto com ele, tenho mesmo que o fazer, é inevitável pois faz-me sentir aqueles nervos tão profundos. Um dia isto acabaria mal, para ele ou para o vício. Um dia dei um empurrão a ele, ela também não esperava tal coisa, mas o sofá segurou nele. Maldito sofá ou pena que tenho do sofá, mas eu não suporto quotidianos de machos tradicionais. A quantidade de anos que ele agiu daquela forma, cheio de álcool, cheio de doença psicológica, cheio de má educação. Nunca me poderá apontar o dedo à falta de respeito, mesmo agora que deixou aquelas atitudes, quem não me respeita, por mim não é respeitado. O Inverno começa a dar cartas, baratas, travando euforias deles, aumentando as minhas. Ao querer verificar os reflexos das manchas de desmaios, atrevo-me a assobiar pelos esforços de feridas…
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Tenho dado atenção a uma componente literária, característica do período romântico. Sinto-a, respiro-a, o dia não avança… entre alvos bolorentos, a componente a espumar em mim condiz entre um ambiente pesado e paisagens ensombradas, funéreas. Salivo na agitação de corresponder intuitivamente às parcelas apaixonadas, do cajado do mistério, quer do universo, quer do próprio individualismo, a fim de me magoar com sabedoria. Sou um lugar horrível? Sou. Acredito nisto, como não acredito em nada, como desejo o desmaio mortal. Com vinho, com exageros mentirosos, com isolamento mais que profundo, crónico, estou agradado aquando de descrições e afins figuras de estilo a paisagens sombrias, isoladas, lúgubres, inquietantes e decadentes. Por si só, a natureza traduz-se carnalmente, no seu estado selvagem. Sabeis que na hora de odiar prontamente, se acelera à valorização da sensibilidade individual, do irreal e do sonho? Claro que sabeis, pedaços de feio. Ai, o quanto fervo e arreganho as feições! Nervos, impulsos de paranormal. Oferecei-me cavernas, grutas, ruínas, todas as noites, todos os fins de tarde. Doem-me imenso as costas. Neste texto, tenho gosto pela total solidão… são as palavras que vão ao vosso encontro, não eu. Tenho intenções de danificar os juízos, mas amanhã não.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Ao canto da mesa, enervado, chateado, com as pupilas dilatadas e sabor amargo na boca, assisto à tertúlia barulhenta entre dois personagens da nossa literatura. Uma tertúlia que imagino, com as chamas do pensamento em choque. Personagens que escreveram muito sobre amor, sobre relações, pensamentos, mas também sobre um tipo de horror. Para lá das janelas, o ardor e as cores do vento fazem as pessoas trancarem-se em casa, todavia no fim da tertúlia irei lá para fora cantar pelo reencontro com abismos de receios e profanas chatices. Bocage fala de duras, cavernosas, fragas e de paixões que na alma se fervem, fala da razão feroz, do coração que o indaga e dos seus erros. Bocage é agudas… ânsias… venenosas… chagas. Bocage escreve em soltar gemidos e em derramar lágrimas, escreve também que a razão o manda não amar e ele arde, ama. A razão diz a Bocage que sossegue e este pena, morre. Bocage diz que vira, apenas, a luz brilhante do dia, em empório celebrado, em sanguíneo carácter marcado. A morte devorante roubara o doce agrado da terna mãe, pelo que Bocage seguiu Marte e vagando a curva terra, o mar profundo, inundou as faces em lágrimas. Bocage longe da Pátria, longe da ventura, diz suspirar pela paz da sepultura, enquanto a insana multidão procura essas quimeras, esses bens do mundo. Eu percebo-o, distantemente, percebo-o. O comum preferir suspirar a procurar. Tamanha vontade de apagar as luzes. Almeida Garrett diz-se a ir, que o seu rosto macerado e em funda melancolia escreve, escreveu, tanto faz, que onde chega, o prazer cessa no mesmo instante. Igualmente, quando o lábio começa a dizer doçuras de amor, gela e que o riso que ia a nascer expira. Almeida Garrett é as próprias folhas caídas, ele próprio e a morte nele. Almeida Garrett espantou muitos leitores, eu sou um dos seus espantados, um dos tristes. Almeida Garrett fala no seu frio sarcasmo e no amor que falava a elas todas, mulheres, pessoas, escreveria que lhe doía a alma, se a vaga inerte tristeza, sem motivo, lhe pousasse no coração e que, porque a vida lhe parece parada, não saberia se morria ou se vivia, não sabia. Em seu, textualmente, gozo delirante, Almeida Garrett, escrevendo, sentia que era a vida ou a razão que nele se exaurira.
Urtigas de palavras, que nos aspiram os sorrisos. Nada parece ser o que é na verdade. Nada disto é verdade verdade, mas sim um batalhão de palavras que doiem, que espero que façam doer, que façam irritar. A linha do horizonte é muito sedutora, apoiada por nuvens terroríficas e pastos pretos, existe a perturbar-me os olhos. Quando somos horríveis somos criticados e quando criticamos chamam-nos de horríveis. Venha o diabo e escolha, dizer-me-iam os adversários ou aliados, tanto faz para agora, venha simplesmente o meu leitor e escolha. Não tenho que ser horrível, só se o desejar.
Capítulo 3
Locus Amoenus
Sol rico em proteínas que deslaça o turvado das mentes, dos solos. Neste dia, azulado, esverdeado, celeste, campestre, versículos amenos, apetece viver sobre a doçura das plantas, sobre os minerais do amor, sobre a luminosidade dos cereais. Os solos verdejantes, oscilantemente declamados, amparam uma transformação. Aqui, ao nascer do Sol, já, se enceta uma alusão ao Equinócio da Primavera, que se aduz como aplausos rijos! Como, melífluas raízes de rosas. Pelo decorrer de cada ano, criam-se desejos, fracassos e obtenções. O Homem deve sempre partir à procura dos prazeres, para assim usufruir do que precisa para ser/estar feliz. O Homem tem instintos e forças primordiais e é também com a inerência a estes aspectos que saberá conhecer-se visceralmente e saberá quais os desejos a encontrar e a possuir, para uma existência individual mais proveitosa, na qual florir abundantemente. E neste ponto do calendário meditamos sobre isto tudo! Neste ponto do calendário é período de partir-se na direcção que se quer ir.
Quando se diz que ameno é flácido?
A promessa de poder é imensa, porque significa a existência real da genuinidade e acções orgulhosas humanas! O Sol ameno trata-se, nesta moldura, da estrela diurna que desfaz a apatia das criaturas. O dia, com sua querida temperatura em crescendo, é fruto inspirador de companheiros e ornamentos serenos, repletos de prazeres, de festins, de conhecimentos e complexidão primaveril. As manchas diurnas fixas no céu brilham, no meio de muitas cores e tamanhos, pela magia e força resultantes pelo sexo primaveril. O estéril, fausto, sai dos cercos e caminha sobre os montes, as planícies e os betões orgânicos, aquando então começa a vestir-se plenamente de ávido, majestoso, sensual e denso. Tudo evolui nos parâmetros cativantes do Equinócio primaveril, nos parâmetros de calmas dimensões. As horas passam por nós e nada de importante, estas, são. A nós importa fazer e ter, sem obedecer a relógios ou a nervos! Todas as criaturas nos admiram, todas as criaturas têm algo que nos interessa, o que dá pelo nome de colaboração. Todas as criaturas não são o que nós somos, o que dá pelo nome de universal diferenciação. Ondas de calor caiem, apaixonantes ondas de liberdade natural caiem, em nós…
Quando se diz que ameno é flácido?
O ritualismo humano é o império entre nós, no qual a sede de felicidade e harmonia para com a robusta, fresca e bela Natureza, nos torna mais coesos. O Equinócio de Primavera saúda-nos, encorajando-nos a viver os nossos diferenciados caminhos nobres, imediatamente, sentindo as novas e naturais energias que carregam-nos acima do encantamento. E então percebe-se tudo, através do recurso e protecção, receptivas à Mãe Natureza. Pensei em ti, envernizada por pólen, a escorregar para mim, em acentos de gomos de laranja. Eu e tu fazemos um par, fazemos vários pares, de sorrisos vencedores. Sim… pois nós somos procriações. Nós somos mãos. Nós somos rectas. Nós somos curvas. Nós somos substâncias. Nós somos elementos. Nós somos corpos. Nós somos inteligências. Nós somos conquistas e artes e naturezas. Gosto do cheiro da graça… dos sentimentos.
Quando se diz que ameno é flácido?
Tenho dado atenção a uma expressão latina, componente literária, que desde a Antiguidade Clássica se senta nos nossos livros como imagens precisas de paisagens sonhadas, descrevendo a Natureza de uma forma amorosa, como odores frescos e renovadamente leves que voam nos braços das brisas fosforescentes das alegrias, expressando fascínios sensoriais no Homem, o qual sente-se acariciado em ambiente mágico e homogeneizado. Há quem diga, que neste meio enquadra-se o ser humano que busca a satisfação pela singeleza, no paraíso terrestre. Sinto, respiro, o dia avança bem… entre alvos germinantes, componente a espumar em mim que condiz entre ambientes leves e panoramas sem sombras, claras de ovos. Salivo no sossego de corresponder intuitivamente às parcelas apaixonadas, do cajado da interpretação, quer do universo, quer do próprio individualismo, a fim de fazer-me bem com sabedoria. Sou um lugar relaxante? Com alimento, com alcances verdadeiros, com interacção, estou agradado aquando de descrições e afins figuras de estilo a paisagens belas, palpáveis, luzentes, massajadas e evolutivas. Por si só, a Natureza traduz-se carnalmente, no seu estado de moderação. Sabeis que na hora de amar prontamente, se acelera à valorização da sensibilidade plural, do real e da vida? Claro que sabeis, pedaços de formoso. Oferecei-me cascatas, planícies, monumentos, todos os dias, todos os inícios de tarde. Nada me dói. Neste texto, tenho gosto pela parceria… vós vindes ao encontro das palavras e sou eu. Os cremes e os sumos das histórias fazem arranjar outras histórias com cremes e sumos, de sumos e cremes das histórias, das estações da Terra.
Quando se diz que ameno é flácido?
Na rota de um pedregulho bem formado, sorridente, penteado, com as pupilas interessadas e sabor achocolatado na boca, assisto à tertúlia aconchegante entre dois personagens da nossa literatura. Uma tertúlia que actuo, com as chamas do pensamento em sintonia. Personagens que escreveram muito sobre amor, sobre relações, pensamentos, mas sobre um tipo de amenidade. Para lá das varandas regadas, o pólen e as cores do vento primaveril fazem as pessoas soltarem-se de casa. Eça de Queirós, Eça de Queirós. Cesário Verde, Cesário Verde. Torno a escrita em elemento importante de constituição amena, como que um horizonte poético ideal. Poder ver prados, rios, arvoredos, sons de água a escorrer, sem vê-la, é uma ambiência calma que suscita vontade e energia restauradas. Uma enorme adição de pensamentos entre dois seres. Cesário Verde dissera, outrora, que ele e ela se encontravam pelo campo cheio de verduras, cobertos de folhagem. Falara no braço à volta do pescoço e do braço à volta da cintura, que a apertava. Cesário Verde, chamando-a de pomba mansa, descrevia mimosos jardins, bancos de mármore, arbustos, beijos, tranças, e, desejando distracções e leituras animadas, ambicionou formar com ela um único coração, um único gozo inteiramente romântico. Por volta das dez horas de uma manhã transparente, Cesário Verde gostou de admirar os jardins e suas nascentes, as suas brancuras junto de ruas quentes, reluzindo passos sem pressa, em aconchegos. Cesário Verde, apaixonado pelas visões da horta da vida, das luzes do Sol, inscreveu-se na ideia de transformar simples vegetais num ser humano e numa existência cheia de belas proporções carnais, ao mesmo tempo que viu aromas, fumos caseiros, padeiros, subindo e batendo, por vezes, pelas portas próximas. Escreveu que o Sol dourava o céu à sua passagem, assim como as poeiras se elevavam às nuvens, alindando-o, Sol que lançava os seus raios de destilada laranja por cantos e aberturas, seus raios de laranja destilada. Um escritor que fora verdura e abundância, sonhador de um Sol campeão, humanamente campeão.
Quando se diz que ameno é flácido?
Pela plenitude da vida divertida, abre-se uma cascata de sementes de açúcar, no núcleo da terra. Eça de Queirós, prosador de serras e cidades, homem bem-parecido, passou tinta pelo papel, vindo a conseguir transmitir palavras de terras do Alentejo, da Estremadura, das Beiras, que formavam belas sebes densas, muros altos e cristalinas ribeiras, terminando em campos ricos em alimento. Eça de Queirós ensinara, se quisermos, que a vida é um rio, um rio de Verão, manso, translúcido, deitado em areias alvas e macias. Saudáveis arvoredos e ditosas aldeias pululam em tinta do escritor, depois de conhecermos felicidade em aproveitar clemências do fértil Abril que retira as saudades por matas, por bosques frescos e flores de muitas cores e vitalidades, quase humanas. Eça de Queirós criou um enredo em volta de aldeias, nobres, confusões e crenças, conseguindo demonstrar água verdadeira, verdadeira água de leitura amena, romanticamente equilibrada, fazendo-nos apreciar, tal como inscrevera, com a sua tinta de cheiro novo, personagens sob um radiante Sol, sob brisas largas e extraordinariamente sãs, sob douradas manifestações da Natureza, sob atributos de papoilas e relvas e frutos, prendendo leitores à virtude mágica de viver pela boa-disposição de capacidades tradicionais, essas chegadas à luz de instantes puramente portugueses. Eça de Queirós escreveu diálogos corteses, afáveis, naturais e de um teor esforçado, revelando um espírito capaz de vencer com calos de belas feições. Um escritor que fora local e imaginário português, português de força paisagista. Eu, sentado na relva e depois na areia de praia, não conheci estes dois escritores, mas, ainda assim, acho-os bons parceiros de cartas…
O orvalho no meu nariz assemelha-se a um namoro ao amanhecer. Hormonas simples de palavras, que nos enlevam os sorrisos. É impressionante verificar surpresas nos cascos mais evitados, é impressionante dar a outrem a beleza de um ser único e dono de si. A linha do horizonte, pelo cuidado do oceano chegado, é muito deslumbrante e apoiada por nuvens claras, por moles pastos, existe a beijar-me os olhos. Somos calmamente graciosos, somos seres vivos e estamos a viver graciosamente calmos para cintilar mais um pouco. O meu leitor terá a sua estrela visceral e até será a sua própria luz, nem que uma luz de mitologia. Em muita quantidade, positivo para ser levado a sério, em muita quantidade, fácil de ler ou simpático para conquistar, em muita quantidade, bom para deixar de ser eu mesmo. Sublinho a inteligência das plantas de fruto, que bailam sob os narizes de quem as colhe, de quem as estuda. Ser-se ameno nas terras de humanos…
Capítulo 4
O café
Sabrina.
Poderão conhecer uma mulher, uma jovem ou mesmo uma menina, com este nome, mas essa não serei eu. Sabrina. Dentro de mim, há um todo de paixão.
Sou sábia, solteira, satisfeita e sonhadora. Sabrina, sem outro nome, que vive por Portugal, sozinha. Considero-me como outras pessoas, que sejam bonitas, donas de um bom-gosto e algo descontraídas. Tenho um peito arrebitado, um corpo característico para a minha faixa etária e sou um bocadinho peluda. Olhos mágicos. Sou dona de uns olhos mágicos.
Hoje é um dia bastante quente, no qual o sol brilha alto e redondo, mas por nada disto deixarei de cumprir o meu ritual, a consumação do meu desejo maior: beber café.
Frequento um café, o Pedaço Felizardo, perto da minha moradia. É um café básico, não muito elaborado, mas que dá prazer visitar, pelo menos a mim própria. E dá-me esse prazer visitá-lo, porque tem uma enorme fachada ao género do velho estilo barroco, com colunas de pedra vermelha, janelas espaçosas e retém um perfume interior que apaixona qualquer visitante, inclusive salientando o meu caso… mesmo sendo uma cliente assídua. Para entenderem melhor, quando entramos no estabelecimento, é como se algumas décadas tivessem caído e recuado, tal é a semelhança a locais e meios de socialização extintos, aqueles presos nas memórias das pessoas velhas e da História. O gerente do café conhece-me minimamente, tal como sempre pretendi e mencionara, mas por várias vezes, sozinha ou acompanhada, sugeriu-me, alertando-me, abandonar o vício do café. Enfim. Sempre respeitei tal comportamento, ao ponto de achar graça e dar dedos de conversa, mas vezes há em que não tenho paciência para as sugestões do tal sujeito. Da última vez que lá fui, irritei-me um tanto, silenciosamente, mas percebi que, debaixo das pestanas grandes do gerente do Pedaço Felizardo, ficara uma moldura de desdém e augúrio. Eu permaneci uns segundos inquieta, meditando naquilo em que terá ficado a pensar o homem que tanto insiste para que eu pare com o ritual do café. As maquinações… o café. O café.
Neste instante, avisto o café à minha frente… é depois daquela esquina. Depois daquela esquina. Depois da esquina. Depois daquela esquina. Ao ar livre, cheira-se um mofo xaroposo e os pulmões enchem-se-me de impressões pesadas. Hoje não prendi o meu longo cabelo escuro, quase até meio das costas, tal como costumo fazer. Não o prendi, porque preciso de sentir-me liberta, de vez em quando, neste caso, sem cabelos nem nada a estorvar… tudo o que tenho assenta apenas na pele. Preguiça. Café. Vou beber café. Estou cansada de ver os dias passar cruelmente. Vejo o café ambicionado de fronte. Passo a mão no cabelo. Tenho-o oleoso, terei que ver disto posteriormente. Oxalá, agora, este café me saiba pela vida! Minha sede exagerada, hoje…
Servem-me o café na mesa do costume. A mesa fica próxima da janela de acabamentos dourados, no canto oeste. Daqui, sentada, vejo uns velhos bosques face ao rio selvagem e olho uma mansão assombrada e queimada, a qual contabiliza cento e três anos de vida… ou de morte. O sol projecta-lhe uma imensa sombra no chão esburacado e as areias das paredes assemelham-se a bichos, a insectos, deformados terrivelmente, como que por uma grande radiação. Encontro-me no meio de um ambiente, pela paisagem que observo e descrevo, sombrio, assustado, repugnante e loucamente árido. Portugal provinciano, antigo e com detalhes desconhecidos e enterrados. Um bafo de Eras…
Pego na saqueta branca do açúcar, para sacudi-la. A saqueta pequena dança presa pelos meus dedos comprimidos. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Eu projecto a minha mão esquerda, livre e fechada, para o centro da mesa de dois lugares, e sacudo, bato, a saqueta doce contra a mão. Sacudo e bato. A saqueta contra a mão. O açúcar na saqueta pequena, para o café. Durante cinco minutos não paro de fazer isto. Sacudir. Como uma loucura, nunca acho suficiente o tempo que gasto nisto…
Fico agora paralisada com a chávena nas mãos. Paralisada. Perdida. A devanear. Se as nuvens pudessem estalar os dedos neste preciso segundo, eu reagiria da forma comum, aquele vibrar o corpo, pestanejando fortemente os olhos, por de novo encaixar a alma na carne e no osso, que porventura se desapegou. Chávena bonita, pálida, fumegante, quente e pálida. Irracional. Ao menos, sei que penso em algo concreto.
Encho já a minúscula e requintada colher de café. Eu verto o café para a chávena, gota a gota, o café esburaca o resto do café acastanhado. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. O som que isto provoca é um efeito engraçado, quase imperceptível mas hipnotizante. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. Um ciclo de faces estagnadas que se empolam. Verto o café para a chávena, gota a gota. Portanto… introduzo um dedo na chávena de café para molhá-lo na bebida castanha. O calor do líquido parece estar a invadir os meus poros sensíveis e doces de mulher, dando-me a sensação de uma particular influência eléctrica possuir o meu dedo. Dedo quente. Dedo estático. Dedo surreal, não sei quando ou como, no café real, apesar do dedo real pertencer a um sistema humano que vê coisas surreais. O meu dedo fugiu do meu controlo e espetou-se no meu peito. Ui. Manchei-me de café! Baques sucessivos estão a drenar o cansaço do meu cérebro, por intermédio de um assobio gorjeado. Toda a vontade de beber café accionou na minha mente um circuito quase majestoso de poeiras infernais com espectros exaltados. A minha mente parece que mede agora um quilómetro. Por que é que não suporto o peso do meu crânio? Ai, café…
Levo a chávena branca aos meus lábios macios. Por estes meus lábios que tantos beijos trocaram, o café invade o interior da minha boca perfumada e sinto o seu calor agradável, delicioso, a revestir os meus dentes aguçados. O café, picando-me a língua inquieta. Detenho-me, finalmente. Imóvel, finalmente. Serena, finalmente. Finalmente, balanço e tudo fica turvo, finalmente. Lume e estrondos macabros, que são explosões subterrâneas. Movimentos por debaixo da minha pele. Comichão nas nádegas. Ritmos cardíacos surpreendentes, que leva o mundo a alterar-se, neste momento. Não me recordo de algo assim! Ouço máquinas a grunhir e preservo o recente gole de café nas minhas goelas. O que é que se passa? Todo… mas… o ambiente que me circundava há quinze segundos desapareceu! Não me dói a cabeça, é certo, porém esta move-se como um puzzle orgânico. Deixo de arfar, para escutar o que parece ser o barulho de uma coruja, por eu estar a caminhar ao relento. Eu não sei, mas acho que alguém está a brincar comigo!
Estou agora numa estrada muito degradada que mostra altas colinas negras, com as árvores mais feias do Universo. Reparo que as minhas roupas estão enigmaticamente rasgadas, mas não só. Eu tenho as roupas molhadas em diluente! O local que me envolve não é muito luminoso e talvez por isso tenha uma lanterna de luz vermelha nas mãos preenchidas de feridas e quistos, nos quais vagueiam lesmas chifrudas. Mal ou bem, aponto a lanterna para o que existe à minha frente, para ver o caminho que estou a fazer nesta estrada. Ai, estou cheia de medo. Medo. Medo. Estou cheia… cheia… cheia de medo. Tenho medo, por alguma razão que desconheço e não suporto o movimento de olhar para o que vem atrás de mim, aquilo que sei que persegue a minha presença, porque sinto o meu pescoço preso, tal-qualmente tivesse duas espadas em brasa dos dois lados, obrigando-me assim a manter o pescoço desumanamente direito. Ouço morcegos a gritar. Caminho, mas infelizmente os morcegos urinam em cima dos meus cabelos e… agora as suas urinas incendeiam controladamente, em minúscula escala, as minhas roupas. Estou em agonia.
A temperatura de um nevoeiro púrpura, atrás de mim, pressiona o meu corpo brutalmente. Caminho sem querer, pela estrada que desconheço e a qual me dá arrepios. Eu não estou no meu perfeito juízo, com certeza, já que interrogo os meus sentidos por julgar que aquilo que vem atrás de mim será ou é uma legião de mortos, de pestilências, de fenómenos vis, que referencio a livros do Mundo Antigo. Os empurrões nas minhas costas em fogo são mais nojentos e medonhos, ao mesmo tempo que estou a cheirar odores cadavéricos e enervantes.
O maldito ambiente torna-se cada vez mais escuro e a luz da lanterna torna-se mais pálida e assombrosa, situação que não me surpreende. Estou a ser mordida nas costas por dentes mais aguçados do que as espadas em brasa no meu pescoço. Sinto um medo profundo, em doses de maníaca percepção, estou a sucumbir e vejo-me rodeada de paredes que rodopiam a uma velocidade intolerável. Eu tremo por toda a parte, simultaneamente poderosos abanões atingem-me no peito. Estou a abanar por dentro de um modo horrendo, perturbante, doloroso, o que agora me faz cair de joelhos. É impressionante este cenário maníaco. O fogo em mim dá-me sonhos doentios e lembro-me que gosto de tomar café. Café?
Acredito estar a sofrer espasmos graves, como se de uma doença terminal se tratasse. Abismal estado de choque… o meu olhar está a fumegar e as veias injectadas estão… neste momento, eu rio alucinadamente e sinto que unhas de metal cortantes furam os meus ombros, ao mesmo tempo que vapores de cores ácidas e abstractamente corrosivas fazem desenhos insanos à frente da minha visão obscura e desenquadrada com a realidade. Os desenhos são tronos de paisagens de carne em fóssil, sustendo figuras e personagens de vários membros, com corpos agrafados a motores com penas vomitadas, as quais dão estranhos passos mergulhados em aplicações robóticas. As figuras, que comeram as paredes que rodopiaram para mim, seguram humanos vivos pelas costas e mortos de pele púrpura que seguram velas de lume gigantesco. Os desenhos tornam-se neste momento avermelhados, brilhos de rubi, e por mim abaixo desce uma chuveirada de pregos com olhos dentro de meteoritos moles. Milhões de dedos golpeiam-me e rodas de diamante com lava fossilizada, com o tamanho das árvores feias das colinas, esfacelam de meio em meio metro a estrada à minha frente. A lanterna desliga-se. Vento…
A minha cabeça esmaga os meus ombros. Vejo quase nada, quase nada, mas ainda assim avisto mesas limpas de um café, ao meu redor. Estou no Pedaço Felizardo. Tenho a minha chávena a meio… mas questiono-me fortemente, pelos episódios que vivi, há momentos. Contudo, há cubos de inox da estatura de um gato adulto a voar do outro lado do vidro da janela, pelo que as minhas questões se evaporaram fugazmente. Não sei o que são. Olham-me. Incorporam-se uns nos outros, criando uma misteriosa escultura. Tento identificar aquela escultura, mas a chávena está a entrar na minha boca, está a entrar com muita força na minha boca. Tenho medo, não tenho condições para opinar mais sobre aqueles cubos... desmaiei. Sei que desmaiei e o café saboroso vai escorrendo por mim adentro. Arde…
É inacreditável! Ouço os sons dos meus neurónios a funcionar. Ouço os sons de uma colher a bater intermitentemente numa chávena de café. Café. O meu cérebro alimenta-se em proteínas e células de mágoa, mas também de impulsos abstractos. Levanto-me de um chão espelhado e depois num tecto de cinzas, para beber mais um trago de café.
Olho-me, em frente a uma piscina vazia. Afasto-me para o lado de um quintal cheio de abóboras em forma de gárgula e cogumelos com corpos de cavalos-marinhos. Reparo, agora, incrédula, que as minhas nádegas estão na parte da frente e que o meu ventre se encontra na parte de trás, assim como tenho os calcanhares virados para a frente e os dedos dos pés virados para trás. Inverti. O resto das pernas está correcto, aliás, consigo andar perfeitamente…
Seguro por uma trela grossa de cabedal líquido mas inquebrável, um bando de mortos com as cabeças trespassadas que cantam o meu nome ruidosamente, como um hino, com aqueles tons de um amor platónico. Os mortos, em asquerosa excitação, pretendem destruição, exigem que todos sintam o frio das suas campas. Escolheram-me por ser mulher, gostam de uma influência diferente de poder, de uma persuasão sedutora e de uma seriedade forte. Agora, sem café a restar na minha chávena, não sei como reparo nisso, vamos para um labirinto de escamas e fedores alienados. No labirinto, estão inimigos sem a coluna vertebral, sem ossos, sem tendões. São orbes sem definição, borrachas altas, gorduras e espessuras de prejuízo para nós. Vejo-os ali, perto. Solto os meus mortos enraivecidos e cintilantes em baba verde. O café. Um trago, dois tragos… tragos dissemelhantes, complicados de engolir. Com suores que cheiram a café, os meus mortos, correm para aqueles corpóreos moles, enquanto gritam como índios perturbados por homens das civilizações modernas. Os meus falecidos e putrefactos esmurram, pontapeiam, amolgam, magoam e trespassam os diversos, disformes, pedaços de gomas e colas intensamente bravos e aterrorizadores. Eu assisto impune e soltando gargalhadas à luta nefasta que se desenrola. Os mortos são arrojados, porém não conseguiram ainda eliminar nenhum dos seus esponjosos adversários. Choro drasticamente. Borbulhas caem a meus pés. Os meus cabelos esfarelam-se em átomos de cinquenta centímetros. Um clarão cinzento irrompe do alto e desaba no epicentro da fúria. Não vejo, não sinto, não ouço. Respiro mal. Não vejo, não sinto, não ouço. Respiro mal. Não tenho medo. Tenho medo. Não tenho medo e olho como consigo para a minha frente. Os meus mortos foram-se, desapareceram, menos a presença dos seus suores com odor a café. Não tenho a trela na minha posse. As queimaduras nas minhas mãos têm a forma de uma trela. Água nasce aos meus pés, água ácida. Os adversários avançam para mim e cercam-me. Não tenho medo, apesar das suas atitudes serem para mim desconhecidas… mas não me dão medo! Os orbes não falam, não emitem sons e tão-pouco se transmutam. Dá-se novamente o clarão cinzento, ouço melhor desta vez, pelo facto de ter caído em cima de mim. As formas esponjosas agora encolhem e agarram-se à minha pele, como aparelhos, depois como injecções e por fim como tatuagens. Estou inchada, cheia de sangue esponjoso. Tenho pavor abismal perante isto tudo. Tropeço e rebolo. Rebolo, rebolo. O mundo treme e faz barulho, ensurdeço e perco a fala. Nulidade e brancura no horizonte. Penso que nada mais pode acontecer, mas… ai, levo com um bocado cru do mundo que está a mudar de novo e caio assim numa cavidade repleta de antiquíssimas estátuas Gregas, nas quais o meu corpo rebenta, devido às saliências tenebrosas de outros milénios esculpidos. Alarmes soam na cavidade, pois accionei o meu estado de emergência. Apanho o meu corpo e saio…
Levanto-me da mesa, ajeitando a cadeira. Pedaço Felizardo. Café. Deixo o dinheiro para pagar o que consumi e bocejo. Despeço-me, de lábios molhados, do gerente do espaço cativante. Digo-lhe até à vista, murmurando que vou tentar deixar de beber café. O gerente faz-me uma vénia, deixando escapar um brando olhar de relâmpagos roxos sob as suas córneas treinadas. Vou voltar para casa e prender o meu cabelo.
Capítulo 5
O whisky
22:04h
Sei que o mundo é bonito, mas neste momento sei que apenas o gelo o será...
Ivo. Apesar do nome curto que tenho, a forma perigosa de ter vivido a minha vida de curto nada teve. Ivo, nome de um homem de experiências fartas, nome de viajante terrestre decadente. Virtualmente, digo que fui um conjunto de irritações, exageros, hilariantes posturas pouco racionais. Veemente, digo que sou um humano que soube viver perturbadamente, a perturbar, e que colheu espontaneamente surpresas que o mundo nunca vira.
Aqui, no chão que reveste a textura das minhas calças sentadas, o frio enche-me os poros, porque este frio da Dinamarca não é uma seda que faça parte do meu código genético. O monte alto e gelado dinamarquês que subi, através da fúria que o whisky liberta dentro de mim, proporciona-me uma vista deslumbrante sobre a calmaria das pessoas que não vejo ou conheço. No cimo deste monte de gelo, largo os tempos que fizeram mudar as minhas cartas de baralho que manipulava no mundo. As revelações sobre/na repulsa.
Houve uma altura em que era Sábado e eu saí à noite, a um bar qualquer nas redondezas, para divertir-me e descomprimir de outra semana de muitos trabalhos, esforços e também náuseas. Sentei-me ao balcão, perto de uma mulher sensual e de aparente faixa etária menor do que a minha. Pedi o costume: whisky. Velho. Uma pedra de gelo pequena.
Consumo whisky quase como quem, depressivamente, bebe chá no tempo de uma gripe. O ritmo de ingestão compassada mas veemente. A par dos invisíveis segundos, funguei e passei o nariz pela manga do meu fato de Sábado, deixando obviamente marcas de líquido nasal, para de seguida dar o primeiro gole no néctar levemente acastanhado. Foi um barulho de satisfação que emiti, no fim do gole. A mulher ao meu lado riu. Lamentou não sei bem o quê com os seus lábios finos, mas continuou o namoro com a sua bebida: um cocktail de frutos silvestres, penso eu.
Momentos mais tarde, avancei um pouco mais para a mulher e ofereci-me para lhe pagar um copo, um whisky igual ao que eu bebia. Ela acedeu calma e desinteressadamente. Enquanto bebíamos e brindávamos às guerras que fizeram o mundo ser aquilo que hoje ele é, começando pela guerra entre forças, energias e compostos do Big Bang até à Segunda Guerra Mundial, os meus discursos cativavam a mulher, à qual nunca perguntei o nome, mas perante a qual me fiz passar por um ricaço, herdeiro de um casal de abastados bancários.
À medida que eu ia entendendo o ritmo das coisas, ela seria a minha presa sexual naquela noite. Bebi dez whisky e, escusado será mostrar que, vomitei todo o balcão do bar, tal-qualmente três clientes e os meus sapatos. Foi quase numa tempestade de apupos que saí do bar, arrastando a mulher, ainda a terminar o seu whisky…
Violentamente, saindo do carro ainda com os sapatos vomitados, puxei a mulher motel adentro e o responsável deu-me a chave do quarto, que normalmente usava para os meus entretenimentos semelhantes. O quarto ficou iluminado com uma luz vermelha muito viva. Abusei promiscuamente do corpo da mulher, que foi um objecto obstinado na minha mão, e quanto mais eu lhe dava prazer, mais ela me irritava. Decidi morder-lhe a orelha direita, mas mal ela gemeu cortei-lhe a orelha selvaticamente. No instante seguinte, senti o orgasmo a caminho do meu corpo e mente e não bloqueei a intensidade até ejacular finalmente bem no núcleo da ferida imensa e fresca acima do pescoço da mulher. Enfiei o meu sexo rijo, com resquícios de sangue e saliva com whisky, na boca da mulher para demoradamente vê-la a desfalecer. A cena imprópria demorou largos minutos, pôs-me de rastos e só serviu para agravar a minha habitual dor de costas, que já perdurava dias afinco. Pagando uma simpatiquíssima quantia de dinheiro, pedi ao responsável do motel para se livrar do corpo da mulher. Não perdemos muito tempo com palavras e deitei-me para procurar eliminar as minhas dores, apagando tudo da minha mente. Novamente…
Na manhã seguinte, tentei arranjar uma consulta no meu médico. A maldita dor de costas estava a ser um problema demasiado extensivo. Apesar de me ter preocupado com o meu estado de saúde, estava ainda muito atordoado da anterior noite mal dormida, logo foi sem espanto que pisei algumas pessoas que estavam na sala de espera da clínica. Sem pedir desculpas a ninguém, insisti com a secretária para que me arranjasse uma consulta urgente naquela manhã. Assim fez. Sentei-me mais relaxado e arrotei ao efeito dos whisky.
O meu médico era um homem lúcido, proveniente de uma família de sucesso na vida e com filhos talentosos. Após me ter inquirido sobre aquilo pelo qual me queixava, fazendo conversa acerca do meu estado de saúde, agitou distintamente a cabeça como se compreendesse todo o meu interior e perguntou-me se eu aceitava whisky. Fiquei à toa. Era uma pergunta demasiado insólita para aquela altura e aquele lugar… porém, respondi-lhe que aceitava. Por ter vindo a saber que eu andava com esta dor de costas, mas também febres ao princípio das noites, febres muito altas, o meu médico receitou-me um velho whisky dinamarquês, o qual continha um ingrediente como que medicinal que actuava nas zonas lombares; não só mas principalmente. Era um whisky raro, segundo ele, que apenas os bons apreciadores extraíam todo o proveito dele. Fui para casa beber o whisky. Resultados posteriores: a minha vida mudou radicalmente, porque as febres começaram a transformar-se em visões sobre o mundo, sobre curas e fórmulas para extinguir doenças. O meu cérebro esmagava-se dentro da minha cabeça e sempre que o sentia a contorcer-se de forma desconhecida, espontaneamente eu pensava em fórmulas científicas, com as quais pude entender todo o mundo da medicina, da física, da química e da biologia. O calor dentro de mim era esgotante. As minhas mãos passavam para o papel essas fórmulas, como se isso fosse a única coisa que verdadeiramente sabia fazer…
Em poucos dias, as paredes da minha sala de estar estavam riscadas com as fórmulas. Chamei o meu médico a minha casa e ele encarregou-se de chamar uns investigadores de elite para aplicarem o que eu escrevi e soube. As fórmulas que eu visionava quando bebia do whisky serviriam para destruir evoluções de cancros, para curar a sida, bem como outras doenças do mundo poderiam ser apagadas rapidamente. Era disso que eu sabia, tal como os investigadores vieram a perceber depois de lerem o que eu escrevi.
Como é que tinha eu conseguido aquelas fórmulas? Eram tão perfeitamente certas que pareciam surreais, comentavam os investigadores. Antes de proliferarem as fórmulas e métodos de vacinação pelo mundo, o meu médico ofereceu do whisky a todos nós na sala e de imediato brindámos à saúde perfeita do Homem! O whisky produziu embriaguez no médico e nos seus investigadores amigos, todavia em mim acentuou a noção de que tudo o que eu sabia era absoluto e que os pensamentos não paravam de me assaltar, bombeando visões do efeito das minhas fórmulas.
Houve, no acto seguinte, um tempo cinzento em que nada aconteceu. Os investigadores escreveram-me só passado um mês. Tinham iniciado aplicações reais das minhas fórmulas num grupo extenso de doentes de sida e cancro. Todos recuperaram 80% da sua integridade. A comunicação social começou a dar a conhecer os avanços feitos na medicina, que um estranho tinha descoberto, estranho, porque não autorizei que a minha identidade fosse revelada. Permaneci na sombra, como sempre permaneci e vi a proliferação e distribuição de whisky, que eu experimentei da parte do meu médico, começar pelo continente africano e depois por todo o mundo. Começou tal coisa, porque eu acreditava que era esse o veículo da cura de doentes. Criaram-se registos para toda a História: o whisky entrara nos hábitos mais banais do ser humano. O meu médico conhecia os efeitos daquela bebida, mas só quando me conheceu é que admitiu que tais efeitos eram superiores. Teve que admitir! Por lembrar disso, nunca se conheceu concretamente os fabricantes daquele whisky ou de que ponto dinamarquês ele nos chegava, posteriormente à revelação das minhas fórmulas medicinais.
Tudo aconteceu de forma construtiva, mas grande parte do mundo não compreendera bem o porquê ou como estava tudo a acontecer. Lembro-me de que o mundo se tornou membro de uma única crença: a científica. Crença essa que era regada por um whisky: o whisky!
Cores, transformações, soluções, resultados, vitórias…
Um dia nasceu pior que outros e esse foi a chegada do dia em que saturei de ver todas as pessoas a beber a mesma bebida que eu e o dia em que saturei de ver todo o ser humano a funcionar do meu modo e esse dia ficou registado como o dia em que deixei de escrever e palrar entre investigadores sobre as minhas fórmulas de cura. Dia preto com fumos de metal pungente. Tanta saturação, já que o mundo humano estava curado, só que tornou-se mais dependente do whisky que eu e apesar disso ver realidade pura, somente a minha pessoa via as tais fórmulas e percebia futuros…
23:19h
Detendo ainda dentro do meu corpo as imagens, as visões e os fluidos reveladores que curaram algumas doenças letais. Viajei para a terra natal do meu whisky, para correr atrás das ironias de uma infinita cosmologia e é por cá estar que os jovens e idosos da zona procuraram conhecer tudo acerca de mim…
Por todo o absoluto azar, já me encontraram e novamente de mim querem gestos. Olho para eles como se fossem os únicos seres humanos que no mundo têm a capacidade e a vontade de me chatear. Estão tão fanáticos e radicais por obter curas e respostas para os seus males que, se fosse noutra altura da minha vida, agoniza. A multidão já começou a subir o monte de gelo. As brisas nórdicas cantam ao meu ouvido imóvel.
O intuito maior destes jovens e velhos é o de comerem-me vivo para digerirem o meu corpo e as minhas células acesas pelo whisky. Sobem pela sabedoria? Ouvi falarem nisto e nesse momento sorri por ter decidido deslocar-me para este ponto do planeta. Desaparecer numa marca maior. Nasci numa marca menor. Estojos de inseguranças.
Penso nos valores nórdicos, mas nenhum é melhor que este gelo do monte. O gelo que me conforta os pensamentos. Não se é superior por muito tempo, entre humanos. Não é que não haja brio para isso, mas a verdade é que acabamos por nos aborrecermos em ser os seus comandantes. Agora, aproveitando as suas histerias, comandarei sem me chatear por não mais existir da forma física que chateia. Serei sempre um divinal espectro, com sabor a whisky com muitos anos desde a colheita ou consumação ou ainda manipulação indefinida, dentro dos genes humanos que comigo ficarão. Luxos da vida…
Estou a ser tocado pelos dinamarqueses. Apalpado. Agarrado. O gelo do monte deixa de ser branco, logo a seguir à primeira investida canibal sobre mim. As nuvens assemelham-se a grandes garrafas.
Eu estou… eles comem-me… não é mesmo possível não haver morte, não é […]
[…]
23:47h
Escreve-vos, a partir destas folhas caídas no gelo, um velho dinamarquês, caros indivíduos que encontrem alguma vez estas palavras…
Esqueçam tudo o que leram! Esse memorável cavalheiro português, Ivo, deixou de existir. Apenas as suas roupas vão para o seu caixão. Ivo deixou de existir e até que nos soube bem a sua carne. Tenra, madura, e molhada… tresandava e sabia a inteligência e a whisky. Parecia mesmo whisky…
Capítulo 6
Mel vermelho
É Inverno. As ruas estão ensopadas. É Inverno e as ruas desertas estão enregeladas, com gelo pontiagudo. Eu simpatizo com este tempo, mas não tanto com o facto de me cruzar menos vezes com os companheiros e amigos que se fecham em casa. Nesta ordem da verdade, não há nada para ninguém. Não há conspiração, não há conversa, não há ajuntamento; há Inverno.
Passa-se sempre alguma coisa nestes momentos frígidos. O pensamento voa para zonas supostamente mais quentes, as queixas saltam da língua para os ouvidos, as culpas pincham para as aberturas aliciantes da realidade parada, as ocasiões tornam-se mais sortudas ou de motivo excepcionalmente garantido e os humanos fincam-se por especulativas confusões.
Paro diante do portão da minha moradia. Daqui engraço com as estrelas que não tremem devido ao frio desta noite. Pouco ou nada de interessante se vê daqui a esta hora, mas foi exactamente por isso que eu saí da sala há momentos. Tenho vontade de descobrir qualquer coisa de extraordinário, pensar que podemos utilizar de maneira incrível e evolucionária qualquer coisa já há muito existente no mundo, persuadir atitudes de pessoas para outros caminhos prodigiosos ou persuadir caminhos prodigiosos a encaixarem-se nos pés de outras pessoas… tenho vontade de acelerar o núcleo do planeta. Estas ramificações de vontade são receita de uma personalidade mutável sob um ideal apaixonado pela vida, pela obra, e qualquer miniatura de composto terreno, por exemplo o que vejo agora às escuras, ramifica-se e massaja a vontade do corpo e da mente. Cada um desses ramos agrada-se com cada pertence meu, portanto o motivo de estar a deambular pela parte de fora da casa é perfeitamente vontade minha, mas se assim não fosse, parecia que estava a ficar alienado, vazio, esgotado ou sem rumo aparente. A noite fria e a minha vontade em chama. Vontade de ferro, frio fundido. O silêncio é um gelo apenas exterior.
Vivo um novo dia para superar anteriores, unicamente para não me sentir linha e sim pico. E em cada novo dia há obstáculos a um pico, inclusive a meteorologia, mas compete-me a mim próprio arriscar. Ritual diário da escolha. Estava muito aconchegado dentro de casa, mas escolhi sair para o frio desta noite, para assim inovar, diferenciar, adicionar, face ao dia de ontem. Contrariar e responsabilizar também, cenários que me fazem lembrar de uma das coisas que os meus pais dizem constantemente, que para eu sair de casa a temperaturas baixas, tenho que me agasalhar até à ponta do nariz ou sofro. Eu não sofrendo com falta de cuidado, sei que sem me superar sofreria baixas intelectuais.
Os sons de animais ou de ordem estranha não se estão a fazer ouvir. O céu tenta clarear com o avançar destas horas, da madrugada, e a lua move-se no seu aspecto melancólico. Pazes, ausências, refúgios, pontos, sonos espalhados, odisseias nocturnas… em tudo o frio desta data vive. Neste momento, vou até ao pé do fontanário mais arcaico do meu jardim, o qual se encontra recentemente ornamentado com plantas exóticas e, nas suas bordas, acompanhado no seu tom de classe por conjuntos de espadas e armaduras pequenas, gastas, cruzadas. A nuvem de ar, o vapor denso, o frio, que sai da minha boca entreaberta, conforme respiro, funciona como um pano de secagem do silêncio, desmaiando sem graça na água do fontanário para onde olho. O fontanário, os ornamentos, a água... tudo fica turvo no plano físico, agora que o plano psicológico traz calor à realidade. Eu sento-me na pedra com gelo e o meu cérebro relembra outras vidas…
Espelhos e um observador. Para lá dos espelhos, vidas, atrevimentos, histórias! Os espelhos reflectiam imagens de séculos anteriores. O chão era pisado por retrocessos de tempo, de pós, e a criação da alegria nos espelhos esquematizou prazeres ambíguos. O observador, à distância certa para reparar, escrevia sem razão, mas com deleite e sumarenta animação, acerca dos personagens que se evidenciavam do resto do terreno, das imagens apartadas, dos espelhos. Esse observador, sem língua, com farfalhuda massa cinzenta, com olhos e material de escrita, acompanhou os intervenientes na acção essencial, nos regulados segundos da sexualidade arrebitada. Três pontos na fórmula redonda, entre espelhos e estranhezas da noção: o observador, um personagem homem e um personagem mulher. Os enredos montaram-se sob sorrisos entre espelhos num colapso doce e o homem e a mulher renasceram para existir com dimensões e adjectivos totais, porque o observador ganhou então o seu trono de comando…
Ele – o homem – usualmente dormia muito calmo, sem transpirações de maior, calores ou sentimentos de solidão abismal. Ele era bonito, de feições claras e definidas, que se enriqueciam num corpo jovem e forte, repleto de uma sensual energia. Encontrou-a – a mulher – num dia fervoroso, num parque com estátuas de reis notáveis e burgueses belos. Ela exibia uma silhueta, perfumada com lindas formas, sumptuosa, completamente atraente e elegante, dona de um rosto angelical que era adornado por um ar enfeitiçado. Ela vestia-se de branco: a blusa branca, a saia pelo joelho branca, engrandecendo-se em calçado vermelho e jóias vermelhas. Ela vestia-se num branco inspiradamente vivo e admirável. A pele do corpo dela era pálida e assemelhava-se a uma grande concentração de seda. Ele pôde contemplar, após dar passos em direcção à zona do jardim que lhe interessava, que o cabelo dela era vermelho, qual vermelho marcadamente exibicionista mas refinado. Era ordinariamente uma cor em finos fios de cabelo bem tratado, mas o cérebro dele convenceu-o que aquela faustosa imagem a passear-se tinha um encanto fabuloso e real, merecedor de largos momentos de atenção!
Após terem trocado olhares cúmplices, ela caminhou em direcção a ele e com uma vénia e um sorriso luxurioso, afastou-se por completo dele e daquele jardim. Ele corou e de imediato se virou para admirá-la de costas, pois sentia que precisava de fazê-lo sem pudores, mas apesar de tê-la admirado uma última vez, ela já não mais voltou a lançar-lhe o olhar. Sentindo uma sensação de satisfação, ele decidiu partir rumo a casa para poder meditar em tudo o que sucedeu, visceralmente guardando as imagens, os olhares, do caso vivido. O dia passou rapidamente desde que chegou a casa e se fechou no quarto. Quando a lua da meia-noite cintilou no firmamento, ele já dormia pesada e meigamente, na sua cama enorme e de arte requintada. Nessa noite, ela surgiu-lhe no quarto e próxima da janela se deteve a olhar o corpo dele. A atmosfera do quarto ficou esquentada, pintada sobre uma aura vermelha e ele no seu inconsciente acreditou conduzir um sono inquietante, transpirado, ao género de uma tortura de cócegas estimulantes. Ela avançou para ele e ajoelhou-se perante o rosto docemente adormecido que se apontava ao tecto branco do quarto. Ela admirava o rosto dele, pensava o quão belo era e inspeccionava cada centímetro dos seus lábios rosados. O olhar arrebatador dela fortaleceu-se e como uma membrana em fogo acalorou e enrijou o físico dele. Ela sorriu com melosa malícia depois de reparar no corpo dele a agitar-se com calor e sentindo tanto calor, ele destapou a camisa de dormir o suficiente para mostrar o peito cuidado e cativante. Aos olhos dela, ele continuava a agitar-se sobre os lençóis encorrilhados e tais olhos rejubilaram-se por completo com o endurecimento e dilatação por debaixo das calças dele, que lhe significava um inchaço tão tentador. Ela adorou o desencadear de prazer através da sua silenciosa perscrutação ao quarto dele e satisfeita ergue-se do chão e deu-lhe um longo beijo afectuoso numa das bochechas do rosto transpirado. Afastou-se da mesa-de-cabeceira, observando à contraluz que ele mantinha uma erecção enorme, rígida e fervorosa, ao ponto de por baixo das roupas se adivinhar avolumados vasos sanguíneos no membro sexual…
O sol irrompeu graciosamente pela janela do quarto dele, fazendo-o despertar de seguida. Achando-se húmido, saltou da cama e sentiu-se preenchido por uma força criadora, que o convenceu de uma noite de sono bem aproveitada e com direito a ter sonhado com ela, que no dia anterior tinha vislumbrado. O bem-estar manteve-se-lhe no corpo e na alma e a rotina encarrilou-o com paixão, mas depois da noite em que sonhou com ela, não voltou a vê-la no jardim. Estranho era para ele, porque jurava que por vezes, por segundos, a via em qualquer local, parecendo cómico e ao mesmo tempo desorientador. Sentiu que a noite anterior fora uma referência importante doravante na sua sexualidade.
A tarde estava interessante e as coisas corriam calmas e conforme o esperado, mas não esquecendo que se deslocara já muitas vezes no seu coche particular. Ele tinha um emprego pacato, o qual significava um grupo de bibliotecários e arquivistas, sendo o seu desempenho muito formal e linear, sem grande espaço para investigar, criar ou inovar no sector. Sentia que tinha garra para ir mais à frente, mas o meio e as pessoas com quem se relacionava, levavam-no a um conformismo usual, que pouco diferia do dos seus demais. O mais que podia esperar da sociedade era um padrão demasiado igual, porém o seu interior necessitava de um bem desigual.
O ritmo das horas e dias ia de vento em popa e ele sentia-se cada vez mais regenerado de dia para dia. Ela continuou a surgir-lhe no quarto, noite após noite, visitando aquela beleza adormecida e igualmente realizando coisas cada vez mais atrevidas nele. Ele sentia-se durante o dia muito mais confiante, desde que a conheceu, portanto declamou que o seu dia-a-dia passara de cinzento e azul a vermelho e dourado. O carácter sensual constante que passou a sentir sob a pele, demonstrou que ele era capaz de emanar mais energia e força de resolução nas suas relações com pessoas e/ou deveres. A diversão dos sonhos, pensava ele que seriam sonhos, naquelas noites húmidas, para além de lhe despontar grandes sorrisos, confortava-o numa ideologia responsável, natural e rica, perante a vida quotidiana e as utopias. Ele acreditou em momentos de felicidade, em parte, muito vivos. Era um embrulho com laços de cores exoticamente superiores…
O murmúrio dos animais da noite embalou-o num sono aveludado. Ao fim de uma hora, ela estava no quarto dele e, como quem mata saudades de alguém muito especial, beijou-o repetidamente nos lábios semiabertos, cuidadosa, sem que ele despertasse. Sussurrou-lhe depois com doçura ao ouvido esquerdo para que a mirasse, para assim se sentir mais bela e acompanhada. Ele permaneceu embarcado no sono tranquilo, mas ela, mesmo assim, ficou honrada. Ela afastou-se para o pé da lareira apagada do quarto, no lado esquerdo da cama dele. Pôde reparar, mais pormenorizadamente, nos itens medievais com que ele emoldurava e alindava a parede contígua à lareira. Agarrou a maior espada afixada e nas suas mãos manuseou-a de maneira fina, feminina, espontânea. Olhava a lâmina ainda afiada da espada, quando passou um dos dedos no corpo esguio desta. Ao terminar o tacto, sentiu cortar-se ligeiramente, nada de preocupante, visto que inclusive a entusiasmou um tanto. Aquele corte, aquela palpação à arma, fê-la pensar nas características físicas e sexuais dele, desejando cortar-se na energia dele, no corpo dele, na firmeza dele, no poder sensual dele… e ao recolocar a espada na parede, deslizou cortesmente até ele e acendeu algumas velas. Destapou-o e viu que ele vestia apenas umas calças finas, de um tecido bastante apetitoso para ela. Passou as mãos claras e ardentes pelo peito nu dele, sentindo o batimento do coração em crescendo com a duração do toque dela sobre a pele. Pressentindo o calor nele a despontar, retirou-lhe as calças, despindo-o então por completo, de um imponente modo. O corpo dele brilhava com o jogo de sombras e efeitos das velas acesas e a sua nudez arrebatou o olhar atento e mágico dela, levando-a a respirar mais verdadeiramente. Ele, completamente a dormir, transpirava bastante, mostrava os músculos que se endureceriam, teve-a diante de si, cativantemente feliz, a despir-se lentamente pelo quarto. Nua, lindamente sedosa, ela fixou-se uma vez mais na figura dele, adorando-o, bebendo pensamentos sobre ele. Ela, corpo feminino encantador, percorreu as suas formas pálidas com as mãos, em círculos e ondulações provocantes. As suas mãos detiveram-se entre as suas pernas altas, torneadas, conquistadoras, numa imagem pura de erotismo desenfreado. Ela tocava-se entre olhares calorosos a ele e pensamentos molhados, sentindo um prazer inominável. Ele dormia totalmente, mas dos seus poros vertia uma animada temperatura e volúpia aromática da inconsciência. Ela sabia de todos os estados físicos e extra-sensoriais dele e sobre tais motivações, ela masturbava-se…
Os gemidos sãos, os pensamentos abundantes, as massagens genitais, os ardores de prazer, por ela cumpridos, coloriram o resto da noite e o culminar gracioso da masturbação dela, o acto saudável, forte e moralizador, afagaram o descanso dele até ao nascer do dia.
Na manhã seguinte, ulteriormente à quinta noite, à quinta visita erótica dela que influía sempre mais sexualidade nele, ao quinto sonho exsudado, ao levantar-se, o quarto não cessava de ondular, serpentear, facto que o levou a saltar para a acolhedora almofada novamente, fechando os olhos com prontidão. Segundos, longos segundos depois, ele sentiu a sensação de formigueiro nos pés, mas uma incrível sensação de força e irrigação de testosterona como se tivesse acabado de ter a sua melhor noite de sono. Cogitando estar estranhamente a sonhar, não pôde deixar de sentir um tímido perfume a mel e sabonete. Pragmático, concluiu que tal perfume não advinha do seu corpo, mas o seu cérebro manipulou a sua vontade a acreditar que tal cheiro lhe era muito querido e familiar.
Quando voltou da sua função de bibliotecário e arquivista, dirigiu-se ao quarto num impulso libidinoso e muito instintivo. Ao dar a volta pela sua cama tratada e arrumada pelas suas criadas, deparou-se com um pedaço de mel num dos cantos da sua almofada. Esteve a concluir se teriam as criadas descuidadamente vertido aquele líquido doce um pouco avermelhado. A seguir, foi até ao espelho embutido num dos seus armários de livros pessoais para ver as suas faces, o seu ar devaneado, e com estupefacção viu ela reflectida no espelho, bem perto do seu pescoço. Loucamente virou-se e não a encontrou, mas desvanecia-se no ar o mesmo perfume que sentiu ao acordar. No espelho mirou-se e encontrou a sua beleza de sempre, acompanhada por uma aparência de obsessão feminina. Desceu o quarto e numa das salas de estar encontrou as criadas que habitualmente tratavam dos seus aposentos privados. Inquiriu-as se tinham derramado mel na sua almofada e elas asseveraram, juraram, não ter feito essa asneira. Ele acreditou subtilmente nas palavras delas e retirou-se da moradia. Concluiu que pudesse estar obcecado pela imagem dela, o que fez com que o seu cérebro ganhasse a sugestão que a tinha visto em muitos locais antes e a mesma obsessão deve ter-lhe sugerido que o mel estivesse ligado à presença dela. No intuito de se acalmar e desanuviar, foi com o seu criado de coche até à beira-mar, não muito distante dali. Passeou na areia da praia, deixando-se embalar ao sabor do vento morno do fim da tarde. As gaivotas preenchiam o céu, o mar emitia os seus sons relaxantes, as ondas morriam nos buracos feitos por pegadas… e ele, minutos mais tarde, acolheu por certo a quietude, o equilíbrio, da beira-mar e a sua mente e alma confessaram-lhe sentir-se melhor. No fim do passeio, ele guardava prazer, alegria, gozo e ânimo, em si, portanto foi com tais formatos que se deitou na cama, aquecido por uma lareira rubra…
A meio dessa noite deleitosa, a sexta noite, ele acordou, sem roupa, por intermédio de um estalo dela. Ele estava como que delirante, o mais feliz que soube experimentar. Ela abriu para ele um sorriso de orelha a orelha e, depois dele confirmar o extremo desejo hasteado nela, deixou-se abraçar e, inundada de beijos, carícias e meias palavras, por ele foi possuída intensa e voluptuosamente. As magníficas trocas e dádivas de fluidos sexuais, queimou-lhes a pele apaixonada e um superior patamar de êxtase alcançaram melodicamente. Um sonho nunca é somente um sonho, numa sexualidade executora.
O quarto estava mergulhado numa extensão de satisfação. No final do acto sexual, ele disse-lhe que se achava capaz de lamber todo o chão que ela havia pisado. Silêncios sumarentos, suspiros de carinho, realização de vontades. Ela mantinha o frequente sorriso amaciado, mas reparava-se-lhe um refulgente rubor nas saborosas bochechas. Magnificentemente, um vento abrasado entrou pela janela do quarto e apagou as inúmeras velas vermelhas que ela tinha trazido. Os esbeltos corpos deles perduravam nus e entrelaçados, apenas evidenciados por um feixe lunar inebriante, que aspirava descrevê-los como uma dupla de actores a serem contemplados em cima de um palco pelo público rendido.
Ensejos a seguir, ele sucumbiu numa sensação de calor, franco prazer, líquida paixão… mas acordou em breves minutos. Em frente à lareira acesa, tapada somente por um transparente véu erótico, ela dançou para ele um mantra oriental. Ela via os olhos dele a agitarem-se ao ritmo lascivo da dança. Ela via-o atento ao seu corpo dominador. A lua, que entrava pelo lado direito da cama, enfeitiçava a silhueta dela num distinto molde de beleza. O véu roxo tapava ligeiramente os formosos seios dela, tapava-lhe ligeiramente a púbis e dançava de forma aliciante nas nádegas fofas dela. Todo aquele cenário diante dele, foi um enorme motivo de vislumbre, erecção, submissão e respeito. O mantra que ela encenava era de uma qualidade maravilhosa e com o grau de ousadia a subir, ele pôde observar todos os cantos do corpo perfeito dela, todas as formas, todos os orifícios e camadas desnudadas. Ela agarrou numa adaga que ele tinha fixa na parede e com esta actuou na parte final da dança. Colou-a junto ao corpo, estendia-a pelo ar e passava-a pelas chamas da lareira, culminando num pormenor muito delicioso para ele: acariciou a adaga, afagou-a com os lábios e, pensando num falo fascinante, lambeu-a com distinto sensualismo. Ela excitou-o como ele nunca imaginou merecer e foi ter com ela, com um cálice de prata com vinho, assim que visualizou o meigo chamamento dela. Beberam o vinho imersos numa libido extravagante, marcados pelas sombras das chamas da lareira que serpenteavam fortemente, girando como línguas num beijo desvairado como o deles. Ela beijou-o e agarrou numa das velas que tinha trazido para o quarto. Ele abraçou-a, acolheu-a entre as suas pernas másculas e estendidas. Da vela não verteu para o peito dele cera líquida, escaldante, mas sim mel. Mel vermelho. As velas derreteram muito no corpo dele, aglomerando muitas manchas de mel vermelho. Provaram o mel, provaram os beijos. Provaram-se. A cópula aconteceu muitas vezes, a masturbação aconteceu muitas vezes, a sodomia aconteceu muitas vezes, o sexo oral aconteceu muitas vezes, naquela noite longa de prazer. A sexta visita dela encerrava-se nos lençóis protectores da cama dele e todo o gozo dos dias borbulhou enobrecedoramente, sob um perfume sublime de carnalidade.
A aurora da manhã, lançou um orvalho fresco e vital para ele e para ela. A vida era extraordinária, simples, materializada e livre. Ela beijou-o no rosto revitalizado, sussurrando-lhe que estava então honrada com o Universo completo e incompleto, moldável. Ele ouviu que ela lhe fizera aquelas visitas, após se terem cruzado fisicamente, porque ela própria era uma analogia, um ónus positivo, da sexualidade humana, uma força da natureza criada para atribuir felicidade, prazer, naturalidade e força a quem procurasse por ela. Revelou-lhe que ele tornar-se-ia superior, numa maior escala de amor, nessa tal-qualmente força natural e percorreria os trilhos virtuosos da sexualidade com outras pessoas que desejasse. A luz do sol irrompeu pelo quarto e ele permitiu cordialmente que ela saísse pela janela, adornada e alegrada nos raios de virtude da manhã. Ao desaparecer, repetiam-se na mente dele palavras, frases, cheiros e gemidos, que garantiram que a sexualidade é um temperamento entranhado dos corpos sob qualquer forma ou exercício.
A interpolação de períodos destrói os espelhos, os personagens, os ciclos de letras. A mudança de espaço e a disfunção de coordenadas, trazem-me ao fontanário, onde olho a água serena e límpida, como um sonho de algodão e amêndoas raras.
A noite está muito mais agitada, com uma agitação própria de vitórias com sangue e suor. É Inverno e é altura de frio, de procura de aquecimento. Toda a leitura de um texto sexual ou erótico ou sugestivo, faz parte de um dos fetiches gerais do mundo, um ramo da sexualidade, e como todo e qualquer prazer o essencial da história é alcançarmos os frutos que mais desejamos provar: proibidos ou não proibidos, sem regras nem limites, com consciência, pois a árvore da sexualidade é algo inato à natureza humanamente altiva.
Capítulo 7
Belial
A História dos homens e das mulheres e das mulheres e dos homens sempre fora pintada em telas que, nos seus braços finos e finitos, deveras assoalham passagens de demónios ultrajantes. Um dos pontos facilmente alvo de deturpações e estupidez é o campo da demonologia, ciência ou pretensão para catalogar os demónios em hierarquia, qualidade/defeito. O campo em si é já duvidoso e insuficiente de consenso geral, mas ainda assim fascina e importa conversar acerca. Nem que seja para exorcizar meninos. Nem que seja para deitar fora inércias visíveis.
A demonologia é equiparada a outras parcelas de estudos ocultos ou mais ou menos alternativos, desgastantes, incoerentes ou fantasiosos. Pinturas de incenso e alho. Leituras misteriosas e melindrosas. Pasta de símbolos e ritualismos negros. Galinhas para estripar, recantos da mente para exercitar, cabelos e madeixas brancas, verrugas no cérebro e nos focinhos humanos. Este estudo assenta nos relatos sobre perfis e existências de demónios, na delineação da sua hierarquia, composição e história (estória), bem como nos meios e nalgumas exemplificações de evocar os mesmos personagens. Apesar deste estudo estar perto de antigas inscrições religiosas e pretender englobar muitos demónios num só tomo de conhecimentos, não significa directamente que seja usado como fonte para bruxos ou rituais construtivos, porque na maior parte das vezes a única pretensão da demonologia é servir a humanidade como testemunho simples de mitologia, metafórica, ao invés de carta de amor em compromisso.
A demonologia conhece um local onde filma e passa maior parte do seu tempo a narrar e a recolher as informações e os estudos acerca dos seus escolhidos/modelos. Esse local é conhecido por todas as pessoas, mesmo variando de noção ou intenção; todas as pessoas o conhecem e tal local, variando de crença para crença, fisionomia para fisionomia, aspecto e contornos para aspectos e contornos, chama-se inferno. Um cliché religioso, um moralismo, uma percentagem de medos e dores, uma pintura, um texto, uma fotografia, uma dimensão construída sob as existências das criaturas, uma parte do ego, uma orgia de ataques profundos… ideia de lugar ou estado arcaico, o qual sempre sofreu alterações pelos milénios e pelas filosofias, pelas artes e pelos líquidos que entram no sistema digestivo universal. O inferno é uma criação de todos e de ninguém, visto que as provas de tal sítio é de conhecimento geral e de conhecimento nulo. É uma etiqueta no bolso daqueles de indumentária branca, preta, colorida, daqueles que legislam dogmas para quem os quiser cozinhar. É também uma grande abordagem dos sentimentos e das emoções que afectam a vontade e as vitórias daqueles que as exercitam, significando retrato daquilo que deturpa, condiciona, parte…
Reflectindo no que o inferno representa, facilmente se saúdam cépticos e crentes, viciados em etiquetas e emissários de medo e castração. Outros povos que se saúdam dentro desta paisagem opinativa são seriamente os crentes do castigo eterno, pessoas cinzentas e pudicas, que respiram cinzas toda uma vida, todos os dias e todas as noites e ainda um dia depois, por temerem tal crença realizada a qualquer ocasião. São os alvos de sugestões de medo, sugestões de ruína constante, opostos rijos aos não crentes, aqueles que respiram numa existência em que não se vêem a ser castigados, pois instauram em si próprios a máxima de que quem não quer castigo não procura dar a mão à palmatória ou nem tão pouco se detém à espera da palmatória. O que é verdade é que crença como a anterior é falada e transmitida, porém como essa há muitas e não vale de nada segurarmos só um dos fios quando a extensão desse não nos possibilita vantagem maior. O que existe aqui é um circuito imenso de fios absurdos, frágeis, e uma das luzes que nele se pode salientar é que uma mente acondicionada em receio de vida por uma regra a não quebrar sofrerá de um castigo quase imperceptível, prolongadamente visceral, facto que não precisa acontecer se entender que louvor e castigo andam de neurónios ligados, intercalados; e tudo seria mais simples e brando.
Nesta confusão de inferno e castigo eterno, quanto mais volumosa é a nossa lucidez, mais facilmente é o castigo derrotado. Os predadores não sofrem castigos, apenas derrotas ou oscilações dentro do jogo natural das cascas e dos néctares. As vítimas e os passivos, que piamente acreditam no lugar de danação, sofrem castigos, ao género das achas na fogueira que aquece a família em casa. São eles as achas, são eles o lume. A crença deles é a fogueira. Sorrisos, cinismos, medos, mas as pernas não querem fugir ao lume.
Somos apenas massa, carne, osso, tecido, fórmula de peso e gravidade, órgão e pele que sujam, mas isto tudo que somos é com capacidade para conhecimento sem limites e obras-primas, podendo acreditar no que se quiser. Esqueçam-se ilusões, pretensões, impulsos de divindade sem mãos e desígnios de fundamentalismo. Acredite-se em nada, realize-se objectivos sem cobrança de motivo, degrade-se, seja-se neutro!
Mais um dia esquisito, mantido numa rotina que rasga o cunho da alegria, que estripa o copo da vida, mas não a bebida. Sentado, a escrever, equaciono quanto de mim disperso para o papel e quanto nunca não o faço. É mais ou menos o resultado da soma dos pacotes de leite e cereais deitados ali no chão esburacado. Parece uma obra de arte, pois deve ter sido um artista impecável que tal fez ao pensar que as pessoas iam congratulá-lo após verem o pranto. Ou é a mania de arte que polui que é grande de mais de mais ou é a massa cinzenta menos de menos. Aposto na segunda hipótese, se bem que a primeira é gira à mesma. O Homem sempre quis criar coisas à volta dele, nem que seja o seu próprio esterco, sempre fez de tudo; subiu, desceu. Viveu, vive. Haverá sempre alguém a contemplar.
Olho para o chão, olho para nada, olho para a burrice. Parece que estou agora a escrever sobre o ambiente em redor, porque se tivesse algo mais interessante não escrevia, visto que guardava para mim. A esta hora não peço para ver ninguém e não quero ver humanos. Está toda a população sob deveres e obrigações de tempo, lazer, inércia. Por mim, óptimo, sempre tenho lixo para admirar sozinho, comportamento que os grandes artistas sempre preferiram: público concentrado, escasso, mas dedicadamente concentrado. A existência é simples, porque esta nos concede opostos simples de mastigar. Saúdes ou castigos…
Tenho uma visita esta tarde, visita que penso ter saltado do estudo do início deste texto, porque faz parte das linhas e das pretensões do saber da demonologia. De seu nome Belial, um demónio com uma idade que se perde a conta, parece-se com um belo anjo, de voz doce, com corpo duplicado e sensual, sentado num transporte com dragões que dominam e aquecem fogo. Alto como um edifício citadino, Belial pisa o chão e cumprimenta-me com elegante aparato, apresentando-se vaidoso. O que é (quem é) este enorme ser, vivo ou morto-vivo – possivelmente para além do que é vida e morte, mesmo que entrelaçadas –, que se ergue e se molda defronte à minha pessoa? Que impressionante cerimónia ou incompreensível facto é este que estou a passar? Numa leitura de demonologia mais popular, Belial é o demónio que foi criado imediatamente depois de Lúcifer, com bastante tendência para enganar qualquer um, inclusive aqueles que o convocam. Belial, um dos demónios do inferno, visualizo-o como se visualizasse um rei – se bem que não sei como é visualizar um rei –, o qual se parece como um belo anjo que tem forma mutável, indo do sensual ao perturbador.
Numa leitura de demonologia moderna ou anulação de uso de preconceitos, qualquer indício à carne de Belial é tido como organismo sem lei ou com rebeldia, fechando julgamentos e acções de embuste e terror num único teorema demoníaco. No folclore, Belial permanece como um deus, ligado especificamente com os horrores de Sodoma e Gomorra, cidades lascivas e corrompidas, e tal-qualmente com a composição obscura de subornos e assassinatos secretos.
Belial mostra-me ser uma regra do terreno e do solo impuro, sorrindo-me na certeza da sua personificação de maldade e rindo do momento em que o trataram como a mera modificação da deidade arcaica da Babilónia, onde se restringia ao submundo e à vergonha. Nada disso, sou demais, grita-me. Sou o incalculável, o livre…
O mestre da terra, Belial, é o lado carnal do Homem, é a maior ligação com a componente castanha que nos apara os pés, é a luxúria, o sexo, o prazer e por isso as vias principais que tomam a vida em coisa de mérito. Quando as pessoas, começa a dizer-me Belial, tendem a nortear-me e/ou a proibir-me, o que acontece é que o orgulho menos capaz vem ao de cima, ao passo que quando me recebem, ao de cima vêm coisas como a pujança, o deleite, a independência e directa essência terrestre. Sentir-se seguro, uno ou assente é sinónimo de contactar comigo. O Homem vencedor é simplesmente humano, em degustação e louvor da sua natureza, carne e conquista material, vocifera Belial, sendo que toda a experiência seja concreta, a experiência de vida, e assim da terra para o cimo estamos nós feitos da carne e para a carne e para os feitos e destruições grandiosos surgidos da carne!
Eu ouço Belial e escrevo algo ao mesmo tempo, mas este não parece importar-se com este facto. Não estou a escrever as falas do demónio terrestre, mas sim a escrever qualidades/características do mesmo, à medida que o monólogo dele tende a prosseguir, como se a simples audição do monólogo me concedesse tal sabedoria. Desperdiçador de lei e moralidade, opositor, imoral, dissoluto, lascivo, desmarcado, incontrolado, revolucionário, audaz, livre, impuro, injurioso, desfrutador de pasto e infracção.
O vento intensifica-se, a tarde, a terra quase borbulha de calor.
Há teólogos, discursa Belial, que me elegem como o demónio mais lascivo e indolente de todos os que perderam o lugar na virtude deles – cantam eles como se isto fosse abominável –, mas se tais criaturas olhassem para mim e me acolhessem com as suas facetas naturais e instintos de energia, podiam aprender qualquer coisa engraçada nas suas entediantes laborações! Para essas criaturas, eu sou a ruína e destruição! Belial diz isto de forma alegre, sem deixar que os seus saltos de exibição corporal abanem todo o recinto em que nos encontramos…
O enorme ser que me fala comanda mais de oitenta legiões pelo Inferno e mundo afora, com a imodesta postura de que é o pai da ilegalidade, assim como aquele que detém a supremacia das nações ou figuras que são idolatradas – unicamente – devido à força unicamente humana! A Bíblia Satânica afirma Belial como um dos quatro príncipes herdeiros do inferno, tocando-lhe o trono do norte. LaVey, homem que exaltou o elemento terrestre como fonte de/para tudo, sublinhou aos canais distribuidores da História que Belial é o mestre da Humanidade e o seu retrato de campeão é o guia dos impulsos carnais que condecora a Humanidade com avanços reais. Belial é nome presente no livro de outros séculos, “Ars Goetia”. O título do livro descende do latim, mas muitas vezes reduz-se ao nome “Goetia”. Belial diz-me que nunca leu este livro, o qual contém descrições das dezenas de demónios que King Solomon evocara para os obrigar a trabalhar para o templo dele e os quais confinara num navio de bronze selado por símbolos mágicos. No “Ars Goetia”, King Solomon descrevera o perfil de cada demónio, indo das perguntas e respostas às qualidades e defeitos, como se um manual de aptidão para com demónios. Belial grita-me que nunca trabalhou obrigado para ninguém e que não gosta de navios, porque não se deslocam por terra. O livro que Belial nunca leu, parece ter instruções e rituais de trabalho, assim como métodos para utilizar fórmulas mágicas próprias para se chamar cada um dos demónios lá listados. Belial revela-me que nunca apareceu a ninguém de forma parecida, porém igualmente sabe, e não se surpreende, que as pessoas tendem a pronunciar mal as palavras e a demonstrar erradamente os seus sentimentos, em livros semelhantes, em acções semelhantes. Aleister Crowley leu e interpretou o livro para a sua magia… Belial recorda: o mago fechado em paredes a estudar e a iniciar rituais uns após outros para criar as suas maravilhas e tocar/retocar o seu infinito! Um excelente mago…
Belial foi apontado pela História como um soberano do lado negro, uma das forças mais poderosas e que mais evoluem, conjuntamente como o anjo da corrupção e da hostilidade. Os seus domínios são as trevas e as terras, a partir das quais e sob as quais alcança o objectivo fácil de influir os desejos de maldade e culpa. Sou o pai das mentiras, dos exércitos também, portanto não nos interessará acreditar de todo no todo, em mim, mas sim em partes, as partes que nos oferecem prazer, vida, força, independência, intensivamente brande Belial, e quando sou bem recebido pelos meus invocadores, consigo fornecer-lhes bons resultados a troca de boas oferendas e sacrifícios, porque aí estão a acreditar justamente nas suas qualidades naturais! Gilles de Rais, aquele nobre louco que se alterou ideologicamente durante a sua existência, matou e sacrificou vítimas em meu nome para chegar à minha amizade, mas apenas ofereceu-me partes dos corpos que esventrava, o pútrido, esquecendo-se da beleza palpitante e húmida de belas mulheres e belos homens, que inteiros podiam ter saciado um mínimo do meu lado lascivo e sensual; esqueceu o meu lado pornográfico... e quando se invoca a minha graça há que lembrar o castigo e o sexo!
Fragmentos grandes de terra com fogo líquido levantam-se à frente dos meus cabelos riçados e enfiando-se com rapidez para o interior do corpo do meu visitante negro, provocam-lhe um delírio e um bem-estar que não posso descrever mais do que isto…
Belial ensina-me que é, sempre foi, uma concreta projecção do seu néctar arcaico na espécie humana, revelador de/em pormenores com atitude estranhamente lúcida, elucidativa. Sou julgado pelas religiões contra a minha personalidade como aquele sem valor, mas eu trato-me sim de um ser no âmago daquilo que é a verídica natureza humana. Materialista, alio o meu aspecto de poder à linha de acção do senso comum para crescer em força e, de forma simplista, provar todo o prazer, continua Belial. Com subtileza, domino a terra, elemento que faz parte de mim e eu dele, e com subtileza sou mestre de mim próprio, mestre sem o mestre de terceira pessoa! Sou a terra, sou mestre de mim próprio, posso ser tu mesmo, sou Belial! “Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes”; decerto já ouviste esta expressão! É verdade. Eu pu-la nas mentes daqueles que me seguiram e daqueles que me atacaram, só por uma questão de honra, porque a faceta de exaltação e auto-preservação que a mesma encerra é deveras forte. Das coisas das coisas, eu fui erguido. Sou contra as leis, sou aquele que pertence a um abismo do qual ninguém consegue subir e eu sou tudo aquilo que instila desprezo pelos deveres, pelas redenções.
Belial funde-se nos processos de vida e de morte, através dos estados da carnalidade, do sexo e da luxúria, tidos como escapes, mais-valias, forças e ruindades da qualidade de ser terrestre. Ele permitiu-se falar em tempestades de prazer que gera e gerou no planeta, capazes de engolir e regurgitar fantásticas poeiras gigantescas em todo o espaço sideral. O meu nome – a significar sem mestre –, simboliza a independência verdadeira, a auto-suficiência e a realização pessoal, explica-me Belial, verdadeiras naturezas que sempre narraram os povos de poder.
Noite cerrada. Animais excitados com os olhos brilhantes por algo que aconteceu.
Depois de um grande espaço de tempo, posso agora escrever sozinho certas noções que alcancei com a visita desta tarde, uma visita não programada, quer dizer programada, porque sou um humano consciente das minhas naturezas carnais, independentes e fortes, e às quais chamo família!
E tudo por mim adentro se molha em fogo. A certeza de mais um conjunto de diabruras, de crueldades feitas carne. Aprendi com Belial. Signo de poder inflamado, quis funcionar num universo de mundos de modo ordinário. A capacidade de ver feito, fazendo, a capacidade lá espetada. O corpo com sujidade, sujidade de luz virgem, sem quaisquer riscos de maior, atirou-o às mais largas perfurações infernais de líquidos e lava, os seus banhos irados...
Estas frases comportam efeitos que, a serem atabalhoados, muito podem fazer para o dano cerebral. A sua pele é casca gelatinosa com nódulos clássicos e a sua voz de trovão é auxiliada por um dialecto que mistura todas as línguas universalmente conhecidas, sãs e insanas. A amplíssima louquice – ou desembaraço – de Belial personifica-se na humanidade na altura de uma vingança, no traçar de um plano, no combate, na fermentação de testosterona e outras hormonas a ferver, na jornada de prazer, no nirvana, na perda de alguém querido, na derrota ideológica…
A estupidez dos deuses enerva o demónio. A ingenuidade, o cinismo, a tomada de decisões ridiculamente infértil. As montanhas são enormes, repletas de vegetação e rochedos, e são um dos pontos que cativam a paixão dele. Os rochedos vermelhos, grossos de fogo e areia, também. Toda e qualquer tentativa de torná-lo bondoso e branco recebeu uma oposição feroz, porque a sua natureza ditara que estúpidos são aqueles que dissolvem as próprias metas e os próprios interesses em prol de desígnios de deidades omnipresentes. Belial ignora regras, paraísos de ilusões, de consolos, porque não existe para ele maior sobrenaturalidade do que negar os pecados animais. Belial procura existir para vangloriar em si mesmo a sua identidade, procurando concentrar fantásticas expedições ao poder sobre tudo e todos e, similarmente, procura destruir fraquezas, gelos e seres mesquinhos. Os seus conhecimentos e a sua sabedoria estão nos poços onde vive, estão na alcovas e nas ruínas onde fornica anjos e criaturas sensuais diversas e onde tenta apagar os alicerces das faces e dos olhos das luzes, harmonias, estrelas pacíficas, unhas e fantoches, curas evangelistas sobre derrotas e soldados de fé que o desafiam.
Comandando as suas legiões, conquista parcelas de terreno no submundo, no mundo, nos mundos, e muitos homens possuem réplicas do ceptro que Belial usa para o comando... homens que vivem perto de nós. Belial passa férias no centro da Terra, bem no núcleo. Durante os tempos normais, tem que comandar as suas legiões e investir contra anjos, santos e eternos defensores das criaturas de Deus, mantendo o equilíbrio das trevas e da mentira no jogo universal; malícia e ferocidade. E as férias servem para descansar, fazer arte com lava, fogo e compostos mergulhados nos aterros da Terra. Realiza magias e por vezes viaja para se encontrar com quem o invoca ou convida… vive em campos, cavernas e florestas… estuda manuscritos extensos de filosofias modernas, de hábitos terrestres e no fundo é somente um aventureiro desgarrado dos humanos das profundezas. Ele está presente nos corpos dos exorcizados e masturba-se olhando os olhos e ouvindo as palavras dos padres patéticos e caricatos. Se estes conseguirem excitar Belial, então o demónio ejacula nas entranhas dos exorcizados e com sorte a história acaba bem, senão a masturbação não chega a bom porto ou a bom deleite (com leite vulcânico) e os exorcizados sofrerão com mais tempo de chagas e acções demoníacas. Os padres quase pelintramente voltarão, para satisfação de Belial, o masturbador luxurioso que possui as criaturas para que lhe sirvam de fetiche.
A magia elementar é uma cartilha maternal do Homem. Belial ritualista é o ser da realização autónoma, que representa o elemento terra e o qual se encontra de pés bem assentes no chão – procedimento mágico real e sólido – sem tantos lugares-comuns místicos desprovidos de objectivismo. Ritualismo ligado à terra, às rochas matrizes.
Os caminhos relativos levam à evolução pessoal, ao culto físico, à metafísica dissecada e a um estado de melhor conformidade natural entre o meio e a consciência sábia.
Não só de ruídos, pancadaria, sobressaltos mentais e físicos, vive Belial. A música é constante e invariavelmente universal e é de bom-tom o ânimo de Belial ao ouvir, escutar, melodias com letras que o toquem no factor vanglória/interesse. Uma das bandas modernas a criar um misto e uma atitude conscientes de atracção da atenção do demónio sem mestre é LORD BELIAL, a qual é feita por membros talentosos de veias inchadas por exaltação negra. Há palavras neles que excitam e animam o demónio da terra, palavras de todos nós como: paredes; rituais; carne; caveiras; decoração; velas pretas; queimar; desejo furioso; apodrecer; gritar; sacrifício; esperar; fado; ódio; arder o crucifixo; encher; sangue; profano; mãos; maldade; malícia; infernal; imensidão; fogo; …
Belial apareceu-me para que o conhecesse e escrevesse sobre ele, mas no fundo apareceu-nos, por/para essas razões, porque aquilo que de que ele é nomeado é também de nossa própria nomeação. Apareceu, conversou, engrossou-se, retrocedeu. Naturalmente.
A boca enorme do panteão infernal cospe fogo e fogo engole com abismal categoria. Um modelo saiu para conversar connosco, nos sonhos, nos pesadelos, nas simples e básicas coisas da vida, nos prazeres, nas dores, e foi dele que ouvimos explosões de força. Não sendo o único modelo, vamos caminhar atrás, ao lado e para além dele, aproveitando este tempo precioso sem que outro modelo de categoria equiparável saia até nós, sob as labaredas da boca do panteão… e um dos quatro tronos está assim ocupado, reocupado, e faltam três.
Capítulo 8
Satan
Ouvi os galos a cantar, no outro lado da parede, ainda que distantes, audíveis. Era dia de rumar para mini-férias. Planeei a hora de sair da cama que cumpri à regra, com a ajuda dos galos. A lua do dia timidamente penetrava no quarto, enquanto eu já lavava a cara. Uma noite de anseios, uma noite mal dormida, mas que não prejudicara nada. A minha figura no espelho rachado era esguia, esquisita e com olheiras. Nada de especial, sempre igual, sempre o mesmo…
Após um duche e ter-me vestido, certifiquei-me que nada faltava na mala de viagem. O pequeno-almoço fez jus ao imaginário de si mesmo: foi pequeno. O despertar foi alegre, a boa-disposição estava redonda o suficiente e a alma maquilhada da beleza do corpo… quanto baste.
De férias, marcadas a sul do ponto da minha residência no país, procurava, na altura de sair de casa e entrar no comboio, divertir-me para ultrapassar todas as problemáticas, dores de cabeça, do trabalho e afins. Ou seja, ter o devido descanso, aproveitar prazeres e festas da vida… ninguém sabe o que passara, o que acumulara, o que engolira, até então.
Viajar até ao sul do país fora um tanto complicado. Os meus olhos normalmente queixavam-se da luz diurna, mas não apenas latejo. Dor na íris que se entranhava pelas ramificações até ao interior da minha cabeça, onde parecia existir vidros que se friccionavam uns nos outros…
A sombra, que por vezes me protegia, amenizava este mais do que latejo pela luz diurna, permitindo-me até apreciar alguma da bonita paisagem que se transmutava de região para região. A viagem, tirando isso, decorreu satisfatoriamente. A distância não era tanta quanto isso e a comodidade do transporte contribuiu para que tudo decorresse melhor. Vi pessoas distintas, grupos de amigos que viajavam, assim como namorados juntinhos e de sorriso de orelha a orelha, sorrisos lamechas, falando baixinho sobre o que iam fazer quando chegassem ao destino. Alguns estrangeiros ajudaram a preencher o comboio, partilhando com os restantes passageiros os seus lemas da vida ser bela, da moda barata em países mediterrânicos e os seus belos sotaques quando tentaram o português…
A viagem foi mais leve do que o clima que se vive numa adega cooperativa, mas mais pesada do que um duche em altura de ressaca.
Solstício de Verão: o elemento ardente nas peles e nas carnes, nas mentes e nas almas, nas camas e nas praias. Excelente anfitrião para as férias, para desligar dos deveres e das obrigações, para passar a sentir o mundo como recreio. Chegara onde tinha que chegar… tempo de me encaminhar para o hotel onde reservara quarto para a minha estadia.
Com prático sorriso, senti a chegada ao meu destino, rodeado por novas caras, diferentes arquitecturas e inclusive mais sons. Ruas alagadas de gente, de turistas, de barulho, pescadores de bigode amarelo e queixo queimado, a aguardarem por cinco centímetros de peixe; esplanadas a serem metrópoles.
O hotel era de qualidade simpática com atendimento cortês, mas de personalidade semelhante a outros. Nada diferia de outros. Limpo, decorado, sensual.
Nessa primeira noite, jantei no restaurante do hotel. O salão era convidativo a permanecer por bom tempo e a arte dos cozinheiros a várias repetições do menu. Fui ficando, fui comendo, fui observando, fui sendo… a calmaria; depois subi para o quarto e comigo levei a fina vontade de ver um dos filmes que o hotel disponibilizava aos hóspedes; disponibilizava, o hóspede pagava. De licor na mão e olhos fixos no filme, diverti-me imenso naquele serão, sentado numa cadeira de baloiço…
Não sei o que foi que daquilo que comi me caiu mal no estômago, mas acordei com sensação de barriga fortemente inchada e dor por todo o lado. Depois de uns minutos de angústia sobre mim mesmo, apercebi-me de que havia alguém sentado numa das cadeiras do quarto. Esse alguém era demónio, numa estética humana, com caracterização amistosa e consciência múltipla. Eu soube da sua identidade vetusta, porque entranhou-se na minha cabeça, bloqueou as minhas incredulidades, apresentando-se à minha pessoa da forma mais firme que alguma vez sentira. Numa espécie de controlo, numa espécie de sentimento de que aquele momento era tudo para mim, certeza surreal, como quadros de Dali, em que os meus olhos eram pedras de fruta reluzentes diante de Satan, demónio presente no quarto. Satan acalmou-me e ambientou-me prontamente à sua presença, dizendo-me que ele era ele como eu era eu, se ele fosse eu e eu ele, em esplendor e idade… também ele era meu amigo, adepto e companheiro, para aqueles dias de mini-férias. Eu sentia-me então leve, normalíssimo, como se estivesse diante de um dos meus amigos ou conhecidos de infância ou familiares. Apesar do excelente ambiente entre mim e Satan, a empatia, não percebia bem como é que um quarto comum terrestre agradaria aos gostos megalómanos de Satan como estava a agradar, à medida que sorria e tocava nos objectos do quarto. De mansinho, chegou o momento em que ele começou a falar comigo telepaticamente e, sem capacidade de ter mãos sobre mim próprio, comecei a discursar para ele, para mim, para o vazio do quarto, o que ele queria, o conhecimento que ele me transmitia.
Satan representa o ponto cardeal Sul, tal como a existência de um ego evolutivo e infernal atitude. Mesmo as mais fracas das personagens contêm pilares e alicerces, nem que retóricos, para identificar a presença de determinadas personagens em determinada hora, determinado local e determinada distância, e, logicamente, é a crítica a tais alicerces e pilares que nos proporciona algum conhecimento em algum plano, tema. E se é assim com as mais fracas, com as mais fortes, ainda mais é!
Satan, em termos de base, existe em fundamentos ou relatividades adjacentes ao domínio do fogo, à administração do inferno, seja qual for o tipo de inferno ou a ideologia, ao porte adversário, à oposição, ao segmento de acusação e também, não entrando em questões mais fundas, à união de rebeliões. O Verão é estação do ano que prima pelo sol forte e gigante no céu, mesmo até pelo nosso quarto adentro, nos momentos em que nos acorda com brusquidão, ainda deitados, como numa mensagem de repreensão por termos adormecido num estado tão miserável, alcoolizado e confuso. Satan é o senhor do fogo e em termos superiores em relação à linha do horizonte, deve ser o sol, a combustão imensa, o calor absurdamente tão longínquo e tão sentimentalmente perto. Não haveria melhor momento do ano para este companheiro de armas, porque aquela loucura de calor e quase fogo gasoso que sabemos é tão-somente o charme do perfume de Satan.
O conceito de Satan, nome que deriva do Hebreu, toca no ângulo de ser O demónio, O demónio pelas diversas culturas e pelos tempos do mundo. Assim, é um conceito ambíguo, clássico e de cliché, que se aplica a Satan. Vejamos, Satan, de forma tradicional, tem aquele termo que é aplicado a um anjo, ou O anjo negro, na doutrina judaico-cristã e aplicação a um jinn, ou um tipo de génio, na doutrina islâmica. De par em par das aplicações a que o seu termo se aplica, Satan fora a figura que na Bíblia Hebraica desafiara a fé dos humanos. A classificação de Satan, aí, é apresentada como O anjo caído ou demónio que passa o tempo a tentar os humanos a caírem em desgraça, pecado e acção com maldade. Seja em forma física ou metafórica, de alegoria, hipérbole… acredita-se...
Pormenorizando, no Cristianismo, o vocábulo ou a personagem Satan, alude ao comum chavão e à identificação do título d’O Demónio e d’O Satanás, assim como sinónimo de diabolus no latim, diabólico. Tudo ligado entre si como o mesmo, semelhante a diversas ruas que, não importe como, convergem ao mesmo ponto. É a figura central do mal, da perdição, dentro da religião Cristã. Para grande parte dos Cristãos, é acreditado ser um anjo que se rebelou contra Deus, assim como aquele que falou e seduziu Eva, através da serpente, a desobedecer ao comando de Deus. O desígnio de Satan, enquanto figura ambígua clássica, é incitar as pessoas a afastarem-se do amor de Deus, aproximando-as em falácias a tentações maldosas. No seio do Cristianismo, Satan é o senhor dos demónios, que até se pode tornar o senhor da Terra e dentro da Bíblia Sagrada temos a forma como ele foi expulso do Paraíso, ao género do Homem, mergulhado no interior da Terra, excitando em si uma enorme ira e vontade de fazer guerra contra aqueles que seguirem os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus. As crenças Cristãs têm Satan como Satanás, sua figura sobrenatural, demoníaca, mas tal-qualmente qualquer adversário das mesmas crenças ou como qualquer pecado e tentação humanos.
No Islamismo, Shaitan é o equivalente para Satan. Enquanto Shaitan, nos escritos Islâmicos é tido mais como adjectivo para ideias relacionadas com demónio, tanto para o Homem como para os seres jinn, Iblis é tido como o nome pessoal do próprio demónio que atormenta as ideias de puro e benigno na religião/sociedade. Quando nos escritos Islâmicos, refere-se à criatura que recusou ajoelhar-se perante as cenas da Criação, há a referência do seu nome como sendo Iblis e a ele se conectam perspectivas que até são similares às do Cristianismo, mas ainda assim diferentes, já que enquanto o carácter de Satan no credo Cristão é considerado como um anjo caído, no credo Islâmico não, mas sim como um jinn. Normalmente perto do escalão de anjos pelas suas qualidades de sabedoria e capacidades nobres, os seres jinn, nas crenças Islâmicas, possuíam uma vontade própria equiparável aos humanos, ao contrário dos comuns anjos, e assim explicam, os Islâmicos, que Satan ao ser um jinn, agarrou na sua vontade própria para desobedecer ao divino…
Noutros conceitos de Satan, ao longo das páginas de História, temos ainda e novamente o nome Shaitan para a deidade no panteão dos Yazidi, no território Indo-Europeu, ligado a Malek Taus. Num outro seguimento espiritual de populações de países subdesenvolvidos, Satan não é referenciado como um poder maligno independente ou com forma, comparando-se a outros credos, mas significando base natural dos humanos. Explicam assim que a natureza básica, inferior, no Homem é simbolizada como Satan, um ego mau dentro de cada humano, ao invés de uma maléfica personagem exterior.
Muito do que é apresentado como sendo erudição satânica não advém realmente de Satanistas, mas de Cristãos. Tudo porque se relaciona com o folclore medieval e a teologia de época envolvendo demónios e bruxas.
Assinalo que esse momento em que discursei com e por efeito de Satan foi de estranheza volumosa, confusão emotiva ao máximo e particular nostalgia. Recordei a vez em que subi num dos pontos da Igreja, quando fiz – por tradição manipulativa – a profissão de fé, acto de encenação religiosa com pontos cómicos, pontos entediantes, pontos sem nexo, ligado à catequese. Numa fase da cerimónia em que estava alinhado com companheiros e companheiras, onde o branco e o preto predominavam a par de caras de crianças aldrabonas exibidas a um público feito de pais e familiares babados com fome e com vontade de fumar um cigarrinho no final daquela coisa toda, após uns cânticos próprios serem entoados, ouvira o padre a questionar-me com litanias e premissas religiosas, as quais eu seguia com um guião apropriado, qual casting novelesco. Uma das questões, encaixada naquele preceito de sermos crianças fascinadas e obedientes a Deus e aos trilhos do – agora sei – puro idiotismo, era se eu estava fielmente confiante em renunciar a Satanás, por toda a vida, em qualquer das minhas acções e qualquer dos meus pensamentos. A minha profissão de fé, no momento, era básica e tinha que ver com levar o protocolo a bom porto. Assim, eu repeti depois do padre, que renunciava sim a Satanás, com umas quantas mais belas adjectivações, repetindo agora e depois e etc. Estava eu a renunciar ao bicho deles, sim, mas não às mais belas qualidades de Satan! Eu renunciei na altura ao Satanás dele, não ao meu Satan! Sei-o magnificamente agora.
Lancei, depois de recordar, contando a Satan, este episódio que é lugar-comum, episódio que mais se assemelhara a um teatro arranjado com marionetas infantis, uma grande gargalhada por imaginar o jocoso cenário que seria o de responder ao padre que não, que não renunciaria a Satanás: os pais admirar-se-iam, o público contestaria, o padre resmungaria, a madeira rangeria, as paredes escureceriam…
Todavia, como assim estaria, excepto pelo factor de gozo puro, a entrar numa tendência errada com o bicho da Igreja, não desejei tal cena depois. Talvez, num outro cinema ou palco. Com outras personagens, com outros figurantes. Satan engoliu mais um pouco da própria bebida de fogo e inspirava… desse gesto imaginário dele, saíram devaneios de revolta para com o que fazem as crianças passarem.
Continuou-se…
Em termos de vista geral, Satan acolhe títulos em si como O demónio, príncipe das trevas, dragão amaldiçoado, espírito imundo, poder satânico, mestre do engano, espada infernal, mestre da fúria àquilo que é puritano, hipócrita e inibidor, etc.
O conceito de Satan toca igualmente no ângulo menos ambíguo ou então não ambíguo, de ser uma projecção energética, uma figura expressada pela Natureza e/ou pelo Homem. Neste caso, é um conceito nobre, natural e apelativo, que se aplica a Satan. Vejamos, indivíduos hão que não acreditam em Satan como uma entidade viva ou um deus. Vêem-no mesmo como força básica ou princípio da Natureza. Indivíduos hão que consideram Satan como uma alegoria, a qual terá que ver com crises de fé, individualismo, vontade própria, sabedoria ou iluminismo. Satan nesta minha mente e nesta minha alma, através desta minha voz, proclama-se como o adversário da mediocridade, do caminho da Mão Direita, da estupidez, do conformismo que gosta de conformismo, da autodestruição, de deuses idolatrados, da depressão e das ovelhas. O senhor do fogo, do lume, do aspecto de enxofre, aceita invocar tudo o que seja de forma estimulante aceite. Estimulação própria, vontade própria, liderança…
Satan não é realmente, apesar de ter-se vestido com umas roupas, umas formas e umas máscaras – ao género como Belial fez – para estar no vector mundano de férias, uma entidade viva, mas sim um símbolo natural, uma existência etérea, um complemento emocional e pessoal – forte como um sonho ou uma metáfora –. Satan quer ser para mim um princípio essencial, um âmago, e não objecto de adoração literal. Não é por especialidade, importância, mas é, sim é, por verdade. É inspiração, provocação, honestidade para com necessidades. O Homem precisa de provocação, o Homem precisa de provocação, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente. Satan é tão simplesmente conceito, opinativamente muito diferente de conceito outrora dado, de utilidade eclética e nexo multicultural, porque tal se compenetra nas tonalidades basilares da Natureza, sendo parte dela. Satan é vida e é vivo, nos instintos… Satan é uma força negra na Natureza que representa a Natureza carnal e assim os desejos do Homem. Satan é a descrição simbólica de pessoas poderosas e independentes, assim como oposição a Deus e demais deuses ou religiões organizadamente equiparáveis.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Procuramos responder ao mundo, na sua construção e nos seus acontecimentos e não podemos separar um conceito de outro, de uma mesma moeda, apesar de contrários, já que existem na moeda. O bom/mau e a luz/escuridão são relativos e assim é que têm que ser, porque as suas faces alteram-se consoante a moeda, consoante as coordenadas, o estrado… e Satan é arbitrariedade nestes exemplos, por nada ser insubstituível, ignorado ou eternamente resistido. Todos sentimos as definições e as coisas de forma diferente, mesmo Satan. E esta diferença alimenta poderes satânicos: autenticidade, observação e assimilação únicos. Satan está para a realidade como a nossa reunião de ego, inteligência, lucidez, limites e erros está para a percepção de realidade.
Satan não é baço espiritismo. Não, é simbolismo carnal, mundano, desejo de matéria, evolução e prazer, enquanto uma vida dá conta das horas que passam… Satan é a personificação do caminho da Mão Esquerda, é a vida como ela é, a necessidade, o materialismo, o caminho de relatividade e do individualismo com aceitação dos instintos e das riquezas que abundam pelo Homem. É a vida como ela é.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Desci do quarto, caminhei até uma residência familiar para a minha pessoa. O dia estava ardente, as ruas pouco frequentadas…
Mantive conversas, tinha mantido conversas, com determinada figura humanamente feminina da residência para onde me dirigi, antes da viagem. Momentos e horas e segundos ao cubo, preparando a duração e animação da minha estadia. Só que, de repente, para espanto, me expeliram, os da tal residência, argumentos de que tudo estava errado naquela forma, que eu estava erradamente presente, que tudo não tinha passado de uma série de mal-entendidos, conversas cortadas, ideologias despropositadas.
Mal-entendidos? Conversas cortadas? Ideologias despropositadas? Tudo, mas é o sexo gigante de um cavalo! Naquele instante, na minha visita, a tolerância não existia, sobretudo porque a exigência que atribuía a certa pessoa não permitia falhas ou brincadeiras de mau gosto como aquelas. Ou estavam a ver-me ali para desfrutar do meu tempo de mini-férias ou então estavam bem a limpar cortes de bovinos, comigo lá dentro a chibatar os rabos de tais pessoas que estupidamente interagiram comigo. Naquele instante, eu respirava pesadamente, sentia comichão até no fígado, e queria gritar se eu era para eles algum palhaço, um palhaço daqueles que podiam fazer contrato para realizar qualquer tipo de tarefa para belo prazer de alguém, inclusive daqueles testes com impactos de automóveis para se saber a qualidade dos equipamentos, substituindo eu então aqueles bonecos engraçados sem feições no rosto. Se era algum palhaço sem piada, com algum tipo de comando. Se eu era algum palhaço seria apenas por livre e espontânea vontade, mas pelo menos tentaria entrar para um circo onde me pagassem devidamente. Porém, gozar… gozariam comigo no camarim. Até aqueles cachecóis podiam usar, durante posições de cão.
Mais tarde, num dos dias, voltei à residência por pedido de tréguas que me lançaram. Satan estava a acompanhar-me nesse compromisso. Respirou-se, olhou-se, o tempo a passar. Todavia, a dada altura, a pessoa indicada desabafou comigo, que um objecto meu de cariz de fetichismo tinha sido encontrado lá, despoletando na residência reacções ofensivas para comigo. A base da confiança tinha ido por água abaixo, bisbilhotaram erradamente e, como se não chegasse, cogitaram intenções que a minha pessoa teria, por isso atribuindo-me cores, títulos, formas e penugem bravas e lânguidas. Satan, manteve-se trocista, como que a enviar-me a mensagem para que eu me controlasse, olhasse pelo lado burlesco e individual da situação. Contra-atacar e trocar palavrões com difamadoras era o que eu desejava; regatear, discutir, andar ao estalo, fazendo sentir o amargo gosto da cebola nos olhos de quem me difamara, por um corpóreo absurdo.
Satan cantarolava coisas sem nexo, estávamos longe da residência. A pessoa do meu compromisso regressou à base de vespas que não desejei mais perto do meu perfume, no momento em que Satan mostrou os seus órgãos genitais inventados a uma senhora de meia-idade, fornicando-a, depois da mesma rir de felicidade, no meio da praça histórica próxima. Cresceu amor no mundo. Se regras não houve, regras não haviam. E a loucura insolente deu asas à partida da minha interlocutora e eu pude voltar costas ao que não me interessava viver para prosseguir com Satan para planícies cobertas de aromas mais deliciosos para satisfação de mim mesmo.
Desloquei-me, depois, para os restantes dias numa casa. Casa com dois pisos, decorada a bom gosto, com pouca idade. A casa possuía mais divisões no piso de baixo. Na parte de baixo, havia uma cozinha, corredores, despensa, casa-de-banho, sala, dois quartos e uma divisão de arrumação lúdica. Na parte de cima, havia corredores mínimos, uma casa-de-banho e dois quartos. Eu tinha o quarto mais pequeno para mim, onde tinha à minha disposição livros, revistas e adereços, enquanto o maior era para a minha anfitriã daquela casa. Possuía televisão, fotografias e roupa espalhada em muitos cantos.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Fui sair na penúltima noite sem grandes planos e a respirar um ar fresco, montanhoso e delicioso comandei-me para visitar uma galeria de arte naquela zona turística. A galeria de arte era de foco contemporâneo, linda, com uma iluminação adequadíssima e um ambiente realmente descontraído e diferente de outras galerias. Satan veio para porta principal. A sua chegada virou-me o olhar para a esquerda e vi que também quem me convidou para ficar na casa onde fiquei, se encontrava na galeria. Não havíamos combinado qualquer tipo de coisa para aquela noite, porque não havia o dever de encontro entre os dois a toda a hora. Foi uma fantástica ocorrência.
Satan abraçou-me numa sinceridade amiga e depois possuiu-a; não sexualmente, possuiu o intelecto dela, invadiu a alma da jovem que eu conhecia há anos e pela qual mantinha especial e belo carinho. Foi conclusivo para mim depois que a possessão do intelecto visava a expressão do lado carnal dela – por mim –. Não tendo sido um atrofio no cérebro ou uma possessão daquelas que magos brancos adoram intitular como o pior pesadelo dos humanos, tenho que referir e confessar que ela se tornou incrivelmente sensual, cheirosa, apetecível, poderosa e manipulativa, de olhar e de postura. Cumprimentámo-nos… os meus lábios humedecidos em alegria na face sedosa dela. Os braços dela envolveram-me como que em paixão…
Ah, Satan, meu brejeiro abismal! O que é que foste fazer…! Deixaste-nos hipnotizados! Ternura, desejo e a sensualidade confortava-nos ao longo da visita à galeria…
O quarto mais pequeno não me viu naquela noite, pois ela convidou-me para dormir com ela, na cama, no quarto, dela. A excitação era imensa em mim, as pulgas no corpo multiplicavam-se e o meu cabelo podia muito bem embrulhar-se naquela noite com o cabelo feminino dela. A temperatura alta, os magníficos arrepios, os beijos, os toques… tudo arrebatador com ela. Levei-me, levei-a, Satan levou-nos. Noite perfeita, no que foi.
A qualidade de Satan quando tenta, penetra, algum humano é sobejamente sexual. Porém, não é bacoca, não é unilateral, não é independente, ou seja, é necessário o humano estar a expelir fumo e desejo sexuais para que a possessão ou tentação funcione, agarre. Em detalhe, ela expelia o que era necessário, Satan encaminhou-se para com triunfo fazer a coisa acontecer. E eu concordei com tudo, em igual fumo e desejo expelidos, por isso...
No olhar dela, eu descobrira mais da magia de Satan, descobrira sussurro dele em que fez o que fez para que a minha mente se pudesse atulhar de pensamentos e desejos pecaminosos, provocadores. Satan queria oferecer-me um escape à realidade, soltar as mãos das amarras da realidade, do barco da tensão, do tédio. Divertimento, foco em anseios carnais para materializar-me em actos com ela, actos airosos, doidos, borbulhantes, vermelhos; odor a prazer, bonita sexualidade, odor a prazer, arrepio… Satan é a escolha sem vergonha, seja qual for a pista da sexualidade em que dancemos, seja qual for o alvo a que nos encostemos. Satan é o maior misto de beleza, carnalidade e manipulação que existe, num processo universalmente circundante à oposição de tudo o que nos estorva o ego.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Um segundo modelo saiu para conversar comigo, eu com ele, connosco. Ficou num testemunho repleto de forças, fortaleza ideológica e emocional, a partilha de experiências que me transformaram. O segundo modelo exibiu-se, como qualquer um de nós, não obstante, julgado não será, julgado não é o Homem. Dele conhecemos a identidade como semelhante ao anterior modelo e possivelmente aos que aqui chegarão. Abraçados à qualidade, ao indescritível, ao impensável, ao individualismo… sob as labaredas da boca do panteão… Satan ao sentar-se, cumprimenta com amistoso e colossal abraço Belial, camarada de armas… e o segundo trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e faltam dois.
Capítulo 9
Lúcifer
Pícaro mundo,
Irreflectidamente perceberão quem sou, não através do modo como escrevo as coisas, mas sim através da apresentação clara do meu nome, (emendo) o nome que atribuíram à minha entidade, Lúcifer.
Não são capitais as crenças, os ideais, as nacionalidades, os jogos ou as cores que os leitores do mundo que esta carta encontrarão defendem, porque capital – complementar e absoluto – é que eu sou o ar, o conhecimento provecto, a sabedoria, o portador da luz, a força edificante da iluminação, a estrela da manhã, o ponto cardial este e outras singularidades.
Eu faço de anfitrião do Outono, o Outono cintilante em classe e fascínio de artes e talentos, de agora. Saúdo; saúdem o Outono! E eu saúdo-te, mundo, excitado por saber que me conheces ou simplesmente leste as letras do meu nome em qualquer ocasião!
Esta carta redigida para o mundo ler afogueia-se de alguma indulgência ante o meu ego e seres que me são semelhantes: os vampiros. Sim, os vampiros! Tenho já a necessidade de avisar toda a humanidade do desrespeito que têm prestado a estes seres começados pela letra v. Senti a inevitabilidade em fazer esta carta para provar a minha intolerância perante o mundo, que significa agora estar às claras apertado e deveras desabrigado, revelando, para que estaquem as semidoidas intervenções humanas, linhas de segredos em determinado código, condutas que costumam ser apenas dos vampiros. Sabedoria vampírica.
Precisamente, estou farto das coisas que tenho visto a acontecer, que ouço a acontecer, que prevejo a acontecer a ver e a ouvir. E o que mais devo e permito-me a expressar é que eu posso fazer o que estou a fazer, não obstante que sou eu quem pode e manda. O meu compromisso de jornada é permanecer, como permaneci, escondido com o conhecimento para mim e para os meus que da dignidade são alvos, mas, precisamente, eu fartei-me!
Origino estas linhas de monólogo escrito, porque eu sou o pai dos vampiros e nessa qualidade defendo, atacando o mundo, os patrimónios, os objectivos e os legados vampíricos que têm vindo a ser mascados e pregados com ignomínia.
Sou o primeiro! O disparo, a rota e o alvo de uma bala, a insalubre bala que eu próprio sou e sou eu próprio. E sou e fui o primeiro, porque a estrela da manhã, a do conhecimento, é parte de mim, sou eu, a parte diurna que inicia lutas, contagens e mais extensões, apesar das estórias insculpidas que inseriram outras personagens em detrimento do elitismo da minha. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! Fui, sou, fui, sou, fui, sou… o ancião vampírico!
A dança por palavras já conduziu, conduzindo, à revelação principal nesta carta, com a qual é o mundo presenteado: Lúcifer, o mordaz, o anjo caído, o primeiro, a mordidela original. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! O ancião deles.
Sim, eu, Lúcifer, estou então por perto, coabitando a simpáticos quilómetros da vossa vizinhança. Estou no meio de vós como qualquer outro, estou; é o principal. Quer dizer, no meio de vós não estou realmente, pois sou adepto das larguezas. Sou romano, daí… apaixonado por largas infra-estruturas, recursos; as peles e as minhas munições, nascido e criado e ainda fortalecido; Lúcifer, romano, Lúcifer. Primeiro dardo, espeto, a lutar contra as religiosidades convencionais romanas e até o primeiro a desejar a proclamação da essência natural, a invocar energias luzidias das pedras que me prepararam nome e som.
Apesar das idades que conto, dos aniversários que pesam, encaro-me como um ser jovial, espirituoso de ideais e apaixonado pela vida que levo em sensações sumarentas, maliciosas, sobretudo por sempre respirar uma imensa borga, um estado alucinatório que possui o núcleo do meu desejo nuclear.
Permito-me preleccionar, neste instante que já é hora, em alçadas próprias e reais do vampirismo. Quero ensinar-te, mundo!
Vampiro é aquele que se alimenta de energia vital e não de sangue, porque sangue – pensando como numa pasta líquida vermelha humana – é perigoso e transporta e sabe a doenças. Os fanáticos por sangue devem perceber de uma vez por todas que metáforas são hinos neste tema do vampirismo. Somente os doentes e as aberrações se ajoelharão perante a ingestão de fluidos como o sangue que são tão nocivos quanto nojentos. E eu e os guerreiros da minha espécie e casta, doentes e aberrações é o que não somos, apesar de serem destas formas que procuram intitular-nos. Prosseguindo. Toda e qualquer referência a sangue impregnada nos nossos discursos e/ou simbolismos é portanto metáfora (e figuras e figurinhas de estilo equiparáveis), absorvendo a partir disto a energia e os entusiasmos que são retirados às vítimas. A energia vital que extraímos dos humanos e doutros animais é a chave da nossa caminhada para o império terrestre e uma utopia quiçá aberta. Apesar de insinuar e sugerir-te isto, mundo, não te ensinarei o porque do/no porquê nem como. Na exposição continua o secretismo e vice-versa.
Boa parte da realidade faz-se na ocultação de algo por cima de algo ou entre algo. Isto faz entrar no pensamento que tantas são as verdades no mundo moderno disfarçadas em mentiras. As informações nobres do vampirismo na desinformação corrente. Tanto melhor! Chega lá quem sabe; alguma parte deste tópico é-te familiar, mundo? Aqueles que falam sei que não sabem. Aqueles que sabem sei que não falam. E eu sei e eu falo, porque deparei-me com um dia e uma hora deste novo mundo que despertou cá dentro um incrível azedume que há muitas eras não sentia. O advento das relações por meios tecnológicos castradores das genialidades, das discussões à mesa com seres de interesses semelhantes, a pretensa literatura e rasco conhecimento que se gerou à volta dos meus semelhantes, à volta das minhas tradições. Atacaram a balança da beleza vampírica.
As parvoíces pavoneadas por ti, mundo, lançaram-me para o interior desta carta como uma advertência de enorme ira pelo perturbar e pela troça às/das leis que prevalecem sobre os meus poderes, as minhas naturezas, as minhas indumentárias e os meus camaradas. Sei da raça humana a gracejar e praguejar coisas como que a vida é um jogo, um curto espaço, uma passagem, mas para mim não é nada disso. É uma imortalidade, uma obediência para com os meus instintos de predador, uma verdade cruel que tanto tem de prazer como de dor. Se pelo menos a raça humana gracejasse e praguejasse sobre o que diz do modo como diz, vivendo por entusiasmo e vontade construtivos, o defeito e a gordura eram menores…
Testar tudo e não crer em nada! Falar de coisas sem as tomar por garantidas e sim testá-las, fazer com que trabalhem para a realização de alguma coisa, é geometria para as minhas mãos. E para as tuas, mundo? Pelo que tenho conhecido, a resposta é não. Ou andas maneta ou somente estúpido, o que é por si só muito grave.
Prosseguindo. Eu, como vampiro, levo a minha vida nocturna numa grande moradia de praia. Deito-me grande parte das noites de maior preguiça sobre a areia da praia, apanhando o feitiço do luar. Momentos de banhos de lua. E de manhã, transporto o meu corpo astral para fazer de corpo da estrela da manhã, fazer de estrela da manhã, enquanto vou resguardando, em segredo seguro, o meu corpo mais físico debaixo da areia húmida. Tal localização é parte de uma passagem que liga aquele ponto da praia à cave da minha moradia; é o mais discreto que conheço; o mais cuidado; vós, humanos deste mundo, que se estiverdes pela praia naquele local, atenção! ... bem que eu posso estar por debaixo das vossas toalhas de ilustrações da moda.
Com a minha moradia sobre um magnífico penhasco de praia, a existência nocturna embeleza-se com a paisagem, com os sons e com os acontecimentos marítimos em redor. Desde horas de estudo, desde horas de escrita, desde horas de caça, desde horas de prazer e lazer até horas de socialização elitista, a moradia que actualmente detenho faz jus aos meus pensamentos estrategicamente volumosos.
E por fazer referência a isto, quero agora passar o desabafo de que por vezes encontro-me num vórtice de tarefas, projectos e passos, em mistura, o que me deixa exausto. No entanto, dou a volta a esta problemática de origem pessoal. Felizmente. Como pratico várias disciplinas vampíricas, como é o caso do animalismo, da metamorfose, da alindada presença, da potência de acção, da rapidez, da ofuscação, da dominação, da demência, do auspício vital, etc., por ser o pai dos vampiros e o responsável por ter definido com base na atribuição de disciplinas diferentes a cada género de vampiros, mas possuir todas como criador das mesmas, gera-se o conflito de atitudes e escolhas pessoais. A carga de habilidades em curto-circuito. Tomando, porém, de seguida consciência da errada atitude em mim, entro na disciplina vampírica que concede o ideal equilíbrio à questão, colocando a meio gás – ou mesmo adiando – algumas coisas para conseguir outras. Exacto, porque vale de pouco colher muitas frentes ou muitos estudos, devido às capacidades atrofiarem e não permitirem materialização plena ou a um nível exemplar. Daí a especialização, o pragmatismo, a escolha e o momento próprio serem mecânicas importantes no conhecimento e na sabedoria; cenários na minha jornada e da minha natureza; anexem este desabafo, anexem para vencerem mais e melhor.
Acontece lá fora, ali, aí, acolá, uma guerra! E, dentro desta, outras! Guerras pequenas que ignoram que os seus objectivos são sugados para os objectivos da guerra maior, guerras pequenas que acontecem dentro e em prol da grande guerra, a dos vampiros. Ninguém sabe, alguns pressentem, outros negam. O facto de terem sido produzidas mitologias em volta dos vampiros e o facto de terem sido criadas encenações para a teoria da nossa existência plena, contribuem para que sejamos os beneficiados, pois pudemos sempre caminhar e agir sem grande sobressalto, por a negação e crença em provas originarem os maiores paradoxos e atritos conhecidos. As mentiras que são verdades fulminam-se nas verdades que são mentiras e não há indícios de vantagem. Mais, as paredes ficam a obstruírem-se, enquanto nós levitamos as nossas supremacias e gargalhadas!
Represento a ideia de total conhecimento, luz e inteligência para aqueles que vivem com a curiosidade iluminada e não só. Sou ventos e tempestades, pedras preciosas, de alcance exigente. Todavia, deixemos agora para lá estas pistas descritivas de personalidade para contar-te, mundo, uns pares de cenas da minha vida, da minha rotina.
Perpetuidade de ternuras e ronhas, junto ao meu caixão. Enlaces de conquistas seguidas, apertões que fazem os olhos esbugalhados saltarem das órbitas alegres, seduções de peles brancas e frias. Folhas das estações em ventres com nódoas que conheci sempre. Beijos e romantismos profundos, toques nos ossos. Noites de beleza vertiginosa, criações condoídas, bruxarias e vampirismo. A imortalidade é um peso ao qual não escapo, mas a ela junto conhecimento, dureza e prazer. Injecções. Injecções estas que alargam os meus ombros para melhor suportar o peso de ser imortal. Eu já tenho eras e eras em cima dos ombros, mas por elas posso dizer obrigado, transpondo esta carta para a soma das íris e pupilas dos olhos que comi às minhas vítimas. Sangue com a vitalidade certa, gritos e vitaminas, poros lambuzados, obrigado que digo, devido a ter preenchido o meu ser de enlevo e poderoso sabor, engoli, digeri (não regurgitei) e satisfiz-me.
Pelas chamas das noites, bebendo energia vital das vítimas, as suas auras vaidosas, as gotas de sangue encenadas… é isto, é o que faço, caminhar; levitar; voar; fazer de todas as noites o maior sítio de contentamento momentâneo!
A minha existência tem pontos diferentes, situações diversas; naturalmente. Acontece por vezes reunir-me com outros vampiros, membros activos da comunidade vampírica mundial, numa mansão na República Checa ou noutras mansões doutros países, e informarmo-nos de situações, problemas e festas e etc., discutindo o que houver para resolver. Recentemente estive na Roménia, numa assembleia de compra e venda de objectos vampíricos (acontecimentos normais e nos quais penetramos disfarçadamente na maré humana), encontrados recentemente na herança de senhores portugueses, bem como por lá estive presente em aniquilamentos de vampiros traidores e por fim permiti-me assistir a partir de uma galeria privada, num museu medieval, a rituais de vampiros em ascensão ou pretensão e simples orgias com vampiros, humanos viciados em fetiches e membros de múltiplos cleros (devorados após os seus orgasmos), às quais apenas assisto, pois estou já um pouco ultrapassado para brincadeiras dessas com tanta gente ao mesmo tempo!
Os morcegos, os muitos que compõem a minha estirpe domesticada – fiéis companheiros –, testemunham invariavelmente os gritos da bela paixão que nutro por conhecimento e pela entrega de tal aos meus súbditos. Os morcegos e os habitantes pequenos da noite assistem sem cansaço aos momentos sexuais, extasiados, aquando de investidas vampíricas e esses orgasmos de sucção e incorporação faustosa das vitalidades conquistadas transmitem energias poderosas à natureza, à nossa volta. Não há dúvida; pois sente-se electricidade em todo o ambiente. Os vampiros são os provocadores superiores de mudanças astrais no universo. Não hajam dúvidas…
As passagens das brisas, do som das chuvas, dos salpicos da água do mar, denunciam o passar dos dias e dos anos, se bem que nada quase transmitem à minha luz existencial, devido à imortalidade.
Aquando do dia mais marcante em qualquer calendário universal, cósmico, que é logicamente o meu aniversário, este ancião dos vampiros parte para o Egipto. Local de beleza e sapiência milenares, cósmicas, que serve tal-qualmente de ponto de encontro com os mais interessantes camaradas que conheço, assim como para rituais próprios, recreio para saciar a sede e indulgência de descobertas. Lá, nas alturas perfeitas, o céu é negro, queimado como tudo e lindo. O céu queimado decorado por ventos de fogo peludos e ardis, ventos que fazem as vegetações secas e mortas abraçar o nada, o sobressalto. A areia, essa completamente desassossegada, não pára de atirar-se aos meus trajos compridos; parece que felicita-me… tudo, quente e colado, sobre e entre, a areia, pelo deserto fora. Eu permito-me a devaneios compridos nesses momentos, avistando igualmente as dunas mirabolantes, que merecem guardar terrores e riquezas dentro delas e ainda fazem companhia a regiões estonteantemente quadrangulares de areias movediças. Regiões e áreas. Áreas e regiões que com certeza guardam terrores e outras riquezas.
As pirâmides enormes e imensas… imensas e enormes… em/de formatos e aparências – ipsis verbis – robustas, inertes e valiosamente belas. No meu último aniversário entrei como comummente na pirâmide que se encontra escondida das consciências, das noções e dos olhos humanos – exactamente, também e apenas os meus filhos sabem dela e como a alcançar –, a qual simboliza, para a identidade vampírica, o amor individual, a força vampírica, a amplitude das disciplinas vampíricas, a arte vampírica, a fórmula imortal, etc.
Todas as visitas deste género à pirâmide é o bombear intenso de um vislumbre a várias câmaras fúnebres de antepassados. É excepcionalmente arrepiante! Tudo cheira a morte, tudo cheira a antigo, tudo cheira a sabedoria, tudo cheira a perseverança, tudo cheira a ritualismo, tudo cheira a misticismo, tudo cheira a vaidade e crenças imortais que vivem. Tudo cheira a mim próprio, devido à pirâmide implementar a representação do próprio ego. Antes de sair da pirâmide, da última vez, trouxe umas peças de valor: umas coroas; uns frascos; cinco ou seis armas; algumas jóias; uns ornamentos e também amuletos.
Regozijo-me com presentes, ofertar a mim próprio coisas fabulosas! E a pirâmide dos vampiros é completamente a pirâmide dos vampiros…
Após ter informado, avisado e descrito, satisfeito estou no covil, algures numa das praias embelezadas pela morte da lua nesta noite. A caneta e as folhas serviram bem o meu propósito. Não levarei, por certo, uma eternidade de tempo até lançar estas palavras para o seio dos teus humanos, mundo, mas aqui nas minhas dimensões e nos meus mundos vampíricos posso ficar nem que seja uma eternidade de tempo a aguardar por essas tuas respostas/reacções. No quentinho da minha curiosidade, junto das minhas velas a arder, imortais velas a arder… fico de olho em ti, mundo.
Despeço-me com considerável atenção na energia vital humana. Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a aumentar os teus caminhos com vítimas para os meus súbditos e semelhantes e, principalmente, para mim. Não te ensaies nisso! Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a ser tu próprio, porque fico eu com os meus a perceber as diferenças entre as coisas e os seres e afins inomináveis, não pelas cores mas pelos méritos.
Apesar da leitura atenta a esta carta, nunca irás conquistar aquilo que posso conquistar em ti e a ti!
Apesar de avisado, mundo, desejo que multipliques o belo, o feio ou misturas com e sem sabor, mas pára, por favor, de transformar poderosas ocorrências do vampirismo nos teus argumentos lamechas para filmes e/ou em histórias de livros de embalar que vendes. Este pedido não é porque eu esteja a ficar com a provisão de lenços de papel em baixo, mas porque tamanho mau gosto deixa-me com pele de galinha durante eras…
Cumprimentos à vizinhança,
Lúcifer
P. S. Um terceiro modelo saiu para conversar connosco. Conheceu-se uma missiva com reminiscências anciãs, capacidades superiores e informações poderosas. O terceiro modelo exibiu-se, não obstante, julgado não será, julgado é o mundo. Confidenciar tornou-se de sentido geral e avisar premente. Ficou na audição e mais ainda no peito que a defesa deve ser acatada por inteligência. A terceira entidade interage com as personalidades dos anteriores modelos e com eles se reúne como que em celebração vitoriosa. Observando a sumptuosidade do ambiente, absorvido em potência, charme e luz sábia… sob as labaredas da boca do panteão… Lúcifer senta-se, permite-se a uns urros de campeão com os seus camaradas campeões e a uns brindes nutritivos, ritualistas, vermelhos… e o terceiro trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e falta um.
Capítulo 10
Leviathan
Faíscas de som. Faíscas de imagem. Tremelicos na máquina.
As algemas da realidade têm chave sobressalente nas gavetas da fantasia. Inútil lei.
O princípio, o meio e o fim de uma agudeza de espírito são veias que se deslocam rapidamente pela química de um tomo quase a afundar.
Garrafas compradas ainda por abrir, para serem bebidas. O conteúdo é sábio, oscila entre vidros e caretas estampadas... o resto é pujança. O resto.
As piores histórias serão as que foram inventadas, camufladas ou inacabadas. Sem surpresas é certo que não há uma história que seja boa, todas são piores. E esta? Pois, e esta, pois.
O fundo da tampa da caneta, a única que escreve mal, parece ser longe, se é que não são os olhos que longe parecem ser. Olhos dispostos perto com determinadas dioptrias, não obstante, turvos. O fundo da tampa da caneta que escreve mal com uma ponta brilhante que parece cada vez mais amorosa a ser enfiada pelas optometrias acima. Tampava a desilusão daqueles que espreitam e, por um detalhe, tornava a caneta boa escritora.
Boas escritoras lembram bons nomes. E bons nomes lembram Leviathan.
Por disciplina de fazer cumprir uma meta intriguista, um dicionário do tamanho de horas de privação de sono ou simplesmente de tédio intratável possibilita o aleatório de direcções da criação. A orientação da escrita tende a curvar em si própria, que possibilita a entrada numa dimensão de murmúrios corcundas em efusivo mergulho. O melhor mergulhador não conta uma história, geme poder. Veio do tempo sem histórias.
Leviathan, em anexação à sua origem hebraica, recomenda-se como a serpente saída das profundezas dos oceanos. Simboliza o mar, o ponto cardial oeste e canta a estação do Inverno. A água, o oceano enfurecido! Toma definição como torcido/arrevesar e enrolado/dobrar. O ciclo de vida humana secreto e ideologicamente maléfico de discursos com apetite sexual, o Desconhecido, os âmagos emocionais: terror, carnalidade; tornar-se poderoso, magnânimo/grande, imparável. Leviathan é isto e aquele que não se pode descobrir. Réptil de tamanho superior ao limite da compreensão humana, transfere-se simultaneamente do aspecto directo de uma serpente para o de um dragão, quando não se lembra do de um crocodilo. Qual fanático por estilos de roupa.
Leviathan é o dragão dos grandes precipícios dentro de água, dono de um rugido provido de desafio e extermínio. Leviathan, na Bíblia Sagrada, é tratado como o dragão algemado desde o início da Criação, facilmente o Abismo dos abismos originais. Criado no mar com a pura sedição das ondas, Leviathan reina as personificações de mal, do desassossego, da obstinação do Homem e do seu orgulho contra os deuses e as imposições. Leviathan é mercenarismo com desvaste molhado. O início e o fim abraçados, enroscados, a girar sobre as fases de tempo e escritas de espaço. É o gigantesco conquistador dos oceanos e o maior dos venenos saídos das mandíbulas das serpentes, exprimindo o mais enterrado rancor, o grito dentro dos oceanos, com a sua boca que se abre e se robustece dos mais profundos abismos de água. Leviathan representa as marés enfurecidas que vêm reclamar as suas poltronas, civilizadas na estuação da terra.
Um monstro grande do mar, aquele fora do Desconhecido e das funduras temidas. Leviathan é a verdade escondida, a escondida e horrível natureza das existências em esforço e a lutar. Uma criatura grande e poderosa que perverte em si uma continuidade das forças básicas que usa para o ataque a todas as religiões do mundo. A força imparável dentro do Homem…
Leviathan é uma serpente enrolada/tesa do mar, uma serpente e um cruzamento da sua raça com a de um crocodilo e um dragão impagável, um símbolo do mal que luta para alcançar o lustre do Homem. Leviathan é o/a pilar/coluna no inferno mais côncavo para abrir caça aos arcos celestiais. Leviathan ainda notabilizado como o rei sobre todas as crianças com orgulho e acessos de ira.
Cai um quadro preto com uma máquina inclassificável que entuba no ar orvalhados dados de imaginação empurrada, dados com poeiras e aranhas afogadas Uma película nova de coisas científicas, mas sem entrosamento nem banda sonora.
Nos anais dos tempos, na iniciação da origem do que se compreende como Cosmos, existiu uma infinita reunião de forças, pólos opostos, composições, coisas virgens, corpos multiformes e multífluos, fontes de energia e sucção, poeiras e pós e cores em abismal, cósmico, embate, em fezada e aos pontapés. Em transformação, rompimento e atormentação, no desplante natural, em escultura entre si, no eixo total, para resultar na obra original, incompreendida e desafiante.
Faíscas de som. Faíscas de imagem. Tremelicos na máquina.
A obra cósmica limava as suas arestas, descartando umas coisas para abraçar outras, descartando para abraçar, numa expansão imensa, enriçando um desequilíbrio num equilíbrio com chama em suicídio. As refulgentes caras, firmes e criadoras da obra cósmica, foram traduzidas na selvática mudança da pele e conteúdos dos átomos em potência, sendo delas que o planeta Terra saiu. Tiro nas entranhas. Magoado, ensanguentado, depois mudado, arranjado e preparado, tradução com dor para beleza.
Anteriormente a muitas das espécies mitigadas e resumidas, aparentemente tranquilas, conhecidas do presente dia, o Cosmos/a Natureza fez nascer na Terra animais gigantes, criaturas descomunais, entidades e deidades intolerantemente livres e poderosas. Os seres profundos. Os seres originais. Os ídolos.
Fumo libertado pelo ar entubado pela película não contida.
Alergias mentais.
Esses seres nasceram na água, no H2O, nas moléculas básicas dos oceanos originais. Possuíam capacidades avassaladoras, destrezas avassaladoras e ritmos físicos avassaladores, pelo que o planeta tremia a cada movimento ou curva mais forçados e velozes dentro de água ou a cada fenomenal elevação com saltos com relâmpagos fora da mesma, em direcção ao céu novinho, de pompa sedosa e caramelizada, artigo de anatomização.
Os primeiros abanões na Terra não foram provocados pela terra, antes por ocorrerem os gestos e êxtases insuportáveis de tais criaturas. As primeiras, as marítimas, as descomunais. Leviathan era um dos seres e nasceu com aquele aspecto réptil…
Faíscas de som. Faíscas de imagem. Tremelicos na máquina.
O ambiente do planeta era terrivelmente molhado, pelo que o ar e simples temperatura funcionavam como uma implacável torção sobre os organismos. Quase nada existia para além das criaturas imensas e de Leviathan, exceptuando os casos das superfícies de terra, mas essas não só de terra, com uma composição pertinente que se assemelhava a um género de camada então aquática, carapaça líquida mas resistente. Leviathan vestia-se com uma carapaça rochosa sob fluido viscoso incolor, roupa interior com alga com prata e hermetismo.
Os seres colossais habitaram a Terra para a prepararem emocionalmente para a evolução das espécies na terra, que provocadoras e caóticas haveriam de ser, de respirar, doravante. Ao darem resistência à água através da violência dos seus movimentos, das suas forças e até dos seus poderes, esta ficava com as melhores chances de ser mais abundante do que a terra e possivelmente intervir na balança planetária, castigando as espécies da terra, caso não compreendessem a virtude da ancestralidade. Os castigados afogados…
Leviathan instruiu-se em fúria, ao longo dos tempos, acondicionando poder destrutivo na vontade interior de dominar o planeta, os horizontes.
Bruscas explosões sensoriais.
A presença e o peso do corpo de Leviathan – a sua pele e cauda –, em incandescência até distâncias superadas, migrando para o ponto mais distante sem rebentar e sendo lá dominado pela sua própria boca. Leviathan. O corpo do demónio era a função de dar a volta completa e instantânea ao planeta com a sua cauda que preservava na sua boca. Leviathan era uma criatura bestial, a unificação do planeta em/de si próprio, actuando como uma corda encrespada que dava a volta a si própria e se atava mais à frente. Assemelhava-se também a uma fortaleza… não…
Erro na máquina. Marteladas dentro da película. Desaparecimento da máquina.
Foi a primeira fortaleza, no horizonte terrestre, exibindo a sua inominavelmente brilhante pele e o seu porte extravagante, o que significava um hino à força interior, à base cíclica e claramente à representação duma coesa profundidade.
Leviathan nunca se confrontou directamente com adoradores de deuses. Por várias etapas e por diversas vezes, engendrou formas espalhafatosas de levar o seu rugido marítimo, a sua extensão em água, aos seios e às moradias de tais adoradores, arruinando as suas seguranças, porções de terra… e afogava-os de modo rápido para que não manchassem com sangue, vómito, fraqueza ou excrementos as purezas das cores das suas marés. Ocasionalmente mais gordo em violência com outros seres, Leviathan, através dos saltos ao nível do firmamento, depositava a sua água; nuvens que desafiavam a imaginação dos terrestres. Chovia estrondosa e categoricamente, pingas do tamanho de rochas profanavam a incredulidade e rebentavam com regiões e extensões de terra. A chuva fulminante. A chuva de Leviathan que, subindo ao céu, criava nuvens e das quais vertiam quantidades destruidoras do seu bem: a água atormentada ou da angústia. Os adoradores de deuses eram reduzidos a H2O, ao invés do pó, indo a desaguar no covil de Leviathan.
Leviathan ergueu Atlântida, inicialmente num pensamento de estar à superfície. Mais tarde, raptou milhares de humanos para formar a sua elite de habitantes, humanos de água, escolhidos por não terem moralismos nem religiões, mas um código individualista. Dir-se-iam ou chamar-se-iam de insanos.
Atlântida: lenda, utopia do Homem subaquaticamente desenvolvido. As maiores riquezas, os maiores tesouros, nos oceanos apareciam e Leviathan apropriava-se. A parte principal da cidade de Atlântida tinha um régio palácio feito em marfim, ouro e prata. Para além de que a cidade fazia sobressair pontes, canais, templos e pistas de corrida de cavalos. O tempo da cidade à vista dos olhos da superfície terrestre já foi esquecido, tanto faz hoje a mesma estar submersa perto de Portugal ou da China ou inclusive à deriva subaquaticamente. O mérito nunca foi dos tempos de hoje ou semelhantes.
Atlântida existiu nos seus moldes de riqueza, avanço e poder. Quando estava à tona de água, a cidade era um total vislumbre, qual oferenda superior aos olhos dos humanos em terra. Na perspectiva daqueles com a alma em terra, Atlântida parecia a terra da bonança e da realização. Leviathan inventou o mecanismo que suportava a cidade à superfície da água. O mecanismo era a magnitude das energias e dos talentos dos humanos de água, mecanismo portanto qualitativo mais do que quantitativo. Havia, por outro lado, um factor inimigo do factor do mecanismo de Atlântida vigente naqueles tempos, que conhecido era por soma da inveja dos humanos de terra. A procriação das espécies em terra acontecia mais rapidamente do que em água. A soma era mais quantitativa e o mecanismo da cidade de Atlântida veio a cair por água abaixo, precipitando assim à imersão de Atlântida, que na água quis juntar-se à harmonia.
Em Atlântida submersa, Leviathan vivia feliz. Juntamente com os seus habitantes, originou avanços arquitectónicos baseados nas linhas subaquáticas que alteraram para o resto dos tempos a relação entre os criadores e o meio e do que da mesma resultava. A arte, a personalidade, o pensamento e a riqueza da cidade eram vastas, únicas e com a fundamental realização responsável dos intérpretes. Leviathan tinha templos, estátuas e jóias em sua menção, alguns destes erários da autoria das suas mãos ou dos poderes da ausência delas e outros da autoria dos humanos de água. Parecendo tal detalhe uma reprodução equiparável de outros povos a deuses e criaturas adorados, o que falta revelar é que não existia submissão de crença ou prestação de sacrifício, cegueira mental, por parte dos humanos de água a Leviathan em Atlântida. Entre eles soava a camaradagem, o ânimo e júbilo. Embora, com aquela idade e comprimento, nenhum humano ousou cuspir-lhe.
Atlântida. O diamante de Leviathan... Leviathan, aquele colosso de marés, a massa das marés, corpo grotesco de propagações aquáticas cujas descreviam elipses possantes para as formas encantadoramente demoníacas, representa a estação do ano das chuvas que se intitula Inverno, representa poços de água, o ponto cardial oeste, os dilúvios desgraçados que fulminam campos, regiões, países, enfim, carreiras importantes de agricultores.
Leviathan espraia-se sobre a terra da Terra com os seus óculos de nuvens e perfume icónico de H2O. Ele é tinta anciã que arrasa o calor de obstinadas parvoíces. Queira ele defender o planeta do aquecimento global. Representa o fenómeno adverso à fé da luz branca e do pensamento evangelista. Leviathan é uma personificação literária de força, simbolismo carnal e individualidade elitista, nos poros da pele daqueles criativos e capazes de novos pontos de vista instintivos; naturalmente originário, Leviathan, uma tatuagem num pulso magro, a tinta preta, tinta de uma chuva grossa, assaz sólida, uma tatuagem de linhas de retrato, retrato ideal girando aos ponteiros dos relógios agarrados…
Abundantes indivíduos fazem motes pedantes em volta de tudo e mais qualquer coisa, mas falham, ocasional ou diariamente. Aparências e clichés são dos mais habilidosos truques de ilusão. E para mais zombaria, palavras com outros sentidos são usadas à força onde não deviam estar; só pelo gozo. O que serve a diferenciar casos concretos com o geral é a metodologia de recuperar de uma queda face aos motes, assim como a intensidade prestada entre a teoria e prática do viver bem a vida. Resmungam, querem mudança? Ir até outro lado, vamos, tomar a diversão em vitória, visto que se queixam da permanência no mesmo local. No entanto, quando alguém se decide finalmente ao primeiro passo, acobardam-se os resmungões dos motes, em instantâneo.
Nunca é erótico resumir uma diversidade de manias.
Uma viagem literária a um universo pessoal pode trazer enjoo mesmo àqueles que nunca enjoaram nas suas vidas. Nem se fala na morte, porque nela não há estômagos, porque tais são usados para forros.
O universo pessoal que foi introduzido a alguns viajantes deu à luz algumas personagens. E como a viagem está quase no fim, as personagens tornam-se despedidas e portões desse mesmo universo pessoal. As personagens vêm ter à mãe, à chupeta, disciplinadas. As honras da casa pelas intervenções das personagens. Uma tertúlia possuída com as personagens preexistentes. Reunidas aos viajantes literários, como rodapés dinâmicos, opinam acerca da última paisagem equivocada, a água. Conversam, vagueiam.
Haverá personalidade múltipla em quem escreve os textos? As personagens serão reais? As personagens e os textos serão somente criados para gozar com o leitor? O leitor é apenas leitor? O narrador é alguma das personagens ou então conhece alguma delas? O narrador transmite a sensação de observar alguma coisa ou é somente um possuído pelo gozo? E o escritor é alguma das personagens ou então conhece alguma delas? O escritor transmite a sensação de saber escrever ou simplesmente de confundir e arruinar interesses?
As personagens são os leitores e os leitores são o escritor e o escritor as personagens. Os leitores são as personagens e as personagens o escritor. O narrador nunca existiu. Foi uma palavra. A cabeça dá a volta a algo e trinca a cauda. As personagens são escamas de Leviathan, as de agora, todas. Não é conhecimento feliz, é franqueza. Leviathan nas escamas pode também albergar vírus, venenos e gases de variados efeitos. E num voo rasante, contaminar tudo e todos em terra. Ergue-se ao firmamento com cascatas ao seu redor, forças molhadas que nos ratam as cabeças, as maiores cascatas do universo. E as personagens preexistentes da tertúlia sobre a viagem pelos textos caem aflitivamente.
Na prisão de um muro, o ego baldio pode ser de qualquer humano.
Eu sempre tive medo da água, de nadar no mar, desde aquele momento em que, subitamente, os raios do sol me cegaram, uma onda assanhada roubou-me o equilíbrio, caí sem pé numa segunda onda não tão assanhada e a minha visão se tornou completamente aquática, aflita e caricata. Aquele momento deixou-me envergonhado, sem apetite para nadar no mar, apenas para observá-lo.
Eu não era feliz comigo próprio, com o defeito que me apareceu no pulmão que invalidava experimentar mergulho, fosse com apoio ou não. A raiva crescia dentro de mim, mexia e revolvia. Alimentei um vulcão de raiva, mesmo que serpente raivosa fosse Leviathan. O resultado da fricção entre vontade e raiva foi o de cometer erro. Decidi, um dia, mergulhar, pagando a uma dessas companhias quaisquer de mergulho.
Cometi o erro de experimentar mergulho, contrariando o facto de não poder fazê-lo pelo colapso que o meu pulmão tivera.
No instante em que mergulhei com o referente equipamento, senti tranquilidade em crescendo, como se acabado de entrar na nata de um leite morno, simpático, pronto para mim, só para mim. Mergulhar naquele mar pareceu realmente bom, por proporcionar tranquilidade, interacção com presenças marítimas e emoções genuínas.
Aquele pedaço de mar dentro do mar apagou o meu vulcão de raiva, só que… a visão depois ficou perturbada, o peito aturdia-se e fulminava-se com baques fortes, a respiração perdia-se e eu caí numa feia zona de rocha marítima. A equipa de apoio socorreu-me prontamente, rapidamente. Não sabiam o que me tinha acontecido, desconheciam o meu problema. Ainda por cima era Sexta-feira e se calhar, à surpresa daquele episódio, eu haveria estragado o fim-de-semana deles.
Acordei num hospital. Numa cama moderna, mas esquisita para as costas. Reparei no meu estado. A minha cara devia estar entalada de dores, de efeitos de alguns medicamentos e de cor geral de hospital. Um dreno sugava-me a porcaria largada pelo pulmão, devido à cirurgia que eu ali não recordava. Já havia escutado aspiradores domésticos mais ternos do que aquilo. O meu nariz era penetrado por tubinhos; metia dó.
Caminhei devagarinho até uma janela, onde se podia avistar a rua principal. Senti uma mágoa enorme, um sentimento de abandono, entre outras coisas. As lágrimas tímidas mas verdadeiras apareceram, mas ninguém as saudou. Eu estava sozinho, por ter que ser desse modo. Tudo estava magoado e errado para mim, naquele momento. Eu estava. Queria apenas fugir para minha casa, para os meus. Imaginei uma criança furada como panos por dentro… e era eu.
Vibrações dissonantes de fome literária. E havemos de amar um mar.
Sentei-me na zona da areia que o mar molhava remeloso e vi aparecer no colo do horizonte o corpo serpenteado de Leviathan. Aí é que ganhei consciência de que já tinha sentido este tipo de aparição, pois sempre pensei que eram delírios ou pesadelos de uma droga qualquer. Fui até à água do mar, a qual estava incrivelmente atraente… e fui…
De uma pequena ideia nascem grandes aborrecimentos.
A Sabrina, vaidosa, orgulhosa, a dona de um cabelo esbelto, teve uma relação comummente profícua com a água. Para ela, nas pequenas coisas encontram-se as grandes sensações e no final de contas é disso mesmo que a vida se trata. Grandes e pequenas e sensações e coisas.
A apaixonada por café, recordava no vício dela o sentido certo de numa pequena coisa encontrar, espraiar-se, uma grande sensação. A bebedora de café tentou preservar a pureza da água, dos rios, através de vigília, aconselhamento e associativismos sociais à volta da problemática da poluição. Os olhos de Sabrina despertavam júbilo quando observava a corrente de um rio límpido, por entenderem a importância daquele bem, daquela preciosidade. Na altura de Inverno, como que por admiração aos povos que por tradição tomavam banho em água gélida para desentranharem achaques e tornarem em peles velhas dores interiores, num masoquismo físico no sádico H2O, a Sabrina mergulhava no gozo de uma cascata mais recôndita, então banhando-se em violência de alteração de temperatura e privilégio de esquecer a realidade. E nunca se permitiu a sujar a água com pêlos que pudessem desprender-se do seu corpo.
A personalidade de Sabrina era uma maquilhada freira face à limpeza, ao cuidado e tratamento da água, uma voz na mente da Sabrina em gargalhadas: não esquecer que água mais limpa, café mais saboroso.
Um espectro ilimitável domina qualquer tertúlia.
Água para o Ivo era mais uma coisa ao seu alcance rudimentar. Não praticava directamente o uso da mesma nos cozinhados, por ter quem cozinhasse para ele. Usava a água sem moderação; moderação: palavra ou conceito inexistente no seu dicionário mais natural.
Lavar os pés é com água, aí sim; dissertação sarcástica de Ivo, que olhava de pronta sobranceria para a importância da água. Ignorava a quantidade de produtos do seu quotidiano que existiam nas suas composições com água, ignorava a essência, por causa da cegueira que o whisky lhe administrava, bebida que para ele era a base energética, ao invés do H2O. Se existiu uma canção a ser ouvida pelo fio corrente da vida de Ivo, essa teria que ser a do som do whisky a ser neutralizado pela sua garganta, uma prodigiosa galeria de estrondos ardentes.
Ivo conceituara mormente a comparação entre água e a expulsão da mesma pelo corpo, numa presença ignorante de razão sua; se o corpo fazia expulsar, expulsava, a água ingerida, isso demonstrava a sua futilidade. A urina expulsa do seu corpo era uma das provas favoritas, a qual com a cor e o odor característicos, preenchia adultas zonas da água do mar, quando Ivo ia a banhos. Urinava água na água do mar. Urinava por poder. Salgava-a.
Mimos de loucura a trote pelas imagens.
Eles voltaram a cruzar-se e juntos têm arrepiado caminho.
Acalmaram-se inúmeras vezes, expeditos e joviais, defronte ao mar, vendo a sua vastidão, estimando a força marítima e também guardando na ideia a beleza da água a reflectir as cores do firmamento. A água era uma beleza líquida, um espelho directo. Eles conheciam o toque molhado dos dias de chuva, aquele manifesto de água generosa que vinha cair sobre eles, libertando as suas inércias e apelando às suas imaginações. Eles gostavam de dar asas à sexualidade, encharcados, defronte ao mar. O espelho tudo mostrava, homogeneizadas sensações carnais. A água era a metáfora dos seus corpos.
Eles eram uns fantasistas do prazer inditoso, apaixonantes de se verem a pavonear as suas graças e sensualidades provocatórias publicamente, cumprindo melhorias por altruísmo. A transpiração dos corpos deles equivalia a camadas luxuriosas de mel num oásis perfumado com especiarias de sonho. E eles transpiravam emoções fortes e água. A água ensinara-lhes a lição da vida de alimentar as plantas, os animais e os humanos, por isso viviam agradavelmente a cumprir equiparável papel, o de incitar e inflamar as predilecções à sua volta. Eles eram professores e alunos da Natureza, tal-qualmente lagoas formosas que saciavam línguas do mundo. O Homem pode até ser descrito como pó, terra e areia, mas só depois de afirmar-se de que é feito de água, também.
Um quarto modelo saiu para conversar connosco. Uma ondulante jornada por todas as histórias. O quarto modelo exibiu-se, não obstante, julgado não será, julgado é o mundo. A maior interiorização que se faz é a presença de uma única cara para um início e um fim. A quarta entidade interage com as personalidades dos anteriores modelos e com eles se reúne como que em celebração vitoriosa. Enroscando-se na inexistência de água na opulência do ambiente, rígido de escamas e lambareiro com a língua medonhamente bifurcada de fora, esbelto e poder abismal… sob as labaredas da boca do panteão… Leviathan senta-se, permite-se a uns urros de campeão com os seus camaradas campeões e a uns brindes maníacos, nutritivos, molhados… e o quarto trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e não falta nenhum. O ritual dos quatro demónios do panteão começa a sua fase crucial, para originar e sacudir ímpetos de energia negra, trevas naturais, por todo o Cosmos, engolindo buracos negros e voltando aos ritualistas. São demónios ou um de nós?
Os piores momentos serão as despedidas ou, pelo menos, as sensações das mesmas. Antes, talvez, uma noite ao relento no Inverno do que uma choradeira com palavras falsas. Não haverá próxima teatralização de confusões… as palavras jamais voltarão aqui, os recintos armazenam-se e os gozos já foram todos disparados. Não há nada para explicar, há para caluniar. Possuir foi gozar, sem referências privadas. E cada qual tem o demónio que merece. Todos são exactamente isso: o demónio que merece ser.
Antes do final, enviai um papel com uma mensagem. Será um recinto de possessão para o gozo de alguém. Enviar. Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles e elas, enviar, a mim, a ti, a ele, a ela, a nós, a vós, a eles, a elas.
Com amor.
Encarar, sob relatos de mim, eu próprio
Vento e chuva amena. O Outono anda por aí, por aqui ando eu e por toda a parte andamos nós. Através da minha janela, apesar do pouco que a noite me deixa ver, observo uma brisa molhada que namorisca as matas e as pessoas alcoolizadas. Namorisca-vos? Escrevo, aliás comecei a escrever, porque gosto de recriar os divertimentos dos meus processos mentais, que amorais! Jovem, azulado no olhar, sou alguém que gosta do Outono puro e duro, ou, digo, talvez puro e inspirador. No desenlace destas linhas borradas em lágrimas de gato, de vazio, de papel, sei lá, assino um nome, cujo brotou da farinha com determinados significados demoníacos, mas, principalmente, libertinos! Ousados e insistentes, como pretendo deste Outono. E o porquê do Outono ser bonito para mim? Têm sempre de perguntar. Fácil; é a estação do ano que mais me lembra, através de provas, quem sou e o que gosto. Sério e carnal, como a descida da chuva às cabeças dos animais. A par das letras, as horas passam… tenho febre. Encarar o quê?
No momento desta frase, que é durante a tarde, mais ou menos a horas previstas, vejo vias tradicionais, derreadas, alagadas de folhas caducadas, de um castanho inchado, que são desarrumadas, sem esqueleto, nas rugas de areias e pedras, pela brisa de dias quase cinzentos. O vento passa-me pela cara, esfregando-se sem regra à pele, num constante equilíbrio de ares e sopros meteorológicos. A tarde está sossegada por estes lados e também por outros, onde logicamente hajam semelhanças. Os sons da civilização são a constante do mundo e aqui também ouço alguns. Ouço automóveis, que daqui vejo como automóveis em miniatura. Não é por questão de tamanhos, mas, sinceramente, não gosto muito de automóveis. Eu gosto mais quando vejo o comboio, apesar que ainda prefiro os antigos, pois ostentavam-se noutras estéticas de classe. Comboios… ah. Ah!, fala-se no diabo… e aparece, agora, um comboio que passa ordinariamente perto. Um comboio dos mais recentes. Paro a apreciar, para não sentir uma sensação de aproximação involuntária ao chão, vertiginosa, como se estivesse a correr contra o comboio. Ali, entendo, há muito peso a deslocar-se a muita velocidade. Ó trilhos férreos!, quereis uma toalha para o suor e, quiçá, uma pomada para aliviar os músculos? Não obtenho resposta. O som gutural do comboio, as fricções férreas, as ardências maquinais e o despejo de velocidade. Ali. Não obtenho uma resposta em português. Encarar o quê?
Continuo o meu caminho, que dá para uma floresta e, entretanto, piso mais folhas e terras esverdeadas, acastanhadas e alaranjadas. Quando me detenho num local tropeço. Tamanha maldade do meu calçado! Entrei com o pé esquerdo? Bem, e com o direito também, porque ainda não cortei nenhum deles. Neste local, o silêncio parece ser de ouro. Sem grandes fumos, sem muitos fedores e barulhos. O ambiente sonoro é o hino de pássaros esquisitos sob o encantamento de uma subtil corrente de rio. Um rio aberto, apesar de manchado. Este é um local bom e é por isso que aqui estou, sem dúvida. Quem sabe dele, nele não fala. Sabe; cala! Cá no recinto recôndito, paralelo ao rio, em voz regular digo a palavra – fotografias –. Tiro o meu saco do ombro, deixando-o simplesmente cair no chão, qual ventoinha na palha. Dentro dele retiro uma máquina fotográfica digital. Queria antes ter uma de rolo, porque era um maior colorir dos meus gostos, mas para já o dinheiro que tenho não me compra uma dessas. Então começo a disparar o flash em múltiplas direcções. Flash! Flash! Flashflash! Tento captar do ambiente aquilo que nele mais me agrada: árvores e plantas e árvores, o rio, uma ponte de ferro e aço e afins, um pavimento esburacado, mais plantas e bichos, trilhos verdes que se perdem de vista, ou apenas dos meus óculos, e paredes arcaicas comidas pelos anos e pelos humanos. Ergo o meu saco, enquanto olho uma dezena de velas que se encontram a derreter em buracos podres, as quais me forçam a imaginar que situações viveram antes e durante aquele detalhe. Tudo me parece arte. “… dissera Olvido uma vez […], a palavra arte soa sempre a mistificação e a panos quentes. É melhor sermos amorais que imorais. Não achas? E agora, por favor, beija-me.” Tiro fotografias com a rapidez de um pintor talentoso, em cada pincelada. Segundos passam, minutos passam, uma hora passa, agora o dia começa a virar noite e não há mais fotografias para ninguém. O rolo não terminou ou, melhor, a memória do cartão não terminou, mas porque, sim, está no meu momento de retorno: e um Homem tem que fazer o que um Homem tem que fazer! Um Demónio faz aquilo que quer fazer! Um e outro são iguais e atribuem merecimento, instintivamente, a armas e a si próprio! Encarar o quê?
Levantou-se mais algum vento, entretanto. O céu, a esta hora, está sublime, está cinzento, manchado, esquisito e denso. Passo ante passo, pé ante pé, a minha casa aproxima-se imóvel. Tenho as chaves da porta de entrada. Por acaso, trata-se de umas chaves porcas e azedas. Porcas e azedas como determinadas coisas em mim, mas que lá acabam por ter a sua utilidade. Entro, neste instante, em casa. Tudo tem uma funcionalidade, digo, até a minha mala de viagem. Quando a agarro, encarrego-me de dar-lhe vida. Enfio-lhe, para que guarde, os meus pertences: as roupas, os acessórios, uns objectos diversos, a comida e a bebida. É simples de perceber que viajarei, ou irei para outro sítio. Digo fácil de perceber e não de adivinhar, porque na minha vida não se adivinha… muito. Na vossa vida adivinha-se? (Portanto…) Prosseguindo. Para a viagem que farei, daqui a pouco, tem de estar tudo no seu lugar e, por exemplo, a minha mala encarrega-se de ser a galeria de todos os lugares! Encarar o quê?
Já estou em viagem e à conversa com as pessoas no carro. É surpreendente a quantidade de demónios que existem nas conversas. Demónios que são as frases feitas, os clichés, as frases feitas, os clichés. Uma dose de chavões e ficamos bem. As conversas estão a ser animadas, lá isso estão. Cada qual com os seus demónios idiomáticos! Retenho o segundo, no meu olhar, em que uma das pessoas, aqui no carro, se pasma e se abana com pudor entre uma fala minha. Este é um lugar-comum meu e por ele rio-me sozinho, com certeza. Consola-me deixar aquela miúda electricidade que se activa, que dança no cérebro das minhas companhias. O que importa é essa activar-se nelas, seja na cama, seja na casa-de-banho; pensarão naquilo em que falo! Entretanto, mais qualquer conversa e explicação. Também limpo as minhas mucosas e fico quieto na audição à gelatina amanteigada do meu cérebro. É noite querida. Ventania, estradas bem iluminadas, céu com nuvens encalhadas e uma temperatura baixa. A pessoa ao meu lado grita, mas acha que fala. A meu lado, a porta do carro, um luxo, há muito que se encostou ao meu braço direito, devido ao carro estar cheio. O condutor do carro cora com os acenos a/de outros condutores e as restantes pessoas perdem-se, neste momento, a pensar naquilo que podem e não podem fazer em locais que ficam fora ou dentro das bordas da viagem. O rádio toca um disco de instrumental moderno e eu bato, algo ritmadamente, os pés nos tapetes do carro. O carro percorre estradas mais próximas do nosso fim. Estas estradas têm um aspecto negro e denso, que se engrandece no arvoredo selvagem feito, à semelhança, de um algodão rijo, frito e pegajoso. Não há barulho para além dos vidros deste carro, o qual avança como uma lâmina de corte desabitado, enquanto os passageiros riem de nada, de coisa nenhuma e de algumas coisas. Os traços brancos na estrada demarcam a palidez e calmaria do ambiente natural. O gelo do desimpedimento ainda não quebrou. Minutos e minutos transpõem. Num momento em que a noite está mais alta, piso a localidade que nos aguardava. Um sítio verde, com o peito que vive pregado numa linha de três metros acima do horizonte azul, azul muito muito escuro. Há qualquer profundidade verdadeira aqui, um armazém de belezas que mostra mercadorias presas a uma parede, totalmente na vertical. Com vertigens mas orgulho, o armazém natural alonga-se em ramos radiosos, entre as suas relvas misteriosas e viçosas, abraçado em fauna e flora de luxo e concentrado como dinamite de carne e leguminosas. Tudo, claro, no negrume, agora. Vivo em álcool, festa, palavras e necessidades. Vários capítulos estão a passar… a passar. Param. O apartamento está com a porta aberta e com as luzes ligadas. Por que é que haveria de as desligar? Não haveria e não quero saber, não estou preocupado. Ups! Caíram as minhas bolachas, preocupei-me! Sou livre para pegar em mais e não apanhar as sujas. Sou livre para acender e sujar. Estou contra a essência de que aquilo que é abandalhado é O devasso. Ora! Aqui, pela varanda avisto minimamente florestas agrupadas. Vento, cascas e garrafas. A noite é um lençol morno e a pele do meu corpo aquece devagarinho. Encarar o quê?
De manhã. Acordo ao som do despertador ruidoso. Não dormi bem. O céu está enorme e chuvoso, para bem dos meus olhos com remela. Acordei com sono e com dores de estômago e dói-me o estômago e tenho sono. Vou para o lado oposto das outras pessoas, porque não tenho curiosidade nem paciência bonitas para o estilo desta manhã, da manhã das pessoas. Principio-me, por caminhos cheios de raízes e buracos, em direcção a lagoas grandes e frias, contra corrimões e varões de erva, flores e areia. Os montes gigantes têm essas lagoas a seus pés. Observo, contentíssimo! Imagino estas quantidades de água à temperatura da quente que sai da minha banheira. Não digo a ferver, mas muito quente para combinar numa fogueira branda para bruxas, mulheres libertinas e mágicas, que atiraria para ali. Não para querer queimá-las, mas para me enrolar com elas; quais salmões calorosos e transpirados! Quero um caldeirão de cetim, corações e orifícios! E sem fim, convulsões e cicios! Quero mexer essa receita culinária. Com tanto para onde olhar, deambulo, pensativo, pela areia bege e misturada não sei com o quê. Sento-me numa pedra grande e sem cor. Observo e contemplo a água calma, o ambiente espectacular e a grandeza das coisas. Isto é tão belo e tão natural que me sacudo por não ser tão habitual quanto desejaria, quanto ao país compete. O céu pouco mudou e já me chamam, por qualquer razão. Por mais que se disfarce, a sensação de incompreensão aparece-lhes no rosto. Sinto-me em casa, em casa… morno, ventoso, com cheiro de chuva e arrepios. Coisas e coisas que agora passam que não vos digo. Porém, fica o desabafo que me preocupo com a preparação do meu Halloween – All Hallows’ Eve. A noite de 31 de Outubro para 1 de Novembro é muito especial e tem mesmo de ser bem organizada e tomada! Poções, rituais, piadas, brincadeiras, loucuras, liberdade, criação… tudo encaixarei. Este é o meu desejo e o meu querer! Aproveitarei para escrever… e festejar também com os meus personagens medonhos e os meus demónios fofos. Ainda tentarei realizar uma película satânica! Num dia à frente. Alguém me ajuda? Oh, Diabo! Até que me emprestavas uma câmara de filmar! E eu de imediato a ti, o dinheiro certo! Negoceia-se… muito bem. Irei comprar uma. Uns modelos, meia dúzia de figurinos e argumentos, quero… e encarar o quê?
Numa próxima… as palavras mudarão, os recintos também e os gozos serão novamente meus! Chegando ao êxtase… não tenho que encarar nada, tenho sim que experimentar!
Capítulo 2
Locus Horrendus
Trovoada enxuta. Na sombra dos recantos citadinos, a luz celeste aterroriza. Álvaro de Campos disse que não dormia, disse que jazia, cadáver acordado, que sentia. Disse que o seu sentimento era um pensamento vazio. Disse que o seu cansaço entrava pelo colchão adentro, que lhe doíam as costas por não se deitar de lado e, se estivesse deitado de lado, doíam-lhe as costas por estar deitado de lado. Álvaro de Campos pensou na Humanidade que esquece as suas alegrias e as suas amarguras, pensava e não dormia. Sendo assim, a dor aparece, portanto há que decidir que posição adoptar para recebê-la. Exactamente; Álvaro de Campos dizia esta palavra.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Hoje há qualquer coisa dentro de mim que me consome o sorriso. Uma qualquer coisa, uma coisa qualquer, fria, deprimente, suada, porca, nojenta, amassada, de repente destruidora. Esta coisa dentro de mim é a angústia e também é a ira, a tragédia emocional, o culto pela crueldade, é a braveza, a saturação. Parece-me que tudo está incrivelmente, assombrosamente, mal. A caneta é um nojo. Hoje, que para vós não é o meu hoje nem o meu amanhã, estou enervado. Enervado, com aqueles nervos que me deixam num estado horrível.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
O som pim, pim, pim, que vem lá de fora está a levar-me aos arames. Não o suporto, estou a rebentar de alguma maneira e já preguei murros na mesa. Apetece-me viver esta febre de nervos, escrever sob este sentimento, inspirando-me nele, massacrando-me. Eu não tenho nada que me alegre, nada que me satisfaça, apenas o meu cérebro que se entrega de braços abertos à informação negativa que recebe e, logo, me deixa roído de desprezos. Ah, como me coloco a pensar nos meus adversários, pensando fervorosamente! Vinganças! Tomara inimigos tombam ao rio e levem com muros de betão e aços queimados, bem no centro da cabeça, repetidamente, à falta de facas grandes. Tomara se rasguem em arpões envenenados e vejam sangue podre a fugir-lhes, que comam, a chorar epicamente, excrementos de todos os tamanhos e que enormes agulhas arcaicas lhes entrem pelas axilas e pelo umbigo. A temperatura do ar está turva e amarga, vejo as nuvens de cor vermelho-sangue a observarem-me, querem partir-me todo. As casas à minha volta, cheias de gente inócua, atrasada e cínica, podem ruir, agora ou daqui a pouco. Eu até correria para o local, arruinando pedacinhos de estruturas, que restassem ainda de joelhos.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Chegamos perto do final do ano, com orgulhos e caretas. Isto para quê? Alguma coisa vale a pena? Tudo está enraivecido, cheio de enxofre e metano, espicaçado numa banheira de iodo e petróleo e borracha e veneno. Admiro as proveitosas tragédias da natureza, ao longo do mundo, porque desejaria controlar o imenso poder de cada uma com as impressões digitais dos meus dedos. Logo, satisfazia-me à procura do sabor da destruição natural. Sinto os cheiros das desgraças. Quero lá saber de responsabilidades, de preocupar-me com quem espera de mim alguma coisa de bom. Não quero nada, neste momento. Nem penso em nada nem em ninguém. Solto fúria e solto ódio e tomara que todos os vidros e espelhos partam, que são caros como jóias e que exibem o meu físico, o qual tanto menosprezo. O meu interior vai aparecendo e reaparecendo como um parasita, umas vezes articulado, outras vezes famoso. Mostrando que me encolho em defeitos, acordo toda a semana e a mente corre logo em dúzias de assuntos. Para quê? Mudo alguma coisa no mundo? Perdi essa vontade, já que somente quero sair do quintal com alimentos que me façam sobreviver mais um dia. Se eu não pensasse, queria largar fumo em massa e os outros ao meu redor que se poluíssem nele, tal como me fazem, por vezes, aturar. Poluam-se, enervem-se, saltem, chateiem-se. Poluam-me, enervem-me, saltem em mim, chateiem-me. As ruas atulham-se de porcarias caras. Venha a mim uma sala com porcelanas, que desato a pontapear. Venha a mim faces suaves e narizes bonitos que desato a machucar. Quero tudo feio, tudo rebentado, tudo sem remédio. Folhas de Inverno, dúzias de lascas de palha, nos chapéus e nos casacos, que posso ver. Agora que urino, merecia aguentar a dor de tubos e urtigas a sair pela minha uretra. Que paixão tenho eu por mim.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Nas invasões militares, medievais ou do imaginário humano, de muito sabemos que os fortes invasores decapitavam outros indivíduos, que violavam as mulheres aleijando-as em toda a parte com franqueza, em todas as formas, que partiam as pessoas, que feriam as pessoas, que não alimentavam as crianças, os futuros de quem subjugavam. Que pormenores belos, que pormenores deliciosos. Eu, decerto teria imenso júbilo por ter figurado em cota de malha e espada, em tais cenários, recintos e tempos. Porém, não figurei. Desastre, realidade. Posso, também, arranjar outras missões para mim mesmo e, por exemplo, com toda a capacidade de ser horroroso, profanaria cemitérios, experimentaria sexo com mortas, enrabava-as, cuspiria à grande e à francesa nas flores, que seria lubrificante para elas, abriria buracos, enterrar-me-ia e masturbar-me-ia então na lama, nos esgotos, para espantar o mundo ou qualquer nome assim. Vivo as minhas perturbações loucas, não, as minhas irritações. Eu enervo-me tanto. Eu enervo-me tanto que me identifico, afinal, com um vulcão. Onde posso comprar lava para espirrar pelas ruas abaixo, pelos meus nervos, onde? Eu oculto os palavrões, mas eles estão cá, nos espaços do texto. Que energia produzo, que cansaço e cócegas na barriga, e, finalmente, eu gosto de ver-me a sangrar ao ferir-me, com os dedos mais pequenos dos meus pés descalços, nos cantos dos móveis bicudos.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
No écran, o cursor pisca, a luminosidade das cores, a presença do viso da extraordinária compulsão, o ensinamento futurista. Que mais há de futurista que a verdadeira auto-mutilação? Não queremos afinal ser máquinas, pouco tecido humano e o resto tecnologia? Os vapores de máquinas, dominadores, a incomodarem os lábios de terceiros, os barulhos dos elementos de ferro a levarem as mentes ao tédio e à vegetação emocional dos que lhes são diferentes. Podíamos ser computadores e enviar vírus a outros, desligar redes e piratear. Não é um gozo, não? Venham a mim as mulheres bonitas, que não conseguem inovar em si as sugestões de colaboradores chegados, que lhes tiro a inocência dos seus sonhos. Máquinas, sim. Nunca transformarei ninguém em alguém melhor, porque o que pretendo é partir carcaças. O resto é para as máquinas fazerem, pois não tenho tempo, visto que sou como o coelho que corre para o País das Maravilhas. Enfio arames nas costas de um padre, de um Messias, de quem eu quiser, e vejo quão divina é a dor de um falhado ou simplesmente de um ser perfurado. Lamento lamentarem, a sério, é verdade que preciso de falar assim, mesmo a não em ouvirem tenho – uma péssima voz – uma caligrafia bonita, arranjada, não tenho? Num lado dos campos de batalha há deprimidos e eu, terrível, cortante, num outro lado. Calado ou a discursar sou a mesma criatura, apenas difere isto pela energia, pela razão e pela interpelação. Neva, neva, quisesse eu comê-la…
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Escavo memórias, estariam as árvores nuas e velhas. Ele entra em casa, depois de horas combinadas, vermelho, inchado, alcoolizado. Chama nomes a ela. Ela chora e transmite mágoa. Discuto com ele, tenho mesmo que o fazer, é inevitável pois faz-me sentir aqueles nervos tão profundos. Um dia isto acabaria mal, para ele ou para o vício. Um dia dei um empurrão a ele, ela também não esperava tal coisa, mas o sofá segurou nele. Maldito sofá ou pena que tenho do sofá, mas eu não suporto quotidianos de machos tradicionais. A quantidade de anos que ele agiu daquela forma, cheio de álcool, cheio de doença psicológica, cheio de má educação. Nunca me poderá apontar o dedo à falta de respeito, mesmo agora que deixou aquelas atitudes, quem não me respeita, por mim não é respeitado. O Inverno começa a dar cartas, baratas, travando euforias deles, aumentando as minhas. Ao querer verificar os reflexos das manchas de desmaios, atrevo-me a assobiar pelos esforços de feridas…
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Tenho dado atenção a uma componente literária, característica do período romântico. Sinto-a, respiro-a, o dia não avança… entre alvos bolorentos, a componente a espumar em mim condiz entre um ambiente pesado e paisagens ensombradas, funéreas. Salivo na agitação de corresponder intuitivamente às parcelas apaixonadas, do cajado do mistério, quer do universo, quer do próprio individualismo, a fim de me magoar com sabedoria. Sou um lugar horrível? Sou. Acredito nisto, como não acredito em nada, como desejo o desmaio mortal. Com vinho, com exageros mentirosos, com isolamento mais que profundo, crónico, estou agradado aquando de descrições e afins figuras de estilo a paisagens sombrias, isoladas, lúgubres, inquietantes e decadentes. Por si só, a natureza traduz-se carnalmente, no seu estado selvagem. Sabeis que na hora de odiar prontamente, se acelera à valorização da sensibilidade individual, do irreal e do sonho? Claro que sabeis, pedaços de feio. Ai, o quanto fervo e arreganho as feições! Nervos, impulsos de paranormal. Oferecei-me cavernas, grutas, ruínas, todas as noites, todos os fins de tarde. Doem-me imenso as costas. Neste texto, tenho gosto pela total solidão… são as palavras que vão ao vosso encontro, não eu. Tenho intenções de danificar os juízos, mas amanhã não.
Ser-se criticado ao ser-se horrível?
Ao canto da mesa, enervado, chateado, com as pupilas dilatadas e sabor amargo na boca, assisto à tertúlia barulhenta entre dois personagens da nossa literatura. Uma tertúlia que imagino, com as chamas do pensamento em choque. Personagens que escreveram muito sobre amor, sobre relações, pensamentos, mas também sobre um tipo de horror. Para lá das janelas, o ardor e as cores do vento fazem as pessoas trancarem-se em casa, todavia no fim da tertúlia irei lá para fora cantar pelo reencontro com abismos de receios e profanas chatices. Bocage fala de duras, cavernosas, fragas e de paixões que na alma se fervem, fala da razão feroz, do coração que o indaga e dos seus erros. Bocage é agudas… ânsias… venenosas… chagas. Bocage escreve em soltar gemidos e em derramar lágrimas, escreve também que a razão o manda não amar e ele arde, ama. A razão diz a Bocage que sossegue e este pena, morre. Bocage diz que vira, apenas, a luz brilhante do dia, em empório celebrado, em sanguíneo carácter marcado. A morte devorante roubara o doce agrado da terna mãe, pelo que Bocage seguiu Marte e vagando a curva terra, o mar profundo, inundou as faces em lágrimas. Bocage longe da Pátria, longe da ventura, diz suspirar pela paz da sepultura, enquanto a insana multidão procura essas quimeras, esses bens do mundo. Eu percebo-o, distantemente, percebo-o. O comum preferir suspirar a procurar. Tamanha vontade de apagar as luzes. Almeida Garrett diz-se a ir, que o seu rosto macerado e em funda melancolia escreve, escreveu, tanto faz, que onde chega, o prazer cessa no mesmo instante. Igualmente, quando o lábio começa a dizer doçuras de amor, gela e que o riso que ia a nascer expira. Almeida Garrett é as próprias folhas caídas, ele próprio e a morte nele. Almeida Garrett espantou muitos leitores, eu sou um dos seus espantados, um dos tristes. Almeida Garrett fala no seu frio sarcasmo e no amor que falava a elas todas, mulheres, pessoas, escreveria que lhe doía a alma, se a vaga inerte tristeza, sem motivo, lhe pousasse no coração e que, porque a vida lhe parece parada, não saberia se morria ou se vivia, não sabia. Em seu, textualmente, gozo delirante, Almeida Garrett, escrevendo, sentia que era a vida ou a razão que nele se exaurira.
Urtigas de palavras, que nos aspiram os sorrisos. Nada parece ser o que é na verdade. Nada disto é verdade verdade, mas sim um batalhão de palavras que doiem, que espero que façam doer, que façam irritar. A linha do horizonte é muito sedutora, apoiada por nuvens terroríficas e pastos pretos, existe a perturbar-me os olhos. Quando somos horríveis somos criticados e quando criticamos chamam-nos de horríveis. Venha o diabo e escolha, dizer-me-iam os adversários ou aliados, tanto faz para agora, venha simplesmente o meu leitor e escolha. Não tenho que ser horrível, só se o desejar.
Capítulo 3
Locus Amoenus
Sol rico em proteínas que deslaça o turvado das mentes, dos solos. Neste dia, azulado, esverdeado, celeste, campestre, versículos amenos, apetece viver sobre a doçura das plantas, sobre os minerais do amor, sobre a luminosidade dos cereais. Os solos verdejantes, oscilantemente declamados, amparam uma transformação. Aqui, ao nascer do Sol, já, se enceta uma alusão ao Equinócio da Primavera, que se aduz como aplausos rijos! Como, melífluas raízes de rosas. Pelo decorrer de cada ano, criam-se desejos, fracassos e obtenções. O Homem deve sempre partir à procura dos prazeres, para assim usufruir do que precisa para ser/estar feliz. O Homem tem instintos e forças primordiais e é também com a inerência a estes aspectos que saberá conhecer-se visceralmente e saberá quais os desejos a encontrar e a possuir, para uma existência individual mais proveitosa, na qual florir abundantemente. E neste ponto do calendário meditamos sobre isto tudo! Neste ponto do calendário é período de partir-se na direcção que se quer ir.
Quando se diz que ameno é flácido?
A promessa de poder é imensa, porque significa a existência real da genuinidade e acções orgulhosas humanas! O Sol ameno trata-se, nesta moldura, da estrela diurna que desfaz a apatia das criaturas. O dia, com sua querida temperatura em crescendo, é fruto inspirador de companheiros e ornamentos serenos, repletos de prazeres, de festins, de conhecimentos e complexidão primaveril. As manchas diurnas fixas no céu brilham, no meio de muitas cores e tamanhos, pela magia e força resultantes pelo sexo primaveril. O estéril, fausto, sai dos cercos e caminha sobre os montes, as planícies e os betões orgânicos, aquando então começa a vestir-se plenamente de ávido, majestoso, sensual e denso. Tudo evolui nos parâmetros cativantes do Equinócio primaveril, nos parâmetros de calmas dimensões. As horas passam por nós e nada de importante, estas, são. A nós importa fazer e ter, sem obedecer a relógios ou a nervos! Todas as criaturas nos admiram, todas as criaturas têm algo que nos interessa, o que dá pelo nome de colaboração. Todas as criaturas não são o que nós somos, o que dá pelo nome de universal diferenciação. Ondas de calor caiem, apaixonantes ondas de liberdade natural caiem, em nós…
Quando se diz que ameno é flácido?
O ritualismo humano é o império entre nós, no qual a sede de felicidade e harmonia para com a robusta, fresca e bela Natureza, nos torna mais coesos. O Equinócio de Primavera saúda-nos, encorajando-nos a viver os nossos diferenciados caminhos nobres, imediatamente, sentindo as novas e naturais energias que carregam-nos acima do encantamento. E então percebe-se tudo, através do recurso e protecção, receptivas à Mãe Natureza. Pensei em ti, envernizada por pólen, a escorregar para mim, em acentos de gomos de laranja. Eu e tu fazemos um par, fazemos vários pares, de sorrisos vencedores. Sim… pois nós somos procriações. Nós somos mãos. Nós somos rectas. Nós somos curvas. Nós somos substâncias. Nós somos elementos. Nós somos corpos. Nós somos inteligências. Nós somos conquistas e artes e naturezas. Gosto do cheiro da graça… dos sentimentos.
Quando se diz que ameno é flácido?
Tenho dado atenção a uma expressão latina, componente literária, que desde a Antiguidade Clássica se senta nos nossos livros como imagens precisas de paisagens sonhadas, descrevendo a Natureza de uma forma amorosa, como odores frescos e renovadamente leves que voam nos braços das brisas fosforescentes das alegrias, expressando fascínios sensoriais no Homem, o qual sente-se acariciado em ambiente mágico e homogeneizado. Há quem diga, que neste meio enquadra-se o ser humano que busca a satisfação pela singeleza, no paraíso terrestre. Sinto, respiro, o dia avança bem… entre alvos germinantes, componente a espumar em mim que condiz entre ambientes leves e panoramas sem sombras, claras de ovos. Salivo no sossego de corresponder intuitivamente às parcelas apaixonadas, do cajado da interpretação, quer do universo, quer do próprio individualismo, a fim de fazer-me bem com sabedoria. Sou um lugar relaxante? Com alimento, com alcances verdadeiros, com interacção, estou agradado aquando de descrições e afins figuras de estilo a paisagens belas, palpáveis, luzentes, massajadas e evolutivas. Por si só, a Natureza traduz-se carnalmente, no seu estado de moderação. Sabeis que na hora de amar prontamente, se acelera à valorização da sensibilidade plural, do real e da vida? Claro que sabeis, pedaços de formoso. Oferecei-me cascatas, planícies, monumentos, todos os dias, todos os inícios de tarde. Nada me dói. Neste texto, tenho gosto pela parceria… vós vindes ao encontro das palavras e sou eu. Os cremes e os sumos das histórias fazem arranjar outras histórias com cremes e sumos, de sumos e cremes das histórias, das estações da Terra.
Quando se diz que ameno é flácido?
Na rota de um pedregulho bem formado, sorridente, penteado, com as pupilas interessadas e sabor achocolatado na boca, assisto à tertúlia aconchegante entre dois personagens da nossa literatura. Uma tertúlia que actuo, com as chamas do pensamento em sintonia. Personagens que escreveram muito sobre amor, sobre relações, pensamentos, mas sobre um tipo de amenidade. Para lá das varandas regadas, o pólen e as cores do vento primaveril fazem as pessoas soltarem-se de casa. Eça de Queirós, Eça de Queirós. Cesário Verde, Cesário Verde. Torno a escrita em elemento importante de constituição amena, como que um horizonte poético ideal. Poder ver prados, rios, arvoredos, sons de água a escorrer, sem vê-la, é uma ambiência calma que suscita vontade e energia restauradas. Uma enorme adição de pensamentos entre dois seres. Cesário Verde dissera, outrora, que ele e ela se encontravam pelo campo cheio de verduras, cobertos de folhagem. Falara no braço à volta do pescoço e do braço à volta da cintura, que a apertava. Cesário Verde, chamando-a de pomba mansa, descrevia mimosos jardins, bancos de mármore, arbustos, beijos, tranças, e, desejando distracções e leituras animadas, ambicionou formar com ela um único coração, um único gozo inteiramente romântico. Por volta das dez horas de uma manhã transparente, Cesário Verde gostou de admirar os jardins e suas nascentes, as suas brancuras junto de ruas quentes, reluzindo passos sem pressa, em aconchegos. Cesário Verde, apaixonado pelas visões da horta da vida, das luzes do Sol, inscreveu-se na ideia de transformar simples vegetais num ser humano e numa existência cheia de belas proporções carnais, ao mesmo tempo que viu aromas, fumos caseiros, padeiros, subindo e batendo, por vezes, pelas portas próximas. Escreveu que o Sol dourava o céu à sua passagem, assim como as poeiras se elevavam às nuvens, alindando-o, Sol que lançava os seus raios de destilada laranja por cantos e aberturas, seus raios de laranja destilada. Um escritor que fora verdura e abundância, sonhador de um Sol campeão, humanamente campeão.
Quando se diz que ameno é flácido?
Pela plenitude da vida divertida, abre-se uma cascata de sementes de açúcar, no núcleo da terra. Eça de Queirós, prosador de serras e cidades, homem bem-parecido, passou tinta pelo papel, vindo a conseguir transmitir palavras de terras do Alentejo, da Estremadura, das Beiras, que formavam belas sebes densas, muros altos e cristalinas ribeiras, terminando em campos ricos em alimento. Eça de Queirós ensinara, se quisermos, que a vida é um rio, um rio de Verão, manso, translúcido, deitado em areias alvas e macias. Saudáveis arvoredos e ditosas aldeias pululam em tinta do escritor, depois de conhecermos felicidade em aproveitar clemências do fértil Abril que retira as saudades por matas, por bosques frescos e flores de muitas cores e vitalidades, quase humanas. Eça de Queirós criou um enredo em volta de aldeias, nobres, confusões e crenças, conseguindo demonstrar água verdadeira, verdadeira água de leitura amena, romanticamente equilibrada, fazendo-nos apreciar, tal como inscrevera, com a sua tinta de cheiro novo, personagens sob um radiante Sol, sob brisas largas e extraordinariamente sãs, sob douradas manifestações da Natureza, sob atributos de papoilas e relvas e frutos, prendendo leitores à virtude mágica de viver pela boa-disposição de capacidades tradicionais, essas chegadas à luz de instantes puramente portugueses. Eça de Queirós escreveu diálogos corteses, afáveis, naturais e de um teor esforçado, revelando um espírito capaz de vencer com calos de belas feições. Um escritor que fora local e imaginário português, português de força paisagista. Eu, sentado na relva e depois na areia de praia, não conheci estes dois escritores, mas, ainda assim, acho-os bons parceiros de cartas…
O orvalho no meu nariz assemelha-se a um namoro ao amanhecer. Hormonas simples de palavras, que nos enlevam os sorrisos. É impressionante verificar surpresas nos cascos mais evitados, é impressionante dar a outrem a beleza de um ser único e dono de si. A linha do horizonte, pelo cuidado do oceano chegado, é muito deslumbrante e apoiada por nuvens claras, por moles pastos, existe a beijar-me os olhos. Somos calmamente graciosos, somos seres vivos e estamos a viver graciosamente calmos para cintilar mais um pouco. O meu leitor terá a sua estrela visceral e até será a sua própria luz, nem que uma luz de mitologia. Em muita quantidade, positivo para ser levado a sério, em muita quantidade, fácil de ler ou simpático para conquistar, em muita quantidade, bom para deixar de ser eu mesmo. Sublinho a inteligência das plantas de fruto, que bailam sob os narizes de quem as colhe, de quem as estuda. Ser-se ameno nas terras de humanos…
Capítulo 4
O café
Sabrina.
Poderão conhecer uma mulher, uma jovem ou mesmo uma menina, com este nome, mas essa não serei eu. Sabrina. Dentro de mim, há um todo de paixão.
Sou sábia, solteira, satisfeita e sonhadora. Sabrina, sem outro nome, que vive por Portugal, sozinha. Considero-me como outras pessoas, que sejam bonitas, donas de um bom-gosto e algo descontraídas. Tenho um peito arrebitado, um corpo característico para a minha faixa etária e sou um bocadinho peluda. Olhos mágicos. Sou dona de uns olhos mágicos.
Hoje é um dia bastante quente, no qual o sol brilha alto e redondo, mas por nada disto deixarei de cumprir o meu ritual, a consumação do meu desejo maior: beber café.
Frequento um café, o Pedaço Felizardo, perto da minha moradia. É um café básico, não muito elaborado, mas que dá prazer visitar, pelo menos a mim própria. E dá-me esse prazer visitá-lo, porque tem uma enorme fachada ao género do velho estilo barroco, com colunas de pedra vermelha, janelas espaçosas e retém um perfume interior que apaixona qualquer visitante, inclusive salientando o meu caso… mesmo sendo uma cliente assídua. Para entenderem melhor, quando entramos no estabelecimento, é como se algumas décadas tivessem caído e recuado, tal é a semelhança a locais e meios de socialização extintos, aqueles presos nas memórias das pessoas velhas e da História. O gerente do café conhece-me minimamente, tal como sempre pretendi e mencionara, mas por várias vezes, sozinha ou acompanhada, sugeriu-me, alertando-me, abandonar o vício do café. Enfim. Sempre respeitei tal comportamento, ao ponto de achar graça e dar dedos de conversa, mas vezes há em que não tenho paciência para as sugestões do tal sujeito. Da última vez que lá fui, irritei-me um tanto, silenciosamente, mas percebi que, debaixo das pestanas grandes do gerente do Pedaço Felizardo, ficara uma moldura de desdém e augúrio. Eu permaneci uns segundos inquieta, meditando naquilo em que terá ficado a pensar o homem que tanto insiste para que eu pare com o ritual do café. As maquinações… o café. O café.
Neste instante, avisto o café à minha frente… é depois daquela esquina. Depois daquela esquina. Depois da esquina. Depois daquela esquina. Ao ar livre, cheira-se um mofo xaroposo e os pulmões enchem-se-me de impressões pesadas. Hoje não prendi o meu longo cabelo escuro, quase até meio das costas, tal como costumo fazer. Não o prendi, porque preciso de sentir-me liberta, de vez em quando, neste caso, sem cabelos nem nada a estorvar… tudo o que tenho assenta apenas na pele. Preguiça. Café. Vou beber café. Estou cansada de ver os dias passar cruelmente. Vejo o café ambicionado de fronte. Passo a mão no cabelo. Tenho-o oleoso, terei que ver disto posteriormente. Oxalá, agora, este café me saiba pela vida! Minha sede exagerada, hoje…
Servem-me o café na mesa do costume. A mesa fica próxima da janela de acabamentos dourados, no canto oeste. Daqui, sentada, vejo uns velhos bosques face ao rio selvagem e olho uma mansão assombrada e queimada, a qual contabiliza cento e três anos de vida… ou de morte. O sol projecta-lhe uma imensa sombra no chão esburacado e as areias das paredes assemelham-se a bichos, a insectos, deformados terrivelmente, como que por uma grande radiação. Encontro-me no meio de um ambiente, pela paisagem que observo e descrevo, sombrio, assustado, repugnante e loucamente árido. Portugal provinciano, antigo e com detalhes desconhecidos e enterrados. Um bafo de Eras…
Pego na saqueta branca do açúcar, para sacudi-la. A saqueta pequena dança presa pelos meus dedos comprimidos. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Para trás e para a frente, para trás e para a frente… uma agitação forte e barulhenta. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Uma barulhenta e forte agitação… para a frente e para trás, para a frente e para trás. Eu projecto a minha mão esquerda, livre e fechada, para o centro da mesa de dois lugares, e sacudo, bato, a saqueta doce contra a mão. Sacudo e bato. A saqueta contra a mão. O açúcar na saqueta pequena, para o café. Durante cinco minutos não paro de fazer isto. Sacudir. Como uma loucura, nunca acho suficiente o tempo que gasto nisto…
Fico agora paralisada com a chávena nas mãos. Paralisada. Perdida. A devanear. Se as nuvens pudessem estalar os dedos neste preciso segundo, eu reagiria da forma comum, aquele vibrar o corpo, pestanejando fortemente os olhos, por de novo encaixar a alma na carne e no osso, que porventura se desapegou. Chávena bonita, pálida, fumegante, quente e pálida. Irracional. Ao menos, sei que penso em algo concreto.
Encho já a minúscula e requintada colher de café. Eu verto o café para a chávena, gota a gota, o café esburaca o resto do café acastanhado. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. O som que isto provoca é um efeito engraçado, quase imperceptível mas hipnotizante. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. Encho a colher minúscula e requintada de café. Verto o café para a chávena, gota a gota. Encho a colher com café e verto-o para a chávena. Um ciclo de faces estagnadas que se empolam. Verto o café para a chávena, gota a gota. Portanto… introduzo um dedo na chávena de café para molhá-lo na bebida castanha. O calor do líquido parece estar a invadir os meus poros sensíveis e doces de mulher, dando-me a sensação de uma particular influência eléctrica possuir o meu dedo. Dedo quente. Dedo estático. Dedo surreal, não sei quando ou como, no café real, apesar do dedo real pertencer a um sistema humano que vê coisas surreais. O meu dedo fugiu do meu controlo e espetou-se no meu peito. Ui. Manchei-me de café! Baques sucessivos estão a drenar o cansaço do meu cérebro, por intermédio de um assobio gorjeado. Toda a vontade de beber café accionou na minha mente um circuito quase majestoso de poeiras infernais com espectros exaltados. A minha mente parece que mede agora um quilómetro. Por que é que não suporto o peso do meu crânio? Ai, café…
Levo a chávena branca aos meus lábios macios. Por estes meus lábios que tantos beijos trocaram, o café invade o interior da minha boca perfumada e sinto o seu calor agradável, delicioso, a revestir os meus dentes aguçados. O café, picando-me a língua inquieta. Detenho-me, finalmente. Imóvel, finalmente. Serena, finalmente. Finalmente, balanço e tudo fica turvo, finalmente. Lume e estrondos macabros, que são explosões subterrâneas. Movimentos por debaixo da minha pele. Comichão nas nádegas. Ritmos cardíacos surpreendentes, que leva o mundo a alterar-se, neste momento. Não me recordo de algo assim! Ouço máquinas a grunhir e preservo o recente gole de café nas minhas goelas. O que é que se passa? Todo… mas… o ambiente que me circundava há quinze segundos desapareceu! Não me dói a cabeça, é certo, porém esta move-se como um puzzle orgânico. Deixo de arfar, para escutar o que parece ser o barulho de uma coruja, por eu estar a caminhar ao relento. Eu não sei, mas acho que alguém está a brincar comigo!
Estou agora numa estrada muito degradada que mostra altas colinas negras, com as árvores mais feias do Universo. Reparo que as minhas roupas estão enigmaticamente rasgadas, mas não só. Eu tenho as roupas molhadas em diluente! O local que me envolve não é muito luminoso e talvez por isso tenha uma lanterna de luz vermelha nas mãos preenchidas de feridas e quistos, nos quais vagueiam lesmas chifrudas. Mal ou bem, aponto a lanterna para o que existe à minha frente, para ver o caminho que estou a fazer nesta estrada. Ai, estou cheia de medo. Medo. Medo. Estou cheia… cheia… cheia de medo. Tenho medo, por alguma razão que desconheço e não suporto o movimento de olhar para o que vem atrás de mim, aquilo que sei que persegue a minha presença, porque sinto o meu pescoço preso, tal-qualmente tivesse duas espadas em brasa dos dois lados, obrigando-me assim a manter o pescoço desumanamente direito. Ouço morcegos a gritar. Caminho, mas infelizmente os morcegos urinam em cima dos meus cabelos e… agora as suas urinas incendeiam controladamente, em minúscula escala, as minhas roupas. Estou em agonia.
A temperatura de um nevoeiro púrpura, atrás de mim, pressiona o meu corpo brutalmente. Caminho sem querer, pela estrada que desconheço e a qual me dá arrepios. Eu não estou no meu perfeito juízo, com certeza, já que interrogo os meus sentidos por julgar que aquilo que vem atrás de mim será ou é uma legião de mortos, de pestilências, de fenómenos vis, que referencio a livros do Mundo Antigo. Os empurrões nas minhas costas em fogo são mais nojentos e medonhos, ao mesmo tempo que estou a cheirar odores cadavéricos e enervantes.
O maldito ambiente torna-se cada vez mais escuro e a luz da lanterna torna-se mais pálida e assombrosa, situação que não me surpreende. Estou a ser mordida nas costas por dentes mais aguçados do que as espadas em brasa no meu pescoço. Sinto um medo profundo, em doses de maníaca percepção, estou a sucumbir e vejo-me rodeada de paredes que rodopiam a uma velocidade intolerável. Eu tremo por toda a parte, simultaneamente poderosos abanões atingem-me no peito. Estou a abanar por dentro de um modo horrendo, perturbante, doloroso, o que agora me faz cair de joelhos. É impressionante este cenário maníaco. O fogo em mim dá-me sonhos doentios e lembro-me que gosto de tomar café. Café?
Acredito estar a sofrer espasmos graves, como se de uma doença terminal se tratasse. Abismal estado de choque… o meu olhar está a fumegar e as veias injectadas estão… neste momento, eu rio alucinadamente e sinto que unhas de metal cortantes furam os meus ombros, ao mesmo tempo que vapores de cores ácidas e abstractamente corrosivas fazem desenhos insanos à frente da minha visão obscura e desenquadrada com a realidade. Os desenhos são tronos de paisagens de carne em fóssil, sustendo figuras e personagens de vários membros, com corpos agrafados a motores com penas vomitadas, as quais dão estranhos passos mergulhados em aplicações robóticas. As figuras, que comeram as paredes que rodopiaram para mim, seguram humanos vivos pelas costas e mortos de pele púrpura que seguram velas de lume gigantesco. Os desenhos tornam-se neste momento avermelhados, brilhos de rubi, e por mim abaixo desce uma chuveirada de pregos com olhos dentro de meteoritos moles. Milhões de dedos golpeiam-me e rodas de diamante com lava fossilizada, com o tamanho das árvores feias das colinas, esfacelam de meio em meio metro a estrada à minha frente. A lanterna desliga-se. Vento…
A minha cabeça esmaga os meus ombros. Vejo quase nada, quase nada, mas ainda assim avisto mesas limpas de um café, ao meu redor. Estou no Pedaço Felizardo. Tenho a minha chávena a meio… mas questiono-me fortemente, pelos episódios que vivi, há momentos. Contudo, há cubos de inox da estatura de um gato adulto a voar do outro lado do vidro da janela, pelo que as minhas questões se evaporaram fugazmente. Não sei o que são. Olham-me. Incorporam-se uns nos outros, criando uma misteriosa escultura. Tento identificar aquela escultura, mas a chávena está a entrar na minha boca, está a entrar com muita força na minha boca. Tenho medo, não tenho condições para opinar mais sobre aqueles cubos... desmaiei. Sei que desmaiei e o café saboroso vai escorrendo por mim adentro. Arde…
É inacreditável! Ouço os sons dos meus neurónios a funcionar. Ouço os sons de uma colher a bater intermitentemente numa chávena de café. Café. O meu cérebro alimenta-se em proteínas e células de mágoa, mas também de impulsos abstractos. Levanto-me de um chão espelhado e depois num tecto de cinzas, para beber mais um trago de café.
Olho-me, em frente a uma piscina vazia. Afasto-me para o lado de um quintal cheio de abóboras em forma de gárgula e cogumelos com corpos de cavalos-marinhos. Reparo, agora, incrédula, que as minhas nádegas estão na parte da frente e que o meu ventre se encontra na parte de trás, assim como tenho os calcanhares virados para a frente e os dedos dos pés virados para trás. Inverti. O resto das pernas está correcto, aliás, consigo andar perfeitamente…
Seguro por uma trela grossa de cabedal líquido mas inquebrável, um bando de mortos com as cabeças trespassadas que cantam o meu nome ruidosamente, como um hino, com aqueles tons de um amor platónico. Os mortos, em asquerosa excitação, pretendem destruição, exigem que todos sintam o frio das suas campas. Escolheram-me por ser mulher, gostam de uma influência diferente de poder, de uma persuasão sedutora e de uma seriedade forte. Agora, sem café a restar na minha chávena, não sei como reparo nisso, vamos para um labirinto de escamas e fedores alienados. No labirinto, estão inimigos sem a coluna vertebral, sem ossos, sem tendões. São orbes sem definição, borrachas altas, gorduras e espessuras de prejuízo para nós. Vejo-os ali, perto. Solto os meus mortos enraivecidos e cintilantes em baba verde. O café. Um trago, dois tragos… tragos dissemelhantes, complicados de engolir. Com suores que cheiram a café, os meus mortos, correm para aqueles corpóreos moles, enquanto gritam como índios perturbados por homens das civilizações modernas. Os meus falecidos e putrefactos esmurram, pontapeiam, amolgam, magoam e trespassam os diversos, disformes, pedaços de gomas e colas intensamente bravos e aterrorizadores. Eu assisto impune e soltando gargalhadas à luta nefasta que se desenrola. Os mortos são arrojados, porém não conseguiram ainda eliminar nenhum dos seus esponjosos adversários. Choro drasticamente. Borbulhas caem a meus pés. Os meus cabelos esfarelam-se em átomos de cinquenta centímetros. Um clarão cinzento irrompe do alto e desaba no epicentro da fúria. Não vejo, não sinto, não ouço. Respiro mal. Não vejo, não sinto, não ouço. Respiro mal. Não tenho medo. Tenho medo. Não tenho medo e olho como consigo para a minha frente. Os meus mortos foram-se, desapareceram, menos a presença dos seus suores com odor a café. Não tenho a trela na minha posse. As queimaduras nas minhas mãos têm a forma de uma trela. Água nasce aos meus pés, água ácida. Os adversários avançam para mim e cercam-me. Não tenho medo, apesar das suas atitudes serem para mim desconhecidas… mas não me dão medo! Os orbes não falam, não emitem sons e tão-pouco se transmutam. Dá-se novamente o clarão cinzento, ouço melhor desta vez, pelo facto de ter caído em cima de mim. As formas esponjosas agora encolhem e agarram-se à minha pele, como aparelhos, depois como injecções e por fim como tatuagens. Estou inchada, cheia de sangue esponjoso. Tenho pavor abismal perante isto tudo. Tropeço e rebolo. Rebolo, rebolo. O mundo treme e faz barulho, ensurdeço e perco a fala. Nulidade e brancura no horizonte. Penso que nada mais pode acontecer, mas… ai, levo com um bocado cru do mundo que está a mudar de novo e caio assim numa cavidade repleta de antiquíssimas estátuas Gregas, nas quais o meu corpo rebenta, devido às saliências tenebrosas de outros milénios esculpidos. Alarmes soam na cavidade, pois accionei o meu estado de emergência. Apanho o meu corpo e saio…
Levanto-me da mesa, ajeitando a cadeira. Pedaço Felizardo. Café. Deixo o dinheiro para pagar o que consumi e bocejo. Despeço-me, de lábios molhados, do gerente do espaço cativante. Digo-lhe até à vista, murmurando que vou tentar deixar de beber café. O gerente faz-me uma vénia, deixando escapar um brando olhar de relâmpagos roxos sob as suas córneas treinadas. Vou voltar para casa e prender o meu cabelo.
Capítulo 5
O whisky
22:04h
Sei que o mundo é bonito, mas neste momento sei que apenas o gelo o será...
Ivo. Apesar do nome curto que tenho, a forma perigosa de ter vivido a minha vida de curto nada teve. Ivo, nome de um homem de experiências fartas, nome de viajante terrestre decadente. Virtualmente, digo que fui um conjunto de irritações, exageros, hilariantes posturas pouco racionais. Veemente, digo que sou um humano que soube viver perturbadamente, a perturbar, e que colheu espontaneamente surpresas que o mundo nunca vira.
Aqui, no chão que reveste a textura das minhas calças sentadas, o frio enche-me os poros, porque este frio da Dinamarca não é uma seda que faça parte do meu código genético. O monte alto e gelado dinamarquês que subi, através da fúria que o whisky liberta dentro de mim, proporciona-me uma vista deslumbrante sobre a calmaria das pessoas que não vejo ou conheço. No cimo deste monte de gelo, largo os tempos que fizeram mudar as minhas cartas de baralho que manipulava no mundo. As revelações sobre/na repulsa.
Houve uma altura em que era Sábado e eu saí à noite, a um bar qualquer nas redondezas, para divertir-me e descomprimir de outra semana de muitos trabalhos, esforços e também náuseas. Sentei-me ao balcão, perto de uma mulher sensual e de aparente faixa etária menor do que a minha. Pedi o costume: whisky. Velho. Uma pedra de gelo pequena.
Consumo whisky quase como quem, depressivamente, bebe chá no tempo de uma gripe. O ritmo de ingestão compassada mas veemente. A par dos invisíveis segundos, funguei e passei o nariz pela manga do meu fato de Sábado, deixando obviamente marcas de líquido nasal, para de seguida dar o primeiro gole no néctar levemente acastanhado. Foi um barulho de satisfação que emiti, no fim do gole. A mulher ao meu lado riu. Lamentou não sei bem o quê com os seus lábios finos, mas continuou o namoro com a sua bebida: um cocktail de frutos silvestres, penso eu.
Momentos mais tarde, avancei um pouco mais para a mulher e ofereci-me para lhe pagar um copo, um whisky igual ao que eu bebia. Ela acedeu calma e desinteressadamente. Enquanto bebíamos e brindávamos às guerras que fizeram o mundo ser aquilo que hoje ele é, começando pela guerra entre forças, energias e compostos do Big Bang até à Segunda Guerra Mundial, os meus discursos cativavam a mulher, à qual nunca perguntei o nome, mas perante a qual me fiz passar por um ricaço, herdeiro de um casal de abastados bancários.
À medida que eu ia entendendo o ritmo das coisas, ela seria a minha presa sexual naquela noite. Bebi dez whisky e, escusado será mostrar que, vomitei todo o balcão do bar, tal-qualmente três clientes e os meus sapatos. Foi quase numa tempestade de apupos que saí do bar, arrastando a mulher, ainda a terminar o seu whisky…
Violentamente, saindo do carro ainda com os sapatos vomitados, puxei a mulher motel adentro e o responsável deu-me a chave do quarto, que normalmente usava para os meus entretenimentos semelhantes. O quarto ficou iluminado com uma luz vermelha muito viva. Abusei promiscuamente do corpo da mulher, que foi um objecto obstinado na minha mão, e quanto mais eu lhe dava prazer, mais ela me irritava. Decidi morder-lhe a orelha direita, mas mal ela gemeu cortei-lhe a orelha selvaticamente. No instante seguinte, senti o orgasmo a caminho do meu corpo e mente e não bloqueei a intensidade até ejacular finalmente bem no núcleo da ferida imensa e fresca acima do pescoço da mulher. Enfiei o meu sexo rijo, com resquícios de sangue e saliva com whisky, na boca da mulher para demoradamente vê-la a desfalecer. A cena imprópria demorou largos minutos, pôs-me de rastos e só serviu para agravar a minha habitual dor de costas, que já perdurava dias afinco. Pagando uma simpatiquíssima quantia de dinheiro, pedi ao responsável do motel para se livrar do corpo da mulher. Não perdemos muito tempo com palavras e deitei-me para procurar eliminar as minhas dores, apagando tudo da minha mente. Novamente…
Na manhã seguinte, tentei arranjar uma consulta no meu médico. A maldita dor de costas estava a ser um problema demasiado extensivo. Apesar de me ter preocupado com o meu estado de saúde, estava ainda muito atordoado da anterior noite mal dormida, logo foi sem espanto que pisei algumas pessoas que estavam na sala de espera da clínica. Sem pedir desculpas a ninguém, insisti com a secretária para que me arranjasse uma consulta urgente naquela manhã. Assim fez. Sentei-me mais relaxado e arrotei ao efeito dos whisky.
O meu médico era um homem lúcido, proveniente de uma família de sucesso na vida e com filhos talentosos. Após me ter inquirido sobre aquilo pelo qual me queixava, fazendo conversa acerca do meu estado de saúde, agitou distintamente a cabeça como se compreendesse todo o meu interior e perguntou-me se eu aceitava whisky. Fiquei à toa. Era uma pergunta demasiado insólita para aquela altura e aquele lugar… porém, respondi-lhe que aceitava. Por ter vindo a saber que eu andava com esta dor de costas, mas também febres ao princípio das noites, febres muito altas, o meu médico receitou-me um velho whisky dinamarquês, o qual continha um ingrediente como que medicinal que actuava nas zonas lombares; não só mas principalmente. Era um whisky raro, segundo ele, que apenas os bons apreciadores extraíam todo o proveito dele. Fui para casa beber o whisky. Resultados posteriores: a minha vida mudou radicalmente, porque as febres começaram a transformar-se em visões sobre o mundo, sobre curas e fórmulas para extinguir doenças. O meu cérebro esmagava-se dentro da minha cabeça e sempre que o sentia a contorcer-se de forma desconhecida, espontaneamente eu pensava em fórmulas científicas, com as quais pude entender todo o mundo da medicina, da física, da química e da biologia. O calor dentro de mim era esgotante. As minhas mãos passavam para o papel essas fórmulas, como se isso fosse a única coisa que verdadeiramente sabia fazer…
Em poucos dias, as paredes da minha sala de estar estavam riscadas com as fórmulas. Chamei o meu médico a minha casa e ele encarregou-se de chamar uns investigadores de elite para aplicarem o que eu escrevi e soube. As fórmulas que eu visionava quando bebia do whisky serviriam para destruir evoluções de cancros, para curar a sida, bem como outras doenças do mundo poderiam ser apagadas rapidamente. Era disso que eu sabia, tal como os investigadores vieram a perceber depois de lerem o que eu escrevi.
Como é que tinha eu conseguido aquelas fórmulas? Eram tão perfeitamente certas que pareciam surreais, comentavam os investigadores. Antes de proliferarem as fórmulas e métodos de vacinação pelo mundo, o meu médico ofereceu do whisky a todos nós na sala e de imediato brindámos à saúde perfeita do Homem! O whisky produziu embriaguez no médico e nos seus investigadores amigos, todavia em mim acentuou a noção de que tudo o que eu sabia era absoluto e que os pensamentos não paravam de me assaltar, bombeando visões do efeito das minhas fórmulas.
Houve, no acto seguinte, um tempo cinzento em que nada aconteceu. Os investigadores escreveram-me só passado um mês. Tinham iniciado aplicações reais das minhas fórmulas num grupo extenso de doentes de sida e cancro. Todos recuperaram 80% da sua integridade. A comunicação social começou a dar a conhecer os avanços feitos na medicina, que um estranho tinha descoberto, estranho, porque não autorizei que a minha identidade fosse revelada. Permaneci na sombra, como sempre permaneci e vi a proliferação e distribuição de whisky, que eu experimentei da parte do meu médico, começar pelo continente africano e depois por todo o mundo. Começou tal coisa, porque eu acreditava que era esse o veículo da cura de doentes. Criaram-se registos para toda a História: o whisky entrara nos hábitos mais banais do ser humano. O meu médico conhecia os efeitos daquela bebida, mas só quando me conheceu é que admitiu que tais efeitos eram superiores. Teve que admitir! Por lembrar disso, nunca se conheceu concretamente os fabricantes daquele whisky ou de que ponto dinamarquês ele nos chegava, posteriormente à revelação das minhas fórmulas medicinais.
Tudo aconteceu de forma construtiva, mas grande parte do mundo não compreendera bem o porquê ou como estava tudo a acontecer. Lembro-me de que o mundo se tornou membro de uma única crença: a científica. Crença essa que era regada por um whisky: o whisky!
Cores, transformações, soluções, resultados, vitórias…
Um dia nasceu pior que outros e esse foi a chegada do dia em que saturei de ver todas as pessoas a beber a mesma bebida que eu e o dia em que saturei de ver todo o ser humano a funcionar do meu modo e esse dia ficou registado como o dia em que deixei de escrever e palrar entre investigadores sobre as minhas fórmulas de cura. Dia preto com fumos de metal pungente. Tanta saturação, já que o mundo humano estava curado, só que tornou-se mais dependente do whisky que eu e apesar disso ver realidade pura, somente a minha pessoa via as tais fórmulas e percebia futuros…
23:19h
Detendo ainda dentro do meu corpo as imagens, as visões e os fluidos reveladores que curaram algumas doenças letais. Viajei para a terra natal do meu whisky, para correr atrás das ironias de uma infinita cosmologia e é por cá estar que os jovens e idosos da zona procuraram conhecer tudo acerca de mim…
Por todo o absoluto azar, já me encontraram e novamente de mim querem gestos. Olho para eles como se fossem os únicos seres humanos que no mundo têm a capacidade e a vontade de me chatear. Estão tão fanáticos e radicais por obter curas e respostas para os seus males que, se fosse noutra altura da minha vida, agoniza. A multidão já começou a subir o monte de gelo. As brisas nórdicas cantam ao meu ouvido imóvel.
O intuito maior destes jovens e velhos é o de comerem-me vivo para digerirem o meu corpo e as minhas células acesas pelo whisky. Sobem pela sabedoria? Ouvi falarem nisto e nesse momento sorri por ter decidido deslocar-me para este ponto do planeta. Desaparecer numa marca maior. Nasci numa marca menor. Estojos de inseguranças.
Penso nos valores nórdicos, mas nenhum é melhor que este gelo do monte. O gelo que me conforta os pensamentos. Não se é superior por muito tempo, entre humanos. Não é que não haja brio para isso, mas a verdade é que acabamos por nos aborrecermos em ser os seus comandantes. Agora, aproveitando as suas histerias, comandarei sem me chatear por não mais existir da forma física que chateia. Serei sempre um divinal espectro, com sabor a whisky com muitos anos desde a colheita ou consumação ou ainda manipulação indefinida, dentro dos genes humanos que comigo ficarão. Luxos da vida…
Estou a ser tocado pelos dinamarqueses. Apalpado. Agarrado. O gelo do monte deixa de ser branco, logo a seguir à primeira investida canibal sobre mim. As nuvens assemelham-se a grandes garrafas.
Eu estou… eles comem-me… não é mesmo possível não haver morte, não é […]
[…]
23:47h
Escreve-vos, a partir destas folhas caídas no gelo, um velho dinamarquês, caros indivíduos que encontrem alguma vez estas palavras…
Esqueçam tudo o que leram! Esse memorável cavalheiro português, Ivo, deixou de existir. Apenas as suas roupas vão para o seu caixão. Ivo deixou de existir e até que nos soube bem a sua carne. Tenra, madura, e molhada… tresandava e sabia a inteligência e a whisky. Parecia mesmo whisky…
Capítulo 6
Mel vermelho
É Inverno. As ruas estão ensopadas. É Inverno e as ruas desertas estão enregeladas, com gelo pontiagudo. Eu simpatizo com este tempo, mas não tanto com o facto de me cruzar menos vezes com os companheiros e amigos que se fecham em casa. Nesta ordem da verdade, não há nada para ninguém. Não há conspiração, não há conversa, não há ajuntamento; há Inverno.
Passa-se sempre alguma coisa nestes momentos frígidos. O pensamento voa para zonas supostamente mais quentes, as queixas saltam da língua para os ouvidos, as culpas pincham para as aberturas aliciantes da realidade parada, as ocasiões tornam-se mais sortudas ou de motivo excepcionalmente garantido e os humanos fincam-se por especulativas confusões.
Paro diante do portão da minha moradia. Daqui engraço com as estrelas que não tremem devido ao frio desta noite. Pouco ou nada de interessante se vê daqui a esta hora, mas foi exactamente por isso que eu saí da sala há momentos. Tenho vontade de descobrir qualquer coisa de extraordinário, pensar que podemos utilizar de maneira incrível e evolucionária qualquer coisa já há muito existente no mundo, persuadir atitudes de pessoas para outros caminhos prodigiosos ou persuadir caminhos prodigiosos a encaixarem-se nos pés de outras pessoas… tenho vontade de acelerar o núcleo do planeta. Estas ramificações de vontade são receita de uma personalidade mutável sob um ideal apaixonado pela vida, pela obra, e qualquer miniatura de composto terreno, por exemplo o que vejo agora às escuras, ramifica-se e massaja a vontade do corpo e da mente. Cada um desses ramos agrada-se com cada pertence meu, portanto o motivo de estar a deambular pela parte de fora da casa é perfeitamente vontade minha, mas se assim não fosse, parecia que estava a ficar alienado, vazio, esgotado ou sem rumo aparente. A noite fria e a minha vontade em chama. Vontade de ferro, frio fundido. O silêncio é um gelo apenas exterior.
Vivo um novo dia para superar anteriores, unicamente para não me sentir linha e sim pico. E em cada novo dia há obstáculos a um pico, inclusive a meteorologia, mas compete-me a mim próprio arriscar. Ritual diário da escolha. Estava muito aconchegado dentro de casa, mas escolhi sair para o frio desta noite, para assim inovar, diferenciar, adicionar, face ao dia de ontem. Contrariar e responsabilizar também, cenários que me fazem lembrar de uma das coisas que os meus pais dizem constantemente, que para eu sair de casa a temperaturas baixas, tenho que me agasalhar até à ponta do nariz ou sofro. Eu não sofrendo com falta de cuidado, sei que sem me superar sofreria baixas intelectuais.
Os sons de animais ou de ordem estranha não se estão a fazer ouvir. O céu tenta clarear com o avançar destas horas, da madrugada, e a lua move-se no seu aspecto melancólico. Pazes, ausências, refúgios, pontos, sonos espalhados, odisseias nocturnas… em tudo o frio desta data vive. Neste momento, vou até ao pé do fontanário mais arcaico do meu jardim, o qual se encontra recentemente ornamentado com plantas exóticas e, nas suas bordas, acompanhado no seu tom de classe por conjuntos de espadas e armaduras pequenas, gastas, cruzadas. A nuvem de ar, o vapor denso, o frio, que sai da minha boca entreaberta, conforme respiro, funciona como um pano de secagem do silêncio, desmaiando sem graça na água do fontanário para onde olho. O fontanário, os ornamentos, a água... tudo fica turvo no plano físico, agora que o plano psicológico traz calor à realidade. Eu sento-me na pedra com gelo e o meu cérebro relembra outras vidas…
Espelhos e um observador. Para lá dos espelhos, vidas, atrevimentos, histórias! Os espelhos reflectiam imagens de séculos anteriores. O chão era pisado por retrocessos de tempo, de pós, e a criação da alegria nos espelhos esquematizou prazeres ambíguos. O observador, à distância certa para reparar, escrevia sem razão, mas com deleite e sumarenta animação, acerca dos personagens que se evidenciavam do resto do terreno, das imagens apartadas, dos espelhos. Esse observador, sem língua, com farfalhuda massa cinzenta, com olhos e material de escrita, acompanhou os intervenientes na acção essencial, nos regulados segundos da sexualidade arrebitada. Três pontos na fórmula redonda, entre espelhos e estranhezas da noção: o observador, um personagem homem e um personagem mulher. Os enredos montaram-se sob sorrisos entre espelhos num colapso doce e o homem e a mulher renasceram para existir com dimensões e adjectivos totais, porque o observador ganhou então o seu trono de comando…
Ele – o homem – usualmente dormia muito calmo, sem transpirações de maior, calores ou sentimentos de solidão abismal. Ele era bonito, de feições claras e definidas, que se enriqueciam num corpo jovem e forte, repleto de uma sensual energia. Encontrou-a – a mulher – num dia fervoroso, num parque com estátuas de reis notáveis e burgueses belos. Ela exibia uma silhueta, perfumada com lindas formas, sumptuosa, completamente atraente e elegante, dona de um rosto angelical que era adornado por um ar enfeitiçado. Ela vestia-se de branco: a blusa branca, a saia pelo joelho branca, engrandecendo-se em calçado vermelho e jóias vermelhas. Ela vestia-se num branco inspiradamente vivo e admirável. A pele do corpo dela era pálida e assemelhava-se a uma grande concentração de seda. Ele pôde contemplar, após dar passos em direcção à zona do jardim que lhe interessava, que o cabelo dela era vermelho, qual vermelho marcadamente exibicionista mas refinado. Era ordinariamente uma cor em finos fios de cabelo bem tratado, mas o cérebro dele convenceu-o que aquela faustosa imagem a passear-se tinha um encanto fabuloso e real, merecedor de largos momentos de atenção!
Após terem trocado olhares cúmplices, ela caminhou em direcção a ele e com uma vénia e um sorriso luxurioso, afastou-se por completo dele e daquele jardim. Ele corou e de imediato se virou para admirá-la de costas, pois sentia que precisava de fazê-lo sem pudores, mas apesar de tê-la admirado uma última vez, ela já não mais voltou a lançar-lhe o olhar. Sentindo uma sensação de satisfação, ele decidiu partir rumo a casa para poder meditar em tudo o que sucedeu, visceralmente guardando as imagens, os olhares, do caso vivido. O dia passou rapidamente desde que chegou a casa e se fechou no quarto. Quando a lua da meia-noite cintilou no firmamento, ele já dormia pesada e meigamente, na sua cama enorme e de arte requintada. Nessa noite, ela surgiu-lhe no quarto e próxima da janela se deteve a olhar o corpo dele. A atmosfera do quarto ficou esquentada, pintada sobre uma aura vermelha e ele no seu inconsciente acreditou conduzir um sono inquietante, transpirado, ao género de uma tortura de cócegas estimulantes. Ela avançou para ele e ajoelhou-se perante o rosto docemente adormecido que se apontava ao tecto branco do quarto. Ela admirava o rosto dele, pensava o quão belo era e inspeccionava cada centímetro dos seus lábios rosados. O olhar arrebatador dela fortaleceu-se e como uma membrana em fogo acalorou e enrijou o físico dele. Ela sorriu com melosa malícia depois de reparar no corpo dele a agitar-se com calor e sentindo tanto calor, ele destapou a camisa de dormir o suficiente para mostrar o peito cuidado e cativante. Aos olhos dela, ele continuava a agitar-se sobre os lençóis encorrilhados e tais olhos rejubilaram-se por completo com o endurecimento e dilatação por debaixo das calças dele, que lhe significava um inchaço tão tentador. Ela adorou o desencadear de prazer através da sua silenciosa perscrutação ao quarto dele e satisfeita ergue-se do chão e deu-lhe um longo beijo afectuoso numa das bochechas do rosto transpirado. Afastou-se da mesa-de-cabeceira, observando à contraluz que ele mantinha uma erecção enorme, rígida e fervorosa, ao ponto de por baixo das roupas se adivinhar avolumados vasos sanguíneos no membro sexual…
O sol irrompeu graciosamente pela janela do quarto dele, fazendo-o despertar de seguida. Achando-se húmido, saltou da cama e sentiu-se preenchido por uma força criadora, que o convenceu de uma noite de sono bem aproveitada e com direito a ter sonhado com ela, que no dia anterior tinha vislumbrado. O bem-estar manteve-se-lhe no corpo e na alma e a rotina encarrilou-o com paixão, mas depois da noite em que sonhou com ela, não voltou a vê-la no jardim. Estranho era para ele, porque jurava que por vezes, por segundos, a via em qualquer local, parecendo cómico e ao mesmo tempo desorientador. Sentiu que a noite anterior fora uma referência importante doravante na sua sexualidade.
A tarde estava interessante e as coisas corriam calmas e conforme o esperado, mas não esquecendo que se deslocara já muitas vezes no seu coche particular. Ele tinha um emprego pacato, o qual significava um grupo de bibliotecários e arquivistas, sendo o seu desempenho muito formal e linear, sem grande espaço para investigar, criar ou inovar no sector. Sentia que tinha garra para ir mais à frente, mas o meio e as pessoas com quem se relacionava, levavam-no a um conformismo usual, que pouco diferia do dos seus demais. O mais que podia esperar da sociedade era um padrão demasiado igual, porém o seu interior necessitava de um bem desigual.
O ritmo das horas e dias ia de vento em popa e ele sentia-se cada vez mais regenerado de dia para dia. Ela continuou a surgir-lhe no quarto, noite após noite, visitando aquela beleza adormecida e igualmente realizando coisas cada vez mais atrevidas nele. Ele sentia-se durante o dia muito mais confiante, desde que a conheceu, portanto declamou que o seu dia-a-dia passara de cinzento e azul a vermelho e dourado. O carácter sensual constante que passou a sentir sob a pele, demonstrou que ele era capaz de emanar mais energia e força de resolução nas suas relações com pessoas e/ou deveres. A diversão dos sonhos, pensava ele que seriam sonhos, naquelas noites húmidas, para além de lhe despontar grandes sorrisos, confortava-o numa ideologia responsável, natural e rica, perante a vida quotidiana e as utopias. Ele acreditou em momentos de felicidade, em parte, muito vivos. Era um embrulho com laços de cores exoticamente superiores…
O murmúrio dos animais da noite embalou-o num sono aveludado. Ao fim de uma hora, ela estava no quarto dele e, como quem mata saudades de alguém muito especial, beijou-o repetidamente nos lábios semiabertos, cuidadosa, sem que ele despertasse. Sussurrou-lhe depois com doçura ao ouvido esquerdo para que a mirasse, para assim se sentir mais bela e acompanhada. Ele permaneceu embarcado no sono tranquilo, mas ela, mesmo assim, ficou honrada. Ela afastou-se para o pé da lareira apagada do quarto, no lado esquerdo da cama dele. Pôde reparar, mais pormenorizadamente, nos itens medievais com que ele emoldurava e alindava a parede contígua à lareira. Agarrou a maior espada afixada e nas suas mãos manuseou-a de maneira fina, feminina, espontânea. Olhava a lâmina ainda afiada da espada, quando passou um dos dedos no corpo esguio desta. Ao terminar o tacto, sentiu cortar-se ligeiramente, nada de preocupante, visto que inclusive a entusiasmou um tanto. Aquele corte, aquela palpação à arma, fê-la pensar nas características físicas e sexuais dele, desejando cortar-se na energia dele, no corpo dele, na firmeza dele, no poder sensual dele… e ao recolocar a espada na parede, deslizou cortesmente até ele e acendeu algumas velas. Destapou-o e viu que ele vestia apenas umas calças finas, de um tecido bastante apetitoso para ela. Passou as mãos claras e ardentes pelo peito nu dele, sentindo o batimento do coração em crescendo com a duração do toque dela sobre a pele. Pressentindo o calor nele a despontar, retirou-lhe as calças, despindo-o então por completo, de um imponente modo. O corpo dele brilhava com o jogo de sombras e efeitos das velas acesas e a sua nudez arrebatou o olhar atento e mágico dela, levando-a a respirar mais verdadeiramente. Ele, completamente a dormir, transpirava bastante, mostrava os músculos que se endureceriam, teve-a diante de si, cativantemente feliz, a despir-se lentamente pelo quarto. Nua, lindamente sedosa, ela fixou-se uma vez mais na figura dele, adorando-o, bebendo pensamentos sobre ele. Ela, corpo feminino encantador, percorreu as suas formas pálidas com as mãos, em círculos e ondulações provocantes. As suas mãos detiveram-se entre as suas pernas altas, torneadas, conquistadoras, numa imagem pura de erotismo desenfreado. Ela tocava-se entre olhares calorosos a ele e pensamentos molhados, sentindo um prazer inominável. Ele dormia totalmente, mas dos seus poros vertia uma animada temperatura e volúpia aromática da inconsciência. Ela sabia de todos os estados físicos e extra-sensoriais dele e sobre tais motivações, ela masturbava-se…
Os gemidos sãos, os pensamentos abundantes, as massagens genitais, os ardores de prazer, por ela cumpridos, coloriram o resto da noite e o culminar gracioso da masturbação dela, o acto saudável, forte e moralizador, afagaram o descanso dele até ao nascer do dia.
Na manhã seguinte, ulteriormente à quinta noite, à quinta visita erótica dela que influía sempre mais sexualidade nele, ao quinto sonho exsudado, ao levantar-se, o quarto não cessava de ondular, serpentear, facto que o levou a saltar para a acolhedora almofada novamente, fechando os olhos com prontidão. Segundos, longos segundos depois, ele sentiu a sensação de formigueiro nos pés, mas uma incrível sensação de força e irrigação de testosterona como se tivesse acabado de ter a sua melhor noite de sono. Cogitando estar estranhamente a sonhar, não pôde deixar de sentir um tímido perfume a mel e sabonete. Pragmático, concluiu que tal perfume não advinha do seu corpo, mas o seu cérebro manipulou a sua vontade a acreditar que tal cheiro lhe era muito querido e familiar.
Quando voltou da sua função de bibliotecário e arquivista, dirigiu-se ao quarto num impulso libidinoso e muito instintivo. Ao dar a volta pela sua cama tratada e arrumada pelas suas criadas, deparou-se com um pedaço de mel num dos cantos da sua almofada. Esteve a concluir se teriam as criadas descuidadamente vertido aquele líquido doce um pouco avermelhado. A seguir, foi até ao espelho embutido num dos seus armários de livros pessoais para ver as suas faces, o seu ar devaneado, e com estupefacção viu ela reflectida no espelho, bem perto do seu pescoço. Loucamente virou-se e não a encontrou, mas desvanecia-se no ar o mesmo perfume que sentiu ao acordar. No espelho mirou-se e encontrou a sua beleza de sempre, acompanhada por uma aparência de obsessão feminina. Desceu o quarto e numa das salas de estar encontrou as criadas que habitualmente tratavam dos seus aposentos privados. Inquiriu-as se tinham derramado mel na sua almofada e elas asseveraram, juraram, não ter feito essa asneira. Ele acreditou subtilmente nas palavras delas e retirou-se da moradia. Concluiu que pudesse estar obcecado pela imagem dela, o que fez com que o seu cérebro ganhasse a sugestão que a tinha visto em muitos locais antes e a mesma obsessão deve ter-lhe sugerido que o mel estivesse ligado à presença dela. No intuito de se acalmar e desanuviar, foi com o seu criado de coche até à beira-mar, não muito distante dali. Passeou na areia da praia, deixando-se embalar ao sabor do vento morno do fim da tarde. As gaivotas preenchiam o céu, o mar emitia os seus sons relaxantes, as ondas morriam nos buracos feitos por pegadas… e ele, minutos mais tarde, acolheu por certo a quietude, o equilíbrio, da beira-mar e a sua mente e alma confessaram-lhe sentir-se melhor. No fim do passeio, ele guardava prazer, alegria, gozo e ânimo, em si, portanto foi com tais formatos que se deitou na cama, aquecido por uma lareira rubra…
A meio dessa noite deleitosa, a sexta noite, ele acordou, sem roupa, por intermédio de um estalo dela. Ele estava como que delirante, o mais feliz que soube experimentar. Ela abriu para ele um sorriso de orelha a orelha e, depois dele confirmar o extremo desejo hasteado nela, deixou-se abraçar e, inundada de beijos, carícias e meias palavras, por ele foi possuída intensa e voluptuosamente. As magníficas trocas e dádivas de fluidos sexuais, queimou-lhes a pele apaixonada e um superior patamar de êxtase alcançaram melodicamente. Um sonho nunca é somente um sonho, numa sexualidade executora.
O quarto estava mergulhado numa extensão de satisfação. No final do acto sexual, ele disse-lhe que se achava capaz de lamber todo o chão que ela havia pisado. Silêncios sumarentos, suspiros de carinho, realização de vontades. Ela mantinha o frequente sorriso amaciado, mas reparava-se-lhe um refulgente rubor nas saborosas bochechas. Magnificentemente, um vento abrasado entrou pela janela do quarto e apagou as inúmeras velas vermelhas que ela tinha trazido. Os esbeltos corpos deles perduravam nus e entrelaçados, apenas evidenciados por um feixe lunar inebriante, que aspirava descrevê-los como uma dupla de actores a serem contemplados em cima de um palco pelo público rendido.
Ensejos a seguir, ele sucumbiu numa sensação de calor, franco prazer, líquida paixão… mas acordou em breves minutos. Em frente à lareira acesa, tapada somente por um transparente véu erótico, ela dançou para ele um mantra oriental. Ela via os olhos dele a agitarem-se ao ritmo lascivo da dança. Ela via-o atento ao seu corpo dominador. A lua, que entrava pelo lado direito da cama, enfeitiçava a silhueta dela num distinto molde de beleza. O véu roxo tapava ligeiramente os formosos seios dela, tapava-lhe ligeiramente a púbis e dançava de forma aliciante nas nádegas fofas dela. Todo aquele cenário diante dele, foi um enorme motivo de vislumbre, erecção, submissão e respeito. O mantra que ela encenava era de uma qualidade maravilhosa e com o grau de ousadia a subir, ele pôde observar todos os cantos do corpo perfeito dela, todas as formas, todos os orifícios e camadas desnudadas. Ela agarrou numa adaga que ele tinha fixa na parede e com esta actuou na parte final da dança. Colou-a junto ao corpo, estendia-a pelo ar e passava-a pelas chamas da lareira, culminando num pormenor muito delicioso para ele: acariciou a adaga, afagou-a com os lábios e, pensando num falo fascinante, lambeu-a com distinto sensualismo. Ela excitou-o como ele nunca imaginou merecer e foi ter com ela, com um cálice de prata com vinho, assim que visualizou o meigo chamamento dela. Beberam o vinho imersos numa libido extravagante, marcados pelas sombras das chamas da lareira que serpenteavam fortemente, girando como línguas num beijo desvairado como o deles. Ela beijou-o e agarrou numa das velas que tinha trazido para o quarto. Ele abraçou-a, acolheu-a entre as suas pernas másculas e estendidas. Da vela não verteu para o peito dele cera líquida, escaldante, mas sim mel. Mel vermelho. As velas derreteram muito no corpo dele, aglomerando muitas manchas de mel vermelho. Provaram o mel, provaram os beijos. Provaram-se. A cópula aconteceu muitas vezes, a masturbação aconteceu muitas vezes, a sodomia aconteceu muitas vezes, o sexo oral aconteceu muitas vezes, naquela noite longa de prazer. A sexta visita dela encerrava-se nos lençóis protectores da cama dele e todo o gozo dos dias borbulhou enobrecedoramente, sob um perfume sublime de carnalidade.
A aurora da manhã, lançou um orvalho fresco e vital para ele e para ela. A vida era extraordinária, simples, materializada e livre. Ela beijou-o no rosto revitalizado, sussurrando-lhe que estava então honrada com o Universo completo e incompleto, moldável. Ele ouviu que ela lhe fizera aquelas visitas, após se terem cruzado fisicamente, porque ela própria era uma analogia, um ónus positivo, da sexualidade humana, uma força da natureza criada para atribuir felicidade, prazer, naturalidade e força a quem procurasse por ela. Revelou-lhe que ele tornar-se-ia superior, numa maior escala de amor, nessa tal-qualmente força natural e percorreria os trilhos virtuosos da sexualidade com outras pessoas que desejasse. A luz do sol irrompeu pelo quarto e ele permitiu cordialmente que ela saísse pela janela, adornada e alegrada nos raios de virtude da manhã. Ao desaparecer, repetiam-se na mente dele palavras, frases, cheiros e gemidos, que garantiram que a sexualidade é um temperamento entranhado dos corpos sob qualquer forma ou exercício.
A interpolação de períodos destrói os espelhos, os personagens, os ciclos de letras. A mudança de espaço e a disfunção de coordenadas, trazem-me ao fontanário, onde olho a água serena e límpida, como um sonho de algodão e amêndoas raras.
A noite está muito mais agitada, com uma agitação própria de vitórias com sangue e suor. É Inverno e é altura de frio, de procura de aquecimento. Toda a leitura de um texto sexual ou erótico ou sugestivo, faz parte de um dos fetiches gerais do mundo, um ramo da sexualidade, e como todo e qualquer prazer o essencial da história é alcançarmos os frutos que mais desejamos provar: proibidos ou não proibidos, sem regras nem limites, com consciência, pois a árvore da sexualidade é algo inato à natureza humanamente altiva.
Capítulo 7
Belial
A História dos homens e das mulheres e das mulheres e dos homens sempre fora pintada em telas que, nos seus braços finos e finitos, deveras assoalham passagens de demónios ultrajantes. Um dos pontos facilmente alvo de deturpações e estupidez é o campo da demonologia, ciência ou pretensão para catalogar os demónios em hierarquia, qualidade/defeito. O campo em si é já duvidoso e insuficiente de consenso geral, mas ainda assim fascina e importa conversar acerca. Nem que seja para exorcizar meninos. Nem que seja para deitar fora inércias visíveis.
A demonologia é equiparada a outras parcelas de estudos ocultos ou mais ou menos alternativos, desgastantes, incoerentes ou fantasiosos. Pinturas de incenso e alho. Leituras misteriosas e melindrosas. Pasta de símbolos e ritualismos negros. Galinhas para estripar, recantos da mente para exercitar, cabelos e madeixas brancas, verrugas no cérebro e nos focinhos humanos. Este estudo assenta nos relatos sobre perfis e existências de demónios, na delineação da sua hierarquia, composição e história (estória), bem como nos meios e nalgumas exemplificações de evocar os mesmos personagens. Apesar deste estudo estar perto de antigas inscrições religiosas e pretender englobar muitos demónios num só tomo de conhecimentos, não significa directamente que seja usado como fonte para bruxos ou rituais construtivos, porque na maior parte das vezes a única pretensão da demonologia é servir a humanidade como testemunho simples de mitologia, metafórica, ao invés de carta de amor em compromisso.
A demonologia conhece um local onde filma e passa maior parte do seu tempo a narrar e a recolher as informações e os estudos acerca dos seus escolhidos/modelos. Esse local é conhecido por todas as pessoas, mesmo variando de noção ou intenção; todas as pessoas o conhecem e tal local, variando de crença para crença, fisionomia para fisionomia, aspecto e contornos para aspectos e contornos, chama-se inferno. Um cliché religioso, um moralismo, uma percentagem de medos e dores, uma pintura, um texto, uma fotografia, uma dimensão construída sob as existências das criaturas, uma parte do ego, uma orgia de ataques profundos… ideia de lugar ou estado arcaico, o qual sempre sofreu alterações pelos milénios e pelas filosofias, pelas artes e pelos líquidos que entram no sistema digestivo universal. O inferno é uma criação de todos e de ninguém, visto que as provas de tal sítio é de conhecimento geral e de conhecimento nulo. É uma etiqueta no bolso daqueles de indumentária branca, preta, colorida, daqueles que legislam dogmas para quem os quiser cozinhar. É também uma grande abordagem dos sentimentos e das emoções que afectam a vontade e as vitórias daqueles que as exercitam, significando retrato daquilo que deturpa, condiciona, parte…
Reflectindo no que o inferno representa, facilmente se saúdam cépticos e crentes, viciados em etiquetas e emissários de medo e castração. Outros povos que se saúdam dentro desta paisagem opinativa são seriamente os crentes do castigo eterno, pessoas cinzentas e pudicas, que respiram cinzas toda uma vida, todos os dias e todas as noites e ainda um dia depois, por temerem tal crença realizada a qualquer ocasião. São os alvos de sugestões de medo, sugestões de ruína constante, opostos rijos aos não crentes, aqueles que respiram numa existência em que não se vêem a ser castigados, pois instauram em si próprios a máxima de que quem não quer castigo não procura dar a mão à palmatória ou nem tão pouco se detém à espera da palmatória. O que é verdade é que crença como a anterior é falada e transmitida, porém como essa há muitas e não vale de nada segurarmos só um dos fios quando a extensão desse não nos possibilita vantagem maior. O que existe aqui é um circuito imenso de fios absurdos, frágeis, e uma das luzes que nele se pode salientar é que uma mente acondicionada em receio de vida por uma regra a não quebrar sofrerá de um castigo quase imperceptível, prolongadamente visceral, facto que não precisa acontecer se entender que louvor e castigo andam de neurónios ligados, intercalados; e tudo seria mais simples e brando.
Nesta confusão de inferno e castigo eterno, quanto mais volumosa é a nossa lucidez, mais facilmente é o castigo derrotado. Os predadores não sofrem castigos, apenas derrotas ou oscilações dentro do jogo natural das cascas e dos néctares. As vítimas e os passivos, que piamente acreditam no lugar de danação, sofrem castigos, ao género das achas na fogueira que aquece a família em casa. São eles as achas, são eles o lume. A crença deles é a fogueira. Sorrisos, cinismos, medos, mas as pernas não querem fugir ao lume.
Somos apenas massa, carne, osso, tecido, fórmula de peso e gravidade, órgão e pele que sujam, mas isto tudo que somos é com capacidade para conhecimento sem limites e obras-primas, podendo acreditar no que se quiser. Esqueçam-se ilusões, pretensões, impulsos de divindade sem mãos e desígnios de fundamentalismo. Acredite-se em nada, realize-se objectivos sem cobrança de motivo, degrade-se, seja-se neutro!
Mais um dia esquisito, mantido numa rotina que rasga o cunho da alegria, que estripa o copo da vida, mas não a bebida. Sentado, a escrever, equaciono quanto de mim disperso para o papel e quanto nunca não o faço. É mais ou menos o resultado da soma dos pacotes de leite e cereais deitados ali no chão esburacado. Parece uma obra de arte, pois deve ter sido um artista impecável que tal fez ao pensar que as pessoas iam congratulá-lo após verem o pranto. Ou é a mania de arte que polui que é grande de mais de mais ou é a massa cinzenta menos de menos. Aposto na segunda hipótese, se bem que a primeira é gira à mesma. O Homem sempre quis criar coisas à volta dele, nem que seja o seu próprio esterco, sempre fez de tudo; subiu, desceu. Viveu, vive. Haverá sempre alguém a contemplar.
Olho para o chão, olho para nada, olho para a burrice. Parece que estou agora a escrever sobre o ambiente em redor, porque se tivesse algo mais interessante não escrevia, visto que guardava para mim. A esta hora não peço para ver ninguém e não quero ver humanos. Está toda a população sob deveres e obrigações de tempo, lazer, inércia. Por mim, óptimo, sempre tenho lixo para admirar sozinho, comportamento que os grandes artistas sempre preferiram: público concentrado, escasso, mas dedicadamente concentrado. A existência é simples, porque esta nos concede opostos simples de mastigar. Saúdes ou castigos…
Tenho uma visita esta tarde, visita que penso ter saltado do estudo do início deste texto, porque faz parte das linhas e das pretensões do saber da demonologia. De seu nome Belial, um demónio com uma idade que se perde a conta, parece-se com um belo anjo, de voz doce, com corpo duplicado e sensual, sentado num transporte com dragões que dominam e aquecem fogo. Alto como um edifício citadino, Belial pisa o chão e cumprimenta-me com elegante aparato, apresentando-se vaidoso. O que é (quem é) este enorme ser, vivo ou morto-vivo – possivelmente para além do que é vida e morte, mesmo que entrelaçadas –, que se ergue e se molda defronte à minha pessoa? Que impressionante cerimónia ou incompreensível facto é este que estou a passar? Numa leitura de demonologia mais popular, Belial é o demónio que foi criado imediatamente depois de Lúcifer, com bastante tendência para enganar qualquer um, inclusive aqueles que o convocam. Belial, um dos demónios do inferno, visualizo-o como se visualizasse um rei – se bem que não sei como é visualizar um rei –, o qual se parece como um belo anjo que tem forma mutável, indo do sensual ao perturbador.
Numa leitura de demonologia moderna ou anulação de uso de preconceitos, qualquer indício à carne de Belial é tido como organismo sem lei ou com rebeldia, fechando julgamentos e acções de embuste e terror num único teorema demoníaco. No folclore, Belial permanece como um deus, ligado especificamente com os horrores de Sodoma e Gomorra, cidades lascivas e corrompidas, e tal-qualmente com a composição obscura de subornos e assassinatos secretos.
Belial mostra-me ser uma regra do terreno e do solo impuro, sorrindo-me na certeza da sua personificação de maldade e rindo do momento em que o trataram como a mera modificação da deidade arcaica da Babilónia, onde se restringia ao submundo e à vergonha. Nada disso, sou demais, grita-me. Sou o incalculável, o livre…
O mestre da terra, Belial, é o lado carnal do Homem, é a maior ligação com a componente castanha que nos apara os pés, é a luxúria, o sexo, o prazer e por isso as vias principais que tomam a vida em coisa de mérito. Quando as pessoas, começa a dizer-me Belial, tendem a nortear-me e/ou a proibir-me, o que acontece é que o orgulho menos capaz vem ao de cima, ao passo que quando me recebem, ao de cima vêm coisas como a pujança, o deleite, a independência e directa essência terrestre. Sentir-se seguro, uno ou assente é sinónimo de contactar comigo. O Homem vencedor é simplesmente humano, em degustação e louvor da sua natureza, carne e conquista material, vocifera Belial, sendo que toda a experiência seja concreta, a experiência de vida, e assim da terra para o cimo estamos nós feitos da carne e para a carne e para os feitos e destruições grandiosos surgidos da carne!
Eu ouço Belial e escrevo algo ao mesmo tempo, mas este não parece importar-se com este facto. Não estou a escrever as falas do demónio terrestre, mas sim a escrever qualidades/características do mesmo, à medida que o monólogo dele tende a prosseguir, como se a simples audição do monólogo me concedesse tal sabedoria. Desperdiçador de lei e moralidade, opositor, imoral, dissoluto, lascivo, desmarcado, incontrolado, revolucionário, audaz, livre, impuro, injurioso, desfrutador de pasto e infracção.
O vento intensifica-se, a tarde, a terra quase borbulha de calor.
Há teólogos, discursa Belial, que me elegem como o demónio mais lascivo e indolente de todos os que perderam o lugar na virtude deles – cantam eles como se isto fosse abominável –, mas se tais criaturas olhassem para mim e me acolhessem com as suas facetas naturais e instintos de energia, podiam aprender qualquer coisa engraçada nas suas entediantes laborações! Para essas criaturas, eu sou a ruína e destruição! Belial diz isto de forma alegre, sem deixar que os seus saltos de exibição corporal abanem todo o recinto em que nos encontramos…
O enorme ser que me fala comanda mais de oitenta legiões pelo Inferno e mundo afora, com a imodesta postura de que é o pai da ilegalidade, assim como aquele que detém a supremacia das nações ou figuras que são idolatradas – unicamente – devido à força unicamente humana! A Bíblia Satânica afirma Belial como um dos quatro príncipes herdeiros do inferno, tocando-lhe o trono do norte. LaVey, homem que exaltou o elemento terrestre como fonte de/para tudo, sublinhou aos canais distribuidores da História que Belial é o mestre da Humanidade e o seu retrato de campeão é o guia dos impulsos carnais que condecora a Humanidade com avanços reais. Belial é nome presente no livro de outros séculos, “Ars Goetia”. O título do livro descende do latim, mas muitas vezes reduz-se ao nome “Goetia”. Belial diz-me que nunca leu este livro, o qual contém descrições das dezenas de demónios que King Solomon evocara para os obrigar a trabalhar para o templo dele e os quais confinara num navio de bronze selado por símbolos mágicos. No “Ars Goetia”, King Solomon descrevera o perfil de cada demónio, indo das perguntas e respostas às qualidades e defeitos, como se um manual de aptidão para com demónios. Belial grita-me que nunca trabalhou obrigado para ninguém e que não gosta de navios, porque não se deslocam por terra. O livro que Belial nunca leu, parece ter instruções e rituais de trabalho, assim como métodos para utilizar fórmulas mágicas próprias para se chamar cada um dos demónios lá listados. Belial revela-me que nunca apareceu a ninguém de forma parecida, porém igualmente sabe, e não se surpreende, que as pessoas tendem a pronunciar mal as palavras e a demonstrar erradamente os seus sentimentos, em livros semelhantes, em acções semelhantes. Aleister Crowley leu e interpretou o livro para a sua magia… Belial recorda: o mago fechado em paredes a estudar e a iniciar rituais uns após outros para criar as suas maravilhas e tocar/retocar o seu infinito! Um excelente mago…
Belial foi apontado pela História como um soberano do lado negro, uma das forças mais poderosas e que mais evoluem, conjuntamente como o anjo da corrupção e da hostilidade. Os seus domínios são as trevas e as terras, a partir das quais e sob as quais alcança o objectivo fácil de influir os desejos de maldade e culpa. Sou o pai das mentiras, dos exércitos também, portanto não nos interessará acreditar de todo no todo, em mim, mas sim em partes, as partes que nos oferecem prazer, vida, força, independência, intensivamente brande Belial, e quando sou bem recebido pelos meus invocadores, consigo fornecer-lhes bons resultados a troca de boas oferendas e sacrifícios, porque aí estão a acreditar justamente nas suas qualidades naturais! Gilles de Rais, aquele nobre louco que se alterou ideologicamente durante a sua existência, matou e sacrificou vítimas em meu nome para chegar à minha amizade, mas apenas ofereceu-me partes dos corpos que esventrava, o pútrido, esquecendo-se da beleza palpitante e húmida de belas mulheres e belos homens, que inteiros podiam ter saciado um mínimo do meu lado lascivo e sensual; esqueceu o meu lado pornográfico... e quando se invoca a minha graça há que lembrar o castigo e o sexo!
Fragmentos grandes de terra com fogo líquido levantam-se à frente dos meus cabelos riçados e enfiando-se com rapidez para o interior do corpo do meu visitante negro, provocam-lhe um delírio e um bem-estar que não posso descrever mais do que isto…
Belial ensina-me que é, sempre foi, uma concreta projecção do seu néctar arcaico na espécie humana, revelador de/em pormenores com atitude estranhamente lúcida, elucidativa. Sou julgado pelas religiões contra a minha personalidade como aquele sem valor, mas eu trato-me sim de um ser no âmago daquilo que é a verídica natureza humana. Materialista, alio o meu aspecto de poder à linha de acção do senso comum para crescer em força e, de forma simplista, provar todo o prazer, continua Belial. Com subtileza, domino a terra, elemento que faz parte de mim e eu dele, e com subtileza sou mestre de mim próprio, mestre sem o mestre de terceira pessoa! Sou a terra, sou mestre de mim próprio, posso ser tu mesmo, sou Belial! “Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes”; decerto já ouviste esta expressão! É verdade. Eu pu-la nas mentes daqueles que me seguiram e daqueles que me atacaram, só por uma questão de honra, porque a faceta de exaltação e auto-preservação que a mesma encerra é deveras forte. Das coisas das coisas, eu fui erguido. Sou contra as leis, sou aquele que pertence a um abismo do qual ninguém consegue subir e eu sou tudo aquilo que instila desprezo pelos deveres, pelas redenções.
Belial funde-se nos processos de vida e de morte, através dos estados da carnalidade, do sexo e da luxúria, tidos como escapes, mais-valias, forças e ruindades da qualidade de ser terrestre. Ele permitiu-se falar em tempestades de prazer que gera e gerou no planeta, capazes de engolir e regurgitar fantásticas poeiras gigantescas em todo o espaço sideral. O meu nome – a significar sem mestre –, simboliza a independência verdadeira, a auto-suficiência e a realização pessoal, explica-me Belial, verdadeiras naturezas que sempre narraram os povos de poder.
Noite cerrada. Animais excitados com os olhos brilhantes por algo que aconteceu.
Depois de um grande espaço de tempo, posso agora escrever sozinho certas noções que alcancei com a visita desta tarde, uma visita não programada, quer dizer programada, porque sou um humano consciente das minhas naturezas carnais, independentes e fortes, e às quais chamo família!
E tudo por mim adentro se molha em fogo. A certeza de mais um conjunto de diabruras, de crueldades feitas carne. Aprendi com Belial. Signo de poder inflamado, quis funcionar num universo de mundos de modo ordinário. A capacidade de ver feito, fazendo, a capacidade lá espetada. O corpo com sujidade, sujidade de luz virgem, sem quaisquer riscos de maior, atirou-o às mais largas perfurações infernais de líquidos e lava, os seus banhos irados...
Estas frases comportam efeitos que, a serem atabalhoados, muito podem fazer para o dano cerebral. A sua pele é casca gelatinosa com nódulos clássicos e a sua voz de trovão é auxiliada por um dialecto que mistura todas as línguas universalmente conhecidas, sãs e insanas. A amplíssima louquice – ou desembaraço – de Belial personifica-se na humanidade na altura de uma vingança, no traçar de um plano, no combate, na fermentação de testosterona e outras hormonas a ferver, na jornada de prazer, no nirvana, na perda de alguém querido, na derrota ideológica…
A estupidez dos deuses enerva o demónio. A ingenuidade, o cinismo, a tomada de decisões ridiculamente infértil. As montanhas são enormes, repletas de vegetação e rochedos, e são um dos pontos que cativam a paixão dele. Os rochedos vermelhos, grossos de fogo e areia, também. Toda e qualquer tentativa de torná-lo bondoso e branco recebeu uma oposição feroz, porque a sua natureza ditara que estúpidos são aqueles que dissolvem as próprias metas e os próprios interesses em prol de desígnios de deidades omnipresentes. Belial ignora regras, paraísos de ilusões, de consolos, porque não existe para ele maior sobrenaturalidade do que negar os pecados animais. Belial procura existir para vangloriar em si mesmo a sua identidade, procurando concentrar fantásticas expedições ao poder sobre tudo e todos e, similarmente, procura destruir fraquezas, gelos e seres mesquinhos. Os seus conhecimentos e a sua sabedoria estão nos poços onde vive, estão na alcovas e nas ruínas onde fornica anjos e criaturas sensuais diversas e onde tenta apagar os alicerces das faces e dos olhos das luzes, harmonias, estrelas pacíficas, unhas e fantoches, curas evangelistas sobre derrotas e soldados de fé que o desafiam.
Comandando as suas legiões, conquista parcelas de terreno no submundo, no mundo, nos mundos, e muitos homens possuem réplicas do ceptro que Belial usa para o comando... homens que vivem perto de nós. Belial passa férias no centro da Terra, bem no núcleo. Durante os tempos normais, tem que comandar as suas legiões e investir contra anjos, santos e eternos defensores das criaturas de Deus, mantendo o equilíbrio das trevas e da mentira no jogo universal; malícia e ferocidade. E as férias servem para descansar, fazer arte com lava, fogo e compostos mergulhados nos aterros da Terra. Realiza magias e por vezes viaja para se encontrar com quem o invoca ou convida… vive em campos, cavernas e florestas… estuda manuscritos extensos de filosofias modernas, de hábitos terrestres e no fundo é somente um aventureiro desgarrado dos humanos das profundezas. Ele está presente nos corpos dos exorcizados e masturba-se olhando os olhos e ouvindo as palavras dos padres patéticos e caricatos. Se estes conseguirem excitar Belial, então o demónio ejacula nas entranhas dos exorcizados e com sorte a história acaba bem, senão a masturbação não chega a bom porto ou a bom deleite (com leite vulcânico) e os exorcizados sofrerão com mais tempo de chagas e acções demoníacas. Os padres quase pelintramente voltarão, para satisfação de Belial, o masturbador luxurioso que possui as criaturas para que lhe sirvam de fetiche.
A magia elementar é uma cartilha maternal do Homem. Belial ritualista é o ser da realização autónoma, que representa o elemento terra e o qual se encontra de pés bem assentes no chão – procedimento mágico real e sólido – sem tantos lugares-comuns místicos desprovidos de objectivismo. Ritualismo ligado à terra, às rochas matrizes.
Os caminhos relativos levam à evolução pessoal, ao culto físico, à metafísica dissecada e a um estado de melhor conformidade natural entre o meio e a consciência sábia.
Não só de ruídos, pancadaria, sobressaltos mentais e físicos, vive Belial. A música é constante e invariavelmente universal e é de bom-tom o ânimo de Belial ao ouvir, escutar, melodias com letras que o toquem no factor vanglória/interesse. Uma das bandas modernas a criar um misto e uma atitude conscientes de atracção da atenção do demónio sem mestre é LORD BELIAL, a qual é feita por membros talentosos de veias inchadas por exaltação negra. Há palavras neles que excitam e animam o demónio da terra, palavras de todos nós como: paredes; rituais; carne; caveiras; decoração; velas pretas; queimar; desejo furioso; apodrecer; gritar; sacrifício; esperar; fado; ódio; arder o crucifixo; encher; sangue; profano; mãos; maldade; malícia; infernal; imensidão; fogo; …
Belial apareceu-me para que o conhecesse e escrevesse sobre ele, mas no fundo apareceu-nos, por/para essas razões, porque aquilo que de que ele é nomeado é também de nossa própria nomeação. Apareceu, conversou, engrossou-se, retrocedeu. Naturalmente.
A boca enorme do panteão infernal cospe fogo e fogo engole com abismal categoria. Um modelo saiu para conversar connosco, nos sonhos, nos pesadelos, nas simples e básicas coisas da vida, nos prazeres, nas dores, e foi dele que ouvimos explosões de força. Não sendo o único modelo, vamos caminhar atrás, ao lado e para além dele, aproveitando este tempo precioso sem que outro modelo de categoria equiparável saia até nós, sob as labaredas da boca do panteão… e um dos quatro tronos está assim ocupado, reocupado, e faltam três.
Capítulo 8
Satan
Ouvi os galos a cantar, no outro lado da parede, ainda que distantes, audíveis. Era dia de rumar para mini-férias. Planeei a hora de sair da cama que cumpri à regra, com a ajuda dos galos. A lua do dia timidamente penetrava no quarto, enquanto eu já lavava a cara. Uma noite de anseios, uma noite mal dormida, mas que não prejudicara nada. A minha figura no espelho rachado era esguia, esquisita e com olheiras. Nada de especial, sempre igual, sempre o mesmo…
Após um duche e ter-me vestido, certifiquei-me que nada faltava na mala de viagem. O pequeno-almoço fez jus ao imaginário de si mesmo: foi pequeno. O despertar foi alegre, a boa-disposição estava redonda o suficiente e a alma maquilhada da beleza do corpo… quanto baste.
De férias, marcadas a sul do ponto da minha residência no país, procurava, na altura de sair de casa e entrar no comboio, divertir-me para ultrapassar todas as problemáticas, dores de cabeça, do trabalho e afins. Ou seja, ter o devido descanso, aproveitar prazeres e festas da vida… ninguém sabe o que passara, o que acumulara, o que engolira, até então.
Viajar até ao sul do país fora um tanto complicado. Os meus olhos normalmente queixavam-se da luz diurna, mas não apenas latejo. Dor na íris que se entranhava pelas ramificações até ao interior da minha cabeça, onde parecia existir vidros que se friccionavam uns nos outros…
A sombra, que por vezes me protegia, amenizava este mais do que latejo pela luz diurna, permitindo-me até apreciar alguma da bonita paisagem que se transmutava de região para região. A viagem, tirando isso, decorreu satisfatoriamente. A distância não era tanta quanto isso e a comodidade do transporte contribuiu para que tudo decorresse melhor. Vi pessoas distintas, grupos de amigos que viajavam, assim como namorados juntinhos e de sorriso de orelha a orelha, sorrisos lamechas, falando baixinho sobre o que iam fazer quando chegassem ao destino. Alguns estrangeiros ajudaram a preencher o comboio, partilhando com os restantes passageiros os seus lemas da vida ser bela, da moda barata em países mediterrânicos e os seus belos sotaques quando tentaram o português…
A viagem foi mais leve do que o clima que se vive numa adega cooperativa, mas mais pesada do que um duche em altura de ressaca.
Solstício de Verão: o elemento ardente nas peles e nas carnes, nas mentes e nas almas, nas camas e nas praias. Excelente anfitrião para as férias, para desligar dos deveres e das obrigações, para passar a sentir o mundo como recreio. Chegara onde tinha que chegar… tempo de me encaminhar para o hotel onde reservara quarto para a minha estadia.
Com prático sorriso, senti a chegada ao meu destino, rodeado por novas caras, diferentes arquitecturas e inclusive mais sons. Ruas alagadas de gente, de turistas, de barulho, pescadores de bigode amarelo e queixo queimado, a aguardarem por cinco centímetros de peixe; esplanadas a serem metrópoles.
O hotel era de qualidade simpática com atendimento cortês, mas de personalidade semelhante a outros. Nada diferia de outros. Limpo, decorado, sensual.
Nessa primeira noite, jantei no restaurante do hotel. O salão era convidativo a permanecer por bom tempo e a arte dos cozinheiros a várias repetições do menu. Fui ficando, fui comendo, fui observando, fui sendo… a calmaria; depois subi para o quarto e comigo levei a fina vontade de ver um dos filmes que o hotel disponibilizava aos hóspedes; disponibilizava, o hóspede pagava. De licor na mão e olhos fixos no filme, diverti-me imenso naquele serão, sentado numa cadeira de baloiço…
Não sei o que foi que daquilo que comi me caiu mal no estômago, mas acordei com sensação de barriga fortemente inchada e dor por todo o lado. Depois de uns minutos de angústia sobre mim mesmo, apercebi-me de que havia alguém sentado numa das cadeiras do quarto. Esse alguém era demónio, numa estética humana, com caracterização amistosa e consciência múltipla. Eu soube da sua identidade vetusta, porque entranhou-se na minha cabeça, bloqueou as minhas incredulidades, apresentando-se à minha pessoa da forma mais firme que alguma vez sentira. Numa espécie de controlo, numa espécie de sentimento de que aquele momento era tudo para mim, certeza surreal, como quadros de Dali, em que os meus olhos eram pedras de fruta reluzentes diante de Satan, demónio presente no quarto. Satan acalmou-me e ambientou-me prontamente à sua presença, dizendo-me que ele era ele como eu era eu, se ele fosse eu e eu ele, em esplendor e idade… também ele era meu amigo, adepto e companheiro, para aqueles dias de mini-férias. Eu sentia-me então leve, normalíssimo, como se estivesse diante de um dos meus amigos ou conhecidos de infância ou familiares. Apesar do excelente ambiente entre mim e Satan, a empatia, não percebia bem como é que um quarto comum terrestre agradaria aos gostos megalómanos de Satan como estava a agradar, à medida que sorria e tocava nos objectos do quarto. De mansinho, chegou o momento em que ele começou a falar comigo telepaticamente e, sem capacidade de ter mãos sobre mim próprio, comecei a discursar para ele, para mim, para o vazio do quarto, o que ele queria, o conhecimento que ele me transmitia.
Satan representa o ponto cardeal Sul, tal como a existência de um ego evolutivo e infernal atitude. Mesmo as mais fracas das personagens contêm pilares e alicerces, nem que retóricos, para identificar a presença de determinadas personagens em determinada hora, determinado local e determinada distância, e, logicamente, é a crítica a tais alicerces e pilares que nos proporciona algum conhecimento em algum plano, tema. E se é assim com as mais fracas, com as mais fortes, ainda mais é!
Satan, em termos de base, existe em fundamentos ou relatividades adjacentes ao domínio do fogo, à administração do inferno, seja qual for o tipo de inferno ou a ideologia, ao porte adversário, à oposição, ao segmento de acusação e também, não entrando em questões mais fundas, à união de rebeliões. O Verão é estação do ano que prima pelo sol forte e gigante no céu, mesmo até pelo nosso quarto adentro, nos momentos em que nos acorda com brusquidão, ainda deitados, como numa mensagem de repreensão por termos adormecido num estado tão miserável, alcoolizado e confuso. Satan é o senhor do fogo e em termos superiores em relação à linha do horizonte, deve ser o sol, a combustão imensa, o calor absurdamente tão longínquo e tão sentimentalmente perto. Não haveria melhor momento do ano para este companheiro de armas, porque aquela loucura de calor e quase fogo gasoso que sabemos é tão-somente o charme do perfume de Satan.
O conceito de Satan, nome que deriva do Hebreu, toca no ângulo de ser O demónio, O demónio pelas diversas culturas e pelos tempos do mundo. Assim, é um conceito ambíguo, clássico e de cliché, que se aplica a Satan. Vejamos, Satan, de forma tradicional, tem aquele termo que é aplicado a um anjo, ou O anjo negro, na doutrina judaico-cristã e aplicação a um jinn, ou um tipo de génio, na doutrina islâmica. De par em par das aplicações a que o seu termo se aplica, Satan fora a figura que na Bíblia Hebraica desafiara a fé dos humanos. A classificação de Satan, aí, é apresentada como O anjo caído ou demónio que passa o tempo a tentar os humanos a caírem em desgraça, pecado e acção com maldade. Seja em forma física ou metafórica, de alegoria, hipérbole… acredita-se...
Pormenorizando, no Cristianismo, o vocábulo ou a personagem Satan, alude ao comum chavão e à identificação do título d’O Demónio e d’O Satanás, assim como sinónimo de diabolus no latim, diabólico. Tudo ligado entre si como o mesmo, semelhante a diversas ruas que, não importe como, convergem ao mesmo ponto. É a figura central do mal, da perdição, dentro da religião Cristã. Para grande parte dos Cristãos, é acreditado ser um anjo que se rebelou contra Deus, assim como aquele que falou e seduziu Eva, através da serpente, a desobedecer ao comando de Deus. O desígnio de Satan, enquanto figura ambígua clássica, é incitar as pessoas a afastarem-se do amor de Deus, aproximando-as em falácias a tentações maldosas. No seio do Cristianismo, Satan é o senhor dos demónios, que até se pode tornar o senhor da Terra e dentro da Bíblia Sagrada temos a forma como ele foi expulso do Paraíso, ao género do Homem, mergulhado no interior da Terra, excitando em si uma enorme ira e vontade de fazer guerra contra aqueles que seguirem os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus. As crenças Cristãs têm Satan como Satanás, sua figura sobrenatural, demoníaca, mas tal-qualmente qualquer adversário das mesmas crenças ou como qualquer pecado e tentação humanos.
No Islamismo, Shaitan é o equivalente para Satan. Enquanto Shaitan, nos escritos Islâmicos é tido mais como adjectivo para ideias relacionadas com demónio, tanto para o Homem como para os seres jinn, Iblis é tido como o nome pessoal do próprio demónio que atormenta as ideias de puro e benigno na religião/sociedade. Quando nos escritos Islâmicos, refere-se à criatura que recusou ajoelhar-se perante as cenas da Criação, há a referência do seu nome como sendo Iblis e a ele se conectam perspectivas que até são similares às do Cristianismo, mas ainda assim diferentes, já que enquanto o carácter de Satan no credo Cristão é considerado como um anjo caído, no credo Islâmico não, mas sim como um jinn. Normalmente perto do escalão de anjos pelas suas qualidades de sabedoria e capacidades nobres, os seres jinn, nas crenças Islâmicas, possuíam uma vontade própria equiparável aos humanos, ao contrário dos comuns anjos, e assim explicam, os Islâmicos, que Satan ao ser um jinn, agarrou na sua vontade própria para desobedecer ao divino…
Noutros conceitos de Satan, ao longo das páginas de História, temos ainda e novamente o nome Shaitan para a deidade no panteão dos Yazidi, no território Indo-Europeu, ligado a Malek Taus. Num outro seguimento espiritual de populações de países subdesenvolvidos, Satan não é referenciado como um poder maligno independente ou com forma, comparando-se a outros credos, mas significando base natural dos humanos. Explicam assim que a natureza básica, inferior, no Homem é simbolizada como Satan, um ego mau dentro de cada humano, ao invés de uma maléfica personagem exterior.
Muito do que é apresentado como sendo erudição satânica não advém realmente de Satanistas, mas de Cristãos. Tudo porque se relaciona com o folclore medieval e a teologia de época envolvendo demónios e bruxas.
Assinalo que esse momento em que discursei com e por efeito de Satan foi de estranheza volumosa, confusão emotiva ao máximo e particular nostalgia. Recordei a vez em que subi num dos pontos da Igreja, quando fiz – por tradição manipulativa – a profissão de fé, acto de encenação religiosa com pontos cómicos, pontos entediantes, pontos sem nexo, ligado à catequese. Numa fase da cerimónia em que estava alinhado com companheiros e companheiras, onde o branco e o preto predominavam a par de caras de crianças aldrabonas exibidas a um público feito de pais e familiares babados com fome e com vontade de fumar um cigarrinho no final daquela coisa toda, após uns cânticos próprios serem entoados, ouvira o padre a questionar-me com litanias e premissas religiosas, as quais eu seguia com um guião apropriado, qual casting novelesco. Uma das questões, encaixada naquele preceito de sermos crianças fascinadas e obedientes a Deus e aos trilhos do – agora sei – puro idiotismo, era se eu estava fielmente confiante em renunciar a Satanás, por toda a vida, em qualquer das minhas acções e qualquer dos meus pensamentos. A minha profissão de fé, no momento, era básica e tinha que ver com levar o protocolo a bom porto. Assim, eu repeti depois do padre, que renunciava sim a Satanás, com umas quantas mais belas adjectivações, repetindo agora e depois e etc. Estava eu a renunciar ao bicho deles, sim, mas não às mais belas qualidades de Satan! Eu renunciei na altura ao Satanás dele, não ao meu Satan! Sei-o magnificamente agora.
Lancei, depois de recordar, contando a Satan, este episódio que é lugar-comum, episódio que mais se assemelhara a um teatro arranjado com marionetas infantis, uma grande gargalhada por imaginar o jocoso cenário que seria o de responder ao padre que não, que não renunciaria a Satanás: os pais admirar-se-iam, o público contestaria, o padre resmungaria, a madeira rangeria, as paredes escureceriam…
Todavia, como assim estaria, excepto pelo factor de gozo puro, a entrar numa tendência errada com o bicho da Igreja, não desejei tal cena depois. Talvez, num outro cinema ou palco. Com outras personagens, com outros figurantes. Satan engoliu mais um pouco da própria bebida de fogo e inspirava… desse gesto imaginário dele, saíram devaneios de revolta para com o que fazem as crianças passarem.
Continuou-se…
Em termos de vista geral, Satan acolhe títulos em si como O demónio, príncipe das trevas, dragão amaldiçoado, espírito imundo, poder satânico, mestre do engano, espada infernal, mestre da fúria àquilo que é puritano, hipócrita e inibidor, etc.
O conceito de Satan toca igualmente no ângulo menos ambíguo ou então não ambíguo, de ser uma projecção energética, uma figura expressada pela Natureza e/ou pelo Homem. Neste caso, é um conceito nobre, natural e apelativo, que se aplica a Satan. Vejamos, indivíduos hão que não acreditam em Satan como uma entidade viva ou um deus. Vêem-no mesmo como força básica ou princípio da Natureza. Indivíduos hão que consideram Satan como uma alegoria, a qual terá que ver com crises de fé, individualismo, vontade própria, sabedoria ou iluminismo. Satan nesta minha mente e nesta minha alma, através desta minha voz, proclama-se como o adversário da mediocridade, do caminho da Mão Direita, da estupidez, do conformismo que gosta de conformismo, da autodestruição, de deuses idolatrados, da depressão e das ovelhas. O senhor do fogo, do lume, do aspecto de enxofre, aceita invocar tudo o que seja de forma estimulante aceite. Estimulação própria, vontade própria, liderança…
Satan não é realmente, apesar de ter-se vestido com umas roupas, umas formas e umas máscaras – ao género como Belial fez – para estar no vector mundano de férias, uma entidade viva, mas sim um símbolo natural, uma existência etérea, um complemento emocional e pessoal – forte como um sonho ou uma metáfora –. Satan quer ser para mim um princípio essencial, um âmago, e não objecto de adoração literal. Não é por especialidade, importância, mas é, sim é, por verdade. É inspiração, provocação, honestidade para com necessidades. O Homem precisa de provocação, o Homem precisa de provocação, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente. Satan é tão simplesmente conceito, opinativamente muito diferente de conceito outrora dado, de utilidade eclética e nexo multicultural, porque tal se compenetra nas tonalidades basilares da Natureza, sendo parte dela. Satan é vida e é vivo, nos instintos… Satan é uma força negra na Natureza que representa a Natureza carnal e assim os desejos do Homem. Satan é a descrição simbólica de pessoas poderosas e independentes, assim como oposição a Deus e demais deuses ou religiões organizadamente equiparáveis.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Procuramos responder ao mundo, na sua construção e nos seus acontecimentos e não podemos separar um conceito de outro, de uma mesma moeda, apesar de contrários, já que existem na moeda. O bom/mau e a luz/escuridão são relativos e assim é que têm que ser, porque as suas faces alteram-se consoante a moeda, consoante as coordenadas, o estrado… e Satan é arbitrariedade nestes exemplos, por nada ser insubstituível, ignorado ou eternamente resistido. Todos sentimos as definições e as coisas de forma diferente, mesmo Satan. E esta diferença alimenta poderes satânicos: autenticidade, observação e assimilação únicos. Satan está para a realidade como a nossa reunião de ego, inteligência, lucidez, limites e erros está para a percepção de realidade.
Satan não é baço espiritismo. Não, é simbolismo carnal, mundano, desejo de matéria, evolução e prazer, enquanto uma vida dá conta das horas que passam… Satan é a personificação do caminho da Mão Esquerda, é a vida como ela é, a necessidade, o materialismo, o caminho de relatividade e do individualismo com aceitação dos instintos e das riquezas que abundam pelo Homem. É a vida como ela é.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Desci do quarto, caminhei até uma residência familiar para a minha pessoa. O dia estava ardente, as ruas pouco frequentadas…
Mantive conversas, tinha mantido conversas, com determinada figura humanamente feminina da residência para onde me dirigi, antes da viagem. Momentos e horas e segundos ao cubo, preparando a duração e animação da minha estadia. Só que, de repente, para espanto, me expeliram, os da tal residência, argumentos de que tudo estava errado naquela forma, que eu estava erradamente presente, que tudo não tinha passado de uma série de mal-entendidos, conversas cortadas, ideologias despropositadas.
Mal-entendidos? Conversas cortadas? Ideologias despropositadas? Tudo, mas é o sexo gigante de um cavalo! Naquele instante, na minha visita, a tolerância não existia, sobretudo porque a exigência que atribuía a certa pessoa não permitia falhas ou brincadeiras de mau gosto como aquelas. Ou estavam a ver-me ali para desfrutar do meu tempo de mini-férias ou então estavam bem a limpar cortes de bovinos, comigo lá dentro a chibatar os rabos de tais pessoas que estupidamente interagiram comigo. Naquele instante, eu respirava pesadamente, sentia comichão até no fígado, e queria gritar se eu era para eles algum palhaço, um palhaço daqueles que podiam fazer contrato para realizar qualquer tipo de tarefa para belo prazer de alguém, inclusive daqueles testes com impactos de automóveis para se saber a qualidade dos equipamentos, substituindo eu então aqueles bonecos engraçados sem feições no rosto. Se era algum palhaço sem piada, com algum tipo de comando. Se eu era algum palhaço seria apenas por livre e espontânea vontade, mas pelo menos tentaria entrar para um circo onde me pagassem devidamente. Porém, gozar… gozariam comigo no camarim. Até aqueles cachecóis podiam usar, durante posições de cão.
Mais tarde, num dos dias, voltei à residência por pedido de tréguas que me lançaram. Satan estava a acompanhar-me nesse compromisso. Respirou-se, olhou-se, o tempo a passar. Todavia, a dada altura, a pessoa indicada desabafou comigo, que um objecto meu de cariz de fetichismo tinha sido encontrado lá, despoletando na residência reacções ofensivas para comigo. A base da confiança tinha ido por água abaixo, bisbilhotaram erradamente e, como se não chegasse, cogitaram intenções que a minha pessoa teria, por isso atribuindo-me cores, títulos, formas e penugem bravas e lânguidas. Satan, manteve-se trocista, como que a enviar-me a mensagem para que eu me controlasse, olhasse pelo lado burlesco e individual da situação. Contra-atacar e trocar palavrões com difamadoras era o que eu desejava; regatear, discutir, andar ao estalo, fazendo sentir o amargo gosto da cebola nos olhos de quem me difamara, por um corpóreo absurdo.
Satan cantarolava coisas sem nexo, estávamos longe da residência. A pessoa do meu compromisso regressou à base de vespas que não desejei mais perto do meu perfume, no momento em que Satan mostrou os seus órgãos genitais inventados a uma senhora de meia-idade, fornicando-a, depois da mesma rir de felicidade, no meio da praça histórica próxima. Cresceu amor no mundo. Se regras não houve, regras não haviam. E a loucura insolente deu asas à partida da minha interlocutora e eu pude voltar costas ao que não me interessava viver para prosseguir com Satan para planícies cobertas de aromas mais deliciosos para satisfação de mim mesmo.
Desloquei-me, depois, para os restantes dias numa casa. Casa com dois pisos, decorada a bom gosto, com pouca idade. A casa possuía mais divisões no piso de baixo. Na parte de baixo, havia uma cozinha, corredores, despensa, casa-de-banho, sala, dois quartos e uma divisão de arrumação lúdica. Na parte de cima, havia corredores mínimos, uma casa-de-banho e dois quartos. Eu tinha o quarto mais pequeno para mim, onde tinha à minha disposição livros, revistas e adereços, enquanto o maior era para a minha anfitriã daquela casa. Possuía televisão, fotografias e roupa espalhada em muitos cantos.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Fui sair na penúltima noite sem grandes planos e a respirar um ar fresco, montanhoso e delicioso comandei-me para visitar uma galeria de arte naquela zona turística. A galeria de arte era de foco contemporâneo, linda, com uma iluminação adequadíssima e um ambiente realmente descontraído e diferente de outras galerias. Satan veio para porta principal. A sua chegada virou-me o olhar para a esquerda e vi que também quem me convidou para ficar na casa onde fiquei, se encontrava na galeria. Não havíamos combinado qualquer tipo de coisa para aquela noite, porque não havia o dever de encontro entre os dois a toda a hora. Foi uma fantástica ocorrência.
Satan abraçou-me numa sinceridade amiga e depois possuiu-a; não sexualmente, possuiu o intelecto dela, invadiu a alma da jovem que eu conhecia há anos e pela qual mantinha especial e belo carinho. Foi conclusivo para mim depois que a possessão do intelecto visava a expressão do lado carnal dela – por mim –. Não tendo sido um atrofio no cérebro ou uma possessão daquelas que magos brancos adoram intitular como o pior pesadelo dos humanos, tenho que referir e confessar que ela se tornou incrivelmente sensual, cheirosa, apetecível, poderosa e manipulativa, de olhar e de postura. Cumprimentámo-nos… os meus lábios humedecidos em alegria na face sedosa dela. Os braços dela envolveram-me como que em paixão…
Ah, Satan, meu brejeiro abismal! O que é que foste fazer…! Deixaste-nos hipnotizados! Ternura, desejo e a sensualidade confortava-nos ao longo da visita à galeria…
O quarto mais pequeno não me viu naquela noite, pois ela convidou-me para dormir com ela, na cama, no quarto, dela. A excitação era imensa em mim, as pulgas no corpo multiplicavam-se e o meu cabelo podia muito bem embrulhar-se naquela noite com o cabelo feminino dela. A temperatura alta, os magníficos arrepios, os beijos, os toques… tudo arrebatador com ela. Levei-me, levei-a, Satan levou-nos. Noite perfeita, no que foi.
A qualidade de Satan quando tenta, penetra, algum humano é sobejamente sexual. Porém, não é bacoca, não é unilateral, não é independente, ou seja, é necessário o humano estar a expelir fumo e desejo sexuais para que a possessão ou tentação funcione, agarre. Em detalhe, ela expelia o que era necessário, Satan encaminhou-se para com triunfo fazer a coisa acontecer. E eu concordei com tudo, em igual fumo e desejo expelidos, por isso...
No olhar dela, eu descobrira mais da magia de Satan, descobrira sussurro dele em que fez o que fez para que a minha mente se pudesse atulhar de pensamentos e desejos pecaminosos, provocadores. Satan queria oferecer-me um escape à realidade, soltar as mãos das amarras da realidade, do barco da tensão, do tédio. Divertimento, foco em anseios carnais para materializar-me em actos com ela, actos airosos, doidos, borbulhantes, vermelhos; odor a prazer, bonita sexualidade, odor a prazer, arrepio… Satan é a escolha sem vergonha, seja qual for a pista da sexualidade em que dancemos, seja qual for o alvo a que nos encostemos. Satan é o maior misto de beleza, carnalidade e manipulação que existe, num processo universalmente circundante à oposição de tudo o que nos estorva o ego.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Um segundo modelo saiu para conversar comigo, eu com ele, connosco. Ficou num testemunho repleto de forças, fortaleza ideológica e emocional, a partilha de experiências que me transformaram. O segundo modelo exibiu-se, como qualquer um de nós, não obstante, julgado não será, julgado não é o Homem. Dele conhecemos a identidade como semelhante ao anterior modelo e possivelmente aos que aqui chegarão. Abraçados à qualidade, ao indescritível, ao impensável, ao individualismo… sob as labaredas da boca do panteão… Satan ao sentar-se, cumprimenta com amistoso e colossal abraço Belial, camarada de armas… e o segundo trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e faltam dois.
Capítulo 9
Lúcifer
Pícaro mundo,
Irreflectidamente perceberão quem sou, não através do modo como escrevo as coisas, mas sim através da apresentação clara do meu nome, (emendo) o nome que atribuíram à minha entidade, Lúcifer.
Não são capitais as crenças, os ideais, as nacionalidades, os jogos ou as cores que os leitores do mundo que esta carta encontrarão defendem, porque capital – complementar e absoluto – é que eu sou o ar, o conhecimento provecto, a sabedoria, o portador da luz, a força edificante da iluminação, a estrela da manhã, o ponto cardial este e outras singularidades.
Eu faço de anfitrião do Outono, o Outono cintilante em classe e fascínio de artes e talentos, de agora. Saúdo; saúdem o Outono! E eu saúdo-te, mundo, excitado por saber que me conheces ou simplesmente leste as letras do meu nome em qualquer ocasião!
Esta carta redigida para o mundo ler afogueia-se de alguma indulgência ante o meu ego e seres que me são semelhantes: os vampiros. Sim, os vampiros! Tenho já a necessidade de avisar toda a humanidade do desrespeito que têm prestado a estes seres começados pela letra v. Senti a inevitabilidade em fazer esta carta para provar a minha intolerância perante o mundo, que significa agora estar às claras apertado e deveras desabrigado, revelando, para que estaquem as semidoidas intervenções humanas, linhas de segredos em determinado código, condutas que costumam ser apenas dos vampiros. Sabedoria vampírica.
Precisamente, estou farto das coisas que tenho visto a acontecer, que ouço a acontecer, que prevejo a acontecer a ver e a ouvir. E o que mais devo e permito-me a expressar é que eu posso fazer o que estou a fazer, não obstante que sou eu quem pode e manda. O meu compromisso de jornada é permanecer, como permaneci, escondido com o conhecimento para mim e para os meus que da dignidade são alvos, mas, precisamente, eu fartei-me!
Origino estas linhas de monólogo escrito, porque eu sou o pai dos vampiros e nessa qualidade defendo, atacando o mundo, os patrimónios, os objectivos e os legados vampíricos que têm vindo a ser mascados e pregados com ignomínia.
Sou o primeiro! O disparo, a rota e o alvo de uma bala, a insalubre bala que eu próprio sou e sou eu próprio. E sou e fui o primeiro, porque a estrela da manhã, a do conhecimento, é parte de mim, sou eu, a parte diurna que inicia lutas, contagens e mais extensões, apesar das estórias insculpidas que inseriram outras personagens em detrimento do elitismo da minha. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! Fui, sou, fui, sou, fui, sou… o ancião vampírico!
A dança por palavras já conduziu, conduzindo, à revelação principal nesta carta, com a qual é o mundo presenteado: Lúcifer, o mordaz, o anjo caído, o primeiro, a mordidela original. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! O ancião deles.
Sim, eu, Lúcifer, estou então por perto, coabitando a simpáticos quilómetros da vossa vizinhança. Estou no meio de vós como qualquer outro, estou; é o principal. Quer dizer, no meio de vós não estou realmente, pois sou adepto das larguezas. Sou romano, daí… apaixonado por largas infra-estruturas, recursos; as peles e as minhas munições, nascido e criado e ainda fortalecido; Lúcifer, romano, Lúcifer. Primeiro dardo, espeto, a lutar contra as religiosidades convencionais romanas e até o primeiro a desejar a proclamação da essência natural, a invocar energias luzidias das pedras que me prepararam nome e som.
Apesar das idades que conto, dos aniversários que pesam, encaro-me como um ser jovial, espirituoso de ideais e apaixonado pela vida que levo em sensações sumarentas, maliciosas, sobretudo por sempre respirar uma imensa borga, um estado alucinatório que possui o núcleo do meu desejo nuclear.
Permito-me preleccionar, neste instante que já é hora, em alçadas próprias e reais do vampirismo. Quero ensinar-te, mundo!
Vampiro é aquele que se alimenta de energia vital e não de sangue, porque sangue – pensando como numa pasta líquida vermelha humana – é perigoso e transporta e sabe a doenças. Os fanáticos por sangue devem perceber de uma vez por todas que metáforas são hinos neste tema do vampirismo. Somente os doentes e as aberrações se ajoelharão perante a ingestão de fluidos como o sangue que são tão nocivos quanto nojentos. E eu e os guerreiros da minha espécie e casta, doentes e aberrações é o que não somos, apesar de serem destas formas que procuram intitular-nos. Prosseguindo. Toda e qualquer referência a sangue impregnada nos nossos discursos e/ou simbolismos é portanto metáfora (e figuras e figurinhas de estilo equiparáveis), absorvendo a partir disto a energia e os entusiasmos que são retirados às vítimas. A energia vital que extraímos dos humanos e doutros animais é a chave da nossa caminhada para o império terrestre e uma utopia quiçá aberta. Apesar de insinuar e sugerir-te isto, mundo, não te ensinarei o porque do/no porquê nem como. Na exposição continua o secretismo e vice-versa.
Boa parte da realidade faz-se na ocultação de algo por cima de algo ou entre algo. Isto faz entrar no pensamento que tantas são as verdades no mundo moderno disfarçadas em mentiras. As informações nobres do vampirismo na desinformação corrente. Tanto melhor! Chega lá quem sabe; alguma parte deste tópico é-te familiar, mundo? Aqueles que falam sei que não sabem. Aqueles que sabem sei que não falam. E eu sei e eu falo, porque deparei-me com um dia e uma hora deste novo mundo que despertou cá dentro um incrível azedume que há muitas eras não sentia. O advento das relações por meios tecnológicos castradores das genialidades, das discussões à mesa com seres de interesses semelhantes, a pretensa literatura e rasco conhecimento que se gerou à volta dos meus semelhantes, à volta das minhas tradições. Atacaram a balança da beleza vampírica.
As parvoíces pavoneadas por ti, mundo, lançaram-me para o interior desta carta como uma advertência de enorme ira pelo perturbar e pela troça às/das leis que prevalecem sobre os meus poderes, as minhas naturezas, as minhas indumentárias e os meus camaradas. Sei da raça humana a gracejar e praguejar coisas como que a vida é um jogo, um curto espaço, uma passagem, mas para mim não é nada disso. É uma imortalidade, uma obediência para com os meus instintos de predador, uma verdade cruel que tanto tem de prazer como de dor. Se pelo menos a raça humana gracejasse e praguejasse sobre o que diz do modo como diz, vivendo por entusiasmo e vontade construtivos, o defeito e a gordura eram menores…
Testar tudo e não crer em nada! Falar de coisas sem as tomar por garantidas e sim testá-las, fazer com que trabalhem para a realização de alguma coisa, é geometria para as minhas mãos. E para as tuas, mundo? Pelo que tenho conhecido, a resposta é não. Ou andas maneta ou somente estúpido, o que é por si só muito grave.
Prosseguindo. Eu, como vampiro, levo a minha vida nocturna numa grande moradia de praia. Deito-me grande parte das noites de maior preguiça sobre a areia da praia, apanhando o feitiço do luar. Momentos de banhos de lua. E de manhã, transporto o meu corpo astral para fazer de corpo da estrela da manhã, fazer de estrela da manhã, enquanto vou resguardando, em segredo seguro, o meu corpo mais físico debaixo da areia húmida. Tal localização é parte de uma passagem que liga aquele ponto da praia à cave da minha moradia; é o mais discreto que conheço; o mais cuidado; vós, humanos deste mundo, que se estiverdes pela praia naquele local, atenção! ... bem que eu posso estar por debaixo das vossas toalhas de ilustrações da moda.
Com a minha moradia sobre um magnífico penhasco de praia, a existência nocturna embeleza-se com a paisagem, com os sons e com os acontecimentos marítimos em redor. Desde horas de estudo, desde horas de escrita, desde horas de caça, desde horas de prazer e lazer até horas de socialização elitista, a moradia que actualmente detenho faz jus aos meus pensamentos estrategicamente volumosos.
E por fazer referência a isto, quero agora passar o desabafo de que por vezes encontro-me num vórtice de tarefas, projectos e passos, em mistura, o que me deixa exausto. No entanto, dou a volta a esta problemática de origem pessoal. Felizmente. Como pratico várias disciplinas vampíricas, como é o caso do animalismo, da metamorfose, da alindada presença, da potência de acção, da rapidez, da ofuscação, da dominação, da demência, do auspício vital, etc., por ser o pai dos vampiros e o responsável por ter definido com base na atribuição de disciplinas diferentes a cada género de vampiros, mas possuir todas como criador das mesmas, gera-se o conflito de atitudes e escolhas pessoais. A carga de habilidades em curto-circuito. Tomando, porém, de seguida consciência da errada atitude em mim, entro na disciplina vampírica que concede o ideal equilíbrio à questão, colocando a meio gás – ou mesmo adiando – algumas coisas para conseguir outras. Exacto, porque vale de pouco colher muitas frentes ou muitos estudos, devido às capacidades atrofiarem e não permitirem materialização plena ou a um nível exemplar. Daí a especialização, o pragmatismo, a escolha e o momento próprio serem mecânicas importantes no conhecimento e na sabedoria; cenários na minha jornada e da minha natureza; anexem este desabafo, anexem para vencerem mais e melhor.
Acontece lá fora, ali, aí, acolá, uma guerra! E, dentro desta, outras! Guerras pequenas que ignoram que os seus objectivos são sugados para os objectivos da guerra maior, guerras pequenas que acontecem dentro e em prol da grande guerra, a dos vampiros. Ninguém sabe, alguns pressentem, outros negam. O facto de terem sido produzidas mitologias em volta dos vampiros e o facto de terem sido criadas encenações para a teoria da nossa existência plena, contribuem para que sejamos os beneficiados, pois pudemos sempre caminhar e agir sem grande sobressalto, por a negação e crença em provas originarem os maiores paradoxos e atritos conhecidos. As mentiras que são verdades fulminam-se nas verdades que são mentiras e não há indícios de vantagem. Mais, as paredes ficam a obstruírem-se, enquanto nós levitamos as nossas supremacias e gargalhadas!
Represento a ideia de total conhecimento, luz e inteligência para aqueles que vivem com a curiosidade iluminada e não só. Sou ventos e tempestades, pedras preciosas, de alcance exigente. Todavia, deixemos agora para lá estas pistas descritivas de personalidade para contar-te, mundo, uns pares de cenas da minha vida, da minha rotina.
Perpetuidade de ternuras e ronhas, junto ao meu caixão. Enlaces de conquistas seguidas, apertões que fazem os olhos esbugalhados saltarem das órbitas alegres, seduções de peles brancas e frias. Folhas das estações em ventres com nódoas que conheci sempre. Beijos e romantismos profundos, toques nos ossos. Noites de beleza vertiginosa, criações condoídas, bruxarias e vampirismo. A imortalidade é um peso ao qual não escapo, mas a ela junto conhecimento, dureza e prazer. Injecções. Injecções estas que alargam os meus ombros para melhor suportar o peso de ser imortal. Eu já tenho eras e eras em cima dos ombros, mas por elas posso dizer obrigado, transpondo esta carta para a soma das íris e pupilas dos olhos que comi às minhas vítimas. Sangue com a vitalidade certa, gritos e vitaminas, poros lambuzados, obrigado que digo, devido a ter preenchido o meu ser de enlevo e poderoso sabor, engoli, digeri (não regurgitei) e satisfiz-me.
Pelas chamas das noites, bebendo energia vital das vítimas, as suas auras vaidosas, as gotas de sangue encenadas… é isto, é o que faço, caminhar; levitar; voar; fazer de todas as noites o maior sítio de contentamento momentâneo!
A minha existência tem pontos diferentes, situações diversas; naturalmente. Acontece por vezes reunir-me com outros vampiros, membros activos da comunidade vampírica mundial, numa mansão na República Checa ou noutras mansões doutros países, e informarmo-nos de situações, problemas e festas e etc., discutindo o que houver para resolver. Recentemente estive na Roménia, numa assembleia de compra e venda de objectos vampíricos (acontecimentos normais e nos quais penetramos disfarçadamente na maré humana), encontrados recentemente na herança de senhores portugueses, bem como por lá estive presente em aniquilamentos de vampiros traidores e por fim permiti-me assistir a partir de uma galeria privada, num museu medieval, a rituais de vampiros em ascensão ou pretensão e simples orgias com vampiros, humanos viciados em fetiches e membros de múltiplos cleros (devorados após os seus orgasmos), às quais apenas assisto, pois estou já um pouco ultrapassado para brincadeiras dessas com tanta gente ao mesmo tempo!
Os morcegos, os muitos que compõem a minha estirpe domesticada – fiéis companheiros –, testemunham invariavelmente os gritos da bela paixão que nutro por conhecimento e pela entrega de tal aos meus súbditos. Os morcegos e os habitantes pequenos da noite assistem sem cansaço aos momentos sexuais, extasiados, aquando de investidas vampíricas e esses orgasmos de sucção e incorporação faustosa das vitalidades conquistadas transmitem energias poderosas à natureza, à nossa volta. Não há dúvida; pois sente-se electricidade em todo o ambiente. Os vampiros são os provocadores superiores de mudanças astrais no universo. Não hajam dúvidas…
As passagens das brisas, do som das chuvas, dos salpicos da água do mar, denunciam o passar dos dias e dos anos, se bem que nada quase transmitem à minha luz existencial, devido à imortalidade.
Aquando do dia mais marcante em qualquer calendário universal, cósmico, que é logicamente o meu aniversário, este ancião dos vampiros parte para o Egipto. Local de beleza e sapiência milenares, cósmicas, que serve tal-qualmente de ponto de encontro com os mais interessantes camaradas que conheço, assim como para rituais próprios, recreio para saciar a sede e indulgência de descobertas. Lá, nas alturas perfeitas, o céu é negro, queimado como tudo e lindo. O céu queimado decorado por ventos de fogo peludos e ardis, ventos que fazem as vegetações secas e mortas abraçar o nada, o sobressalto. A areia, essa completamente desassossegada, não pára de atirar-se aos meus trajos compridos; parece que felicita-me… tudo, quente e colado, sobre e entre, a areia, pelo deserto fora. Eu permito-me a devaneios compridos nesses momentos, avistando igualmente as dunas mirabolantes, que merecem guardar terrores e riquezas dentro delas e ainda fazem companhia a regiões estonteantemente quadrangulares de areias movediças. Regiões e áreas. Áreas e regiões que com certeza guardam terrores e outras riquezas.
As pirâmides enormes e imensas… imensas e enormes… em/de formatos e aparências – ipsis verbis – robustas, inertes e valiosamente belas. No meu último aniversário entrei como comummente na pirâmide que se encontra escondida das consciências, das noções e dos olhos humanos – exactamente, também e apenas os meus filhos sabem dela e como a alcançar –, a qual simboliza, para a identidade vampírica, o amor individual, a força vampírica, a amplitude das disciplinas vampíricas, a arte vampírica, a fórmula imortal, etc.
Todas as visitas deste género à pirâmide é o bombear intenso de um vislumbre a várias câmaras fúnebres de antepassados. É excepcionalmente arrepiante! Tudo cheira a morte, tudo cheira a antigo, tudo cheira a sabedoria, tudo cheira a perseverança, tudo cheira a ritualismo, tudo cheira a misticismo, tudo cheira a vaidade e crenças imortais que vivem. Tudo cheira a mim próprio, devido à pirâmide implementar a representação do próprio ego. Antes de sair da pirâmide, da última vez, trouxe umas peças de valor: umas coroas; uns frascos; cinco ou seis armas; algumas jóias; uns ornamentos e também amuletos.
Regozijo-me com presentes, ofertar a mim próprio coisas fabulosas! E a pirâmide dos vampiros é completamente a pirâmide dos vampiros…
Após ter informado, avisado e descrito, satisfeito estou no covil, algures numa das praias embelezadas pela morte da lua nesta noite. A caneta e as folhas serviram bem o meu propósito. Não levarei, por certo, uma eternidade de tempo até lançar estas palavras para o seio dos teus humanos, mundo, mas aqui nas minhas dimensões e nos meus mundos vampíricos posso ficar nem que seja uma eternidade de tempo a aguardar por essas tuas respostas/reacções. No quentinho da minha curiosidade, junto das minhas velas a arder, imortais velas a arder… fico de olho em ti, mundo.
Despeço-me com considerável atenção na energia vital humana. Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a aumentar os teus caminhos com vítimas para os meus súbditos e semelhantes e, principalmente, para mim. Não te ensaies nisso! Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a ser tu próprio, porque fico eu com os meus a perceber as diferenças entre as coisas e os seres e afins inomináveis, não pelas cores mas pelos méritos.
Apesar da leitura atenta a esta carta, nunca irás conquistar aquilo que posso conquistar em ti e a ti!
Apesar de avisado, mundo, desejo que multipliques o belo, o feio ou misturas com e sem sabor, mas pára, por favor, de transformar poderosas ocorrências do vampirismo nos teus argumentos lamechas para filmes e/ou em histórias de livros de embalar que vendes. Este pedido não é porque eu esteja a ficar com a provisão de lenços de papel em baixo, mas porque tamanho mau gosto deixa-me com pele de galinha durante eras…
Cumprimentos à vizinhança,
Lúcifer
P. S. Um terceiro modelo saiu para conversar connosco. Conheceu-se uma missiva com reminiscências anciãs, capacidades superiores e informações poderosas. O terceiro modelo exibiu-se, não obstante, julgado não será, julgado é o mundo. Confidenciar tornou-se de sentido geral e avisar premente. Ficou na audição e mais ainda no peito que a defesa deve ser acatada por inteligência. A terceira entidade interage com as personalidades dos anteriores modelos e com eles se reúne como que em celebração vitoriosa. Observando a sumptuosidade do ambiente, absorvido em potência, charme e luz sábia… sob as labaredas da boca do panteão… Lúcifer senta-se, permite-se a uns urros de campeão com os seus camaradas campeões e a uns brindes nutritivos, ritualistas, vermelhos… e o terceiro trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e falta um.
Capítulo 10
Leviathan
Faíscas de som. Faíscas de imagem. Tremelicos na máquina.
As algemas da realidade têm chave sobressalente nas gavetas da fantasia. Inútil lei.
O princípio, o meio e o fim de uma agudeza de espírito são veias que se deslocam rapidamente pela química de um tomo quase a afundar.
Garrafas compradas ainda por abrir, para serem bebidas. O conteúdo é sábio, oscila entre vidros e caretas estampadas... o resto é pujança. O resto.
As piores histórias serão as que foram inventadas, camufladas ou inacabadas. Sem surpresas é certo que não há uma história que seja boa, todas são piores. E esta? Pois, e esta, pois.
O fundo da tampa da caneta, a única que escreve mal, parece ser longe, se é que não são os olhos que longe parecem ser. Olhos dispostos perto com determinadas dioptrias, não obstante, turvos. O fundo da tampa da caneta que escreve mal com uma ponta brilhante que parece cada vez mais amorosa a ser enfiada pelas optometrias acima. Tampava a desilusão daqueles que espreitam e, por um detalhe, tornava a caneta boa escritora.
Boas escritoras lembram bons nomes. E bons nomes lembram Leviathan.
Por disciplina de fazer cumprir uma meta intriguista, um dicionário do tamanho de horas de privação de sono ou simplesmente de tédio intratável possibilita o aleatório de direcções da criação. A orientação da escrita tende a curvar em si própria, que possibilita a entrada numa dimensão de murmúrios corcundas em efusivo mergulho. O melhor mergulhador não conta uma história, geme poder. Veio do tempo sem histórias.
Leviathan, em anexação à sua origem hebraica, recomenda-se como a serpente saída das profundezas dos oceanos. Simboliza o mar, o ponto cardial oeste e canta a estação do Inverno. A água, o oceano enfurecido! Toma definição como torcido/arrevesar e enrolado/dobrar. O ciclo de vida humana secreto e ideologicamente maléfico de discursos com apetite sexual, o Desconhecido, os âmagos emocionais: terror, carnalidade; tornar-se poderoso, magnânimo/grande, imparável. Leviathan é isto e aquele que não se pode descobrir. Réptil de tamanho superior ao limite da compreensão humana, transfere-se simultaneamente do aspecto directo de uma serpente para o de um dragão, quando não se lembra do de um crocodilo. Qual fanático por estilos de roupa.
Leviathan é o dragão dos grandes precipícios dentro de água, dono de um rugido provido de desafio e extermínio. Leviathan, na Bíblia Sagrada, é tratado como o dragão algemado desde o início da Criação, facilmente o Abismo dos abismos originais. Criado no mar com a pura sedição das ondas, Leviathan reina as personificações de mal, do desassossego, da obstinação do Homem e do seu orgulho contra os deuses e as imposições. Leviathan é mercenarismo com desvaste molhado. O início e o fim abraçados, enroscados, a girar sobre as fases de tempo e escritas de espaço. É o gigantesco conquistador dos oceanos e o maior dos venenos saídos das mandíbulas das serpentes, exprimindo o mais enterrado rancor, o grito dentro dos oceanos, com a sua boca que se abre e se robustece dos mais profundos abismos de água. Leviathan representa as marés enfurecidas que vêm reclamar as suas poltronas, civilizadas na estuação da terra.
Um monstro grande do mar, aquele fora do Desconhecido e das funduras temidas. Leviathan é a verdade escondida, a escondida e horrível natureza das existências em esforço e a lutar. Uma criatura grande e poderosa que perverte em si uma continuidade das forças básicas que usa para o ataque a todas as religiões do mundo. A força imparável dentro do Homem…
Leviathan é uma serpente enrolada/tesa do mar, uma serpente e um cruzamento da sua raça com a de um crocodilo e um dragão impagável, um símbolo do mal que luta para alcançar o lustre do Homem. Leviathan é o/a pilar/coluna no inferno mais côncavo para abrir caça aos arcos celestiais. Leviathan ainda notabilizado como o rei sobre todas as crianças com orgulho e acessos de ira.
Cai um quadro preto com uma máquina inclassificável que entuba no ar orvalhados dados de imaginação empurrada, dados com poeiras e aranhas afogadas Uma película nova de coisas científicas, mas sem entrosamento nem banda sonora.
Nos anais dos tempos, na iniciação da origem do que se compreende como Cosmos, existiu uma infinita reunião de forças, pólos opostos, composições, coisas virgens, corpos multiformes e multífluos, fontes de energia e sucção, poeiras e pós e cores em abismal, cósmico, embate, em fezada e aos pontapés. Em transformação, rompimento e atormentação, no desplante natural, em escultura entre si, no eixo total, para resultar na obra original, incompreendida e desafiante.
Faíscas de som. Faíscas de imagem. Tremelicos na máquina.
A obra cósmica limava as suas arestas, descartando umas coisas para abraçar outras, descartando para abraçar, numa expansão imensa, enriçando um desequilíbrio num equilíbrio com chama em suicídio. As refulgentes caras, firmes e criadoras da obra cósmica, foram traduzidas na selvática mudança da pele e conteúdos dos átomos em potência, sendo delas que o planeta Terra saiu. Tiro nas entranhas. Magoado, ensanguentado, depois mudado, arranjado e preparado, tradução com dor para beleza.
Anteriormente a muitas das espécies mitigadas e resumidas, aparentemente tranquilas, conhecidas do presente dia, o Cosmos/a Natureza fez nascer na Terra animais gigantes, criaturas descomunais, entidades e deidades intolerantemente livres e poderosas. Os seres profundos. Os seres originais. Os ídolos.
Fumo libertado pelo ar entubado pela película não contida.
Alergias mentais.
Esses seres nasceram na água, no H2O, nas moléculas básicas dos oceanos originais. Possuíam capacidades avassaladoras, destrezas avassaladoras e ritmos físicos avassaladores, pelo que o planeta tremia a cada movimento ou curva mais forçados e velozes dentro de água ou a cada fenomenal elevação com saltos com relâmpagos fora da mesma, em direcção ao céu novinho, de pompa sedosa e caramelizada, artigo de anatomização.
Os primeiros abanões na Terra não foram provocados pela terra, antes por ocorrerem os gestos e êxtases insuportáveis de tais criaturas. As primeiras, as marítimas, as descomunais. Leviathan era um dos seres e nasceu com aquele aspecto réptil…
Faíscas de som. Faíscas de imagem. Tremelicos na máquina.
O ambiente do planeta era terrivelmente molhado, pelo que o ar e simples temperatura funcionavam como uma implacável torção sobre os organismos. Quase nada existia para além das criaturas imensas e de Leviathan, exceptuando os casos das superfícies de terra, mas essas não só de terra, com uma composição pertinente que se assemelhava a um género de camada então aquática, carapaça líquida mas resistente. Leviathan vestia-se com uma carapaça rochosa sob fluido viscoso incolor, roupa interior com alga com prata e hermetismo.
Os seres colossais habitaram a Terra para a prepararem emocionalmente para a evolução das espécies na terra, que provocadoras e caóticas haveriam de ser, de respirar, doravante. Ao darem resistência à água através da violência dos seus movimentos, das suas forças e até dos seus poderes, esta ficava com as melhores chances de ser mais abundante do que a terra e possivelmente intervir na balança planetária, castigando as espécies da terra, caso não compreendessem a virtude da ancestralidade. Os castigados afogados…
Leviathan instruiu-se em fúria, ao longo dos tempos, acondicionando poder destrutivo na vontade interior de dominar o planeta, os horizontes.
Bruscas explosões sensoriais.
A presença e o peso do corpo de Leviathan – a sua pele e cauda –, em incandescência até distâncias superadas, migrando para o ponto mais distante sem rebentar e sendo lá dominado pela sua própria boca. Leviathan. O corpo do demónio era a função de dar a volta completa e instantânea ao planeta com a sua cauda que preservava na sua boca. Leviathan era uma criatura bestial, a unificação do planeta em/de si próprio, actuando como uma corda encrespada que dava a volta a si própria e se atava mais à frente. Assemelhava-se também a uma fortaleza… não…
Erro na máquina. Marteladas dentro da película. Desaparecimento da máquina.
Foi a primeira fortaleza, no horizonte terrestre, exibindo a sua inominavelmente brilhante pele e o seu porte extravagante, o que significava um hino à força interior, à base cíclica e claramente à representação duma coesa profundidade.
Leviathan nunca se confrontou directamente com adoradores de deuses. Por várias etapas e por diversas vezes, engendrou formas espalhafatosas de levar o seu rugido marítimo, a sua extensão em água, aos seios e às moradias de tais adoradores, arruinando as suas seguranças, porções de terra… e afogava-os de modo rápido para que não manchassem com sangue, vómito, fraqueza ou excrementos as purezas das cores das suas marés. Ocasionalmente mais gordo em violência com outros seres, Leviathan, através dos saltos ao nível do firmamento, depositava a sua água; nuvens que desafiavam a imaginação dos terrestres. Chovia estrondosa e categoricamente, pingas do tamanho de rochas profanavam a incredulidade e rebentavam com regiões e extensões de terra. A chuva fulminante. A chuva de Leviathan que, subindo ao céu, criava nuvens e das quais vertiam quantidades destruidoras do seu bem: a água atormentada ou da angústia. Os adoradores de deuses eram reduzidos a H2O, ao invés do pó, indo a desaguar no covil de Leviathan.
Leviathan ergueu Atlântida, inicialmente num pensamento de estar à superfície. Mais tarde, raptou milhares de humanos para formar a sua elite de habitantes, humanos de água, escolhidos por não terem moralismos nem religiões, mas um código individualista. Dir-se-iam ou chamar-se-iam de insanos.
Atlântida: lenda, utopia do Homem subaquaticamente desenvolvido. As maiores riquezas, os maiores tesouros, nos oceanos apareciam e Leviathan apropriava-se. A parte principal da cidade de Atlântida tinha um régio palácio feito em marfim, ouro e prata. Para além de que a cidade fazia sobressair pontes, canais, templos e pistas de corrida de cavalos. O tempo da cidade à vista dos olhos da superfície terrestre já foi esquecido, tanto faz hoje a mesma estar submersa perto de Portugal ou da China ou inclusive à deriva subaquaticamente. O mérito nunca foi dos tempos de hoje ou semelhantes.
Atlântida existiu nos seus moldes de riqueza, avanço e poder. Quando estava à tona de água, a cidade era um total vislumbre, qual oferenda superior aos olhos dos humanos em terra. Na perspectiva daqueles com a alma em terra, Atlântida parecia a terra da bonança e da realização. Leviathan inventou o mecanismo que suportava a cidade à superfície da água. O mecanismo era a magnitude das energias e dos talentos dos humanos de água, mecanismo portanto qualitativo mais do que quantitativo. Havia, por outro lado, um factor inimigo do factor do mecanismo de Atlântida vigente naqueles tempos, que conhecido era por soma da inveja dos humanos de terra. A procriação das espécies em terra acontecia mais rapidamente do que em água. A soma era mais quantitativa e o mecanismo da cidade de Atlântida veio a cair por água abaixo, precipitando assim à imersão de Atlântida, que na água quis juntar-se à harmonia.
Em Atlântida submersa, Leviathan vivia feliz. Juntamente com os seus habitantes, originou avanços arquitectónicos baseados nas linhas subaquáticas que alteraram para o resto dos tempos a relação entre os criadores e o meio e do que da mesma resultava. A arte, a personalidade, o pensamento e a riqueza da cidade eram vastas, únicas e com a fundamental realização responsável dos intérpretes. Leviathan tinha templos, estátuas e jóias em sua menção, alguns destes erários da autoria das suas mãos ou dos poderes da ausência delas e outros da autoria dos humanos de água. Parecendo tal detalhe uma reprodução equiparável de outros povos a deuses e criaturas adorados, o que falta revelar é que não existia submissão de crença ou prestação de sacrifício, cegueira mental, por parte dos humanos de água a Leviathan em Atlântida. Entre eles soava a camaradagem, o ânimo e júbilo. Embora, com aquela idade e comprimento, nenhum humano ousou cuspir-lhe.
Atlântida. O diamante de Leviathan... Leviathan, aquele colosso de marés, a massa das marés, corpo grotesco de propagações aquáticas cujas descreviam elipses possantes para as formas encantadoramente demoníacas, representa a estação do ano das chuvas que se intitula Inverno, representa poços de água, o ponto cardial oeste, os dilúvios desgraçados que fulminam campos, regiões, países, enfim, carreiras importantes de agricultores.
Leviathan espraia-se sobre a terra da Terra com os seus óculos de nuvens e perfume icónico de H2O. Ele é tinta anciã que arrasa o calor de obstinadas parvoíces. Queira ele defender o planeta do aquecimento global. Representa o fenómeno adverso à fé da luz branca e do pensamento evangelista. Leviathan é uma personificação literária de força, simbolismo carnal e individualidade elitista, nos poros da pele daqueles criativos e capazes de novos pontos de vista instintivos; naturalmente originário, Leviathan, uma tatuagem num pulso magro, a tinta preta, tinta de uma chuva grossa, assaz sólida, uma tatuagem de linhas de retrato, retrato ideal girando aos ponteiros dos relógios agarrados…
Abundantes indivíduos fazem motes pedantes em volta de tudo e mais qualquer coisa, mas falham, ocasional ou diariamente. Aparências e clichés são dos mais habilidosos truques de ilusão. E para mais zombaria, palavras com outros sentidos são usadas à força onde não deviam estar; só pelo gozo. O que serve a diferenciar casos concretos com o geral é a metodologia de recuperar de uma queda face aos motes, assim como a intensidade prestada entre a teoria e prática do viver bem a vida. Resmungam, querem mudança? Ir até outro lado, vamos, tomar a diversão em vitória, visto que se queixam da permanência no mesmo local. No entanto, quando alguém se decide finalmente ao primeiro passo, acobardam-se os resmungões dos motes, em instantâneo.
Nunca é erótico resumir uma diversidade de manias.
Uma viagem literária a um universo pessoal pode trazer enjoo mesmo àqueles que nunca enjoaram nas suas vidas. Nem se fala na morte, porque nela não há estômagos, porque tais são usados para forros.
O universo pessoal que foi introduzido a alguns viajantes deu à luz algumas personagens. E como a viagem está quase no fim, as personagens tornam-se despedidas e portões desse mesmo universo pessoal. As personagens vêm ter à mãe, à chupeta, disciplinadas. As honras da casa pelas intervenções das personagens. Uma tertúlia possuída com as personagens preexistentes. Reunidas aos viajantes literários, como rodapés dinâmicos, opinam acerca da última paisagem equivocada, a água. Conversam, vagueiam.
Haverá personalidade múltipla em quem escreve os textos? As personagens serão reais? As personagens e os textos serão somente criados para gozar com o leitor? O leitor é apenas leitor? O narrador é alguma das personagens ou então conhece alguma delas? O narrador transmite a sensação de observar alguma coisa ou é somente um possuído pelo gozo? E o escritor é alguma das personagens ou então conhece alguma delas? O escritor transmite a sensação de saber escrever ou simplesmente de confundir e arruinar interesses?
As personagens são os leitores e os leitores são o escritor e o escritor as personagens. Os leitores são as personagens e as personagens o escritor. O narrador nunca existiu. Foi uma palavra. A cabeça dá a volta a algo e trinca a cauda. As personagens são escamas de Leviathan, as de agora, todas. Não é conhecimento feliz, é franqueza. Leviathan nas escamas pode também albergar vírus, venenos e gases de variados efeitos. E num voo rasante, contaminar tudo e todos em terra. Ergue-se ao firmamento com cascatas ao seu redor, forças molhadas que nos ratam as cabeças, as maiores cascatas do universo. E as personagens preexistentes da tertúlia sobre a viagem pelos textos caem aflitivamente.
Na prisão de um muro, o ego baldio pode ser de qualquer humano.
Eu sempre tive medo da água, de nadar no mar, desde aquele momento em que, subitamente, os raios do sol me cegaram, uma onda assanhada roubou-me o equilíbrio, caí sem pé numa segunda onda não tão assanhada e a minha visão se tornou completamente aquática, aflita e caricata. Aquele momento deixou-me envergonhado, sem apetite para nadar no mar, apenas para observá-lo.
Eu não era feliz comigo próprio, com o defeito que me apareceu no pulmão que invalidava experimentar mergulho, fosse com apoio ou não. A raiva crescia dentro de mim, mexia e revolvia. Alimentei um vulcão de raiva, mesmo que serpente raivosa fosse Leviathan. O resultado da fricção entre vontade e raiva foi o de cometer erro. Decidi, um dia, mergulhar, pagando a uma dessas companhias quaisquer de mergulho.
Cometi o erro de experimentar mergulho, contrariando o facto de não poder fazê-lo pelo colapso que o meu pulmão tivera.
No instante em que mergulhei com o referente equipamento, senti tranquilidade em crescendo, como se acabado de entrar na nata de um leite morno, simpático, pronto para mim, só para mim. Mergulhar naquele mar pareceu realmente bom, por proporcionar tranquilidade, interacção com presenças marítimas e emoções genuínas.
Aquele pedaço de mar dentro do mar apagou o meu vulcão de raiva, só que… a visão depois ficou perturbada, o peito aturdia-se e fulminava-se com baques fortes, a respiração perdia-se e eu caí numa feia zona de rocha marítima. A equipa de apoio socorreu-me prontamente, rapidamente. Não sabiam o que me tinha acontecido, desconheciam o meu problema. Ainda por cima era Sexta-feira e se calhar, à surpresa daquele episódio, eu haveria estragado o fim-de-semana deles.
Acordei num hospital. Numa cama moderna, mas esquisita para as costas. Reparei no meu estado. A minha cara devia estar entalada de dores, de efeitos de alguns medicamentos e de cor geral de hospital. Um dreno sugava-me a porcaria largada pelo pulmão, devido à cirurgia que eu ali não recordava. Já havia escutado aspiradores domésticos mais ternos do que aquilo. O meu nariz era penetrado por tubinhos; metia dó.
Caminhei devagarinho até uma janela, onde se podia avistar a rua principal. Senti uma mágoa enorme, um sentimento de abandono, entre outras coisas. As lágrimas tímidas mas verdadeiras apareceram, mas ninguém as saudou. Eu estava sozinho, por ter que ser desse modo. Tudo estava magoado e errado para mim, naquele momento. Eu estava. Queria apenas fugir para minha casa, para os meus. Imaginei uma criança furada como panos por dentro… e era eu.
Vibrações dissonantes de fome literária. E havemos de amar um mar.
Sentei-me na zona da areia que o mar molhava remeloso e vi aparecer no colo do horizonte o corpo serpenteado de Leviathan. Aí é que ganhei consciência de que já tinha sentido este tipo de aparição, pois sempre pensei que eram delírios ou pesadelos de uma droga qualquer. Fui até à água do mar, a qual estava incrivelmente atraente… e fui…
De uma pequena ideia nascem grandes aborrecimentos.
A Sabrina, vaidosa, orgulhosa, a dona de um cabelo esbelto, teve uma relação comummente profícua com a água. Para ela, nas pequenas coisas encontram-se as grandes sensações e no final de contas é disso mesmo que a vida se trata. Grandes e pequenas e sensações e coisas.
A apaixonada por café, recordava no vício dela o sentido certo de numa pequena coisa encontrar, espraiar-se, uma grande sensação. A bebedora de café tentou preservar a pureza da água, dos rios, através de vigília, aconselhamento e associativismos sociais à volta da problemática da poluição. Os olhos de Sabrina despertavam júbilo quando observava a corrente de um rio límpido, por entenderem a importância daquele bem, daquela preciosidade. Na altura de Inverno, como que por admiração aos povos que por tradição tomavam banho em água gélida para desentranharem achaques e tornarem em peles velhas dores interiores, num masoquismo físico no sádico H2O, a Sabrina mergulhava no gozo de uma cascata mais recôndita, então banhando-se em violência de alteração de temperatura e privilégio de esquecer a realidade. E nunca se permitiu a sujar a água com pêlos que pudessem desprender-se do seu corpo.
A personalidade de Sabrina era uma maquilhada freira face à limpeza, ao cuidado e tratamento da água, uma voz na mente da Sabrina em gargalhadas: não esquecer que água mais limpa, café mais saboroso.
Um espectro ilimitável domina qualquer tertúlia.
Água para o Ivo era mais uma coisa ao seu alcance rudimentar. Não praticava directamente o uso da mesma nos cozinhados, por ter quem cozinhasse para ele. Usava a água sem moderação; moderação: palavra ou conceito inexistente no seu dicionário mais natural.
Lavar os pés é com água, aí sim; dissertação sarcástica de Ivo, que olhava de pronta sobranceria para a importância da água. Ignorava a quantidade de produtos do seu quotidiano que existiam nas suas composições com água, ignorava a essência, por causa da cegueira que o whisky lhe administrava, bebida que para ele era a base energética, ao invés do H2O. Se existiu uma canção a ser ouvida pelo fio corrente da vida de Ivo, essa teria que ser a do som do whisky a ser neutralizado pela sua garganta, uma prodigiosa galeria de estrondos ardentes.
Ivo conceituara mormente a comparação entre água e a expulsão da mesma pelo corpo, numa presença ignorante de razão sua; se o corpo fazia expulsar, expulsava, a água ingerida, isso demonstrava a sua futilidade. A urina expulsa do seu corpo era uma das provas favoritas, a qual com a cor e o odor característicos, preenchia adultas zonas da água do mar, quando Ivo ia a banhos. Urinava água na água do mar. Urinava por poder. Salgava-a.
Mimos de loucura a trote pelas imagens.
Eles voltaram a cruzar-se e juntos têm arrepiado caminho.
Acalmaram-se inúmeras vezes, expeditos e joviais, defronte ao mar, vendo a sua vastidão, estimando a força marítima e também guardando na ideia a beleza da água a reflectir as cores do firmamento. A água era uma beleza líquida, um espelho directo. Eles conheciam o toque molhado dos dias de chuva, aquele manifesto de água generosa que vinha cair sobre eles, libertando as suas inércias e apelando às suas imaginações. Eles gostavam de dar asas à sexualidade, encharcados, defronte ao mar. O espelho tudo mostrava, homogeneizadas sensações carnais. A água era a metáfora dos seus corpos.
Eles eram uns fantasistas do prazer inditoso, apaixonantes de se verem a pavonear as suas graças e sensualidades provocatórias publicamente, cumprindo melhorias por altruísmo. A transpiração dos corpos deles equivalia a camadas luxuriosas de mel num oásis perfumado com especiarias de sonho. E eles transpiravam emoções fortes e água. A água ensinara-lhes a lição da vida de alimentar as plantas, os animais e os humanos, por isso viviam agradavelmente a cumprir equiparável papel, o de incitar e inflamar as predilecções à sua volta. Eles eram professores e alunos da Natureza, tal-qualmente lagoas formosas que saciavam línguas do mundo. O Homem pode até ser descrito como pó, terra e areia, mas só depois de afirmar-se de que é feito de água, também.
Um quarto modelo saiu para conversar connosco. Uma ondulante jornada por todas as histórias. O quarto modelo exibiu-se, não obstante, julgado não será, julgado é o mundo. A maior interiorização que se faz é a presença de uma única cara para um início e um fim. A quarta entidade interage com as personalidades dos anteriores modelos e com eles se reúne como que em celebração vitoriosa. Enroscando-se na inexistência de água na opulência do ambiente, rígido de escamas e lambareiro com a língua medonhamente bifurcada de fora, esbelto e poder abismal… sob as labaredas da boca do panteão… Leviathan senta-se, permite-se a uns urros de campeão com os seus camaradas campeões e a uns brindes maníacos, nutritivos, molhados… e o quarto trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e não falta nenhum. O ritual dos quatro demónios do panteão começa a sua fase crucial, para originar e sacudir ímpetos de energia negra, trevas naturais, por todo o Cosmos, engolindo buracos negros e voltando aos ritualistas. São demónios ou um de nós?
Os piores momentos serão as despedidas ou, pelo menos, as sensações das mesmas. Antes, talvez, uma noite ao relento no Inverno do que uma choradeira com palavras falsas. Não haverá próxima teatralização de confusões… as palavras jamais voltarão aqui, os recintos armazenam-se e os gozos já foram todos disparados. Não há nada para explicar, há para caluniar. Possuir foi gozar, sem referências privadas. E cada qual tem o demónio que merece. Todos são exactamente isso: o demónio que merece ser.
Antes do final, enviai um papel com uma mensagem. Será um recinto de possessão para o gozo de alguém. Enviar. Eu, tu, ele, ela, nós, vós, eles e elas, enviar, a mim, a ti, a ele, a ela, a nós, a vós, a eles, a elas.
Com amor.
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