Sou um bolso de trás das calças que eu vi,
Um fecho e bolso.
Descose-me da ganga fria,
Cose-me no interior de ti,
Na temperatura da tua carne
E faz de mim,
Um bolso de sangue,
Fecho e bolso.
domingo, 22 de Novembro de 2009
quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio (IX) - Lúcifer

Pícaro mundo,
Irreflectidamente perceberás quem sou, não através do modo como escrevo as coisas, mas sim através da apresentação clara do meu nome, (emendo) o nome que atribuíram à minha entidade, Lúcifer.
Não são capitais as crenças, os ideais, as nacionalidades, os jogos ou as cores que os leitores do mundo que esta carta encontrarão defendem, porque capital – complementar e absoluto – é que eu sou o ar, o conhecimento provecto, a sabedoria, o portador da luz, a força edificante da iluminação, a estrela da manhã, o ponto cardial este e outras singularidades.
Eu faço de anfitrião do Outono, o Outono cintilante em classe e fascínio de artes e talentos, de agora. Saúdo; saúdem o Outono! E eu saúdo-te, mundo, excitado por saber que me conheces ou simplesmente leste as letras do meu nome em qualquer ocasião!
Esta carta redigida para o mundo ler afogueia-se de alguma indulgência ante o meu ego e seres que me são semelhantes: os vampiros. Sim, os vampiros! Tenho já a necessidade de avisar toda a humanidade do desrespeito que têm prestado a estes seres começados pela letra v. Senti a inevitabilidade em fazer esta carta para provar a minha intolerância perante o mundo, que significa agora estar às claras apertado e deveras desabrigado, revelando, para que estaquem as semidoidas intervenções humanas, linhas de segredos em determinado código, condutas que costumam ser apenas dos vampiros. Sabedoria vampírica.
Precisamente, estou farto das coisas que tenho visto a acontecer, que ouço a acontecer, que prevejo a acontecer a ver e a ouvir. E o que mais devo e permito-me a expressar é que eu posso fazer o que estou a fazer, não obstante que sou eu quem pode e manda. O meu compromisso de jornada é permanecer, como permaneci, escondido com o conhecimento para mim e para os meus que da dignidade são alvos, mas, precisamente, eu fartei-me!
Origino estas linhas de monólogo escrito, porque eu sou o pai dos vampiros e nessa qualidade defendo, atacando o mundo, os patrimónios, os objectivos e os legados vampíricos que têm vindo a ser mascados e pregados com ignomínia.
Sou o primeiro! O disparo, a rota e o alvo de uma bala, a insalubre bala que eu próprio sou e sou eu próprio. E sou e fui o primeiro, porque a estrela da manhã, a do conhecimento, é parte de mim, sou eu, a parte diurna que inicia lutas, contagens e mais extensões, apesar das estórias insculpidas que inseriram outras personagens em detrimento do elitismo da minha. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! Fui, sou, fui, sou, fui, sou… o ancião vampírico!
A dança por palavras já conduziu, conduzindo, à revelação principal nesta carta, com a qual é o mundo presenteado: Lúcifer, o mordaz, o anjo caído, o primeiro, a mordidela original. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! O ancião deles.
Sim, eu, Lúcifer, estou então por perto, coabitando a simpáticos quilómetros da vossa vizinhança. Estou no meio de vós como qualquer outro, estou; é o principal. Quer dizer, no meio de vós não estou realmente, pois sou adepto das larguezas. Sou romano, daí… apaixonado por largas infra-estruturas, recursos; as peles e as minhas munições, nascido e criado e ainda fortalecido; Lúcifer, romano, Lúcifer. Primeiro dardo, espeto, a lutar contra as religiosidades convencionais romanas e até o primeiro a desejar a proclamação da essência natural, a invocar energias luzidias das pedras que me prepararam nome e som.
Apesar das idades que conto, dos aniversários que pesam, encaro-me como um ser jovial, espirituoso de ideais e apaixonado pela vida que levo em sensações sumarentas, maliciosas, sobretudo por sempre respirar uma imensa borga, um estado alucinatório que possui o núcleo do meu desejo nuclear.
Permito-me preleccionar, neste instante que já é hora, em alçadas próprias e reais do vampirismo. Quero ensinar-te, mundo!
Vampiro é aquele que se alimenta de energia vital e não de sangue, porque sangue – pensando como numa pasta líquida vermelha humana – é perigoso e transporta e sabe a doenças. Os fanáticos por sangue devem perceber de uma vez por todas que metáforas são hinos neste tema do vampirismo. Somente os doentes e as aberrações se ajoelharão perante a ingestão de fluidos como o sangue que são tão nocivos quanto nojentos. E eu e os guerreiros da minha espécie e casta, doentes e aberrações é o que não somos, apesar de serem destas formas que procuram intitular-nos. Prosseguindo. Toda e qualquer referência a sangue impregnada nos nossos discursos e/ou simbolismos é portanto metáfora (e figuras e figurinhas de estilo equiparáveis), absorvendo a partir disto a energia e os entusiasmos que são retirados às vítimas. A energia vital que extraímos dos humanos e doutros animais é a chave da nossa caminhada para o império terrestre e uma utopia quiçá aberta. Apesar de insinuar e sugerir-te isto, mundo, não te ensinarei o porque do/no porquê nem como. Na exposição continua o secretismo e vice-versa.
Boa parte da realidade faz-se na ocultação de algo por cima de algo ou entre algo. Isto faz entrar no pensamento que tantas são as verdades no mundo moderno disfarçadas em mentiras. As informações nobres do vampirismo na desinformação corrente. Tanto melhor! Chega lá quem sabe; alguma parte deste tópico é-te familiar, mundo? Aqueles que falam sei que não sabem. Aqueles que sabem sei que não falam. E eu sei e eu falo, porque deparei-me com um dia e uma hora deste novo mundo que despertou cá dentro um incrível azedume que há muitas eras não sentia. O advento das relações por meios tecnológicos castradores das genialidades, das discussões à mesa com seres de interesses semelhantes, a pretensa literatura e rasco conhecimento que se gerou à volta dos meus semelhantes, à volta das minhas tradições. Atacaram a balança da beleza vampírica.
As parvoíces pavoneadas por ti, mundo, lançaram-me para o interior desta carta como uma advertência de enorme ira pelo perturbar e pela troça às/das leis que prevalecem sobre os meus poderes, as minhas naturezas, as minhas indumentárias e os meus camaradas. Sei da raça humana a gracejar e praguejar coisas como que a vida é um jogo, um curto espaço, uma passagem, mas para mim não é nada disso. É uma imortalidade, uma obediência para com os meus instintos de predador, uma verdade cruel que tanto tem de prazer como de dor. Se pelo menos a raça humana gracejasse e praguejasse sobre o que diz do modo como diz, vivendo por entusiasmo e vontade construtivos, o defeito e a gordura eram menores…
Testar tudo e não crer em nada! Falar de coisas sem as tomar por garantidas e sim testá-las, fazer com que trabalhem para a realização de alguma coisa, é geometria para as minhas mãos. E para as tuas, mundo? Pelo que tenho conhecido, a resposta é não. Ou andas maneta ou somente estúpido, o que é por si só muito grave.
Prosseguindo. Eu, como vampiro, levo a minha vida nocturna numa grande moradia de praia. Deito-me grande parte das noites de maior preguiça sobre a areia da praia, apanhando o feitiço do luar. Momentos de banhos de lua. E de manhã, transporto o meu corpo astral para fazer de corpo da estrela da manhã, fazer de estrela da manhã, enquanto vou resguardando, em segredo seguro, o meu corpo mais físico debaixo da areia húmida. Tal localização é parte de uma passagem que liga aquele ponto da praia à cave da minha moradia; é o mais discreto que conheço; o mais cuidado; vós, humanos deste mundo, que se estiverdes pela praia naquele local, atenção! ... bem que eu posso estar por debaixo das vossas toalhas de ilustrações da moda.
Com a minha moradia sobre um magnífico penhasco de praia, a existência nocturna embeleza-se com a paisagem, com os sons e com os acontecimentos marítimos em redor. Desde horas de estudo, desde horas de escrita, desde horas de caça, desde horas de prazer e lazer até horas de socialização elitista, a moradia que actualmente detenho faz jus aos meus pensamentos estrategicamente volumosos.
E por fazer referência a isto, quero agora passar o desabafo de que por vezes encontro-me num vórtice de tarefas, projectos e passos, em mistura, o que me deixa exausto. No entanto, dou a volta a esta problemática de origem pessoal. Felizmente. Como pratico várias disciplinas vampíricas, como é o caso do animalismo, da metamorfose, da alindada presença, da potência de acção, da rapidez, da ofuscação, da dominação, da demência, do auspício vital, etc., por ser o pai dos vampiros e o responsável por ter definido com base na atribuição de disciplinas diferentes a cada género de vampiros, mas possuir todas como criador das mesmas, gera-se o conflito de atitudes e escolhas pessoais. A carga de habilidades em curto-circuito. Tomando, porém, de seguida consciência da errada atitude em mim, entro na disciplina vampírica que concede o ideal equilíbrio à questão, colocando a meio gás – ou mesmo adiando – algumas coisas para conseguir outras. Exacto, porque vale de pouco colher muitas frentes ou muitos estudos, devido às capacidades atrofiarem e não permitirem materialização plena ou a um nível exemplar. Daí a especialização, o pragmatismo, a escolha e o momento próprio serem mecânicas importantes no conhecimento e na sabedoria; cenários na minha jornada e da minha natureza; anexem este desabafo, anexem para vencerem mais e melhor.
Acontece lá fora, ali, aí, acolá, uma guerra! E, dentro desta, outras! Guerras pequenas que ignoram que os seus objectivos são sugados para os objectivos da guerra maior, guerras pequenas que acontecem dentro e em prol da grande guerra, a dos vampiros. Ninguém sabe, alguns pressentem, outros negam. O facto de terem sido produzidas mitologias em volta dos vampiros e o facto de terem sido criadas encenações para a teoria da nossa existência plena, contribuem para que sejamos os beneficiados, pois pudemos sempre caminhar e agir sem grande sobressalto, por a negação e crença em provas originarem os maiores paradoxos e atritos conhecidos. As mentiras que são verdades fulminam-se nas verdades que são mentiras e não há indícios de vantagem. Mais, as paredes ficam a obstruírem-se, enquanto nós levitamos as nossas supremacias e gargalhadas!
Represento a ideia de total conhecimento, luz e inteligência para aqueles que vivem com a curiosidade iluminada e não só. Sou ventos e tempestades, pedras preciosas, de alcance exigente. Todavia, deixemos agora para lá estas pistas descritivas de personalidade para contar-te, mundo, uns pares de cenas da minha vida, da minha rotina.
Perpetuidade de ternuras e ronhas, junto ao meu caixão. Enlaces de conquistas seguidas, apertões que fazem os olhos esbugalhados saltarem das órbitas alegres, seduções de peles brancas e frias. Folhas das estações em ventres com nódoas que conheci sempre. Beijos e romantismos profundos, toques nos ossos. Noites de beleza vertiginosa, criações condoídas, bruxarias e vampirismo. A imortalidade é um peso ao qual não escapo, mas a ela junto conhecimento, dureza e prazer. Injecções. Injecções estas que alargam os meus ombros para melhor suportar o peso de ser imortal. Eu já tenho eras e eras em cima dos ombros, mas por elas posso dizer obrigado, transpondo esta carta para a soma das íris e pupilas dos olhos que comi às minhas vítimas. Sangue com a vitalidade certa, gritos e vitaminas, poros lambuzados, obrigado que digo, devido a ter preenchido o meu ser de enlevo e poderoso sabor, engoli, digeri (não regurgitei) e satisfiz-me.
Pelas chamas das noites, bebendo energia vital das vítimas, as suas auras vaidosas, as gotas de sangue encenadas… é isto, é o que faço, caminhar; levitar; voar; fazer de todas as noites o maior sítio de contentamento momentâneo!
A minha existência tem pontos diferentes, situações diversas; naturalmente. Acontece por vezes reunir-me com outros vampiros, membros activos da comunidade vampírica mundial, numa mansão na República Checa ou noutras mansões doutros países, e informarmo-nos de situações, problemas e festas e etc., discutindo o que houver para resolver. Recentemente estive na Roménia, numa assembleia de compra e venda de objectos vampíricos (acontecimentos normais e nos quais penetramos disfarçadamente na maré humana), encontrados recentemente na herança de senhores portugueses, bem como por lá estive presente em aniquilamentos de vampiros traidores e por fim permiti-me assistir a partir de uma galeria privada, num museu medieval, a rituais de vampiros em ascensão ou pretensão e simples orgias com vampiros, humanos viciados em fetiches e membros de múltiplos cleros (devorados após os seus orgasmos), às quais apenas assisto, pois estou já um pouco ultrapassado para brincadeiras dessas com tanta gente ao mesmo tempo!
Os morcegos, os muitos que compõem a minha estirpe domesticada – fiéis companheiros –, testemunham invariavelmente os gritos da bela paixão que nutro por conhecimento e pela entrega de tal aos meus súbditos. Os morcegos e os habitantes pequenos da noite assistem sem cansaço aos momentos sexuais, extasiados, aquando de investidas vampíricas e esses orgasmos de sucção e incorporação faustosa das vitalidades conquistadas transmitem energias poderosas à natureza, à nossa volta. Não há dúvida; pois sente-se electricidade em todo o ambiente. Os vampiros são os provocadores superiores de mudanças astrais no universo. Não hajam dúvidas…
As passagens das brisas, do som das chuvas, dos salpicos da água do mar, denunciam o passar dos dias e dos anos, se bem que nada quase transmitem à minha luz existencial, devido à imortalidade.
Aquando do dia mais marcante em qualquer calendário universal, cósmico, que é logicamente o meu aniversário, este ancião dos vampiros parte para o Egipto. Local de beleza e sapiência milenares, cósmicas, que serve tal-qualmente de ponto de encontro com os mais interessantes camaradas que conheço, assim como para rituais próprios, recreio para saciar a sede e indulgência de descobertas. Lá, nas alturas perfeitas, o céu é negro, queimado como tudo e lindo. O céu queimado decorado por ventos de fogo peludos e ardis, ventos que fazem as vegetações secas e mortas abraçar o nada, o sobressalto. A areia, essa completamente desassossegada, não pára de atirar-se aos meus trajos compridos; parece que felicita-me… tudo, quente e colado, sobre e entre, a areia, pelo deserto fora. Eu permito-me a devaneios compridos nesses momentos, avistando igualmente as dunas mirabolantes, que merecem guardar terrores e riquezas dentro delas e ainda fazem companhia a regiões estonteantemente quadrangulares de areias movediças. Regiões e áreas. Áreas e regiões que com certeza guardam terrores e outras riquezas.
As pirâmides enormes e imensas… imensas e enormes… em/de formatos e aparências – ipsis verbis – robustas, inertes e valiosamente belas. No meu último aniversário entrei como comummente na pirâmide que se encontra escondida das consciências, das noções e dos olhos humanos – exactamente, também e apenas os meus filhos sabem dela e como a alcançar –, a qual simboliza, para a identidade vampírica, o amor individual, a força vampírica, a amplitude das disciplinas vampíricas, a arte vampírica, a fórmula imortal, etc.
Todas as visitas deste género à pirâmide é o bombear intenso de um vislumbre a várias câmaras fúnebres de antepassados. É excepcionalmente arrepiante! Tudo cheira a morte, tudo cheira a antigo, tudo cheira a sabedoria, tudo cheira a perseverança, tudo cheira a ritualismo, tudo cheira a misticismo, tudo cheira a vaidade e crenças imortais que vivem. Tudo cheira a mim próprio, devido à pirâmide implementar a representação do próprio ego. Antes de sair da pirâmide, da última vez, trouxe umas peças de valor: umas coroas; uns frascos; cinco ou seis armas; algumas jóias; uns ornamentos e também amuletos.
Regozijo-me com presentes, ofertar a mim próprio coisas fabulosas! E a pirâmide dos vampiros é completamente a pirâmide dos vampiros…
Após ter informado, avisado e descrito, satisfeito estou no nosso covil, algures numa das praias embelezadas pela morte da lua nesta noite. A caneta e as folhas serviram bem o meu propósito. Não levarei, por certo, uma eternidade de tempo até lançar estas palavras para o seio dos teus humanos, mundo, mas aqui nas minhas dimensões e nos meus mundos vampíricos posso ficar nem que seja uma eternidade de tempo a aguardar por essas tuas respostas/reacções. No quentinho da minha curiosidade, junto das minhas velas a arder, imortais velas a arder… fico de olho em ti, mundo.
Despeço-me com considerável atenção na energia vital humana. Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a aumentar os teus caminhos com vítimas para os meus súbditos e semelhantes e, principalmente, para mim. Não te ensaies nisso! Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a ser tu próprio, porque fico eu com os meus a perceber as diferenças entre as coisas e os seres e afins inomináveis, não pelas cores mas pelos méritos.
Apesar da leitura atenta a esta carta, nunca irás conquistar aquilo que posso conquistar em ti e a ti!
Apesar de avisado, mundo, desejo que multipliques o belo, o feio ou misturas com e sem sabor, mas pára, por favor, de transformar poderosas ocorrências do vampirismo nos teus argumentos lamechas para filmes e/ou em histórias de livros de embalar que vendes. Este pedido não é porque eu esteja a ficar com a provisão de lenços de papel em baixo, mas porque tamanho mau gosto deixa-me com pele de galinha durante eras…
Não são capitais as crenças, os ideais, as nacionalidades, os jogos ou as cores que os leitores do mundo que esta carta encontrarão defendem, porque capital – complementar e absoluto – é que eu sou o ar, o conhecimento provecto, a sabedoria, o portador da luz, a força edificante da iluminação, a estrela da manhã, o ponto cardial este e outras singularidades.
Eu faço de anfitrião do Outono, o Outono cintilante em classe e fascínio de artes e talentos, de agora. Saúdo; saúdem o Outono! E eu saúdo-te, mundo, excitado por saber que me conheces ou simplesmente leste as letras do meu nome em qualquer ocasião!
Esta carta redigida para o mundo ler afogueia-se de alguma indulgência ante o meu ego e seres que me são semelhantes: os vampiros. Sim, os vampiros! Tenho já a necessidade de avisar toda a humanidade do desrespeito que têm prestado a estes seres começados pela letra v. Senti a inevitabilidade em fazer esta carta para provar a minha intolerância perante o mundo, que significa agora estar às claras apertado e deveras desabrigado, revelando, para que estaquem as semidoidas intervenções humanas, linhas de segredos em determinado código, condutas que costumam ser apenas dos vampiros. Sabedoria vampírica.
Precisamente, estou farto das coisas que tenho visto a acontecer, que ouço a acontecer, que prevejo a acontecer a ver e a ouvir. E o que mais devo e permito-me a expressar é que eu posso fazer o que estou a fazer, não obstante que sou eu quem pode e manda. O meu compromisso de jornada é permanecer, como permaneci, escondido com o conhecimento para mim e para os meus que da dignidade são alvos, mas, precisamente, eu fartei-me!
Origino estas linhas de monólogo escrito, porque eu sou o pai dos vampiros e nessa qualidade defendo, atacando o mundo, os patrimónios, os objectivos e os legados vampíricos que têm vindo a ser mascados e pregados com ignomínia.
Sou o primeiro! O disparo, a rota e o alvo de uma bala, a insalubre bala que eu próprio sou e sou eu próprio. E sou e fui o primeiro, porque a estrela da manhã, a do conhecimento, é parte de mim, sou eu, a parte diurna que inicia lutas, contagens e mais extensões, apesar das estórias insculpidas que inseriram outras personagens em detrimento do elitismo da minha. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! Fui, sou, fui, sou, fui, sou… o ancião vampírico!
A dança por palavras já conduziu, conduzindo, à revelação principal nesta carta, com a qual é o mundo presenteado: Lúcifer, o mordaz, o anjo caído, o primeiro, a mordidela original. Sou eu, sim, eu, eu sou o pai dos vampiros! O ancião deles.
Sim, eu, Lúcifer, estou então por perto, coabitando a simpáticos quilómetros da vossa vizinhança. Estou no meio de vós como qualquer outro, estou; é o principal. Quer dizer, no meio de vós não estou realmente, pois sou adepto das larguezas. Sou romano, daí… apaixonado por largas infra-estruturas, recursos; as peles e as minhas munições, nascido e criado e ainda fortalecido; Lúcifer, romano, Lúcifer. Primeiro dardo, espeto, a lutar contra as religiosidades convencionais romanas e até o primeiro a desejar a proclamação da essência natural, a invocar energias luzidias das pedras que me prepararam nome e som.
Apesar das idades que conto, dos aniversários que pesam, encaro-me como um ser jovial, espirituoso de ideais e apaixonado pela vida que levo em sensações sumarentas, maliciosas, sobretudo por sempre respirar uma imensa borga, um estado alucinatório que possui o núcleo do meu desejo nuclear.
Permito-me preleccionar, neste instante que já é hora, em alçadas próprias e reais do vampirismo. Quero ensinar-te, mundo!
Vampiro é aquele que se alimenta de energia vital e não de sangue, porque sangue – pensando como numa pasta líquida vermelha humana – é perigoso e transporta e sabe a doenças. Os fanáticos por sangue devem perceber de uma vez por todas que metáforas são hinos neste tema do vampirismo. Somente os doentes e as aberrações se ajoelharão perante a ingestão de fluidos como o sangue que são tão nocivos quanto nojentos. E eu e os guerreiros da minha espécie e casta, doentes e aberrações é o que não somos, apesar de serem destas formas que procuram intitular-nos. Prosseguindo. Toda e qualquer referência a sangue impregnada nos nossos discursos e/ou simbolismos é portanto metáfora (e figuras e figurinhas de estilo equiparáveis), absorvendo a partir disto a energia e os entusiasmos que são retirados às vítimas. A energia vital que extraímos dos humanos e doutros animais é a chave da nossa caminhada para o império terrestre e uma utopia quiçá aberta. Apesar de insinuar e sugerir-te isto, mundo, não te ensinarei o porque do/no porquê nem como. Na exposição continua o secretismo e vice-versa.
Boa parte da realidade faz-se na ocultação de algo por cima de algo ou entre algo. Isto faz entrar no pensamento que tantas são as verdades no mundo moderno disfarçadas em mentiras. As informações nobres do vampirismo na desinformação corrente. Tanto melhor! Chega lá quem sabe; alguma parte deste tópico é-te familiar, mundo? Aqueles que falam sei que não sabem. Aqueles que sabem sei que não falam. E eu sei e eu falo, porque deparei-me com um dia e uma hora deste novo mundo que despertou cá dentro um incrível azedume que há muitas eras não sentia. O advento das relações por meios tecnológicos castradores das genialidades, das discussões à mesa com seres de interesses semelhantes, a pretensa literatura e rasco conhecimento que se gerou à volta dos meus semelhantes, à volta das minhas tradições. Atacaram a balança da beleza vampírica.
As parvoíces pavoneadas por ti, mundo, lançaram-me para o interior desta carta como uma advertência de enorme ira pelo perturbar e pela troça às/das leis que prevalecem sobre os meus poderes, as minhas naturezas, as minhas indumentárias e os meus camaradas. Sei da raça humana a gracejar e praguejar coisas como que a vida é um jogo, um curto espaço, uma passagem, mas para mim não é nada disso. É uma imortalidade, uma obediência para com os meus instintos de predador, uma verdade cruel que tanto tem de prazer como de dor. Se pelo menos a raça humana gracejasse e praguejasse sobre o que diz do modo como diz, vivendo por entusiasmo e vontade construtivos, o defeito e a gordura eram menores…
Testar tudo e não crer em nada! Falar de coisas sem as tomar por garantidas e sim testá-las, fazer com que trabalhem para a realização de alguma coisa, é geometria para as minhas mãos. E para as tuas, mundo? Pelo que tenho conhecido, a resposta é não. Ou andas maneta ou somente estúpido, o que é por si só muito grave.
Prosseguindo. Eu, como vampiro, levo a minha vida nocturna numa grande moradia de praia. Deito-me grande parte das noites de maior preguiça sobre a areia da praia, apanhando o feitiço do luar. Momentos de banhos de lua. E de manhã, transporto o meu corpo astral para fazer de corpo da estrela da manhã, fazer de estrela da manhã, enquanto vou resguardando, em segredo seguro, o meu corpo mais físico debaixo da areia húmida. Tal localização é parte de uma passagem que liga aquele ponto da praia à cave da minha moradia; é o mais discreto que conheço; o mais cuidado; vós, humanos deste mundo, que se estiverdes pela praia naquele local, atenção! ... bem que eu posso estar por debaixo das vossas toalhas de ilustrações da moda.
Com a minha moradia sobre um magnífico penhasco de praia, a existência nocturna embeleza-se com a paisagem, com os sons e com os acontecimentos marítimos em redor. Desde horas de estudo, desde horas de escrita, desde horas de caça, desde horas de prazer e lazer até horas de socialização elitista, a moradia que actualmente detenho faz jus aos meus pensamentos estrategicamente volumosos.
E por fazer referência a isto, quero agora passar o desabafo de que por vezes encontro-me num vórtice de tarefas, projectos e passos, em mistura, o que me deixa exausto. No entanto, dou a volta a esta problemática de origem pessoal. Felizmente. Como pratico várias disciplinas vampíricas, como é o caso do animalismo, da metamorfose, da alindada presença, da potência de acção, da rapidez, da ofuscação, da dominação, da demência, do auspício vital, etc., por ser o pai dos vampiros e o responsável por ter definido com base na atribuição de disciplinas diferentes a cada género de vampiros, mas possuir todas como criador das mesmas, gera-se o conflito de atitudes e escolhas pessoais. A carga de habilidades em curto-circuito. Tomando, porém, de seguida consciência da errada atitude em mim, entro na disciplina vampírica que concede o ideal equilíbrio à questão, colocando a meio gás – ou mesmo adiando – algumas coisas para conseguir outras. Exacto, porque vale de pouco colher muitas frentes ou muitos estudos, devido às capacidades atrofiarem e não permitirem materialização plena ou a um nível exemplar. Daí a especialização, o pragmatismo, a escolha e o momento próprio serem mecânicas importantes no conhecimento e na sabedoria; cenários na minha jornada e da minha natureza; anexem este desabafo, anexem para vencerem mais e melhor.
Acontece lá fora, ali, aí, acolá, uma guerra! E, dentro desta, outras! Guerras pequenas que ignoram que os seus objectivos são sugados para os objectivos da guerra maior, guerras pequenas que acontecem dentro e em prol da grande guerra, a dos vampiros. Ninguém sabe, alguns pressentem, outros negam. O facto de terem sido produzidas mitologias em volta dos vampiros e o facto de terem sido criadas encenações para a teoria da nossa existência plena, contribuem para que sejamos os beneficiados, pois pudemos sempre caminhar e agir sem grande sobressalto, por a negação e crença em provas originarem os maiores paradoxos e atritos conhecidos. As mentiras que são verdades fulminam-se nas verdades que são mentiras e não há indícios de vantagem. Mais, as paredes ficam a obstruírem-se, enquanto nós levitamos as nossas supremacias e gargalhadas!
Represento a ideia de total conhecimento, luz e inteligência para aqueles que vivem com a curiosidade iluminada e não só. Sou ventos e tempestades, pedras preciosas, de alcance exigente. Todavia, deixemos agora para lá estas pistas descritivas de personalidade para contar-te, mundo, uns pares de cenas da minha vida, da minha rotina.
Perpetuidade de ternuras e ronhas, junto ao meu caixão. Enlaces de conquistas seguidas, apertões que fazem os olhos esbugalhados saltarem das órbitas alegres, seduções de peles brancas e frias. Folhas das estações em ventres com nódoas que conheci sempre. Beijos e romantismos profundos, toques nos ossos. Noites de beleza vertiginosa, criações condoídas, bruxarias e vampirismo. A imortalidade é um peso ao qual não escapo, mas a ela junto conhecimento, dureza e prazer. Injecções. Injecções estas que alargam os meus ombros para melhor suportar o peso de ser imortal. Eu já tenho eras e eras em cima dos ombros, mas por elas posso dizer obrigado, transpondo esta carta para a soma das íris e pupilas dos olhos que comi às minhas vítimas. Sangue com a vitalidade certa, gritos e vitaminas, poros lambuzados, obrigado que digo, devido a ter preenchido o meu ser de enlevo e poderoso sabor, engoli, digeri (não regurgitei) e satisfiz-me.
Pelas chamas das noites, bebendo energia vital das vítimas, as suas auras vaidosas, as gotas de sangue encenadas… é isto, é o que faço, caminhar; levitar; voar; fazer de todas as noites o maior sítio de contentamento momentâneo!
A minha existência tem pontos diferentes, situações diversas; naturalmente. Acontece por vezes reunir-me com outros vampiros, membros activos da comunidade vampírica mundial, numa mansão na República Checa ou noutras mansões doutros países, e informarmo-nos de situações, problemas e festas e etc., discutindo o que houver para resolver. Recentemente estive na Roménia, numa assembleia de compra e venda de objectos vampíricos (acontecimentos normais e nos quais penetramos disfarçadamente na maré humana), encontrados recentemente na herança de senhores portugueses, bem como por lá estive presente em aniquilamentos de vampiros traidores e por fim permiti-me assistir a partir de uma galeria privada, num museu medieval, a rituais de vampiros em ascensão ou pretensão e simples orgias com vampiros, humanos viciados em fetiches e membros de múltiplos cleros (devorados após os seus orgasmos), às quais apenas assisto, pois estou já um pouco ultrapassado para brincadeiras dessas com tanta gente ao mesmo tempo!
Os morcegos, os muitos que compõem a minha estirpe domesticada – fiéis companheiros –, testemunham invariavelmente os gritos da bela paixão que nutro por conhecimento e pela entrega de tal aos meus súbditos. Os morcegos e os habitantes pequenos da noite assistem sem cansaço aos momentos sexuais, extasiados, aquando de investidas vampíricas e esses orgasmos de sucção e incorporação faustosa das vitalidades conquistadas transmitem energias poderosas à natureza, à nossa volta. Não há dúvida; pois sente-se electricidade em todo o ambiente. Os vampiros são os provocadores superiores de mudanças astrais no universo. Não hajam dúvidas…
As passagens das brisas, do som das chuvas, dos salpicos da água do mar, denunciam o passar dos dias e dos anos, se bem que nada quase transmitem à minha luz existencial, devido à imortalidade.
Aquando do dia mais marcante em qualquer calendário universal, cósmico, que é logicamente o meu aniversário, este ancião dos vampiros parte para o Egipto. Local de beleza e sapiência milenares, cósmicas, que serve tal-qualmente de ponto de encontro com os mais interessantes camaradas que conheço, assim como para rituais próprios, recreio para saciar a sede e indulgência de descobertas. Lá, nas alturas perfeitas, o céu é negro, queimado como tudo e lindo. O céu queimado decorado por ventos de fogo peludos e ardis, ventos que fazem as vegetações secas e mortas abraçar o nada, o sobressalto. A areia, essa completamente desassossegada, não pára de atirar-se aos meus trajos compridos; parece que felicita-me… tudo, quente e colado, sobre e entre, a areia, pelo deserto fora. Eu permito-me a devaneios compridos nesses momentos, avistando igualmente as dunas mirabolantes, que merecem guardar terrores e riquezas dentro delas e ainda fazem companhia a regiões estonteantemente quadrangulares de areias movediças. Regiões e áreas. Áreas e regiões que com certeza guardam terrores e outras riquezas.
As pirâmides enormes e imensas… imensas e enormes… em/de formatos e aparências – ipsis verbis – robustas, inertes e valiosamente belas. No meu último aniversário entrei como comummente na pirâmide que se encontra escondida das consciências, das noções e dos olhos humanos – exactamente, também e apenas os meus filhos sabem dela e como a alcançar –, a qual simboliza, para a identidade vampírica, o amor individual, a força vampírica, a amplitude das disciplinas vampíricas, a arte vampírica, a fórmula imortal, etc.
Todas as visitas deste género à pirâmide é o bombear intenso de um vislumbre a várias câmaras fúnebres de antepassados. É excepcionalmente arrepiante! Tudo cheira a morte, tudo cheira a antigo, tudo cheira a sabedoria, tudo cheira a perseverança, tudo cheira a ritualismo, tudo cheira a misticismo, tudo cheira a vaidade e crenças imortais que vivem. Tudo cheira a mim próprio, devido à pirâmide implementar a representação do próprio ego. Antes de sair da pirâmide, da última vez, trouxe umas peças de valor: umas coroas; uns frascos; cinco ou seis armas; algumas jóias; uns ornamentos e também amuletos.
Regozijo-me com presentes, ofertar a mim próprio coisas fabulosas! E a pirâmide dos vampiros é completamente a pirâmide dos vampiros…
Após ter informado, avisado e descrito, satisfeito estou no nosso covil, algures numa das praias embelezadas pela morte da lua nesta noite. A caneta e as folhas serviram bem o meu propósito. Não levarei, por certo, uma eternidade de tempo até lançar estas palavras para o seio dos teus humanos, mundo, mas aqui nas minhas dimensões e nos meus mundos vampíricos posso ficar nem que seja uma eternidade de tempo a aguardar por essas tuas respostas/reacções. No quentinho da minha curiosidade, junto das minhas velas a arder, imortais velas a arder… fico de olho em ti, mundo.
Despeço-me com considerável atenção na energia vital humana. Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a aumentar os teus caminhos com vítimas para os meus súbditos e semelhantes e, principalmente, para mim. Não te ensaies nisso! Apesar de avisado, mundo, desejo que continues a ser tu próprio, porque fico eu com os meus a perceber as diferenças entre as coisas e os seres e afins inomináveis, não pelas cores mas pelos méritos.
Apesar da leitura atenta a esta carta, nunca irás conquistar aquilo que posso conquistar em ti e a ti!
Apesar de avisado, mundo, desejo que multipliques o belo, o feio ou misturas com e sem sabor, mas pára, por favor, de transformar poderosas ocorrências do vampirismo nos teus argumentos lamechas para filmes e/ou em histórias de livros de embalar que vendes. Este pedido não é porque eu esteja a ficar com a provisão de lenços de papel em baixo, mas porque tamanho mau gosto deixa-me com pele de galinha durante eras…
Cumprimentos à vizinhança,
Lúcifer
P. S. Um terceiro modelo saiu para conversar connosco. Conheceu-se uma missiva com reminiscências anciãs, capacidades superiores e informações poderosas. O terceiro modelo exibiu-se, não obstante, julgado não será, julgado é o mundo. Confidenciar tornou-se de sentido geral e avisar premente. Ficou na audição e mais ainda no peito que a defesa deve ser acatada por inteligência. A terceira entidade interage com as personalidades dos anteriores modelos e com eles se reúne como que em celebração vitoriosa. Observando a sumptuosidade do ambiente, absorvido em potência, charme e luz sábia… sob as labaredas da boca do panteão… Lúcifer senta-se, permite-se a uns urros de campeão com os seus camaradas campeões e a uns brindes nutritivos, ritualistas, vermelhos… e o terceiro trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e falta um.
quarta-feira, 23 de Setembro de 2009
Crónicas (em movimento)
- Ui, que barulho!
- O quê?
- Para que é que se fazem filhos?
- Porquê?
- Dão dores de cabeça.
- Hum...
- Separaram-se e têm uma filha. Porque é que se casaram?
- Pois...
- Estupidez!
- Não faz mal. Ouves este barulho apenas por meia hora...
- Maravilha!
Um dia, tinha uma prenda a dar-lhe: um skate novo. Apesar de não saber seque equilibrar-se num, ela tinha em casa um armário repleto deles. Mais um skate não seria novidade, mas não deixaria de ser engraçado.
O modo de ver alguém a andar com um skate debaixo do braço irritava possivelmente...
Quando era ela a fazê-lo, soltava risadas: parecia mesmo um peru a ostentar um casaco de peles. Porém, antes essas figurinhas do que discutir por minutos seguidos com alguém por um lugar sujo de comboio.
- O quê?
- Para que é que se fazem filhos?
- Porquê?
- Dão dores de cabeça.
- Hum...
- Separaram-se e têm uma filha. Porque é que se casaram?
- Pois...
- Estupidez!
- Não faz mal. Ouves este barulho apenas por meia hora...
- Maravilha!
Um dia, tinha uma prenda a dar-lhe: um skate novo. Apesar de não saber seque equilibrar-se num, ela tinha em casa um armário repleto deles. Mais um skate não seria novidade, mas não deixaria de ser engraçado.
O modo de ver alguém a andar com um skate debaixo do braço irritava possivelmente...
Quando era ela a fazê-lo, soltava risadas: parecia mesmo um peru a ostentar um casaco de peles. Porém, antes essas figurinhas do que discutir por minutos seguidos com alguém por um lugar sujo de comboio.
terça-feira, 18 de Agosto de 2009
Novo anúncio
Faltam-me realizar dois textos para que a minha série Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio termine.
Sem dúvida que realizei todos os textos até ao presente dia com muito prazer, num conceito que foi pensado e explorado da melhor forma que consegui e também do modo que me apeteceu.
Escrevi para entreter, para fazer pensar, para irritar e também para ensinar algumas frases.
Em breve inicio o nono texto - a ser aqui publicado no Equinócio de Outono -, o qual intitular-se-à Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio - Lúcifer.
Revelo aqui que o mesmo contará com contornos vampíricos. Fiquem atentos.
Resto de bons serões...
Sem dúvida que realizei todos os textos até ao presente dia com muito prazer, num conceito que foi pensado e explorado da melhor forma que consegui e também do modo que me apeteceu.
Escrevi para entreter, para fazer pensar, para irritar e também para ensinar algumas frases.
Em breve inicio o nono texto - a ser aqui publicado no Equinócio de Outono -, o qual intitular-se-à Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio - Lúcifer.
Revelo aqui que o mesmo contará com contornos vampíricos. Fiquem atentos.
Resto de bons serões...
domingo, 28 de Junho de 2009
Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio (VIII) - Satan
Ouvi os galos a cantar, no outro lado da parede, ainda que distantes, audíveis. Era dia de rumar para mini-férias. Planeei a hora de sair da cama que cumpri à regra, com a ajuda dos galos. A lua do dia timidamente penetrava no quarto, enquanto eu já lavava a cara. Uma noite de anseios, uma noite mal dormida, mas que não prejudicara nada. A minha figura no espelho rachado era esguia, esquisita e com olheiras. Nada de especial, sempre igual, sempre o mesmo…
Após um duche e ter-me vestido, certifiquei-me que nada faltava na mala de viagem. O pequeno-almoço fez jus ao imaginário de si mesmo: foi pequeno. O despertar foi alegre, a boa-disposição estava redonda o suficiente e a alma maquilhada da beleza do corpo… quanto baste.
De férias, marcadas a sul do ponto da minha residência no país, procurava, na altura de sair de casa e entrar no comboio, divertir-me para ultrapassar todas as problemáticas, dores de cabeça, do trabalho e afins. Ou seja, ter o devido descanso, aproveitar prazeres e festas da vida… ninguém sabe o que passara, o que acumulara, o que engolira, até então.
Viajar até ao sul do país fora um tanto complicado. Os meus olhos normalmente queixavam-se da luz diurna, mas não apenas latejo. Dor na íris que se entranhava pelas ramificações até ao interior da minha cabeça, onde parecia existir vidros que se friccionavam uns nos outros…
A sombra, que por vezes me protegia, amenizava este mais do que latejo pela luz diurna, permitindo-me até apreciar alguma da bonita paisagem que se transmutava de região para região. A viagem, tirando isso, decorreu satisfatoriamente. A distância não era tanta quanto isso e a comodidade do transporte contribuiu para que tudo decorresse melhor. Vi pessoas distintas, grupos de amigos que viajavam, assim como namorados juntinhos e de sorriso de orelha a orelha, sorrisos lamechas, falando baixinho sobre o que iam fazer quando chegassem ao destino. Alguns estrangeiros ajudaram a preencher o comboio, partilhando com os restantes passageiros os seus lemas da vida ser bela, da moda barata em países mediterrânicos e os seus belos sotaques quando tentaram o português…
A viagem foi mais leve do que o clima que se vive numa adega cooperativa, mas mais pesada do que um duche em altura de ressaca.
Solstício de Verão: o elemento ardente nas peles e nas carnes, nas mentes e nas almas, nas camas e nas praias. Excelente anfitrião para as férias, para desligar dos deveres e das obrigações, para passar a sentir o mundo como recreio. Chegara onde tinha que chegar… tempo de me encaminhar para o hotel onde reservara quarto para a minha estadia.
Com prático sorriso, senti a chegada ao meu destino, rodeado por novas caras, diferentes arquitecturas e inclusive mais sons. Ruas alagadas de gente, de turistas, de barulho, pescadores de bigode amarelo e queixo queimado, a aguardarem por cinco centímetros de peixe; esplanadas a serem metrópoles.
O hotel era de qualidade simpática com atendimento cortês, mas de personalidade semelhante a outros. Nada diferia de outros. Limpo, decorado, sensual.
Nessa primeira noite, jantei no restaurante do hotel. O salão era convidativo a permanecer por bom tempo e a arte dos cozinheiros a várias repetições do menu. Fui ficando, fui comendo, fui observando, fui sendo… a calmaria; depois subi para o quarto e comigo levei a fina vontade de ver um dos filmes que o hotel disponibilizava aos hóspedes; disponibilizava, o hóspede pagava. De licor na mão e olhos fixos no filme, diverti-me imenso naquele serão, sentado numa cadeira de baloiço…
Não sei o que foi que daquilo que comi me caiu mal no estômago, mas acordei com sensação de barriga fortemente inchada e dor por todo o lado. Depois de uns minutos de angústia sobre mim mesmo, apercebi-me de que havia alguém sentado numa das cadeiras do quarto. Esse alguém era demónio, numa estética humana, com caracterização amistosa e consciência múltipla. Eu soube da sua identidade vetusta, porque entranhou-se na minha cabeça, bloqueou as minhas incredulidades, apresentando-se à minha pessoa da forma mais firme que alguma vez sentira. Numa espécie de controlo, numa espécie de sentimento de que aquele momento era tudo para mim, certeza surreal, como quadros de Dali, em que os meus olhos eram pedras de fruta reluzentes diante de Satan, demónio presente no quarto. Satan acalmou-me e ambientou-me prontamente à sua presença, dizendo-me que ele era ele como eu era eu, se ele fosse eu e eu ele, em esplendor e idade… também ele era meu amigo, adepto e companheiro, para aqueles dias de mini-férias. Eu sentia-me então leve, normalíssimo, como se estivesse diante de um dos meus amigos ou conhecidos de infância ou familiares. Apesar do excelente ambiente entre mim e Satan, a empatia, não percebia bem como é que um quarto comum terrestre agradaria aos gostos megalómanos de Satan como estava a agradar, à medida que sorria e tocava nos objectos do quarto. De mansinho, chegou o momento em que ele começou a falar comigo telepaticamente e, sem capacidade de ter mãos sobre mim próprio, comecei a discursar para ele, para mim, para o vazio do quarto, o que ele queria, o conhecimento que ele me transmitia.
Satan representa o ponto cardeal Sul, tal como a existência de um ego evolutivo e infernal atitude. Mesmo as mais fracas das personagens contêm pilares e alicerces, nem que retóricos, para identificar a presença de determinadas personagens em determinada hora, determinado local e determinada distância, e, logicamente, é a crítica a tais alicerces e pilares que nos proporciona algum conhecimento em algum plano, tema. E se é assim com as mais fracas, com as mais fortes, ainda mais é!
Satan, em termos de base, existe em fundamentos ou relatividades adjacentes ao domínio do fogo, à administração do inferno, seja qual for o tipo de inferno ou a ideologia, ao porte adversário, à oposição, ao segmento de acusação e também, não entrando em questões mais fundas, à união de rebeliões. O Verão é estação do ano que prima pelo sol forte e gigante no céu, mesmo até pelo nosso quarto adentro, nos momentos em que nos acorda com brusquidão, ainda deitados, como numa mensagem de repreensão por termos adormecido num estado tão miserável, alcoolizado e confuso. Satan é o senhor do fogo e em termos superiores em relação à linha do horizonte, deve ser o sol, a combustão imensa, o calor absurdamente tão longínquo e tão sentimentalmente perto. Não haveria melhor momento do ano para este companheiro de armas, porque aquela loucura de calor e quase fogo gasoso que sabemos é tão-somente o charme do perfume de Satan.
O conceito de Satan, nome que deriva do Hebreu, toca no ângulo de ser O demónio, O demónio pelas diversas culturas e pelos tempos do mundo. Assim, é um conceito ambíguo, clássico e de cliché, que se aplica a Satan. Vejamos, Satan, de forma tradicional, tem aquele termo que é aplicado a um anjo, ou O anjo negro, na doutrina judaico-cristã e aplicação a um jinn, ou um tipo de génio, na doutrina islâmica. De par em par das aplicações a que o seu termo se aplica, Satan fora a figura que na Bíblia Hebraica desafiara a fé dos humanos. A classificação de Satan, aí, é apresentada como O anjo caído ou demónio que passa o tempo a tentar os humanos a caírem em desgraça, pecado e acção com maldade. Seja em forma física ou metafórica, de alegoria, hipérbole… acredita-se...
Pormenorizando, no Cristianismo, o vocábulo ou a personagem Satan, alude ao comum chavão e à identificação do título d’O Demónio e d’O Satanás, assim como sinónimo de diabolus no latim, diabólico. Tudo ligado entre si como o mesmo, semelhante a diversas ruas que, não importe como, convergem ao mesmo ponto. É a figura central do mal, da perdição, dentro da religião Cristã. Para grande parte dos Cristãos, é acreditado ser um anjo que se rebelou contra Deus, assim como aquele que falou e seduziu Eva, através da serpente, a desobedecer ao comando de Deus. O desígnio de Satan, enquanto figura ambígua clássica, é incitar as pessoas a afastarem-se do amor de Deus, aproximando-as em falácias a tentações maldosas. No seio do Cristianismo, Satan é o senhor dos demónios, que até se pode tornar o senhor da Terra e dentro da Bíblia Sagrada temos a forma como ele foi expulso do Paraíso, ao género do Homem, mergulhado no interior da Terra, excitando em si uma enorme ira e vontade de fazer guerra contra aqueles que seguirem os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus. As crenças Cristãs têm Satan como Satanás, sua figura sobrenatural, demoníaca, mas tal-qualmente qualquer adversário das mesmas crenças ou como qualquer pecado e tentação humanos.
No Islamismo, Shaitan é o equivalente para Satan. Enquanto Shaitan, nos escritos Islâmicos é tido mais como adjectivo para ideias relacionadas com demónio, tanto para o Homem como para os seres jinn, Iblis é tido como o nome pessoal do próprio demónio que atormenta as ideias de puro e benigno na religião/sociedade. Quando nos escritos Islâmicos, refere-se à criatura que recusou ajoelhar-se perante as cenas da Criação, há a referência do seu nome como sendo Iblis e a ele se conectam perspectivas que até são similares às do Cristianismo, mas ainda assim diferentes, já que enquanto o carácter de Satan no credo Cristão é considerado como um anjo caído, no credo Islâmico não, mas sim como um jinn. Normalmente perto do escalão de anjos pelas suas qualidades de sabedoria e capacidades nobres, os seres jinn, nas crenças Islâmicas, possuíam uma vontade própria equiparável aos humanos, ao contrário dos comuns anjos, e assim explicam, os Islâmicos, que Satan ao ser um jinn, agarrou na sua vontade própria para desobedecer ao divino…
Noutros conceitos de Satan, ao longo das páginas de História, temos ainda e novamente o nome Shaitan para a deidade no panteão dos Yazidi, no território Indo-Europeu, ligado a Malek Taus. Num outro seguimento espiritual de populações de países subdesenvolvidos, Satan não é referenciado como um poder maligno independente ou com forma, comparando-se a outros credos, mas significando base natural dos humanos. Explicam assim que a natureza básica, inferior, no Homem é simbolizada como Satan, um ego mau dentro de cada humano, ao invés de uma maléfica personagem exterior.
Muito do que é apresentado como sendo erudição satânica não advém realmente de Satanistas, mas de Cristãos. Tudo porque se relaciona com o folclore medieval e a teologia de época envolvendo demónios e bruxas.
Assinalo que esse momento em que discursei com e por efeito de Satan foi de estranheza volumosa, confusão emotiva ao máximo e particular nostalgia. Recordei a vez em que subi num dos pontos da Igreja, quando fiz – por tradição manipulativa – a profissão de fé, acto de encenação religiosa com pontos cómicos, pontos entediantes, pontos sem nexo, ligado à catequese. Numa fase da cerimónia em que estava alinhado com companheiros e companheiras, onde o branco e o preto predominavam a par de caras de crianças aldrabonas exibidas a um público feito de pais e familiares babados com fome e com vontade de fumar um cigarrinho no final daquela coisa toda, após uns cânticos próprios serem entoados, ouvira o padre a questionar-me com litanias e premissas religiosas, as quais eu seguia com um guião apropriado, qual casting novelesco. Uma das questões, encaixada naquele preceito de sermos crianças fascinadas e obedientes a Deus e aos trilhos do – agora sei – puro idiotismo, era se eu estava fielmente confiante em renunciar a Satanás, por toda a vida, em qualquer das minhas acções e qualquer dos meus pensamentos. A minha profissão de fé, no momento, era básica e tinha que ver com levar o protocolo a bom porto. Assim, eu repeti depois do padre, que renunciava sim a Satanás, com umas quantas mais belas adjectivações, repetindo agora e depois e etc. Estava eu a renunciar ao bicho deles, sim, mas não às mais belas qualidades de Satan! Eu renunciei na altura ao Satanás dele, não ao meu Satan! Sei-o magnificamente agora.
Lancei, depois de recordar, contando a Satan, este episódio que é lugar-comum, episódio que mais se assemelhara a um teatro arranjado com marionetas infantis, uma grande gargalhada por imaginar o jocoso cenário que seria o de responder ao padre que não, que não renunciaria a Satanás: os pais admirar-se-iam, o público contestaria, o padre resmungaria, a madeira rangeria, as paredes escureceriam…
Todavia, como assim estaria, excepto pelo factor de gozo puro, a entrar numa tendência errada com o bicho da Igreja, não desejei tal cena depois. Talvez, num outro cinema ou palco. Com outras personagens, com outros figurantes. Satan engoliu mais um pouco da própria bebida de fogo e inspirava… desse gesto imaginário dele, saíram devaneios de revolta para com o que fazem as crianças passarem.
Continuou-se…
Em termos de vista geral, Satan acolhe títulos em si como O demónio, príncipe das trevas, dragão amaldiçoado, espírito imundo, poder satânico, mestre do engano, espada infernal, mestre da fúria àquilo que é puritano, hipócrita e inibidor, etc.
O conceito de Satan toca igualmente no ângulo menos ambíguo ou então não ambíguo, de ser uma projecção energética, uma figura expressada pela Natureza e/ou pelo Homem. Neste caso, é um conceito nobre, natural e apelativo, que se aplica a Satan. Vejamos, indivíduos hão que não acreditam em Satan como uma entidade viva ou um deus. Vêem-no mesmo como força básica ou princípio da Natureza. Indivíduos hão que consideram Satan como uma alegoria, a qual terá que ver com crises de fé, individualismo, vontade própria, sabedoria ou iluminismo. Satan nesta minha mente e nesta minha alma, através desta minha voz, proclama-se como o adversário da mediocridade, do caminho da Mão Direita, da estupidez, do conformismo que gosta de conformismo, da autodestruição, de deuses idolatrados, da depressão e das ovelhas. O senhor do fogo, do lume, do aspecto de enxofre, aceita invocar tudo o que seja de forma estimulante aceite. Estimulação própria, vontade própria, liderança…
Satan não é realmente, apesar de ter-se vestido com umas roupas, umas formas e umas máscaras – ao género como Belial fez – para estar no vector mundano de férias, uma entidade viva, mas sim um símbolo natural, uma existência etérea, um complemento emocional e pessoal – forte como um sonho ou uma metáfora –. Satan quer ser para mim um princípio essencial, um âmago, e não objecto de adoração literal. Não é por especialidade, importância, mas é, sim é, por verdade. É inspiração, provocação, honestidade para com necessidades. O Homem precisa de provocação, o Homem precisa de provocação, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente. Satan é tão simplesmente conceito, opinativamente muito diferente de conceito outrora dado, de utilidade eclética e nexo multicultural, porque tal se compenetra nas tonalidades basilares da Natureza, sendo parte dela. Satan é vida e é vivo, nos instintos… Satan é uma força negra na Natureza que representa a Natureza carnal e assim os desejos do Homem. Satan é a descrição simbólica de pessoas poderosas e independentes, assim como oposição a Deus e demais deuses ou religiões organizadamente equiparáveis.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Procuramos responder ao mundo, na sua construção e nos seus acontecimentos e não podemos separar um conceito de outro, de uma mesma moeda, apesar de contrários, já que existem na moeda. O bom/mau e a luz/escuridão são relativos e assim é que têm que ser, porque as suas faces alteram-se consoante a moeda, consoante as coordenadas, o estrado… e Satan é arbitrariedade nestes exemplos, por nada ser insubstituível, ignorado ou eternamente resistido. Todos sentimos as definições e as coisas de forma diferente, mesmo Satan. E esta diferença alimenta poderes satânicos: autenticidade, observação e assimilação únicos. Satan está para a realidade como a nossa reunião de ego, inteligência, lucidez, limites e erros está para a percepção de realidade.
Satan não é baço espiritismo. Não, é simbolismo carnal, mundano, desejo de matéria, evolução e prazer, enquanto uma vida dá conta das horas que passam… Satan é a personificação do caminho da Mão Esquerda, é a vida como ela é, a necessidade, o materialismo, o caminho de relatividade e do individualismo com aceitação dos instintos e das riquezas que abundam pelo Homem. É a vida como ela é.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Desci do quarto, caminhei até uma residência familiar para a minha pessoa. O dia estava ardente, as ruas pouco frequentadas…
Mantive conversas, tinha mantido conversas, com determinada figura humanamente feminina da residência para onde me dirigi, antes da viagem. Momentos e horas e segundos ao cubo, preparando a duração e animação da minha estadia. Só que, de repente, para espanto, me expeliram, os da tal residência, argumentos de que tudo estava errado naquela forma, que eu estava erradamente presente, que tudo não tinha passado de uma série de mal-entendidos, conversas cortadas, ideologias despropositadas.
Mal-entendidos? Conversas cortadas? Ideologias despropositadas? Tudo, mas é o sexo gigante de um cavalo! Naquele instante, na minha visita, a tolerância não existia, sobretudo porque a exigência que atribuía a certa pessoa não permitia falhas ou brincadeiras de mau gosto como aquelas. Ou estavam a ver-me ali para desfrutar do meu tempo de mini-férias ou então estavam bem a limpar cortes de bovinos, comigo lá dentro a chibatar os rabos de tais pessoas que estupidamente interagiram comigo. Naquele instante, eu respirava pesadamente, sentia comichão até no fígado, e queria gritar se eu era para eles algum palhaço, um palhaço daqueles que podiam fazer contrato para realizar qualquer tipo de tarefa para belo prazer de alguém, inclusive daqueles testes com impactos de automóveis para se saber a qualidade dos equipamentos, substituindo eu então aqueles bonecos engraçados sem feições no rosto. Se era algum palhaço sem piada, com algum tipo de comando. Se eu era algum palhaço seria apenas por livre e espontânea vontade, mas pelo menos tentaria entrar para um circo onde me pagassem devidamente. Porém, gozar… gozariam comigo no camarim. Até aqueles cachecóis podiam usar, durante posições de cão.
Mais tarde, num dos dias, voltei à residência por pedido de tréguas que me lançaram. Satan estava a acompanhar-me nesse compromisso. Respirou-se, olhou-se, o tempo a passar. Todavia, a dada altura, a pessoa indicada desabafou comigo, que um objecto meu de cariz de fetichismo tinha sido encontrado lá, despoletando na residência reacções ofensivas para comigo. A base da confiança tinha ido por água abaixo, bisbilhotaram erradamente e, como se não chegasse, cogitaram intenções que a minha pessoa teria, por isso atribuindo-me cores, títulos, formas e penugem bravas e lânguidas. Satan, manteve-se trocista, como que a enviar-me a mensagem para que eu me controlasse, olhasse pelo lado burlesco e individual da situação. Contra-atacar e trocar palavrões com difamadoras era o que eu desejava; regatear, discutir, andar ao estalo, fazendo sentir o amargo gosto da cebola nos olhos de quem me difamara, por um corpóreo absurdo.
Satan cantarolava coisas sem nexo, estávamos longe da residência. A pessoa do meu compromisso regressou à base de vespas que não desejei mais perto do meu perfume, no momento em que Satan mostrou os seus órgãos genitais inventados a uma senhora de meia-idade, fornicando-a, depois da mesma rir de felicidade, no meio da praça histórica próxima. Cresceu amor no mundo. Se regras não houve, regras não haviam. E a loucura insolente deu asas à partida da minha interlocutora e eu pude voltar costas ao que não me interessava viver para prosseguir com Satan para planícies cobertas de aromas mais deliciosos para satisfação de mim mesmo.
Desloquei-me, depois, para os restantes dias numa casa. Casa com dois pisos, decorada a bom gosto, com pouca idade. A casa possuía mais divisões no piso de baixo. Na parte de baixo, havia uma cozinha, corredores, despensa, casa-de-banho, sala, dois quartos e uma divisão de arrumação lúdica. Na parte de cima, havia corredores mínimos, uma casa-de-banho e dois quartos. Eu tinha o quarto mais pequeno para mim, onde tinha à minha disposição livros, revistas e adereços, enquanto o maior era para a minha anfitriã daquela casa. Possuía televisão, fotografias e roupa espalhada em muitos cantos.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Fui sair na penúltima noite sem grandes planos e a respirar um ar fresco, montanhoso e delicioso comandei-me para visitar uma galeria de arte naquela zona turística. A galeria de arte era de foco contemporâneo, linda, com uma iluminação adequadíssima e um ambiente realmente descontraído e diferente de outras galerias. Satan veio para porta principal. A sua chegada virou-me o olhar para a esquerda e vi que também quem me convidou para ficar na casa onde fiquei, se encontrava na galeria. Não havíamos combinado qualquer tipo de coisa para aquela noite, porque não havia o dever de encontro entre os dois a toda a hora. Foi uma fantástica ocorrência.
Satan abraçou-me numa sinceridade amiga e depois possuiu-a; não sexualmente, possuiu o intelecto dela, invadiu a alma da jovem que eu conhecia há anos e pela qual mantinha especial e belo carinho. Foi conclusivo para mim depois que a possessão do intelecto visava a expressão do lado carnal dela – por mim –. Não tendo sido um atrofio no cérebro ou uma possessão daquelas que magos brancos adoram intitular como o pior pesadelo dos humanos, tenho que referir e confessar que ela se tornou incrivelmente sensual, cheirosa, apetecível, poderosa e manipulativa, de olhar e de postura. Cumprimentámo-nos… os meus lábios humedecidos em alegria na face sedosa dela. Os braços dela envolveram-me como que em paixão…
Ah, Satan, meu brejeiro abismal! O que é que foste fazer…! Deixaste-nos hipnotizados! Ternura, desejo e a sensualidade confortava-nos ao longo da visita à galeria…
O quarto mais pequeno não me viu naquela noite, pois ela convidou-me para dormir com ela, na cama, no quarto, dela. A excitação era imensa em mim, as pulgas no corpo multiplicavam-se e o meu cabelo podia muito bem embrulhar-se naquela noite com o cabelo feminino dela. A temperatura alta, os magníficos arrepios, os beijos, os toques… tudo arrebatador com ela. Levei-me, levei-a, Satan levou-nos. Noite perfeita, no que foi.
A qualidade de Satan quando tenta, penetra, algum humano é sobejamente sexual. Porém, não é bacoca, não é unilateral, não é independente, ou seja, é necessário o humano estar a expelir fumo e desejo sexuais para que a possessão ou tentação funcione, agarre. Em detalhe, ela expelia o que era necessário, Satan encaminhou-se para com triunfo fazer a coisa acontecer. E eu concordei com tudo, em igual fumo e desejo expelidos, por isso...
No olhar dela, eu descobrira mais da magia de Satan, descobrira sussurro dele em que fez o que fez para que a minha mente se pudesse atulhar de pensamentos e desejos pecaminosos, provocadores. Satan queria oferecer-me um escape à realidade, soltar as mãos das amarras da realidade, do barco da tensão, do tédio. Divertimento, foco em anseios carnais para materializar-me em actos com ela, actos airosos, doidos, borbulhantes, vermelhos; odor a prazer, bonita sexualidade, odor a prazer, arrepio… Satan é a escolha sem vergonha, seja qual for a pista da sexualidade em que dancemos, seja qual for o alvo a que nos encostemos. Satan é o maior misto de beleza, carnalidade e manipulação que existe, num processo universalmente circundante à oposição de tudo o que nos estorva o ego.
Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…
Um segundo modelo saiu para conversar comigo, eu com ele, connosco. Ficou num testemunho repleto de forças, fortaleza ideológica e emocional, a partilha de experiências que me transformaram. O segundo modelo exibiu-se, como qualquer um de nós, não obstante, julgado não será, julgado não é o Homem. Dele conhecemos a identidade como semelhante ao anterior modelo e possivelmente aos que aqui chegarão. Abraçados à qualidade, ao indescritível, ao impensável, ao individualismo… sob as labaredas da boca do panteão… Satan ao sentar-se, cumprimenta com amistoso e colossal abraço Belial, camarada de armas… e o segundo trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e faltam dois.
Subscrever:
Mensagens (Atom)