Domingo, 28 de Junho de 2009

Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio - Satan




Ouvi os galos a cantar, no outro lado da parede, ainda que distantes, audíveis. Era dia de rumar para mini-férias. Planeei a hora de sair da cama que cumpri à regra, com a ajuda dos galos. A lua do dia timidamente penetrava no quarto, enquanto eu já lavava a cara. Uma noite de anseios, uma noite mal dormida, mas que não prejudicara nada. A minha figura no espelho rachado era esguia, esquisita e com olheiras. Nada de especial, sempre igual, sempre o mesmo…

Após um duche e ter-me vestido, certifiquei-me que nada faltava na mala de viagem. O pequeno-almoço fez jus ao imaginário de si mesmo: foi pequeno. O despertar foi alegre, a boa-disposição estava redonda o suficiente e a alma maquilhada da beleza do corpo… quanto baste.
De férias, marcadas a sul do ponto da minha residência no país, procurava, na altura de sair de casa e entrar no comboio, divertir-me para ultrapassar todas as problemáticas, dores de cabeça, do trabalho e afins. Ou seja, ter o devido descanso, aproveitar prazeres e festas da vida… ninguém sabe o que passara, o que acumulara, o que engolira, até então.

Viajar até ao sul do país fora um tanto complicado. Os meus olhos normalmente queixavam-se da luz diurna, mas não apenas latejo. Dor na íris que se entranhava pelas ramificações até ao interior da minha cabeça, onde parecia existir vidros que se friccionavam uns nos outros…
A sombra, que por vezes me protegia, amenizava este mais do que latejo pela luz diurna, permitindo-me até apreciar alguma da bonita paisagem que se transmutava de região para região. A viagem, tirando isso, decorreu satisfatoriamente. A distância não era tanta quanto isso e a comodidade do transporte contribuiu para que tudo decorresse melhor. Vi pessoas distintas, grupos de amigos que viajavam, assim como namorados juntinhos e de sorriso de orelha a orelha, sorrisos lamechas, falando baixinho sobre o que iam fazer quando chegassem ao destino. Alguns estrangeiros ajudaram a preencher o comboio, partilhando com os restantes passageiros os seus lemas da vida ser bela, da moda barata em países mediterrânicos e os seus belos sotaques quando tentaram o português…

A viagem foi mais leve do que o clima que se vive numa adega cooperativa, mas mais pesada do que um duche em altura de ressaca.
Solstício de Verão: o elemento ardente nas peles e nas carnes, nas mentes e nas almas, nas camas e nas praias. Excelente anfitrião para as férias, para desligar dos deveres e das obrigações, para passar a sentir o mundo como recreio. Chegara onde tinha que chegar… tempo de me encaminhar para o hotel onde reservara quarto para a minha estadia.

Com prático sorriso, senti a chegada ao meu destino, rodeado por novas caras, diferentes arquitecturas e inclusive mais sons. Ruas alagadas de gente, de turistas, de barulho, pescadores de bigode amarelo e queixo queimado, a aguardarem por cinco centímetros de peixe; esplanadas a serem metrópoles.
O hotel era de qualidade simpática com atendimento cortês, mas de personalidade semelhante a outros. Nada diferia de outros. Limpo, decorado, sensual.
Nessa primeira noite, jantei no restaurante do hotel. O salão era convidativo a permanecer por bom tempo e a arte dos cozinheiros a várias repetições do menu. Fui ficando, fui comendo, fui observando, fui sendo… a calmaria; depois subi para o quarto e comigo levei a fina vontade de ver um dos filmes que o hotel disponibilizava aos hóspedes; disponibilizava, o hóspede pagava. De licor na mão e olhos fixos no filme, diverti-me imenso naquele serão, sentado numa cadeira de baloiço…

Não sei o que foi que daquilo que comi me caiu mal no estômago, mas acordei com sensação de barriga fortemente inchada e dor por todo o lado. Depois de uns minutos de angústia sobre mim mesmo, apercebi-me de que havia alguém sentado numa das cadeiras do quarto. Esse alguém era demónio, numa estética humana, com caracterização amistosa e consciência múltipla. Eu soube da sua identidade vetusta, porque entranhou-se na minha cabeça, bloqueou as minhas incredulidades, apresentando-se à minha pessoa da forma mais firme que alguma vez sentira. Numa espécie de controlo, numa espécie de sentimento de que aquele momento era tudo para mim, certeza surreal, como quadros de Dali, em que os meus olhos eram pedras de fruta reluzentes diante de Satan, demónio presente no quarto. Satan acalmou-me e ambientou-me prontamente à sua presença, dizendo-me que ele era ele como eu era eu, se ele fosse eu e eu ele, em esplendor e idade… também ele era meu amigo, adepto e companheiro, para aqueles dias de mini-férias. Eu sentia-me então leve, normalíssimo, como se estivesse diante de um dos meus amigos ou conhecidos de infância ou familiares. Apesar do excelente ambiente entre mim e Satan, a empatia, não percebia bem como é que um quarto comum terrestre agradaria aos gostos megalómanos de Satan como estava a agradar, à medida que sorria e tocava nos objectos do quarto. De mansinho, chegou o momento em que ele começou a falar comigo telepaticamente e, sem capacidade de ter mãos sobre mim próprio, comecei a discursar para ele, para mim, para o vazio do quarto, o que ele queria, o conhecimento que ele me transmitia.

Satan representa o ponto cardeal Sul, tal como a existência de um ego evolutivo e infernal atitude. Mesmo as mais fracas das personagens contêm pilares e alicerces, nem que retóricos, para identificar a presença de determinadas personagens em determinada hora, determinado local e determinada distância, e, logicamente, é a crítica a tais alicerces e pilares que nos proporciona algum conhecimento em algum plano, tema. E se é assim com as mais fracas, com as mais fortes, ainda mais é!
Satan, em termos de base, existe em fundamentos ou relatividades adjacentes ao domínio do fogo, à administração do inferno, seja qual for o tipo de inferno ou a ideologia, ao porte adversário, à oposição, ao segmento de acusação e também, não entrando em questões mais fundas, à união de rebeliões. O Verão é estação do ano que prima pelo sol forte e gigante no céu, mesmo até pelo nosso quarto adentro, nos momentos em que nos acorda com brusquidão, ainda deitados, como numa mensagem de repreensão por termos adormecido num estado tão miserável, alcoolizado e confuso. Satan é o senhor do fogo e em termos superiores em relação à linha do horizonte, deve ser o sol, a combustão imensa, o calor absurdamente tão longínquo e tão sentimentalmente perto. Não haveria melhor momento do ano para este companheiro de armas, porque aquela loucura de calor e quase fogo gasoso que sabemos é tão-somente o charme do perfume de Satan.

O conceito de Satan, nome que deriva do Hebreu, toca no ângulo de ser O demónio, O demónio pelas diversas culturas e pelos tempos do mundo. Assim, é um conceito ambíguo, clássico e de cliché, que se aplica a Satan. Vejamos, Satan, de forma tradicional, tem aquele termo que é aplicado a um anjo, ou O anjo negro, na doutrina judaico-cristã e aplicação a um jinn, ou um tipo de génio, na doutrina islâmica. De par em par das aplicações a que o seu termo se aplica, Satan fora a figura que na Bíblia Hebraica desafiara a fé dos humanos. A classificação de Satan, aí, é apresentada como O anjo caído ou demónio que passa o tempo a tentar os humanos a caírem em desgraça, pecado e acção com maldade. Seja em forma física ou metafórica, de alegoria, hipérbole… acredita-se...

Pormenorizando, no Cristianismo, o vocábulo ou a personagem Satan, alude ao comum chavão e à identificação do título d’O Demónio e d’O Satanás, assim como sinónimo de diabolus no latim, diabólico. Tudo ligado entre si como o mesmo, semelhante a diversas ruas que, não importe como, convergem ao mesmo ponto. É a figura central do mal, da perdição, dentro da religião Cristã. Para grande parte dos Cristãos, é acreditado ser um anjo que se rebelou contra Deus, assim como aquele que falou e seduziu Eva, através da serpente, a desobedecer ao comando de Deus. O desígnio de Satan, enquanto figura ambígua clássica, é incitar as pessoas a afastarem-se do amor de Deus, aproximando-as em falácias a tentações maldosas. No seio do Cristianismo, Satan é o senhor dos demónios, que até se pode tornar o senhor da Terra e dentro da Bíblia Sagrada temos a forma como ele foi expulso do Paraíso, ao género do Homem, mergulhado no interior da Terra, excitando em si uma enorme ira e vontade de fazer guerra contra aqueles que seguirem os mandamentos de Deus e o testemunho de Jesus. As crenças Cristãs têm Satan como Satanás, sua figura sobrenatural, demoníaca, mas tal-qualmente qualquer adversário das mesmas crenças ou como qualquer pecado e tentação humanos.

No Islamismo, Shaitan é o equivalente para Satan. Enquanto Shaitan, nos escritos Islâmicos é tido mais como adjectivo para ideias relacionadas com demónio, tanto para o Homem como para os seres jinn, Iblis é tido como o nome pessoal do próprio demónio que atormenta as ideias de puro e benigno na religião/sociedade. Quando nos escritos Islâmicos, refere-se à criatura que recusou ajoelhar-se perante as cenas da Criação, há a referência do seu nome como sendo Iblis e a ele se conectam perspectivas que até são similares às do Cristianismo, mas ainda assim diferentes, já que enquanto o carácter de Satan no credo Cristão é considerado como um anjo caído, no credo Islâmico não, mas sim como um jinn. Normalmente perto do escalão de anjos pelas suas qualidades de sabedoria e capacidades nobres, os seres jinn, nas crenças Islâmicas, possuíam uma vontade própria equiparável aos humanos, ao contrário dos comuns anjos, e assim explicam, os Islâmicos, que Satan ao ser um jinn, agarrou na sua vontade própria para desobedecer ao divino…
Noutros conceitos de Satan, ao longo das páginas de História, temos ainda e novamente o nome Shaitan para a deidade no panteão dos Yazidi, no território Indo-Europeu, ligado a Malek Taus. Num outro seguimento espiritual de populações de países subdesenvolvidos, Satan não é referenciado como um poder maligno independente ou com forma, comparando-se a outros credos, mas significando base natural dos humanos. Explicam assim que a natureza básica, inferior, no Homem é simbolizada como Satan, um ego mau dentro de cada humano, ao invés de uma maléfica personagem exterior.

Muito do que é apresentado como sendo erudição satânica não advém realmente de Satanistas, mas de Cristãos. Tudo porque se relaciona com o folclore medieval e a teologia de época envolvendo demónios e bruxas.
Assinalo que esse momento em que discursei com e por efeito de Satan foi de estranheza volumosa, confusão emotiva ao máximo e particular nostalgia. Recordei a vez em que subi num dos pontos da Igreja, quando fiz – por tradição manipulativa – a profissão de fé, acto de encenação religiosa com pontos cómicos, pontos entediantes, pontos sem nexo, ligado à catequese. Numa fase da cerimónia em que estava alinhado com companheiros e companheiras, onde o branco e o preto predominavam a par de caras de crianças aldrabonas exibidas a um público feito de pais e familiares babados com fome e com vontade de fumar um cigarrinho no final daquela coisa toda, após uns cânticos próprios serem entoados, ouvira o padre a questionar-me com litanias e premissas religiosas, as quais eu seguia com um guião apropriado, qual casting novelesco. Uma das questões, encaixada naquele preceito de sermos crianças fascinadas e obedientes a Deus e aos trilhos do – agora sei – puro idiotismo, era se eu estava fielmente confiante em renunciar a Satanás, por toda a vida, em qualquer das minhas acções e qualquer dos meus pensamentos. A minha profissão de fé, no momento, era básica e tinha que ver com levar o protocolo a bom porto. Assim, eu repeti depois do padre, que renunciava sim a Satanás, com umas quantas mais belas adjectivações, repetindo agora e depois e etc. Estava eu a renunciar ao bicho deles, sim, mas não às mais belas qualidades de Satan! Eu renunciei na altura ao Satanás dele, não ao meu Satan! Sei-o magnificamente agora.

Lancei, depois de recordar, contando a Satan, este episódio que é lugar-comum, episódio que mais se assemelhara a um teatro arranjado com marionetas infantis, uma grande gargalhada por imaginar o jocoso cenário que seria o de responder ao padre que não, que não renunciaria a Satanás: os pais admirar-se-iam, o público contestaria, o padre resmungaria, a madeira rangeria, as paredes escureceriam…
Todavia, como assim estaria, excepto pelo factor de gozo puro, a entrar numa tendência errada com o bicho da Igreja, não desejei tal cena depois. Talvez, num outro cinema ou palco. Com outras personagens, com outros figurantes. Satan engoliu mais um pouco da própria bebida de fogo e inspirava… desse gesto imaginário dele, saíram devaneios de revolta para com o que fazem as crianças passarem.

Continuou-se…

Em termos de vista geral, Satan acolhe títulos em si como O demónio, príncipe das trevas, dragão amaldiçoado, espírito imundo, poder satânico, mestre do engano, espada infernal, mestre da fúria àquilo que é puritano, hipócrita e inibidor, etc.
O conceito de Satan toca igualmente no ângulo menos ambíguo ou então não ambíguo, de ser uma projecção energética, uma figura expressada pela Natureza e/ou pelo Homem. Neste caso, é um conceito nobre, natural e apelativo, que se aplica a Satan. Vejamos, indivíduos hão que não acreditam em Satan como uma entidade viva ou um deus. Vêem-no mesmo como força básica ou princípio da Natureza. Indivíduos hão que consideram Satan como uma alegoria, a qual terá que ver com crises de fé, individualismo, vontade própria, sabedoria ou iluminismo. Satan nesta minha mente e nesta minha alma, através desta minha voz, proclama-se como o adversário da mediocridade, do caminho da Mão Direita, da estupidez, do conformismo que gosta de conformismo, da autodestruição, de deuses idolatrados, da depressão e das ovelhas. O senhor do fogo, do lume, do aspecto de enxofre, aceita invocar tudo o que seja de forma estimulante aceite. Estimulação própria, vontade própria, liderança…
Satan não é realmente, apesar de ter-se vestido com umas roupas, umas formas e umas máscaras – ao género como Belial fez – para estar no vector mundano de férias, uma entidade viva, mas sim um símbolo natural, uma existência etérea, um complemento emocional e pessoal – forte como um sonho ou uma metáfora –. Satan quer ser para mim um princípio essencial, um âmago, e não objecto de adoração literal. Não é por especialidade, importância, mas é, sim é, por verdade. É inspiração, provocação, honestidade para com necessidades. O Homem precisa de provocação, o Homem precisa de provocação, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente, o Homem precisa de satisfazer as suas necessidades honestamente. Satan é tão simplesmente conceito, opinativamente muito diferente de conceito outrora dado, de utilidade eclética e nexo multicultural, porque tal se compenetra nas tonalidades basilares da Natureza, sendo parte dela. Satan é vida e é vivo, nos instintos… Satan é uma força negra na Natureza que representa a Natureza carnal e assim os desejos do Homem. Satan é a descrição simbólica de pessoas poderosas e independentes, assim como oposição a Deus e demais deuses ou religiões organizadamente equiparáveis.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…

Procuramos responder ao mundo, na sua construção e nos seus acontecimentos e não podemos separar um conceito de outro, de uma mesma moeda, apesar de contrários, já que existem na moeda. O bom/mau e a luz/escuridão são relativos e assim é que têm que ser, porque as suas faces alteram-se consoante a moeda, consoante as coordenadas, o estrado… e Satan é arbitrariedade nestes exemplos, por nada ser insubstituível, ignorado ou eternamente resistido. Todos sentimos as definições e as coisas de forma diferente, mesmo Satan. E esta diferença alimenta poderes satânicos: autenticidade, observação e assimilação únicos. Satan está para a realidade como a nossa reunião de ego, inteligência, lucidez, limites e erros está para a percepção de realidade.
Satan não é baço espiritismo. Não, é simbolismo carnal, mundano, desejo de matéria, evolução e prazer, enquanto uma vida dá conta das horas que passam… Satan é a personificação do caminho da Mão Esquerda, é a vida como ela é, a necessidade, o materialismo, o caminho de relatividade e do individualismo com aceitação dos instintos e das riquezas que abundam pelo Homem. É a vida como ela é.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…

Desci do quarto, caminhei até uma residência familiar para a minha pessoa. O dia estava ardente, as ruas pouco frequentadas…
Mantive conversas, tinha mantido conversas, com determinada figura humanamente feminina da residência para onde me dirigi, antes da viagem. Momentos e horas e segundos ao cubo, preparando a duração e animação da minha estadia. Só que, de repente, para espanto, me expeliram, os da tal residência, argumentos de que tudo estava errado naquela forma, que eu estava erradamente presente, que tudo não tinha passado de uma série de mal-entendidos, conversas cortadas, ideologias despropositadas.
Mal-entendidos? Conversas cortadas? Ideologias despropositadas? Tudo, mas é o sexo gigante de um cavalo! Naquele instante, na minha visita, a tolerância não existia, sobretudo porque a exigência que atribuía a certa pessoa não permitia falhas ou brincadeiras de mau gosto como aquelas. Ou estavam a ver-me ali para desfrutar do meu tempo de mini-férias ou então estavam bem a limpar cortes de bovinos, comigo lá dentro a chibatar os rabos de tais pessoas que estupidamente interagiram comigo. Naquele instante, eu respirava pesadamente, sentia comichão até no fígado, e queria gritar se eu era para eles algum palhaço, um palhaço daqueles que podiam fazer contrato para realizar qualquer tipo de tarefa para belo prazer de alguém, inclusive daqueles testes com impactos de automóveis para se saber a qualidade dos equipamentos, substituindo eu então aqueles bonecos engraçados sem feições no rosto. Se era algum palhaço sem piada, com algum tipo de comando. Se eu era algum palhaço seria apenas por livre e espontânea vontade, mas pelo menos tentaria entrar para um circo onde me pagassem devidamente. Porém, gozar… gozariam comigo no camarim. Até aqueles cachecóis podiam usar, durante posições de cão.

Mais tarde, num dos dias, voltei à residência por pedido de tréguas que me lançaram. Satan estava a acompanhar-me nesse compromisso. Respirou-se, olhou-se, o tempo a passar. Todavia, a dada altura, a pessoa indicada desabafou comigo, que um objecto meu de cariz de fetichismo tinha sido encontrado lá, despoletando na residência reacções ofensivas para comigo. A base da confiança tinha ido por água abaixo, bisbilhotaram erradamente e, como se não chegasse, cogitaram intenções que a minha pessoa teria, por isso atribuindo-me cores, títulos, formas e penugem bravas e lânguidas. Satan, manteve-se trocista, como que a enviar-me a mensagem para que eu me controlasse, olhasse pelo lado burlesco e individual da situação. Contra-atacar e trocar palavrões com difamadoras era o que eu desejava; regatear, discutir, andar ao estalo, fazendo sentir o amargo gosto da cebola nos olhos de quem me difamara, por um corpóreo absurdo.

Satan cantarolava coisas sem nexo, estávamos longe da residência. A pessoa do meu compromisso regressou à base de vespas que não desejei mais perto do meu perfume, no momento em que Satan mostrou os seus órgãos genitais inventados a uma senhora de meia-idade, fornicando-a, depois da mesma rir de felicidade, no meio da praça histórica próxima. Cresceu amor no mundo. Se regras não houve, regras não haviam. E a loucura insolente deu asas à partida da minha interlocutora e eu pude voltar costas ao que não me interessava viver para prosseguir com Satan para planícies cobertas de aromas mais deliciosos para satisfação de mim mesmo.

Desloquei-me, depois, para os restantes dias numa casa. Casa com dois pisos, decorada a bom gosto, com pouca idade. A casa possuía mais divisões no piso de baixo. Na parte de baixo, havia uma cozinha, corredores, despensa, casa-de-banho, sala, dois quartos e uma divisão de arrumação lúdica. Na parte de cima, havia corredores mínimos, uma casa-de-banho e dois quartos. Eu tinha o quarto mais pequeno para mim, onde tinha à minha disposição livros, revistas e adereços, enquanto o maior era para a minha anfitriã daquela casa. Possuía televisão, fotografias e roupa espalhada em muitos cantos.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…

Fui sair na penúltima noite sem grandes planos e a respirar um ar fresco, montanhoso e delicioso comandei-me para visitar uma galeria de arte naquela zona turística. A galeria de arte era de foco contemporâneo, linda, com uma iluminação adequadíssima e um ambiente realmente descontraído e diferente de outras galerias. Satan veio para porta principal. A sua chegada virou-me o olhar para a esquerda e vi que também quem me convidou para ficar na casa onde fiquei, se encontrava na galeria. Não havíamos combinado qualquer tipo de coisa para aquela noite, porque não havia o dever de encontro entre os dois a toda a hora. Foi uma fantástica ocorrência.
Satan abraçou-me numa sinceridade amiga e depois possuiu-a; não sexualmente, possuiu o intelecto dela, invadiu a alma da jovem que eu conhecia há anos e pela qual mantinha especial e belo carinho. Foi conclusivo para mim depois que a possessão do intelecto visava a expressão do lado carnal dela – por mim –. Não tendo sido um atrofio no cérebro ou uma possessão daquelas que magos brancos adoram intitular como o pior pesadelo dos humanos, tenho que referir e confessar que ela se tornou incrivelmente sensual, cheirosa, apetecível, poderosa e manipulativa, de olhar e de postura. Cumprimentámo-nos… os meus lábios humedecidos em alegria na face sedosa dela. Os braços dela envolveram-me como que em paixão…
Ah, Satan, meu brejeiro abismal! O que é que foste fazer…! Deixaste-nos hipnotizados! Ternura, desejo e a sensualidade confortava-nos ao longo da visita à galeria…
O quarto mais pequeno não me viu naquela noite, pois ela convidou-me para dormir com ela, na cama, no quarto, dela. A excitação era imensa em mim, as pulgas no corpo multiplicavam-se e o meu cabelo podia muito bem embrulhar-se naquela noite com o cabelo feminino dela. A temperatura alta, os magníficos arrepios, os beijos, os toques… tudo arrebatador com ela. Levei-me, levei-a, Satan levou-nos. Noite perfeita, no que foi.

A qualidade de Satan quando tenta, penetra, algum humano é sobejamente sexual. Porém, não é bacoca, não é unilateral, não é independente, ou seja, é necessário o humano estar a expelir fumo e desejo sexuais para que a possessão ou tentação funcione, agarre. Em detalhe, ela expelia o que era necessário, Satan encaminhou-se para com triunfo fazer a coisa acontecer. E eu concordei com tudo, em igual fumo e desejo expelidos, por isso...
No olhar dela, eu descobrira mais da magia de Satan, descobrira sussurro dele em que fez o que fez para que a minha mente se pudesse atulhar de pensamentos e desejos pecaminosos, provocadores. Satan queria oferecer-me um escape à realidade, soltar as mãos das amarras da realidade, do barco da tensão, do tédio. Divertimento, foco em anseios carnais para materializar-me em actos com ela, actos airosos, doidos, borbulhantes, vermelhos; odor a prazer, bonita sexualidade, odor a prazer, arrepio… Satan é a escolha sem vergonha, seja qual for a pista da sexualidade em que dancemos, seja qual for o alvo a que nos encostemos. Satan é o maior misto de beleza, carnalidade e manipulação que existe, num processo universalmente circundante à oposição de tudo o que nos estorva o ego.

Horas em branco, em termos de escrita. Passeios, ocupações e acções que não vos conto. Horas que não ficais a conhecer. Coisas que ficam por vos contar. Espaços… quebras…


Um segundo modelo saiu para conversar comigo, eu com ele, connosco. Ficou num testemunho repleto de forças, fortaleza ideológica e emocional, a partilha de experiências que me transformaram. O segundo modelo exibiu-se, como qualquer um de nós, não obstante, julgado não será, julgado não é o Homem. Dele conhecemos a identidade como semelhante ao anterior modelo e possivelmente aos que aqui chegarão. Abraçados à qualidade, ao indescritível, ao impensável, ao individualismo… sob as labaredas da boca do panteão… Satan ao sentar-se, cumprimenta com amistoso e colossal abraço Belial, camarada de armas… e o segundo trono do total de quatro está assim ocupado, reocupado, e faltam dois.


Terça-feira, 28 de Abril de 2009

"Doce silêncio"

Publico aqui a parte quase integral de um poema que criei para figurar num trabalho escolar de uma amiga, o qual incide na história da doçaria e do simbolismo do silêncio.

Corre-se dia e noite por enigmas gastronómicos do nosso apetitoso mundo,
Como se numa festividade nobre entrassem a todo o segundo,
Nos conventos de antigamente…
A fome e a importância do romântico belo presente,
A ironia e o burlesco de proclamar
A gula como pecado sobre um dos mais belos contos de encantar.
Clássicos curiosos deleitados pelos poderes do açúcar e da farinha,
Agradeceram aos céus a fórmula desenvolvida entre fé e prazer
Pelos dentes, pela língua, pelo sistema digestivo, à vida docinha,
Jubilando-se por um dos pecados mais doces acometer!
Gula e convento deviam ser opostos, inimigos de dogmas como sol e lua,
Os olhos, como em viagens por sonhos alindados,
Observaram e observaram, sem fim, a confecção a lhes agradar:
Bolos, doces, compotas e fins de refeição suscitados,
Actos como de teatro histórico de aprisionar a alma ao paladar!
O uno salão de jantar, patriótico e fabuloso, diante das brisas de revelação,
Ornamentado por conversas sumarentas, lorde de receitas divinas que fosse,
De toda a sua manteiga se pintava nos ovos e os ovos adoçavam o ego e o coração…
Puro gozo e puro deleite da arte que era ser amante de possuir algum doce
De formas sensuais, paladares lustrosos; canta-se alegria e devora-se um doce!

Silêncio rememora a ousadia de saborear qualquer coisa de superior,
Dir-se-ia um templo prudente, uma ala de lábios cosidos com casca de frutos
E mulheres de dedo na vertical sobre o tecido labial instando silêncio de carinhos enxutos.
Graciosas fogueiras aqueciam todos os presentes, sem esgrimir letras,
Aqueciam, brilhavam e actuavam soberbas, as fogueiras, ensinando os presentes
A contemplarem silêncio, serem silêncio, estarem quentes, no calor de silêncios quentes,
As fogueiras de uma jornada prolongada em descobertas e aperfeiçoamentos sociais.
As noites, festins de ternura e complacência, silenciosas,
Respeitantes ao carácter tranquilo do globo de silêncio em ditosas horas,
Eram visitas ideológicas por atingir melhor gosto sob ausências sonoras.

A passagem do tempo altera pouco vontades de gosto,
A massa da doçaria avivando a essência e a textura de vício, essa sorridente,
Simbolizaria todas as características do doce escolhido por ávida boca.
O doce é um apreço majestoso, criado ao nascer de um dia e adorado até ao sequente;
Por ter amantes concorrentes, se perde um pouco na memória, mas a boca,
Essa fonte inesgotável que dá e recebe prazer,
Não esquece o rosto, o beijo, o abraço, dos seus doces predilectos nem que ao alvorecer…
Vivam todos; caramelo, doce, aveludado aroma, cheiro açucarado, sumarentas gulodices!
Os doces são pecados que pecaminoso em si ferve, prazeres que folião em si excita,
São demónios e anjos sob moderação e excessiva adoração que tudo suscita…

O que é que foi ter um sonho e o que é que foi sonhar?
Tudo faz parte do sonho e faz tudo parte da realidade?
Não conseguir entender o que é diferente ao terminar,
Não conseguir entender o sabor dissemelhante da impassibilidade.
O doce sonhado é tão bom quanto o realizado,
Simplesmente pela presença da conquista, da consumação.
As barreiras da doçura na cozinha são as dos palcos de silêncio enclavinhado,
Em modelação, transparentes, frágeis, femininas, ameigadas, namoradas.
Relaxantes… acreditar piamente, que o silêncio ajuda a perceber as assaz realidades,
Tal-qualmente os doces propiciam à exaltação, desde os sentidos às verdades!



Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

A alma da tempestade

Proclama-se a tempestade apocalíptica,
E a sua mão vive profunda na carne e no obscuro,
Nos templos mecânicos, nas ruínas, muito da insanidade gelada
Aqui e agora, tatuamos a alma da tempestade!

Os fortes ventos e fenómenos tombam toda a beleza,
As perturbações explodem debaixo das chuvas de ácido.
O frio diminui a temperatura nas mentes,
É importante quebrar a febre da luminosidade.

Os fracos e os religiosos,
No cerne da tempestade, perecem.
Os ventos e brisas abomináveis, os cataclismos para os estúpidos.
Obsoletos, caquécticos e roubados,
Esses que apenas ajudam a que a roda que tritura o mundo continue a girar...

O sobressalto da vida como ervas nuas e mortas,
A capacidade de destruição exalada pelos nossos olhos,
O que vive morre por nós!
O que morre é útil para nós!
Vive a mente da nossa génese devastadora:
Noroeste, Norte, Nordeste…
E Northvein! O verdadeiro panteão dos poderosos!
Northvein! É a alma da tempestade, a nossa alma!

O céu negro, loucamente terrível,
Larga os relâmpagos fatídicos,
E no manto negro por cima das cabeças,
Abrem-se gargantas abismais com vozes de tragédia natural!

Ao fugir de pingos vermelhos,
As nossas gotas de deuses,
Fortalecidas como as de demónios, de criaturas inventadas,
Os humanos queimam os seus cabelos pobres,
E também corrompem mais a essência da terra!
Os rebentamentos climatéricos não desistem,
Da vossa matéria precoce provar…

O sobressalto da vida como ervas nuas e mortas,
A capacidade de destruição exalada pelos nossos olhos,
O que vive morre por nós!
O que morre é útil para nós!
Vive a mente da nossa génese devastadora:
Noroeste, Norte, Nordeste…
E Northvein! O verdadeiro panteão dos poderosos!
Northvein! É a alma da tempestade, a nossa alma!

Nas valetas, as criaturas atormentam-se,
A fraca vista foge e a pele derrete aflitivamente,
Foi triste existir sem lutar por prazeres e verdades,
É incómodo acabar sem sangue e em vão.

As folhas podres no chão,
A desgraça e o pecado,
Os sons da terra medonha a ranger, os rios glaciais a transbordar,
O tormento e o assombro,
Numa página de história incalculável,
Um elixir confuso com sombras e tempo que se bebe…
Bebes, bebem… bebeu-se!
E as entranhas atrofiam,
O corpo arranha-se e os olhos das criaturas avistam o fim…
Tudo, porque a nossa alma faz o vosso ser dançar em ecos tormentosos e crus!

A nossa fala superior inquieta o ar,
E amolece a terra que virou um poço de estrume.
A fé que tentou a inteligência,
Sofreu com o terror viciado das precipitações brutais,
Provando a violência da calamidade, extingue-se para cemitérios esquecidos…

O sobressalto da vida como ervas nuas e mortas,
A capacidade de destruição exalada pelos nossos olhos,
O que vive morre por nós!
O que morre é útil para nós!
Vive a mente da nossa génese devastadora:
Noroeste, Norte, Nordeste…
E Northvein! O verdadeiro panteão dos poderosos!
Northvein! É a alma da tempestade, a nossa alma!

O bondoso é o perverso,
E a saída a entrada para a amargura.
Contemplai a imensidão da força das veias do tufão!
Contemplai o massacre que as garras dos ventos fazem!
O bondoso é o perverso
E a saída a entrada para a amargura.

O corpo tem orgasmos de dor e os olhos das criaturas avistam o fim…
Maravilhoso, pois a nossa alma faz o vosso ser dançar em ecos tormentosos e crus!
Dogmas de osso,
Osso com dogmas de maldição.
As planícies são montanhas de vergonha,
Os mares abismos de extermínio,
Todos os pontos cardeais idolatram apenas um
E todas as coordenadas antecipam-se no poder da tempestade a caminho…

O sobressalto da vida como ervas nuas e mortas,
A capacidade de destruição exalada pelos nossos olhos,
O que vive morre por nós!
O que morre é útil para nós!
Vive a mente da nossa génese devastadora:
Noroeste, Norte, Nordeste…
E Northvein! O verdadeiro panteão dos poderosos!
Northvein! É a alma da tempestade, a nossa alma!

Pinta a tua ferida com a tinta da nossa alma!
Ou sucumbe e torna-te em alimento para a alma da tempestade!

O sobressalto da vida como ervas nuas e mortas,
A capacidade de destruição exalada pelos nossos olhos,
O que vive morre por nós!
O que morre é útil para nós!
Vive a mente da nossa génese devastadora:
Noroeste, Norte, Nordeste…
E Northvein! O verdadeiro panteão dos poderosos!
Northvein! É a alma da tempestade, a nossa alma!


Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Recintos Possuídos OU O gozo de Um demónio - Belial



A História dos homens e das mulheres e das mulheres e dos homens sempre fora pintada em telas que, nos seus braços finos e finitos, deveras assoalham passagens de demónios ultrajantes. Um dos pontos facilmente alvo de deturpações e estupidez é o campo da demonologia, ciência ou pretensão para catalogar os demónios em hierarquia, qualidade/defeito. O campo em si é já duvidoso e insuficiente de consenso geral, mas ainda assim fascina e importa conversar acerca. Nem que seja para exorcizar meninos. Nem que seja para deitar fora inércias visíveis.
A demonologia é equiparada a outras parcelas de estudos ocultos ou mais ou menos alternativos, desgastantes, incoerentes ou fantasiosos. Pinturas de incenso e alho. Leituras misteriosas e melindrosas. Pasta de símbolos e ritualismos negros. Galinhas para estripar, recantos da mente para exercitar, cabelos e madeixas brancas, verrugas no cérebro e nos focinhos humanos. Este estudo assenta nos relatos sobre perfis e existências de demónios, na delineação da sua hierarquia, composição e história (estória), bem como nos meios e nalgumas exemplificações de evocar os mesmos personagens. Apesar deste estudo estar perto de antigas inscrições religiosas e pretender englobar muitos demónios num só tomo de conhecimentos, não significa directamente que seja usado como fonte para bruxos ou rituais construtivos, porque na maior parte das vezes a única pretensão da demonologia é servir a humanidade como testemunho simples de mitologia, metafórica, ao invés de carta de amor em compromisso.
A demonologia conhece um local onde filma e passa maior parte do seu tempo a narrar e a recolher as informações e os estudos acerca dos seus escolhidos/modelos. Esse local é conhecido por todas as pessoas, mesmo variando de noção ou intenção; todas as pessoas o conhecem e tal local, variando de crença para crença, fisionomia para fisionomia, aspecto e contornos para aspectos e contornos, chama-se inferno. Um cliché religioso, um moralismo, uma percentagem de medos e dores, uma pintura, um texto, uma fotografia, uma dimensão construída sob as existências das criaturas, uma parte do ego, uma orgia de ataques profundos… ideia de lugar ou estado arcaico, o qual sempre sofreu alterações pelos milénios e pelas filosofias, pelas artes e pelos líquidos que entram no sistema digestivo universal. O inferno é uma criação de todos e de ninguém, visto que as provas de tal sítio é de conhecimento geral e de conhecimento nulo. É uma etiqueta no bolso daqueles de indumentária branca, preta, colorida, daqueles que legislam dogmas para quem os quiser cozinhar. É também uma grande abordagem dos sentimentos e das emoções que afectam a vontade e as vitórias daqueles que as exercitam, significando retrato daquilo que deturpa, condiciona, parte…
Reflectindo no que o inferno representa, facilmente se saúdam cépticos e crentes, viciados em etiquetas e emissários de medo e castração. Outros povos que se saúdam dentro desta paisagem opinativa são seriamente os crentes do castigo eterno, pessoas cinzentas e pudicas, que respiram cinzas toda uma vida, todos os dias e todas as noites e ainda um dia depois, por temerem tal crença realizada a qualquer ocasião. São os alvos de sugestões de medo, sugestões de ruína constante, opostos rijos aos não crentes, aqueles que respiram numa existência em que não se vêem a ser castigados, pois instauram em si próprios a máxima de que quem não quer castigo não procura dar a mão à palmatória ou nem tão pouco se detém à espera da palmatória. O que é verdade é que crença como a anterior é falada e transmitida, porém como essa há muitas e não vale de nada segurarmos só um dos fios quando a extensão desse não nos possibilita vantagem maior. O que existe aqui é um circuito imenso de fios absurdos, frágeis, e uma das luzes que nele se pode salientar é que uma mente acondicionada em receio de vida por uma regra a não quebrar sofrerá de um castigo quase imperceptível, prolongadamente visceral, facto que não precisa acontecer se entender que louvor e castigo andam de neurónios ligados, intercalados; e tudo seria mais simples e brando.
Nesta confusão de inferno e castigo eterno, quanto mais volumosa é a nossa lucidez, mais facilmente é o castigo derrotado. Os predadores não sofrem castigos, apenas derrotas ou oscilações dentro do jogo natural das cascas e dos néctares. As vítimas e os passivos, que piamente acreditam no lugar de danação, sofrem castigos, ao género das achas na fogueira que aquece a família em casa. São eles as achas, são eles o lume. A crença deles é a fogueira. Sorrisos, cinismos, medos, mas as pernas não querem fugir ao lume.
Somos apenas massa, carne, osso, tecido, fórmula de peso e gravidade, órgão e pele que sujam, mas isto tudo que somos é com capacidade para conhecimento sem limites e obras-primas, podendo acreditar no que se quiser. Esqueçam-se ilusões, pretensões, impulsos de divindade sem mãos e desígnios de fundamentalismo. Acredite-se em nada, realize-se objectivos sem cobrança de motivo, degrade-se, seja-se neutro!

Mais um dia esquisito, mantido numa rotina que rasga o cunho da alegria, que estripa o copo da vida, mas não a bebida. Sentado, a escrever, equaciono quanto de mim disperso para o papel e quanto nunca não o faço. É mais ou menos o resultado da soma dos pacotes de leite e cereais deitados ali no chão esburacado. Parece uma obra de arte, pois deve ter sido um artista impecável que tal fez ao pensar que as pessoas iam congratulá-lo após verem o pranto. Ou é a mania de arte que polui que é grande de mais de mais ou é a massa cinzenta menos de menos. Aposto na segunda hipótese, se bem que a primeira é gira à mesma. O Homem sempre quis criar coisas à volta dele, nem que seja o seu próprio esterco, sempre fez de tudo; subiu, desceu. Viveu, vive. Haverá sempre alguém a contemplar.
Olho para o chão, olho para nada, olho para a burrice. Parece que estou agora a escrever sobre o ambiente em redor, porque se tivesse algo mais interessante não escrevia, visto que guardava para mim. A esta hora não peço para ver ninguém e não quero ver humanos. Está toda a população sob deveres e obrigações de tempo, lazer, inércia. Por mim, óptimo, sempre tenho lixo para admirar sozinho, comportamento que os grandes artistas sempre preferiram: público concentrado, escasso, mas dedicadamente concentrado. A existência é simples, porque esta nos concede opostos simples de mastigar. Saúdes ou castigos…
Tenho uma visita esta tarde, visita que penso ter saltado do estudo do início deste texto, porque faz parte das linhas e das pretensões do saber da demonologia. De seu nome Belial, um demónio com uma idade que se perde a conta, parece-se com um belo anjo, de voz doce, com corpo duplicado e sensual, sentado num transporte com dragões que dominam e aquecem fogo. Alto como um edifício citadino, Belial pisa o chão e cumprimenta-me com elegante aparato, apresentando-se vaidoso. O que é (quem é) este enorme ser, vivo ou morto-vivo – possivelmente para além do que é vida e morte, mesmo que entrelaçadas –, que se ergue e se molda defronte à minha pessoa? Que impressionante cerimónia ou incompreensível facto é este que estou a passar? Numa leitura de demonologia mais popular, Belial é o demónio que foi criado imediatamente depois de Lúcifer, com bastante tendência para enganar qualquer um, inclusive aqueles que o convocam. Belial, um dos demónios do inferno, visualizo-o como se visualizasse um rei – se bem que não sei como é visualizar um rei –, o qual se parece como um belo anjo que tem forma mutável, indo do sensual ao perturbador.
Numa leitura de demonologia moderna ou anulação de uso de preconceitos, qualquer indício à carne de Belial é tido como organismo sem lei ou com rebeldia, fechando julgamentos e acções de embuste e terror num único teorema demoníaco. No folclore, Belial permanece como um deus, ligado especificamente com os horrores de Sodoma e Gomorra, cidades lascivas e corrompidas, e tal-qualmente com a composição obscura de subornos e assassinatos secretos.
Belial mostra-me ser uma regra do terreno e do solo impuro, sorrindo-me na certeza da sua personificação de maldade e rindo do momento em que o trataram como a mera modificação da deidade arcaica da Babilónia, onde se restringia ao submundo e à vergonha. Nada disso, sou demais, grita-me. Sou o incalculável, o livre…
O mestre da terra, Belial, é o lado carnal do Homem, é a maior ligação com a componente castanha que nos apara os pés, é a luxúria, o sexo, o prazer e por isso as vias principais que tomam a vida em coisa de mérito. Quando as pessoas, começa a dizer-me Belial, tendem a nortear-me e/ou a proibir-me, o que acontece é que o orgulho menos capaz vem ao de cima, ao passo que quando me recebem, ao de cima vêm coisas como a pujança, o deleite, a independência e directa essência terrestre. Sentir-se seguro, uno ou assente é sinónimo de contactar comigo. O Homem vencedor é simplesmente humano, em degustação e louvor da sua natureza, carne e conquista material, vocifera Belial, sendo que toda a experiência seja concreta, a experiência de vida, e assim da terra para o cimo estamos nós feitos da carne e para a carne e para os feitos e destruições grandiosos surgidos da carne!
Eu ouço Belial e escrevo algo ao mesmo tempo, mas este não parece importar-se com este facto. Não estou a escrever as falas do demónio terrestre, mas sim a escrever qualidades/características do mesmo, à medida que o monólogo dele tende a prosseguir, como se a simples audição do monólogo me concedesse tal sabedoria. Desperdiçador de lei e moralidade, opositor, imoral, dissoluto, lascivo, desmarcado, incontrolado, revolucionário, audaz, livre, impuro, injurioso, desfrutador de pasto e infracção.
O vento intensifica-se, a tarde, a terra quase borbulha de calor.
Há teólogos, discursa Belial, que me elegem como o demónio mais lascivo e indolente de todos os que perderam o lugar na virtude deles – cantam eles como se isto fosse abominável –, mas se tais criaturas olhassem para mim e me acolhessem com as suas facetas naturais e instintos de energia, podiam aprender qualquer coisa engraçada nas suas entediantes laborações! Para essas criaturas, eu sou a ruína e destruição! Belial diz isto de forma alegre, sem deixar que os seus saltos de exibição corporal abanem todo o recinto em que nos encontramos…
O enorme ser que me fala comanda mais de oitenta legiões pelo inferno e mundo afora, com a imodesta postura de que é o pai da ilegalidade, assim como aquele que detém a supremacia das nações ou figuras que são idolatradas – unicamente – devido à força unicamente humana! A Bíblia Satânica afirma Belial como um dos quatro príncipes herdeiros do inferno, tocando-lhe o trono do norte. LaVey, homem que exaltou o elemento terrestre como fonte de/para tudo, sublinhou aos canais distribuidores da História que Belial é o mestre da Humanidade e o seu retrato de campeão é o guia dos impulsos carnais que condecora a Humanidade com avanços reais. Belial é nome presente no livro de outros séculos, “Ars Goetia”. O título do livro descende do latim, mas muitas vezes reduz-se ao nome “Goetia”. Belial diz-me que nunca leu este livro, o qual contém descrições das dezenas de demónios que King Solomon evocara para os obrigar a trabalhar para o templo dele e os quais confinara num navio de bronze selado por símbolos mágicos. No “Ars Goetia”, King Solomon descrevera o perfil de cada demónio, indo das perguntas e respostas às qualidades e defeitos, como se um manual de aptidão para com demónios. Belial grita-me que nunca trabalhou obrigado para ninguém e que não gosta de navios, porque não se deslocam por terra. O livro que Belial nunca leu, parece ter instruções e rituais de trabalho, assim como métodos para utilizar fórmulas mágicas próprias para se chamar cada um dos demónios lá listados. Belial revela-me que nunca apareceu a ninguém de forma parecida, porém igualmente sabe, e não se surpreende, que as pessoas tendem a pronunciar mal as palavras e a demonstrar erradamente os seus sentimentos, em livros semelhantes, em acções semelhantes. Aleister Crowley leu e interpretou o livro para a sua magia… Belial recorda: o mago fechado em paredes a estudar e a iniciar rituais uns após outros para criar as suas maravilhas e tocar/retocar o seu infinito! Um excelente mago…
Belial foi apontado pela História como um soberano do lado negro, uma das forças mais poderosas e que mais evoluem, conjuntamente como o anjo da corrupção e da hostilidade. Os seus domínios são as trevas e as terras, a partir das quais e sob as quais alcança o objectivo fácil de influir os desejos de maldade e culpa. Sou o pai das mentiras, dos exércitos também, portanto não nos interessará acreditar de todo no todo, em mim, mas sim em partes, as partes que nos oferecem prazer, vida, força, independência, intensivamente brande Belial, e quando sou bem recebido pelos meus invocadores, consigo fornecer-lhes bons resultados a troca de boas oferendas e sacrifícios, porque aí estão a acreditar justamente nas suas qualidades naturais! Gilles de Rais, aquele nobre louco que se alterou ideologicamente durante a sua existência, matou e sacrificou vítimas em meu nome para chegar à minha amizade, mas apenas ofereceu-me partes dos corpos que esventrava, o pútrido, esquecendo-se da beleza palpitante e húmida de belas mulheres e belos homens, que inteiros podiam ter saciado um mínimo do meu lado lascivo e sensual; esqueceu o meu lado pornográfico... e quando se invoca a minha graça há que lembrar o castigo e o sexo!

Fragmentos grandes de terra com fogo líquido levantam-se à frente dos meus cabelos riçados e enfiando-se com rapidez para o interior do corpo do meu visitante negro, provocam-lhe um delírio e um bem-estar que não posso descrever mais do que isto…
Belial ensina-me que é, sempre foi, uma concreta projecção do seu néctar arcaico na espécie humana, revelador de/em pormenores com atitude estranhamente lúcida, elucidativa. Sou julgado pelas religiões contra a minha personalidade como aquele sem valor, mas eu trato-me sim de um ser no âmago daquilo que é a verídica natureza humana. Materialista, alio o meu aspecto de poder à linha de acção do senso comum para crescer em força e, de forma simplista, provar todo o prazer, continua Belial. Com subtileza, domino a terra, elemento que faz parte de mim e eu dele, e com subtileza sou mestre de mim próprio, mestre sem o mestre de terceira pessoa! Sou a terra, sou mestre de mim próprio, posso ser tu mesmo, sou Belial! “Aquilo que não nos mata, torna-nos mais fortes”; decerto já ouviste esta expressão! É verdade. Eu pu-la nas mentes daqueles que me seguiram e daqueles que me atacaram, só por uma questão de honra, porque a faceta de exaltação e auto-preservação que a mesma encerra é deveras forte. Das coisas das coisas, eu fui erguido. Sou contra as leis, sou aquele que pertence a um abismo do qual ninguém consegue subir e eu sou tudo aquilo que instila desprezo pelos deveres, pelas redenções.
Belial funde-se nos processos de vida e de morte, através dos estados da carnalidade, do sexo e da luxúria, tidos como escapes, mais-valias, forças e ruindades da qualidade de ser terrestre. Ele permitiu-se falar em tempestades de prazer que gera e gerou no planeta, capazes de engolir e regurgitar fantásticas poeiras gigantescas em todo o espaço sideral. O meu nome – a significar sem mestre –, simboliza a independência verdadeira, a auto-suficiência e a realização pessoal, explica-me Belial, verdadeiras naturezas que sempre narraram os povos de poder.

Noite cerrada. Animais excitados com os olhos brilhantes por algo que aconteceu.

Depois de um grande espaço de tempo, posso agora escrever sozinho certas noções que alcancei com a visita desta tarde, uma visita não programada, quer dizer programada, porque sou um humano consciente das minhas naturezas carnais, independentes e fortes, e às quais chamo família!
E tudo por mim adentro se molha em fogo. A certeza de mais um conjunto de diabruras, de crueldades feitas carne. Aprendi com Belial. Signo de poder inflamado, quis funcionar num universo de mundos de modo ordinário. A capacidade de ver feito, fazendo, a capacidade lá espetada. O corpo com sujidade, sujidade de luz virgem, sem quaisquer riscos de maior, atirou-o às mais largas perfurações infernais de líquidos e lava, os seus banhos irados...
Estas frases comportam efeitos que, a serem atabalhoados, muito podem fazer para o dano cerebral. A sua pele é casca gelatinosa com nódulos clássicos e a sua voz de trovão é auxiliada por um dialecto que mistura todas as línguas universalmente conhecidas, sãs e insanas. A amplíssima louquice – ou desembaraço – de Belial personifica-se na humanidade na altura de uma vingança, no traçar de um plano, no combate, na fermentação de testosterona e outras hormonas a ferver, na jornada de prazer, no nirvana, na perda de alguém querido, na derrota ideológica…
A estupidez dos deuses enerva o demónio. A ingenuidade, o cinismo, a tomada de decisões ridiculamente infértil. As montanhas são enormes, repletas de vegetação e rochedos, e são um dos pontos que cativam a paixão dele. Os rochedos vermelhos, grossos de fogo e areia, também. Toda e qualquer tentativa de torná-lo bondoso e branco recebeu uma oposição feroz, porque a sua natureza ditara que estúpidos são aqueles que dissolvem as próprias metas e os próprios interesses em prol de desígnios de deidades omnipresentes. Belial ignora regras, paraísos de ilusões, de consolos, porque não existe para ele maior sobrenaturalidade do que negar os pecados animais. Belial procura existir para vangloriar em si mesmo a sua identidade, procurando concentrar fantásticas expedições ao poder sobre tudo e todos e, similarmente, procura destruir fraquezas, gelos e seres mesquinhos. Os seus conhecimentos e a sua sabedoria estão nos poços onde vive, estão na alcovas e nas ruínas onde fornica anjos e criaturas sensuais diversas e onde tenta apagar os alicerces das faces e dos olhos das luzes, harmonias, estrelas pacíficas, unhas e fantoches, curas evangelistas sobre derrotas e soldados de fé que o desafiam.
Comandando as suas legiões, conquista parcelas de terreno no submundo, no mundo, nos mundos, e muitos homens possuem réplicas do ceptro que Belial usa para o comando... homens que vivem perto de nós. Belial passa férias no centro da Terra, bem no núcleo. Durante os tempos normais, tem que comandar as suas legiões e investir contra anjos, santos e eternos defensores das criaturas de Deus, mantendo o equilíbrio das trevas e da mentira no jogo universal; malícia e ferocidade. E as férias servem para descansar, fazer arte com lava, fogo e compostos mergulhados nos aterros da Terra. Realiza magias e por vezes viaja para se encontrar com quem o invoca ou convida… vive em campos, cavernas e florestas… estuda manuscritos extensos de filosofias modernas, de hábitos terrestres e no fundo é somente um aventureiro desgarrado dos humanos das profundezas. Ele está presente nos corpos dos exorcizados e masturba-se olhando os olhos e ouvindo as palavras dos padres patéticos e caricatos. Se estes conseguirem excitar Belial, então o demónio ejacula nas entranhas dos exorcizados e com sorte a história acaba bem, senão a masturbação não chega a bom porto ou a bom deleite (com leite vulcânico) e os exorcizados sofrerão com mais tempo de chagas e acções demoníacas. Os padres quase pelintramente voltarão, para satisfação de Belial, o masturbador luxurioso que possui as criaturas para que lhe sirvam de fetiche.
A magia elementar é uma cartilha maternal do Homem. Belial ritualista é o ser da realização autónoma, que representa o elemento terra e o qual se encontra de pés bem assentes no chão – procedimento mágico real e sólido – sem tantos lugares-comuns místicos desprovidos de objectivismo. Ritualismo ligado à terra, às rochas matrizes.
Os caminhos relativos levam à evolução pessoal, ao culto físico, à metafísica dissecada e a um estado de melhor conformidade natural entre o meio e a consciência sábia.
Não só de ruídos, pancadaria, sobressaltos mentais e físicos, vive Belial. A música é constante e invariavelmente universal e é de bom-tom o ânimo de Belial ao ouvir, escutar, melodias com letras que o toquem no factor vanglória/interesse. Uma das bandas modernas a criar um misto e uma atitude conscientes de atracção da atenção do demónio sem mestre é LORD BELIAL, a qual é feita por membros talentosos de veias inchadas por exaltação negra. Há palavras neles que excitam e animam o demónio da terra, palavras de todos nós como: paredes; rituais; carne; caveiras; decoração; velas pretas; queimar; desejo furioso; apodrecer; gritar; sacrifício; esperar; fado; ódio; arder o crucifixo; encher; sangue; profano; mãos; maldade; malícia; infernal; imensidão; fogo; …

Belial apareceu-me para que o conhecesse e escrevesse sobre ele, mas no fundo apareceu-nos, por/para essas razões, porque aquilo que de que ele é nomeado é também de nossa própria nomeação. Apareceu, conversou, engrossou-se, retrocedeu. Naturalmente.

A boca enorme do panteão infernal cospe fogo e fogo engole com abismal categoria. Um modelo saiu para conversar connosco, nos sonhos, nos pesadelos, nas simples e básicas coisas da vida, nos prazeres, nas dores, e foi dele que ouvimos explosões de força. Não sendo o único modelo, vamos caminhar atrás, ao lado e para além dele, aproveitando este tempo precioso sem que outro modelo de categoria equiparável saia até nós, sob as labaredas da boca do panteão… e um dos quatro tronos está assim ocupado, reocupado, e faltam três.

Domingo, 22 de Fevereiro de 2009

"Devora-me"

Nós nas nossas mesas barulhentas,
Eles cortejando copos vertidos,
Vós penteando peles ferrugentas,
Tu e eu com delírios perdidos.

Todas as manias e tantas as portas,
E aquilo que mais importa é vencer,
Vamos esquecendo raízes e horas mortas,
Não nos apressa à atenção vós estares a gemer.

Tu continuas a olhar o fundo do rio,
Ele não larga o promíscuo humor,
Ela deseja destapar o mundo e com um fio
Eu interligo fluidos no buraco do amor!

Por onde sai é por onde entra,
Muitos dias nada queremos,
Muitas horas jogamos às cartas,
Por aqui, despimo-nos de roupa, por aqui, amamentamo-nos em vazios…

Vamos penetrar a língua em doces,
Doces cozinhados na febril madrugada,
Já assumimos um trono do elitismo assediado,
Na terra de porcos de focinho enfeitado.